quarta-feira, 27 de abril de 2011

O EXÉRCITO VERMELHO



No filme de Kôji Wakamatsu, “United Red Army” (2007), podemos assistir à transformação dum grupo de jovens radicais, chegados directamente das lutas estudantis dos anos 60, no Japão, em carrascos de si próprios. No isolamento da sua base na montanha, como num outro castelo de Silling sadiano, a preparação para o que chamam de “guerra de extermínio” contra os EUA e o capitalismo, leva-os a uma intensa preparação psicológica com o fim de cortar todas as pontes com o seu meio de origem (perigosos, acima de tudo, são o desejo de viver e qualquer sensualidade), de modo a que só o cumprimento da sua missão e uma morte gloriosa tenham sentido.

A ideologia da crítica e da auto-crítica  que, noutro contexto, poderia ser útil na obtenção do máximo rendimento da organização (uma espécie de controle e de auto-avaliação no seio do grupo) e que, de qualquer modo, não se pode confundir com a tradição ascética, por tornar o juízo sobre os outros um dever, na base clandestina, torna-se uma verdadeira máquina assassina (dos 29 membros do partido, 14 foram executados pelos seus companheiros – até o fim acusados de “derrotismo”). O processo começava pelas pressões de uns sobre os outros para o aprofundamento da auto-crítica. Ao menos os congressistas de Staline não eram ingénuos ao ponto de “fornecerem lenha para se queimarem”. A auto-crítica ritual que revelava não só as potenciais defecções como os que poderiam contestar o poder do chefe levava quase imediatamente ao assassínio. O clima de intimidação psicológica era tal que mesmo os mais audazes e com as melhores provas durante a revolta estudantil e no próprio partido deram mostras duma paralisante cobardia diante do chefe, investido do poder de exigir a crítica e a auto-crítica aos outros. Mori (Gô Jibiki), o chefe, de resto, começara a sua “carreira” com uma deserção e tinha iniciado uma ligação com Hiroko Nagata (Akie Namiki), a fúria que “extorquia” as confissões às mulheres do grupo, e, sem dúvida para o fazer esquecer refugiara-se no mais extremista dos discursos e na “língua de pau” revolucionária, o que lhe granjeara o ascendente e um simulacro de força.

Depois de serem obrigados a mudar de local e a se separarem, Mori e Nagata foram presos e um último punhado resistiu durante dez dias, numa estância de férias, ao cerco da polícia, sem nunca terem, porém, a coragem de libertar uma mulher que mantiveram refém durante esse tempo.

Mori, arrependido das suas atrocidades, suicidou-se na prisão, o que considerou a sua “primeira tentativa revolucionária para o grande salto”. Poder-se-ia dizer que a morte esteve sempre ao seu alcance. Mas, na verdade, estamos aqui a falar de “salvação”, que é o contrário da morte. É esse aspecto religioso da luta revolucionária que, apesar dessa luta parecer anacrónica no Japão, quarenta anos depois dos acontecimentos narrados neste filme,  a torna actual e universal.

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