quarta-feira, 17 de agosto de 2016

TAOISMO





"É fácil manter-se quieto e não deixar rasto, mas é difícil andar sem tocar a terra. Se segues os métodos humanos, poderás enganar e conseguir ainda escapar. No caminho do Tao, o engano é impossível.

Sabes que se pode voar com asas: falta-te aprender a voar sem elas. Estás familiarizado com a sabedoria daqueles que sabem, mas ainda não conheces a sabedoria daqueles que não sabem.

Observa esta janela: não é mais do que um buraco na parede, mas graças a ele todo o quarto está cheio de luz. Assim, quando as faculdades estão vazias, o coração enche-se de luz. Ao estar cheio de luz, converte-se numa influência por meio da qual os demais se vêem secretamente transformados."

"Escritos sobre Chuang Tzu" (Thomas Merton)

O discípulo é dissuadido por Chuang Tzu de se precipitar na acção, pois por essa via encontrará necessariamente inimigos e, no fim, tudo permanecerá igual. A sua sede de justiça esgotar-se-á nos primeiros esforços. São os 'métodos humanos' que nos submetem todos aos trabalhos de Sísifo.

A 'boa-vontade' de que se fala no Evangelho, também poderia ser vista como uma 'transformação interior', mas como o demonstra a tradição dos mártires da Igreja, não estaria completa sem o confronto com a intolerância e a injustiça. Mas esta 'militância' inspira-se em quê? Talvez no episódio da expulsão dos vendilhões, ou na violência descritiva de algumas passagens do Livro.

Mais interessante ainda é a expressão: 'sabedoria dos que não sabem'. E outra aproximação pode ser feita com o texto evangélico. Por exemplo, com o exemplo dos lírios que não sabem fiar e que Deus vestiu sumptuosamente. É a poesia, de facto, que nos pode ajudar a compreender o oxímero de uma sabedoria que não sabe.

Note-se que não se trata de um instinto, nem de uma prática tradicional e sem conceito. É a ideia de uma perfeita e dócil instrumentalização pelo divino, como queria Simone Weil.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

(Legnica, Polónia)

A BÍLIS E O SER

Martin Heidegger (1889-1976)


"Heidegger é o pequeno-burguês da filosofia alemã, que pôs à filosofia alemã o seu barrete de dormir "kitschig", o barreto preto e "kitschig" que Heidegger usava sempre, em todas as ocasiões. Heidegger é o filósofo de chinelos e barrete de dormir dos alemães, nada mais.

(...) sempre me repugnou, porque tudo em Heidegger foi sempre para mim asqueroso, nem só o barrete de dormir na cabeça e as ceroulas de Inverno de tecido caseiro por cima do fogão aceso por ele próprio em Todnauberg, nem só o seu bordão da Floresta Negra por ele próprio entalhado, tal como a sua filosofia da Floresta Negra por ele próprio entalhada, tudo neste homem tragicómico foi sempre para mim asqueroso, me repeliu sempre profundamente, em qualquer altura que nele pensasse;"

" Antigos Mestres" (Thomas Bernhard)

A caricatura parece certeira, quando se olham as fotografias e se pensa na forma como tratou o seu mestre Husserl.

O homem exterior está todo nessa figura ridícula, se quisermos (se atravessarmos um limite), com a sua boina preta e o seu bordão. Mas o desenho vai mais longe. Sugere que a impressionante obra filosófica é uma fraude que corresponde ao envelope desse corpo.

O imenso cortejo de admiradores e de discípulos aparece então desencaminhado e seduzido por um contexto lamentável.

Sabemos que a bílis de Bernhardt é particularmente propensa à decomposição de ácidos gordos de essência austro-germânica. Não o podemos levar a sério.

E, no entanto, nunca mais voltarei e olhar uma fotografia de Heidegger da mesma maneira.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

(José Ames)

O OUTRO LADO DA LUA



"Não se pode descrever bem a vida dos homens se a não fizermos banhar no sono em que ela mergulha e que, noite após noite, a contorna como a uma península rodeada pelo mar."

("À la recherche du temps perdu, le Côté de Guermantes", Marcel Proust)

O paradoxo é que essa parte da nossa vida não conta para a maior parte, e alguns sonham em reduzir o tamanho da 'península' ao de uma ínsua à margem da vida, quase sem solução de continuidade. A verdade é que já se pensou em 'aprender' durante o sono, isto é, sem passar pela experiência.

Em contrapartida, lemos com deleite as observações deste 'especialista' do sono. Como se entra e sai dele, como se confundem as formas na passagem, e são páginas e páginas voluptuosas, para quem não tem pressa de chegar ao fim.

É uma verdade que devia entrar-nos pelos olhos dentro, mas que, talvez por boas razões, recalcamos. Durante o sono é como se recebêssemos da terra uma recarga de vitalidade para a nossa existência estremunhada. E já uma vez aqui comparei essa situação com as vagens adormecidas de um célebre filme de Don Siegel ("Invasion of the bodysnatchers", 1956).

Não podemos, realmente, compreender o homem apenas pela sua vida activa. E se um dia conseguirmos 'largar no espaço' essa parte de nós, parece que, ao mesmo tempo, teremos descolado do planeta para sempre.


domingo, 14 de agosto de 2016

(Lisboa)

TORRE DE MARFIM

"Violência e Paixão" (1974-Luchino Visconti)

Em 1973, Enrico Medioli, o argumentista de Visconti, propõe-lhe um filme moderno. É a história dum professor que vive com uma velha criada, no meio dos seus livros e objectos de arte.


"Um homem maduro, no limiar da velhice, um homem duma cultura excepcional", mas, prossegue, "ele é em definitivo culpado, porque se retirou na sua torre de marfim, numa solidão privilegiada e protegida, numa espécie de sumptuoso regaço materno, em que ele estagna, preso aos seus hábitos e sem traumas, na contemplação da arte."

("Luchino Visconti, Les Feux de la passsion" de Laurence Schifano)

Este não é o filme que eu levaria para uma ilha deserta (sendo dos que mais admiro), porque ele me tornaria demasiado sensível o facto de viver numa ilha deserta.

O sonho do professor é a tentação dos que a vida em sociedade desilude pela gritaria e o mau gosto, pela falta de reverência da juventude pelo passado.

No seu palácio romano, ele conversa com esse passado e prefere a pintura dos grupos de família ("conversation pieces") a uma verdadeira família.

O que lhe acontece quando, por razões financeiras, tem de alugar o andar de cima é uma série de catástrofes que são a vida.

sábado, 13 de agosto de 2016

(José Ames)

AS JÓIAS SONORAS

Charles Baudelaire (1821/1867)

"De resto Baudelaire é um grande poeta clássico e, coisa curiosa, este classicismo da forma é aumentado em proporção pela licença das pinturas."
"Sur Baudelaire, Flaubert et Morand" (Marcel Proust)

Esta observação de Proust leva-me a procurar identificar na psicologia um exemplo semelhante de contenção da forma e desregramento do conteúdo.

Encontro isto: quando alguém diz coisas enormes com uma perfeita fleuma, risíveis, mantendo um sério imperturbável.
Neste último caso, seria até a fórmula de obter um efeito mais cómico.

Suponho que os períodos de transição sejam propícios a estes "atrasos" da forma, com efeitos tão surpreendentes quanto os clarões numa nudez que só deixasse as suas "jóias sonoras".

La très-chère était nue, et, connaissant mon coeur,
Elle n'avait gardé que ses bijoux sonores,
Dont le riche attirail lui donnait l'air vainqueur
Qu'ont dans leurs jours heureux les esclaves des Mores.
de "Les Bijoux" de Charles Baudelaire

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

(Viseu)


QUESTÕES MENORES

(Rocha Tarpeia)



"(...) para os romanos como para os japoneses de hoje, o amor pertencia ao domínio das satisfações menores e dos temas de brincadeira, e era mantido afastado do círculo das coisas sérias, de que faziam parte as relações conjugais e familiares."
(Paul Veyne)

Não é o facto de o amor se ter tornado uma das coisas mais sérias na nossa cultura um sinal revelador da ascensão do individualismo na cultura ocidental? Talvez, mas nem por isso fica estabelecida a pertinência da crítica contra a perda dos valores colectivos.

Os passos essenciais dessa ascensão têm de incluir fenómenos como o da separação entre o Estado e a Igreja, o Romantismo e a Psicanálise, para só falar nos mais próximos de nós.

No tempo da lei romana do 'perduellio' (crimes contra a segurança do Estado), até o luto era proibido aos familiares, quer dizer que o foro privado não tinha qualquer protecção face à pressão do colectivo. Não é de estranhar, portanto, a 'marginalidade' cultural do amor e do erotismo, os quais, embora omnipresentes, como não podia deixar de ser, eram considerados 'pouco sérios'.

Contudo, não se pode falar em repressão ou em recalcamento que são ideias tardias e estruturantes do indivídualismo.

A verdade é que estas grandes mudanças favorecem a ideia de uma evolução, em que o culto do indivíduo pode ser visto como uma plataforma para um desconhecido 'abençoado' pela ciência.



quinta-feira, 11 de agosto de 2016

(José Ames)

VACUUM CLEANER

(Allan Bloom)



"Dei por mim respondendo ao professor de psicologia que, pessoalmente, eu tentava ensinar preconceitos aos meus alunos, porque, hoje em dia - com o sucesso geral do seu método -, eles tinham aprendido a duvidar mesmo antes de acreditarem no que quer que fosse."
(Allan Bloom)

Ensinar novos preconceitos? É que com a teoria (errada) do geocentrismo, tivemos, por exemplo, toda Antiguidade Clássica e o Renascimento europeu. E, socorrendo-me agora do argumento de Harry Lime no "Terceiro Homem", se não acreditássemos nesse erro, ter-nos-íamos, talvez, ficado pelo 'relógio de cuco'.

Os preconceitos devem, naturalmente, ser desafiados e, finalmente, depostos por crenças mais 'verdadeiras'. É um pouco o que diz Popper sobre o progresso da ciência.

A dúvida que só se tem a si própria para 'desconstruir' deixa-nos desmunidos, exilados fora do Sol e fora da Caverna.

Claro que há por detrás desta atitude de crítica no vazio, a enorme pretensão de não voltarmos a ser 'enganados', como se podia dizer que fomos ao longo da história. Deixámos a ciência isolar-se no seu pedestal a que, nalgum dia, teremos, talvez, de injustamente apelidar de pelourinho, esquecendo-nos da terra que com ela se encontra misturada, pois tudo provém dos nossos sentidos e do nosso cérebro, tanto quanto das ilusões colectivas e dessa prótese maravilhosa que é a tecnologia.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

(Cuenca)