sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

OIRO, INCENSO E MIRRA




“É estultícia pôr-se a meditar profundamente, pedantemente, sobre o fabrico de objectos – material didáctico, brinquedos ou livros – destinados às crianças. Desde as Luzes que essa é uma das mais bafientas especulações dos pedagogos. A psicologia que os cega, impede-os de ver como a terra está cheia dos mais incomparáveis objectos de atenção e de exercício infantis.”

Walter Benjamin (“Rua de sentido único”)



Não se pode dizer, evidentemente, que as crianças hoje sejam menos inventivas e menos livres do que as que viveram no tempo em que Rousseau abandonava à Roda os filhos que tivera de Thérèse Levasseur.

Costuma-se dizer que elas, hoje, já vêm com os olhos abertos.

A verdade é que a criança foi colocada num trono, nas famílias burguesas, com o oiro, o incenso e a mirra, saídos das cavernas do Toys ‘R Us, depostos a seus pés. Por outro lado, nunca a sua saúde e educação foram tão vigiadas e normalizadas.

Porém, nunca como agora foi tão sujeita à ditadura da opinião e da moda pedagógica.

Vigora uma especialização, nomeadamente, através da tecnologia dos brinquedos e dos media, que prepara o mundo infantil para a perda da Natureza.

O virtual é uma língua sem passado.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

(José Ames)

O DIREITO DE ASSINATURA




Em tempos, uma notícia do “Expresso” alertava para uma doença grave do espaço urbano: os 'graffiti'.

As metástases dos 'graffiti' pela cidade têm origem num erro de percepção (do sentido do real): para os seus autores são uma forma de expressão artística ou de poder (um direito de assinatura: o 'tag'). O único limite é o da sensibilidade pública. Funciona enquanto revoltar, provocando dissonância e ruído. A tendência, se nada se fizer, poderá ser a das novas construções anteciparem o seu próprio graffiti, roubando a iniciativa aos maníacos do 'spray'. Nessa altura deixarão de chamar a atenção.

Só que então todos teremos caído na desmoralização e na esquizofrenia.

Foi preciso uma grande empresa quantificar (em euros) o vandalismo sobre o seu património para soar o alarme.

O artigo explica o que já se fez lá fora para acabar com a praga: “(em Nova Iorque) está probida a venda de material para 'graffiti' a menores de 18 anos”, “no Reino Unido, a guerra aos 'graffiti' remonta aos anos 70. Quem for 'apanhado' pode pagar uma multa de cinco mil libras e a lei prevê o recolher obrigatório ou zonas de exclusão por comportamento anti-social, para os menores.”

Talvez porque os Ingleses têm uma tão boa opinião sobre si próprios, o centro de Londres esteja limpo de garatujas.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Leça (José Ames)

ESTAR EM FORMA




"- ...em forma para fazer o quê?
- Mas...eu sei lá...para estar em forma! É a vida, não é?!"

(Eric-Emmanuel Schmitt: 'La Secte des Égoïstes')


Schmitt imagina este diálogo num ginásio onde reinam os niquelados e as almofadas em 'skaï', onde o corpo das mulheres deixou de "ser desejável, à força de ser desportivo" entre "combinações fluorescentes que mais facilmente veríamos em painéis assinalando obras na estrada ou então um acidente."

Por que vem este 'marciano' fazer perguntas que deviam ter uma resposta óbvia, mas que realmente nos deixam a tartamudear? O ginásio que 'produz' aquelas criaturas 'ossudas, sem peito nem nádegas', afinal não é diferente do hábito de coleccionar selos ou de ir tirar fotografias em 'Machu Picchu' para a página do 'Facebook'.

Alguns (bem poucos na verdade, nos tempos que correm) podem consumir a sua vida escolhendo no catálogo vistoso que a publicidade mais ou menos sofisticada graciosamente coloca diante dos nossos olhos. A escolha é sempre nossa, dizem. Somos livres para embarcar na primeira 'nave dos loucos', ou para fazermos do 'templo' (na linguagem evangélica) que nos coube em sorte o teatro da nossa vaidade.

'Estar em forma' é uma expressão que insinua que estamos preparados (ou o melhor preparados possível) para o que der e vier. Estaremos, enfim, preparados para viver. Mas o meio torna-se facilmente a finalidade e a vida adia-se com o pretexto de estarmos cada dia mais prontos para ela.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

(José Ames)

AMOUR





Aqui está o contrário da 'indústria dos sonhos' (embora o sonho também esteja lá, trazido pela música ou pelo desejo). 'Amour' fala duma experiência quase banal, por ser ou vir a ser partilhada quase por toda a gente, mas que é geralmente silenciada por se confrontar com a ideia duma felicidade funcional, sem lugar para coisas como o envelhecimento e a morte.

Michael Haneke fala-nos do amor e nem uma só vez o casal de anciões Georges e Anne (Jean-Louis Trintignant e Émmanuelle Riva, inexcedíveis actores) pronuncia um 'je t'aime'. São dois seres que se conhecem profundamente e em cuja relação jogam tudo o que são, com humor, ternura e bondade, mas também teimosia e, às vezes, violência.

Mas o que melhor define este amor é o desgraçado desamor de Eva, a filha (Isabelle Huppert) que ronda o leito da mãe moribunda com o olho no apartamento que a salvará do aperto financeiro. As suas censuras ao pai são apenas a premissa da sua vontade de lhes abreviar a vida e de abafar os esforços do amor, como se o genitor devesse ser poupado a isso, porque aquilo já não era para a idade dele. É isso que ela entende por falar seriamente, mas o velho não se deixa iludir.

Era preciso que conhecêssemos essa incapacidade de amar, para dar todo o valor à cena, no final, em que ela 'toma posse' do apartamento vazio, numa solidão absoluta.

O filme não começa, por isso, pelo fim, mas um pouco antes do fim, pela irrupção dos bombeiros que arrombam a porta para encontrar Anne 'posta em sossego' (depois do acto de piedade que lembra o de 'Million dollar baby') e, sem dúvida o corpo, que não chegamos a ver, de Georges que depois de isolar as portas e janelas abriu o gás para sair pela última vez com Anne.

P.S. Num trabalho tão exímio e tão sensível, aquela passagem de 'landscapes' antes duma das visitas de Eva e quando Georges lia o jornal, permanece um hieróglifo aberto a todas as interpretações.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Santo Tirso (José Ames)

HIDRA


insecula.com



"O homem que acusa a Natureza é um homem que começa a morrer e que deseja mesmo morrer."

(Alain)



Acusar a chuva que nos estraga os planos dum passeio pelo campo é absurdo. Mas conhecemos muitas pessoas que o fazem, embora duma maneira mais indirecta, acusando, por exemplo, a sua pouca sorte.

Ora o que faz o absurdo é que a Natureza é um outro nome para a Necessidade a quem, pensavam os Gregos, até os deuses se submetem. Claro que a ideia oitocentista de que a missão do homem é dominar a natureza nos foi útil para separarmos as leis inflexíveis do fatalismo ou da simples preguiça. Mas hoje sabemos um pouco mais quais são os nossos limites, mesmo se há quem pense que podemos destruir o planeta e que isso teria algum significado para o Universo. A nossa loucura apenas faria de nós mais uma força no conjunto de forças necessárias para a explosão de mais um planeta.

Ao mesmo tempo que a Natureza se distanciou de nós, compreendemos que muitas coisas que passam por ser criaçōes da humanidade não o são de facto e agem sobre os indivíduos como a Necessidade.

Uma delas é a má política e os maus políticos. Nunca nos livraremos deles por muitos esforços que façamos. Lembremo-nos dos três animais que, na imagem de Platão, lutam dentro de nós. Não podemos eliminar a hidra. De resto, nem sabemos até que ponto ela nos é necessária.

domingo, 9 de dezembro de 2012

(José Ames)

O FILTRO

Primo Levi



"Sempre me esforcei por passar do escuro para o claro, como uma bomba de filtro que bombeia água turva e a expele clareada, ou mesmo esterilizada."

(Primo Levi, citado por Tony Judt)




É uma metáfora cada vez mais apropriada ao nosso mundo. Cada homem justo a bombear continuamente a 'água turva' que de todos os lados surge inquinada. Mas é tarefa acima das possibilidades humanas. Todos nós reportamos a matéria escura que se pega ao nosso corpo.

Apesar disso, de longe a longe, uma onda que vem do coração de cada um parece tudo 'lavar'. E o mundo é novo outra vez. Quando foi a nossa última onda? O 25 de Abril de 1974? Esse foi um 'baptismo' perdido.

À falta desses momentos de exaltação colectiva (que evidentemente não podem durar nem 'construir'), e na incapacidade de 'filtrar' a sujidade ambiente, o antigo conselho deve prevalecer: limpa a testada da tua porta.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Barreiro (José Ames)

CARIDADE À PERCENTAGEM

Alexis de Tocqueville (1805-1859)





“Nos séculos democráticos, os homens raramente se sacrificam uns pelos outros, mas mostram uma compaixão geral por todos os membros da espécie humana.”


Alexis de Tocqueville (“Da Democracia na América”)



Aquela observação de Tocqueville sobre a América do século XIX é uma evidencia nas sociedades de hoje, em que as instituições e as organizações se substituem à responsabilidade pessoal.

No fundo, isso exprime a confiança em que os problemas da justiça ou terão uma solução colectiva, através do Estado, preferencialmente, ou tudo o mais são paliativos que, no melhor dos casos, servem para aliviar a consciência dos que foram educados sob o signo duma culpa original.

Perante a falência deste tipo de endosso e de descomprometimento, muitos quiseram ver na Revolução a única saída para uma justiça instantânea (o que não é incompatível com o realismo, visto que o que se organiza, sem falhas, com vista à justiça já pode considerar-se justo), em que se pudesse salvar o distanciamento pessoal.

Era o mesmo espírito da “Democracia na América”, mas desiludido já de algumas virtudes da democracia. Em todos os casos se vê a marca do individualismo. Mesmo a dedicação a uma causa, que pode ir ao sacrifício da vida, é um caso de “compaixão abstracta” .

A caridade-rock (Lipovetsky) e o juro amigo dos pobres de certas contas bancárias são exemplos extremos de como se pode matar dois coelhos com uma só cajadada: divertir-se e ajudar, ajudar tanto mais quanto mais render a conta no banco.

Este surpreendente casamento de contrários só é possível porque nos tornámos todos maravilhosamente pragmáticos...

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

(José Ames)

VISÓES DO ANTI-ÉDIPO

Gilles Deleuze



Michel Foucault, antes de morrer, confiou a um amigo que não podia aceitar a palavra desejo na acepção positiva que alguns filósofos, como Deleuze, lhe davam. Para Foucault, o desejo correspondia a uma 'falta' ou ao reprimido, mais se aparentando com o que se considera prazer. De qualquer modo, seria preciso uma nova palavra para o desejo que aparece na teoria das 'máquinas desejantes' do 'Anti-Édipo'.

A 'libertação' do capitalismo minando os dispositivos repressivos (entre os quais avulta a psicanálise e o 'complexo de Édipo) ao nível dos 'micro-sistemas', para dar lugar à 'produção' livre do desejo é mais uma utopia totalitária que faria esquecer todas as outras se alguma vez inspirasse a realidade.

Por outro lado, as teses desta 'crítica esquizofrénica' do capitalismo têm o seu lado profético e introduziram na filosofia um manancial de novos conceitos. Por detrás da teoria está a 'morte' do Sujeito e o jogo de necessidades não humanas, anunciados pela crescente consciência da complexidade.

A falência das ciências exactas no dar conta da espécie de controlo que podemos ter sobre o nosso destino, postula a introdução do precário e do incontrolável nas nossas teorias e uma espécie de 'caos auto-regulável' que tem muito a ver com o mundo da 'produção  do desejo' (e da 'Mão Invisível' de Adam Smith).