terça-feira, 9 de dezembro de 2014

ENVELHECEM AS IDEIAS?

Jürgen Habermas

"O 'sim' e o 'não' dos actores que agem de modo comunicacional é tão predeterminado pelos contextos linguísticos e tão influenciado pela retórica que as anomalias que se manifestam nas fases de esgotamento já só se apresentam como sintomas de uma vitalidade evanescente, como processos do envelhecimento, como processos análogos aos naturais e não como consequência de soluções erróneas de problemas e como respostas 'inválidas'."

("O Discurso Filosófico da Modernidade", Jürgen Habermas)

 

Será que a aparente 'fase de esgotamento' do partido comunista é hoje lida como um processo de envelhecimento, análogo ao da natureza? Contra essa leitura impõe-se, parece-me, por causa da história recente e do contexto internacional, a outra explicação dada por Habermas, a das consequências de 'soluções erróneas' e de 'respostas inválidas'.

Isto, todavia, acontece com a mesma premissa de um 'contexto linguístico' e de uma retórica. É que não podemos 'saltar sobre a nossa própria sombra'. Se não dispuséssemos de um 'aparelho' conceptual e discursivo tampouco haveria o 'sim e o não'.

A 'crítica' da caducidade das teorias políticas é francamente insuficiente quando se lida com categorias como a utopia e o ideal.

 

 

domingo, 7 de dezembro de 2014

(José Ames)

FÁBULAS SOBRE A FORÇA


David e Golias (1607-Caravaggio)



A passagem bíblica de David e Golias parece ainda traduzir, para muitos, o que se passa no Médio Oriente.

Não importa que a funda tenha dado lugar ao míssil de médio alcance. Porque não possuem um Estado e não têm tanques nem aviões, os que combatem Israel, no terreno e sangue contra sangue, atraem toda a simpatia dos que sempre escolhem o lado dos mais fracos.

Também os que apoiam ( ou manobram ) os mais fracos são vistos com bons olhos, porque o Golias tem do seu lado a maior potência do planeta.

Não estão nunca em causa os meios de que uns e outros se servem. Só aparentemente são ambos terroristas. Porque dum lado temos uma causa justa (o direito dos mais fracos) e do outro temos a força que não precisa de argumentos.

Dum lado há mártires, e até as crianças mortas são mobilizadas na frente mediática. Do outro há o castigo de Deus pela injustiça do forte.

O que me parece cada vez mais evidente é que este David, longe de estar desarmado ( a funda também é uma arma), tem as armas mais eficazes (para quê, de facto, comparar arsenais e a bomba atómica que uns têm e os outros não, se o que decide pode ser uma funda de política regional e meios bélicos mais adequados a uma guerra que começa por anular a distinção entre o civil e o militar e entre o político e o religioso?).

Por outro lado, o Golias tem, cada vez mais, de contar apenas consigo próprio e, como na história, parece ter músculo a mais e agilidade a menos.
Mas a situação do espectador empático é insuportável.

Porque se persiste na culpa de Páris, o raptor de Helena, os Gregos têm a justiça pelo seu lado e talvez tenham o direito de destruir Tróia. Mas então por que é que os Troianos se defendem e atacam por sua vez, acrescentando mais ainda à sua culpa e espalhando dor e tragédia entre os Aqueus?

Quanto mais racional me parece atribuir as culpas à intriga dos deuses!

sábado, 6 de dezembro de 2014

(Porto)
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AS REGRAS DO JOGO

Karl Marx (1818/1883)

Quando se procuram os responsáveis por uma situação de injustiça que nem todos os implicados sentem como tal, porque estão demasiado longe do drama ou porque se protegem com efabulações justificadoras, deparamo-nos com uma espécie de necessidade, como a que rege os fenómenos naturais, mas que, por se verificar nas relações humanas, ao mesmo tempo se parece muito com um jogo. Algo que se poderia abandonar a qualquer momento, mas cujas regras não dependem do indivíduo.

A melhor definição deste paradoxo, se não estivesse tão desvirtuada pela sua generalização, é a de sistema.

Tal como Marx o estabeleceu, o capitalismo funciona como um tal sistema, com as suas leis (ou regras do jogo), impondo-se aos vários protagonistas, independentemente da autonomia que cada um pense ser a sua e da importância que se atribua (como na fábula da mosca e da carruagem).

Mas a injustiça dum sistema é mecânica. É uma ofensa que não nos é dirigida pessoalmente. A verdadeira injustiça, a que nos atinge mortalmente tem um rosto.

Os sistemas têm uma particularidade notável. Tornam-se injustos e caducos logo que se descobre que não são necessários.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

(José Ames)

A FELICIDADE DOS MODELOS



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Tem de haver alguma má-consciencia em todo o economista demasiado seguro do que vem anunciar à televisão.

Os economistas constroem modelos, que podem ser matematicamente irrepreensíveis, e que, apenas por isso, estão condenados ao fracasso.

A realidade que procura sondar o modelo não pode de facto ser antecipada.

O resultado depende, não da exactidão (que não é possível), mas da felicidade da profecia.

Por isso se diz, em defesa da economia, que ela é uma ciência social, com isso se pretendendo manter toda a sua dignidade, apesar da sua visível falência. Mas também, redobrando a parada, dizem outros que ela é uma super-ciência, pela sua crescente multidisciplinaridade.

Eu não vejo por que é que a "ciência que estuda os fenómenos relacionados com a obtenção e a utilização dos recursos materiais necessários ao bem-estar" (uma das definições do dicionário Houaiss) não deva ser simplesmente considerada uma arte.

Realmente é disso que precisamos para nos governarmos num oceano de incertezas.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Sem título

 

Atouguia da Baleia

 

A VERDADE

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"A verdade não é uma virtude, mas uma paixão. Daí que ela não seja nunca caridosa."

(Albert Camus)

O que é simbolizado no episódio do 'Génesis' sobre o fruto proibido. É a paixão (a curiosidade, princípio do conhecimento) que move Eva. Não podemos esperar que seja inteiramente racional, ou que a razão não se encontre ao seu serviço.

Hoje é natural pensar-se que a cornucópia de benefícios que decorrem do desenvolvimento da ciência justifica amplamente que nela depositemos as nossas esperanças. Mas a verdade é que nunca poderemos saber o que significou para a humanidade o outro prato da balança. De qualquer modo, continuamos a 'sofrer' o processo científico-tecnológico como uma força independente, quase incontrolável, que vai moldando as nossas sociedades, para o bem e para o mal.

A compaixão não está nas suas leis, nem na sua dinâmica. O homem que procura a 'verdade', ou que julga possuí-la é quase sempre implacável. Em grupo, isso leva a toda a espécie de fanatismo.

Por isso, a virtude só, porque procura o bem, ou a verdade moral, pode ser superior ao que é justo segundo a lei, ou verdadeiro, segundo os factos.

 

 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Sem título

 

(José Ames)

 

MATUSALÉM

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"É preciso testemunhar por aquilo que dura contra o que parece durar."

(Georges Bernanos)

Mas que dever é esse de testemunhar? Num processo judicial, testemunho porque quero ajudar a Justiça, ou mais comummente, porque a isso sou obrigado.

Talvez não se possa entender esse desejo de realização da justiça, sem a tradição religiosa e a ideia de salvação. E não apenas a salvação individual, mas a de todos. O individualismo, porém, tornou esta cláusula dispensável. Certos 'místicos' foram tão longe no caminho do monólogo do 'dois em um' e do esquecimento do mundo que seria admissível que os outros nada pudessem beneficiar da sua experiência fora do mundo. Não foi assim porque o testemunho pessoal que deixaram foi interpretado pela Igreja no sentido edificante. Podemos imaginar quanto misticismo escapou a essa hermenêutica, por estar 'desenquadrado'.

A secularização relativizou enormemente aquele 'é preciso'. Invertendo a fórmula pessoana, podíamos dizer: viver é preciso, navegar não é preciso'.

Por que haveríamos de testemunhar do que é mais permanente, se vivemos sem transcendência e apenas valorizamos a vida por mais efémera que ela seja?

Mais importante do que 'testemunhar' é esquecer a impermanência. Por isso a morte é o grande 'desmancha-prazeres'. E as nossas esperanças viram-se agora para coisas como a bionanotecnologia que nos promete viver mais do que Matusalém.

 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Sem título

 

Porto

 

ANÁTEMAS

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"Mas em certas épocas históricas isso altera-se por efeito de acontecimentos imprevistos. As pessoas podem então ser atingidas por termos injuriosos para as quais a jurisprudência não tem interpretação.

Por exemplo, o termo 'fascista' que passou a significar uma injúria verbal mas para a qual o pensamento do legislador não estava preparado. Depois de os trinta tiranos de Atenas serem banidos e a democracia ser restaurada, o sentido oratório da palavra tirano foi elevado até ao sentido mais violento, que ultrapassava mesmo o de assassino. A lei grega interditava certas palavras, como 'assassino'. Podia-se dizer no tribunal que um réu tinha matado o pai, mas não se podia qualificar como assassino. Quer dizer que se podia acusar, punir, mas não desonrar.

Fascista tornou-se um termo que não admitia sinónimo, e portanto não dispunha de atenuantes. Tudo o que não dispõe de circunstâncias atenuantes constitui uma injustiça e, por conseguinte, uma cobardia. 'Fascista' adquiriu o significado de nefando, o que tocava a ideia primitiva sobre o poder e a eficácia cívica da palavra. O que lhe imputava era um espírito desonroso que fechava toda a argumentação."


"Ordens Menores" (Agustina Bessa-Luís)


Não se pode calar um Grego, "senão matando-o". A palavra, a discussão eram o meio dos cidadãos participarem na política da cidade, e os atenienses adoravam os processos da Justiça. Tinha limites essa paixão de discutir, como o mestre de Platão o experimentou na própria pele. O filósofo foi acusado de corromper a juventude e de a virar contra os deuses da cidade. Acusações graves e que denunciavam já o 'ovo da serpente'. Mas depois da tirania, como conta Agustina, recorreu-se às palavras-anátema, contra a tirania, anti-democráticas também elas, por fecharem a discussão sobre esse passado.

Só o tempo e a maturidade da democracia criaram condições para o desbloqueio histórico. Já quase ninguém chama fascista a uma pessoa de direita, a não ser por ironia, caricaturizando alguém que ficou parado no tempo. Mas as palavras-anátema, as velhas e as novas, ressurgem no quotidiano e nos momentos de tensão, sempre alimentadas pela cultura mediática que é a 'caixa do ponto' da opinião pública.

Pensar que uma boa parte só é capaz de encarar metade do mundo com essas palavras! Embora saibamos que, em relação a nós, como dizia O'Neil, "com os seus altos valores, o Ocidente dá por de mais ao dente, dá por de mais ao dente"...

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Sem título

 

(José Ames)

 

É ISTO POSSÍVEL?

 

"Eu desejaria que o candidato respondesse ao que dizia Beethoven, no seu último quarteto: 'Muss es sein? Es muss sein.' É isto possível? Sim, é preciso mostrar que é possível."

(Edgar Morin, "Le Monde", 4/5/12)


O seguro pode tornar-se simplesmente possível e, por falta de fé, até o possível se pode tornar impossível.

O mundo dos homens é prodigioso. Não podemos calcular todos os pequenos ou grandes actos de fé que o tornaram uma segunda natureza, tal como a terra e o céu, nas nossas existências.

É, talvez, mais viril dizer que foi a vontade colectiva e a de cada um que operaram o milagre. Mas o que é a vontade se não acreditamos? Do mundo da política chegou-nos, com Obama, um eco disso mesmo, depressa repetido em toda a parte como a estrofe reencontrada duma canção antiga. Para dar lugar, depois, à descrença..., e são precisas novas palavras e novos actores para ressuscitar o 'verbo'. A nossa vontade, entretanto, voltou à jazida das nossas desilusões.

Simone Weil dizia que o espírito é 'a tensão para um valor'. É comum dizer-se que, na nossa época, perdemos os valores. Se tensão existe é para competirmos uns com os outros. Mas tal como a decadência romana deu lugar aos valores cristãos, a crise moderna talvez anuncie uma nova era.

O 'global' começa a impor-se aos 'sistemas'. A proverbial capacidade proteica que tem levado o 'capitalismo' a adaptar-se e a mudar de forma já tem pouco a ver com o 'materialismo dialéctico'. Não podemos inspirar-nos nas velhas disciplinas do século XIX para compreender o fenómeno. O último avatar dessa tradição foi, talvez, Thomas Piketty. O seu sucesso deveu-se a um atraso de ordem teórica, face aos modelos que a partir da nova ciência podem ser concebidos. A dificuldade está na síntese de tantas interrogações e de tantos avanços...