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| Paço de Arcos |
"O falo, neste século, torna-se doutrinário."
Henri Michaux
Haverá um imaginário como o do grande Federico?
Talvez ele, de facto, tenha sido atraído pelo seu contrário, ao dedicar um filme a Giacomo Casanova, um homem que em vez de sonhar, realizava. Um homem, pois, sem imaginário.
Do alto do seu 1,91 m, seguro de si e da sua boa estrela, com talentos que iam muito para além da arte da sedução (ou da comparação de forças?) que lhe granjeou a fama, visto que se reclamava de filósofo, alquimista e até de saber de economia (tinha um processo infalível de aumentar a receita dos estados, sem recorrer aos impostos...), está por isso nos antípodas da personagem de Marcello Mastroiani, no "Oito e meio", perdido diante da sua folha em branco.
Quanto à mulheres, realmente, nunca chegou a conhecê-las. Todas foram um desafio à sua virilidade, condenando-se a uma sexualidade mecânica, sintetizada no sonho final dum bailado imóvel de duas marionetas.
O veneziano não conhecerá, assim, o medo metafísico do homem atraído à cidade das mulheres.
A cena do mimo em casa do corcunda Dubois, em que este metamorfoseado numa espécie de louva-a-deus acaba com o amante à dentada, ataca o centro desta sexualidade engrenada na funcionalidade paranóica.
Não se compreenderiam estas aventuras através da Europa, com a sua galeria de monstros femininos, sem a produtividade da escrita.
É verdade que não se pode escrever o amor, mas a ária do catálogo é a prova de que se pode (tem de?) escrever o seu fracasso, de conquista em conquista.
Casanova nas Memórias alçou-se à altura dum Príapo doutrinário, antecipando, assim, o nosso século.
"Toda a nossa cultura não é mais do que um imenso esforço para dissociar a vida da morte, conjurar a ambivalência da morte em único proveito da reprodução da vida como valor, e do tempo como equivalente geral. Abolir a morte, é o nosso fantasma que se ramifica em todas as direcções: o da sobrevivência e da eternidade para as religiões, o da verdade para a ciência, o da produtividade e da acumulação para a economia."
Jean Baudrillard ("A troca simbólica e a morte")
A realidade da outra vida, que para nós, ocidentais, não tem valor fiduciário, senão como símbolo, no sentido figurado, para estes filhos de Agar que explodem no paraíso dos crentes, com os irmãos xiitas que se encontravam na mesquita, é tão ou mais real do que a realidade.
A equivalência entre o aquém e o além tem como resultado um manifesto desprezo pela vida - a sua e a dos outros, que passa a ter tanto valor como uma ideia ou uma promessa.
Não se podia conceber maior desmentido do materialismo. Ou, para dizer como Baudrillard, como os contrários são reversíveis um no outro.
A música obsidiante do "Casanova de Fellini" dá à torrente das imagens, dum esplendor raramente alcançado pelo próprio cineasta, a dimensão do mistério íntimo. A música massaja-nos por dentro.
Sem o génio de Rota, a personagem deixar-nos-ia quase na indiferença apenas curiosa, sem aderir ao seu patético destino.
Casanova seria um obcecado que quando não vemos em grande gala e inchado como um peru, encontramos em trajes menores aplicado às suas proezas duma sexualidade sem corpo (tal como a pornografia), que nos permaneceria exterior sem a cumplicidade da música.
O filme é tudo menos erótico e é mais um sonho do Settecento, com todas as suas figuras dentro dum realejo.
Fellini dizia que as Memórias de Casanova eram tão aborrecidas de ler como a lista telefónica.
Com esta parábola sobre marionetas ajustou contas com o seu don juanismo, dum modo muito mais cruel do que em "Oito e Meio", por exemplo.
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| "Robinson Crusoe" |