sexta-feira, 8 de abril de 2016

A VIRTUDE NO MUSEU

(Batalha de Queroneia)


"A última imagem da 'areté' (virtude), na Grécia, é o campo de batalha de Queroneia, juncado de cadáveres dos jovens de Tebas. Estes corpos apresentavam-se dois a dois: eram todos pares de amantes que tinham partido para o combate, um perto do outro, contra os Macedónios. Foi a última batalha da Grécia. A partir desse dia, Filipe e Alexandre transformaram-na em museu."
(Roberto Calasso)

A 'perfeição' (que faz parte do sentido de 'areté') deste morrer juntos dir-se-ia que se sobrepõe ao próprio objecto do combate. Não é preciso que a batalha tenha sucesso, se os 'amigos' cumprem a promessa do 'até à morte'.

Os reis da Macedónia ficariam, então, com as pedras dos templos, com a escultura, a epopeia e o drama. Alexandre dormirá com Homero à cabeceira e terá Aristóteles como mestre.

Mas já não é a vida, a vida daquela 'amizade' que nos é tão estranha. Uma outra 'areté' surgirá segundo outros códigos.

A nostalgia de Calasso é poética e 'verdadeira', sem ser histórica.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

(Porto)

A ABÓBADA

A fonte do Letes (Gustave Doré)


"Ainda não e no entanto já", foi a resposta do seu próprio peito, em suave voz de sonho, que já quase não era a voz do rapaz, mas antes a da noite e de todas as noites, a voz do espaço argênteo, que é a solidão da noite, da abóbada da noite, contemplada inúmeras vezes e no entanto nunca perscrutada, cujas paredes ele tinha tocado vezes sem conta e que agora se tinham transformado em voz. "Ainda não e no entanto já", graciosa e senhoril, sedutora e constrangedora, brilhando na noite e profundamente oculta, a palavra espontaneamente vibrante, a unidade da língua e da humanidade (...)"
"A morte de Virgílio" (Hermann Broch)

A experiência que nos é mais íntima é a que nos é mais estranha.

A abóbada de que fala Hermann Broch, de facto, fundimo-nos nela, formando um único ser, durante um terço da existência.

Mas antes de abrirmos os olhos e de nos pormos a pé, todos bebemos da água do Letes.

É um truísmo dizer-se que o sono se assemelha à morte. Mas nem por isso compreendemos melhor a noite.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

(José Ames)

O PODER CORROMPE

(Baltasar Garzón)

"Citando o amaldiçoado juiz Baltasar Garzón em "Um Mundo sem Medo", por exemplo,  os custos empresariais na China encarecem em cerca de 46% por causa das comissões de corrupção, na Rússia em cerca de 43% e na Turquia 36%."

(Maria José Morgado, Expresso de16/06/12)

Com os 'Panama Papers' e as revelações desta ululante crise financeira, torna-se evidente que a virtude não está em lado nenhum. Pode-se procurar à lupa: a corrupção parece estar em todo o lado e em todos os sistemas,  tanto no poder absoluto como no poder das novas ou velhas democracias. Claro que se pode sempre dizer que o poder, nestas, tem de mentir aos seus cidadãos, enquanto os servos de todos os queridos líderes da terra só podem esperar que a força tenha o rigor mecânico e o carácter indiscutível da morte. Daí o impacto das imagens das decapitações. 

A opressão de um déspota não é só pior do que o poder corrupto, ele é a quintessência da corrupção, porque o medo também corrompe.

Os 'offshores' não parecem meter medo a ninguém e até serão impecáveis do ponto de vista legal. São, no entanto, uma injustiça que brada aos céus. Se, 'ao menos mau dos regimes' que concede esta licença para alguns fazerem o mal através da lei, juntarmos a incapacidade, cada vez mais flagrante, em garantir a segurança dos seus cidadãos face ao terror global, temos todo um outro défice de que não se fala.

Este triunfo dos advogados 'do diabo' e dos legisladores contra a lei para proteger uma coutada que, depois da Revolução Francesa, ficou de repente sem futuro, ilustra bem aquele aforismo de que não adianta expulsar um demónio pela janela, porque ele logo encontra a entrada pela janela.

Esse Terceiro Estado que teve em Robespierre o seu luminar vive agora o pós-vida do cinismo. Se escapasse à guilhotina e tivesse podido desafiar a lei do tempo, seria talvez esse o futuro do Incorruptível.


terça-feira, 5 de abril de 2016

(Lisboa)

OS PRINCÍPIOS

(Alain Badiou)



"(...) a igualdade não é um objectivo nem um programa, é um princípio ou uma afirmação, não se trata de crer que os homens são iguais, ou tirar as consequências deste princípio."

(Conferência de Alain Badiou, na Argentina, 2/6/2004)

À  política  pertence,  por  exemplo,  uma 'política justa', à justiça, 'a transformação da situação subjectiva' pela consequência de duas afirmações: 'a afirmação da inseparabilidade do corpo e da ideia, e a consequência de princípios igualitários'.

"A justiça não é um programa a seguir no futuro, não é um estado de coisas, a justiça é uma transformação, digamos que é o presente colectivo de uma transformação subjectiva." (idem)

Da ideia de Badiou resulta que não pode haver justiça num país de escravos, como não pode haver entre as feras. Mas isso é ir um pouco longe de mais. Já foi reconhecido que, numa sociedade de ladrões, não deixa de existir uma espécie de justiça entre correlegionários - quem acreditaria num chefe que roubasse os seus homens?- e que isso seria um exemplo de homenagem do vício à virtude. Por outro lado, quem nos diz que certas situações 'exóticas' de desigualdade e de 'separação da ideia e do corpo' não passaram por algo de parecido com a 'transformação subjectiva' referida?

A sociedade da antiguidade clássica pôde conviver com a escravatura, talvez durante um milénio, sem que essa transformação subjectiva ocorresse de modo a permitir a unidade moral da Grécia e de Roma. Por outro lado, se houve uma declaração inaugural sobre o princípio da igualdade, ainda foi preciso imaginá-lo para além 'desta vida', com o triunfo do Cristianismo.

Parece, além disso, que no nosso 'presente colectivo', por força de uma subjectivação 'espontânea' ao nível do indivíduo, o princípio da igualdade não tem suficiente força declarativa, visto depender de outros princípios que, entretanto, entraram em crise.

Porque é tão natural que se comece por algum princípio de justiça, Badiou diz ainda: "o problema da justiça é o problema da sua perda,  não é o problema da sua vinda, há sempre a possibilidade de trazer algo de justo, e o  problema
mais difícil é o problema da sua perda, porque a justiça está sempre ameaçada."


segunda-feira, 4 de abril de 2016

(José Ames)

A OBJECTIVIDADE DO COLECTIVO



"A matemática é, portanto: tão objectiva que apenas ela é verdadeiramente colectiva; tão colectiva que apenas ela é verdadeiramente objectiva:"
(Michel Serres)

Que significa esta redução, na matemática, do universal para o colectivo? Serres parece pensar num contexto político, mais do que numa abstracção 'para-teológica'. É uma saída intencional da Razão Iluminista do século XVIII que veio durante um tempo a disputar o trono celeste.

Ao fim de contas, vamos encontrar aqui a melhor justificação de Rousseau e da sua descendência democrática. A 'vontade da maioria' adquire uma espécie de certificação racional, com esta comparação entre o colectivo e a objectividade e a matemática. O colectivo no seu modo estático, entenda-se, ou não soubéssemos que a sua dinâmica o pode transportar para as regiões ignotas de um deus como Pã.

Esta outra história da matemática é, porém, adequada à nossa imperfeição. E, de alguma maneira, continua o Kant da 'Razão Prática'.


domingo, 3 de abril de 2016

(Adare, Irlanda)

O GRANDE INCÊNDIO




"Era o fogo que unificava a situação. Sentíamos o fogo (no Palácio da Justiça de Viena, em 15/7/1927), a sua presença era avassaladora; ainda quando o não víssemos, tínhamo-lo presente no espírito, a sua atracção e a atracção exercida pelas massas era uma e a mesma força..."

"Masse et Puissance" (Elias Canetti)

A experiência dessa atracção não saiu do pensamento de Canetti, até que a 'exorcizou' pela escrita. Quando jovem testemunhou, em Frankfurt (1920), uma multidão tumultuosa em protesto contra a inflação. Sete anos depois, em Viena, a massa furiosa lança fogo ao Palácio de Justiça. O espectador é arrebatado por um temor que o paralisa. Canetti fala em atracção. O que se entende se considerarmos que a 'massa' na sua exibição de força pode esvaziar o discernimento do indivíduo e submetê-lo ao poder da imitação. A multidão agitada provoca sempre o alarme no 'cérebro reptiliano'.

No caso de um grande fogo há também uma espécie de curiosidade, mesclada de prudência. Precisamos de ver o incêndio controlado, a fim de podermos dormir.

A segurança é uma necessidade muito mal compreendida desde que confiamos no Estado e na polícia. Mas o terrorismo tem vindo a subverter esse 'pacto'; o Estado falha na segurança mínima, desde que o inimigo individual esteja disposto a trocar a sua vida pelo maior número de vítimas inocentes.

sábado, 2 de abril de 2016

(José Ames)

O HOMEM É UM SÓ


Maurice Blondel (1861/1949)




"O animal não tem paixão; o que há de bestial no homem reclama pelo contrário tudo o que exige a razão e a vontade, uma infinita satisfação."
"L'action" (Maurice Blondel)

Por um lado, o inferior explica o superior, e é a verdade do materialismo.

Mas, por outro, se há um todo, a unidade das partes obedece a um princípio que justifica todo o idealismo.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

(Espinho)

O INDICADOR NÃO FALA




Numa conversa ao almoço, com um professor, a certa altura tive que expor uma originalíssima ideia de Alain e as palavras não chegaram, tal é a força da "doxa".

A ideia é que a melhor forma de ensinar não é a demonstrativa. Por exemplo, substituindo as palavras pela imagem do objecto.
Esta tendência é, como se sabe, dominante, e vai da televisão aos guias do American Express.

A imagem, de facto, parece dizer tudo, mas deixa-nos afásicos, sem pensamento articulado (embora com emoções estéticas).

Por isso, e por paradoxal que pareça, quem sabe descrever um objecto que nunca viu sabe mais sobre ele do que quem apenas viu a sua imagem.

É que só se sabe o que é linguagem.

Sentir é outra coisa.