domingo, 21 de fevereiro de 2016

MAQUIAVEL





"Para ele (Maquiavel), o ponto decisivo era que todo o contacto entre a religião e a política tem de corromper as duas, e que uma Igreja não corrompida, se bem que consideravelmente mais respeitável, seria ainda mais destrutiva para o domínio público que a Igreja corrompida de então."

(Hanna Arendt)

É um fenómeno que se está a desenrolar diante dos nossos olhos. Graças ao uso mediático da morte, o Estado Islâmico tem conseguido convencer os seus fiéis de que é uma entidade incorruptível que preza mais os testemunhos da fé do que a própria vida. Essa proeza depende de um regime de operacionalidade que põe imediatamente à prova os militantes, sem lhes dar tempo para pensar. A 'acção' tem de ser intensa e exigir o máximo dos combatentes. O recurso a crianças-suicidas é, assim, demasiado lógico para suscitar 'estados de alma'. Elas são a 'pureza' ao serviço da causa da purificação.

Só a normalização do Estado e a sedentarização poderão confrontar estes crentes com a realidade de uma manipulação sem escrúpulos e com a imagem que o resto do mundo tem deles.

O efeito desta 'blitzkrieg' e da barbaridade dos seus métodos sobre a imaginação dos espectadores é tão poderoso como já o líder nazi sabia que era.

De qualquer modo, e voltando a Maquiavel, é por de mais visível que uma cultura com tão pouco espaço para a política não tem qualquer defesa contra o fanatismo religioso (por muito que o cinismo possa ter já corroído os seus líderes).

Assim, a situação actual é a de uma destruição simultânea da religião e da política.

Maquiavel que tem mau nome na história, por causa do nome 'maquiavelismo' que injustamente distorce a sua mensagem, foi capaz de antecipar uma monstruosidade que é filha do niilismo actual e da comunicação instantânea.


sábado, 20 de fevereiro de 2016

(Ericeira)

SERVOS


Camponeses russos


Os servos, em Gogol, são uma estranha raça de homens. Para o "barine", eles estão entre o animal doméstico e o deus menor que se tuteia, mas que não se conhece de todo, constituindo os sinais entre as duas espécies uma arte da interpretação mais do que uma linguagem.

Pensar que isto era assim ainda no século XIX ( a libertação dos camponeses da servidão só ocorreu em 1861) e que nem o "espírito do mundo a cavalo" conseguiu, apesar dos terríveis sacrifícios da invasão, mudar um iota!

Apenas meio século depois, a Revolução, como não podia deixar de ser, deu novos nomes a tudo.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

(José Ames)

O QUE É CORRECTO




"O Sr. Wittgenstein argumenta que tudo o que é propriamente filosófico pertence ao que só pode ser mostrado, ao que é comum entre o facto e a sua imagem lógica. Daqui resulta que nada de correcto pode ser dito em Filosofia."
(Bertrand Russell)

Já dizia Hegel que o que falta à Lógica é a natureza. Mas, então, a lógica não seria auto-suficiente, o que é o caso. O sistema hegeliano aplicado à história provou que o que 'há de comum entre o facto e a sua imagem lógica' é uma apropriação dos factos pela lógica, que nada tem de filosófica.

Se a filosofia é essa 'busca ocidental do conhecimento' que George Steiner diz que é, 'num sentido trágico, a exploração suprema', um sistema significa o fim dessa busca. A própria lógica conhece-se apenas a si própria e é desprovida de qualquer 'sentido trágico'.

Quando se diz que a Matemática é a linguagem do universo, estamos ainda dentro da lógica e falamos como 'conquistadores' do continente absoluto.

E o que significa essa impossibilidade de correcção no que é dito em nome da filosofia, se não for um 'diktat' da Lógica? Se a lógica não pode falar do que lhe falta (a natureza), como poderia 'desautorizar' a filosofia?

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

(Antuérpia)

LEALDADE




"O mal do pessimista é, então, não que castigue deuses e homens, mas que não ame aquilo que castiga - falta-lhe aquela primeira e sobrenatural lealdade às coisas."
(G.K. Chesterton)

Há, no pessimista, um prazer perverso em julgar que o universo faz coro com o seu mal viver. Que as mais das vezes é mal pensar que serve uma inclinação natural.

Sair desse 'estado de alma' implicaria um esforço que o pessimista sente que não seria compensado por um novo regime de prazer. Comporta-se como um jogador da bolsa crente do 'rating', ou, simplesmente, não quer trocar o certo pelo incerto.

A expressão de Chesterton de uma 'lealdade às coisas' parece antiquada e uma higiene do súbdito de Sua Majestade. Sabemos que os amigos devem ser leais e que a hierarquia militar preza tal qualidade acima de todas as outras. Ouvi um deles, há muito tempo, com a máxima gravidade defender, por parte dos soldados, uma 'fidelidade canina'.

Mas seria pena que tais conotações nos fizessem perder a ideia principal: a de que existe um laço natural com o semelhante de que a todo o momento nos abstraímos. Pensar, por exemplo, reclama essa abstracção, já que não se pode pensar colectivamente.

Acontece, talvez, que o pessimismo seja no fundo doutrinário. E que a sua doutrina comece por romper os laços com o semelhante, ao recusar qualquer projecto de vida.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

(José Ames)

REALIDADE


http://www.mbvsi.fr



"(...) toda a ideia do Sistema permanece secretamente orientada por uma mira que não é precisamente vontade de conhecimento no sentido científico do termo, mas uma espécie de intensa necessidade de escapar à realidade, ao mesmo tempo que pela projecção, a fascinação de um imenso mito: a omnipotência do espírito."

(N. Basiet, citado por Tagami)

"A ciência (...) é (...) um sistema de conhecimentos demonstrados, ligados entre eles numa unidade ideal, abstracta, independente dos objectos concretos."
(Massis, "Jugements", 1923, p. 64)

A realidade aproxima-se do caos na primeira definição. Por 'impotência do espírito', não vemos a ordem senão em nós mesmos, e é a essa ordem que chamamos razão e princípio de tudo o que existe.

Mas essa impotência, de facto, serve-nos de veículo para fora do labirinto do ser. É como um instinto secreto, ignorado por aquilo a que chamamos o instinto natural, como é o da sobrevivência. Dito de outro modo, se a Providência não existe, é preciso inventá-la para que o caos não seja definitivo.

Uma das ferramentas para acrescentar ordem ao mundo cavernoso é a ideia de sistema. Estamos tão dependentes de tal simplificação que, em qualquer debate, para obter um consenso fácil, não há como pronunciar essa palavra mágica.

Com isso, adiam-se indefinidamente os encontros da nossa impotência. E parece que ligando as coisas desse modo temos, finalmente, acesso à verdade escondida, à realidade.

E é o melhor que podemos fazer para 'escapar à realidade', criando um sentido que prescinde dela.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

(Varsóvia)

ENTROPOLOGIA





"A 'antropologia', diz Lévy-Strauss na conclusão de 'Tristes Tropiques', pode hoje ser considerada uma 'entropologia': o estudo do homem passou a ser o estudo da desintegração e da extinção certas."


(George Steiner)

É a Física e a segunda lei da Termodinâmica que enformam este pensamento, que nos ditam um ponto de vista 'não-humano', aparentemente longe do antropocentrismo.

"(o homem) surge como uma máquina, talvez mais aperfeiçoada que as outras, trabalhando para a desagregação de uma ordem original e precipitando uma matéria poderosamente organizada numa inércia cada vez maior e que será um dia definitiva. Desde que começou a respirar e a alimentar-se até à invenção dos engenhos atómicos e termonucleares, passando pela descoberta do fogo (...), o homem nada mais fez do que alegremente dissociar milhares de milhões de estruturas para as reduzir a um estado em que elas não são mais susceptíveis de integração."
("Tristes Tropiques")

A pergunta que ocorre imediatamente é se a consciência, imparável, de que a ciência é apenas o primeiro andar da caverna platónica, tomando a própria sombra como as figuras do cosmos, não vai forçar-nos a mudar de 'paradigma', como dizia Michel Foucault.

De resto, a ideia de que a nossa presença na Terra pode durar, em termos relativos, o tempo do riscar de um fósforo, ou o cenário da entropia por si mesma não parecem menos absurdas do que a hipótese de que 'viemos para ficar' na nossa 'verdadeira casa'.




domingo, 14 de fevereiro de 2016

(José Ames)

O FAVORITO

"A vocação dos Filhos de Zebedeu"


No quadro de Marco Basaiti "A Vocação dos Filhos de Zebedeu" (1510), Jesus na margem recebe os discípulos que abandonaram a faina no lago da Galileia. Um dos irmãos, é João, o preferido.

Esta inclinação é demasiado humana, sendo esse discípulo de todos o mais jovem. E como é de supor num texto tão inspirado, em que o recurso à parábola e à economia de meios é a regra, o "fraquinho" do Mestre não nos é revelado por acaso.

É que a Incarnação para ser perfeita não podia ignorar as inconsequências da "carne". Mas só até certo ponto. Preferência, sem injustiça para com os demais.

João, foi também o visionário do Apocalipse e talvez que este seja um dom dessa amizade da transcendência.

A ideia de ver nos Evangelhos uma incarnação só meio sucedida, pelo imperativo doutrinário, está na origem de algumas tentativas modernas de "completar" a humanização de Cristo.

O discípulo preferido parece ser o "shifter", como diria Barthes, duma leitura mais "mortalizante", que tornaria real o abandono do "Eli, Eli lama sabachtani?" na cruz.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016



(Pula)

O HOMEM SELVAGEM

brazilian-indians.jpg

"Nenhum psicólogo comportamentalista que observasse as pequenas aldeias isoladas no Interior do Brasil declararia decididamente que os seus habitantes "desenvolvem diferentes formas de loucura" a fim de enfrentarem a chuva, as carências alimentares e a desolação."

(Claude Lévy-Strauss, citado por George Steiner)

Parece que a razão (iluminista, ocidental, universal) é indissociável de um tipo de loucura, ou irracionalidade correspondente.

Os etnólogos que se depararam com os 'exóticos' comportamentos de algumas tribos isoladas tiveram que ultrapassar muitos dos preconceitos que traziam no seu saco de viagem. Não chegava, claramente, atribuir esses hábitos de vida ao atraso e à superstição. Mas foi-lhes necessário manter o seu mais forte preconceito que precisamente os guiava nesse choque de raças e de culturas: o de que os selvagens eram seres racionais; assim como os missionários partiram da ideia de que tinham alma.

Por isso estava-lhes vedado (aos etnólogos e aos missionários) uma explicação pelo catálogo da loucura. Agustina dizia que o corpo é uma inteligência. Por que haveríamos de recusar a ideia de uma 'razão submersa' nos ritos estranhos do homem selvagem?