domingo, 8 de maio de 2016

INSUSTENTÁVEIS PARAPEITOS




Diz Hanna Arendt ("Homens em tempos sombrios") que Broch viveu o conflito narrado na "Morte de Virgílio", em relação à sua obra. O poeta mantuano, "para bem do conhecimento", achava que a "Eneida" devia ser queimada. Esse conhecimento foi depois sacrificado "à amizade entre Virgílio e o imperador e às exigências políticas eminentemente práticas da época que condicionavam essa amizade" e cita o comentário de Hermann Broch sobre Kafka, que poderia ser aplicado a si próprio:

"Ele chegou ao ponto do ou-ou: ou a poesia consegue avançar até ao mito, ou vai à falência. Ao pressentir essa nova cosmogonia, essa nova teogonia que teria de criar, Kafka, lutando com o seu amor à literatura, sentindo a insuficiência fundamental de toda e qualquer abordagem artística, decidiu (como Tolstoi perante uma opção semelhante) abandonar o domínio da literatura, e pediu que a sua obra fosse destruída; pediu-o para bem do universo cuja nova concepção mítica lhe fora confiada."

A recusa do testamento que parece ter sido assumida por tão grandes autores é, certamente, um juízo sobre a própria obra e o reconhecimento da inanidade de todos os esforços tentados pelo espírito humano, quando comparados com a intuição a que chegaram, graças, em grande parte, à experiência fundamental da sua arte.

Dependeu, pois, de um imponderável ( como o bom senso de Max Brod, no caso de Kafka) que a humanidade se possa hoje debruçar sobre esses parapeitos da intuição e do conhecimento.

sábado, 7 de maio de 2016

"Andrómaca" (José Ames)

A PERFEIÇÃO DE CAIM


Caim e Abel (Odile Redon)




"Quando a divisão das categorias sociais é suficientemente profunda para que aqueles que coordenam os trabalhos jamais estejam expostos à experiência, ou mesmo ao conhecimento do que o trabalho tem de penoso, das suas dores, dos seus perigos, enquanto que aqueles que executam e sofrem não possuem qualquer outra alternativa, encontrando-se permanentemente sob uma ameaça de morte mais ou menos explícita, os resultados são por vezes prodigiosos."

"Reflexões sobre as causas da liberdade e da opressão social" (Simone Weil)

É o espírito do quartel-general. Este não corre o risco de se comover com o espectáculo do sofrimento humano e das dificuldades reais.

O desenvolvimento da tecnologia militar, por outro lado, suprimiu o elo mais vulnerável da cadeia, dependente ainda da coragem e do valor.

Agora, os resultados são igualmente prodigiosos, mas a medida já não é o homem, e sim o não-humano. E o erro de juízo ou a ignorância nunca foram tão mortais e instantâneos.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

(Alentejo)

O HERÓI AMORAL

(André Gide)



"Gide não se confronta consigo próprio, sucede-se a si mesmo."

(Jean Prévost)

Ninguém pode fazer 'tabula rasa' do seu passado, como quem instala um novo O.S.. E depois há aquele célebre dito psicanalítico do recalcado expulso pela porta e que volta a entrar pela janela.

O confronto entre os princípios e o comportamento pode tornar-se um protocolo que mantém indefinidamente a contradição. E se esta é insolúvel, é como um 'espinho na carne' vivificante (outros dirão simplesmente neurótico).

É este confronto que falta ao autor das 'Nourritures', segundo o seu crítico? Digamos então que Gide convive com o seu 'impasse' sem má-consciência. O que não o faz suceder-se a si mesmo. Não há recomeço. Ele parece viver de acordo com a ideia de que a vida é gratuita e sem dilemas morais, como o Lafcadio de 'As caves do Vaticano': "E, sobretudo, há o jovem Lafcadio o qual, prisioneiro da sua mística do acto gratuito, com a mesma indiferença salva num dia a vida de uma criança e, num outro, mata o pobre Amédée Fleurissoire, sem qualquer motivo." (Wikipedia).

Mas são, talvez, os dilemas estéticos que melhor explicam a sua vida.


quinta-feira, 5 de maio de 2016

(José Ames)

O REI DA PÉRSIA




Ciro, o rei da antiga Pérsia, teria dito: "Nunca tive medo de homens que têm um lugar de encontro particular no meio da cidade, onde juram isto e aquilo e onde se enganam uns aos outros." (Calasso).

Onde uma pequena ditadura dos nossos dias treme por causa de um encontro de leitura 'hostil', decerto, mas visivelmente àquem de poder desafiar o regime, o grande rei desvaloriza, ciente de que os putativos adversários se iludem e desconhecem a sua real impotência.

Mas o reino de Ciro não vivia 'em rede'. O seu poder não era um símbolo entre símbolos, nessa rede. Era factual e 'incomensurável'. Que distância vai da revolta de Espártaco a uma revolta 'operária'! Ele não poderia conceber uma mudança no poder de Roma, como um revolucionário dos bons tempos. Se tivesse derrotado Crasso, não seria um símbolo da liberdade, mas um imperador 'sui generis'.

O rei da Pérsia não tinha medo de conspiradores que não dispusessem de um exército. Deixava a intriga seguir o seu curso, sem dúvida até ao ponto em que se sentisse ameaçado. Em suma, não tinha os 'nervos à flor da pele'. Talvez porque não tivesse constantemente nos ouvidos o zumbido da 'aldeia global'.

Por isso, não é certo que os 'conspiradores' se iludam como Ciro pensava. Continuando a ser a 'borboleta' da teoria da catástrofe, o 'sucesso', sempre inesperado, sempre ao lado, ou de outra maneira, contraditório, paradoxal, do actor da rede equivale àquele lonjínquo 'bater de asas'.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

(Montemor-o-Novo)

UM FIM DE NARRATIVA




"Diz Koyré: "É impossível fornecer uma dedução matemática da qualidade. Sabemos que Galileu, assim como Descartes um pouco mais tarde, e pela mesma razão, foi obrigado a suprimir a noção de qualidade, declará-la subjectiva e baní-la do domínio da natureza. O que implica, ao mesmo tempo, que  foi obrigado a suprimir a percepção dos sentidos como fonte do conhecimento e a deciarar que o conhecimento intelectual, e mesmo 'a priori', é o nosso único e exclusivo meio de apreender a essência do real." Na verdade, esse platonismo é bem distante do antigo, na medida em que tanto a compreensão do espaço quanto a do movimento, agora submetidos à lei do número, 'perderam o valor cósmico que podiam ter para Platão'".

(Prefácio de Manoel Barros da Motta a "Do Mundo Fechado ao Universo Infinito" de Alexandre Koyré)

A ordem do mundo não é toda a realidade, mas não podíamos conviver uns com os outros, ao nível local, nem garantir a nossa supremacia de reis do planeta, sem dar todo o valor à razão e ao intelecto, numa palavra, sem confiarmos nos nossos poderes de abstracção.

De alguma maneira, foi-nos mais necessária, depois da mitologia, a construção de um cosmos regido por leis matemáticas (até porque não estava ao nosso alcance qualquer experiência ou manipulação da sua realidade, o que muito contribuiu para o progresso da própria geometria e, talvez, para a primeira ideia de sistema), do que um verdadeiro conhecimento, de resto, impossível

Toda esta aventura podia ser contada como uma história cheia de sentido para a humanidade. O que parece estar a suceder agora é que, como qualquer história, também esta tem de ter um fim. E todos os sinais são mais ou menos interpretados, como o fim de uma grande narrativa.

terça-feira, 3 de maio de 2016

(José Ames)

A PERSPECTIVA



"O homem dedica-se sempre a uma ordem. Mas, salvo iluminação sobrenatural, esta ordem tem por centro ou ele-próprio ou um ser particular (que pode ser uma abstracção) para o qual se transferiu (Napoleão para os seus soldados, a ciência, o partido, etc.)".

(S. Weil, "Pesanteur", 1943)

"(...) ver sem perspectiva é já uma compreensão."
(idem)

Segundo esta ideia, estamos condenados ao 'antropocentrismo' se adoptarmos qualquer tipo de perspectiva. Nesse sentido, o 'realismo visual' que o Renascimento trouxe ao desenho não é a primeira 'perspectiva'. Antes dos Brunelleschi, a falta de uma distância representada não impedia uma hierarquia (ingénua, digamos assim) de se apresentar simbolicamente, tornando a pintura de então muito mais expressivamente a 'cosa mentale' de que fala Leonardo.

Mas talvez não pudéssemos compreender a Física de Newton sem o Renascimento.

Ora, é de compreensão que fala a filósofa de "L'attente de Dieu". A perspectiva permite-nos ordenar o mundo à nossa imagem, mas afasta-nos da compreensão da realidade, que é sobrenatural, nas palavras de Simone Weil. Aqui não é possível o que Platão anuncia na alegoria da Caverna. Ninguém pode voltar do 'Exterior' para iluminar os cavernícolas. Só a graça divina, directamente, pode operar o milagre.

E é nesta passagem que Simone se afasta da ideia cristã. Aqui há só fatalidade e destino, enquanto a imagem do Mediador está muito mais próxima de Platão. O que conhece a luz é naturalmente um 'retransmissor'.


segunda-feira, 2 de maio de 2016

(Alcochete)

IRRESPONSABILIDADE ORGANIZADA


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"Assim, por exemplo, a responsabilidade por se decidir pelos alimentos geneticamente modificados e os seus imprevisíveis e insondáveis efeitos a longo prazo é impingida ao assim chamado consumidor responsável."
"World at risk" (Ulrich Beck)

O caso é que ninguém, nem mesmo os cientistas, está em condições de garantir o quer que seja em relação ao longo prazo (a não ser, como diz Keynes, que estaremos todos mortos). Assim sendo, 'o consumidor responsável' é uma falácia. Podem dizer-nos daqui a dez anos, como aconteceu com os CFC, que estamos a destruir a camada de ozono com os nossos tão cómodos 'sprays', coisa que os inventores do produto não sabiam, nem talvez pudessem saber.

No fundo, ninguém pode ser chamado de responsável pelo que não pode controlar. A parte de responsabilidade do cientista em trazer a 'descoberta' ao mundo dilui-se na organização da ciência pelo Estado ou pelas empresas. Para ele, eventualmente, o Nobel, para os patrocinadores o rendimento das aplicações. Para a maioria nacional, ou dos países-refugo, os 'efeitos secundários', como o envenenamento ou os desastres ecológicos.

É o que Beck chama de 'irresponsabilidade organizada'. Irresponsabilidade porque é baseada no não-conhecimento e na (dis)simulação. Mas com todo o potencial energético e a ambivalência da criação/destruição de uma organização.

Não podemos, contudo, enfrentar esta situação trágica, que é, no fundo, a questão da morte, pelo que precisamos de 'encenar' um mundo de indivíduos responsáveis, que sabem o que fazem quando põem nas mãos dos políticos (e dos fanáticos) a bomba nuclear, ou quando dinamitam a economia com teorias mais ou menos perfeitas.



domingo, 1 de maio de 2016

(José Ames)

CIVILIZAÇÃO ANTIPHYSIS


"Stalker" (1979-Andrei Tarkowski)


O segredo de Andrei Tarkowski é fazer um filme em que nada se passa, mas onde tudo transpira duma vida misteriosa. Um campo filmado por este grande cineasta tem a intensidade moral de um rosto.

A parábola de "Stalker" é a duma natureza renegada, tornada perigosa para o pensamento e para a sociedade, que aqui surge sob a forma dum provável meteorito que fez interditar toda uma zona dum pequeno país.

A fotografia rugosa do preâmbulo, dum preto e branco com tons de sépia, que nos mostra os arredores devastados pela catástrofe e o cordão de segurança montado pelas autoridades, quando se entra na chamada Zona, dá lugar à aparição luxuriante das cores naturais.

É simplesmente a natureza que está ali, como a coisa mais proibida e de todas a mais perigosa.

E o protocolo da deslocação no seu interior tem tudo dum ritual sagrado, porque é dali que nascem os deuses.