sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Sem título

Lisboa (José Ames)

 

CORRUPÇÃO

 

Joseph Conrad

"Sei apenas que quem estabelece um laço está perdido. O germe da corrupção entrou na sua alma."

(Joseph Conrad, citado por Greene e Steiner)

Os heróis da pureza são solitários. Aliás a pureza não é alcancável. Permanece um ideal. Mas a própria palavra interesse, que usualmente se contrapõe ao desinteresse da 'pureza', nos adverte para o que está em questão.

A origem da palavra vem do latim 'inter-essere' que quer dizer 'existir entre', estar com outros naquele intrincado de laços que, segundo Conrad, nos perde, afastando-nos do mundo dos 'puros' e da 'salvação.

Este exemplo é apenas um dos inumeráveis que revelam a natureza dualística da moral. Não há bem que não pressuponha um mal. Um deles está sempre na sombra, a um passo de erguer a sua cabeça de anjo ou de demónio.

É nesse sentido que, para mim, é verdadeira a palavra do evangelho, quando se diz que pecamos todos os dias, apesar dos nossos esforços.

Se perdêssemos toda a noção de pureza, a corrupção teria livre curso, e haveria um mundo de 'pernas para o ar'. Mas o que é natural é que não faltem ocasiões para nos deixarmos corromper por causa de um dos nossos 'laços'. A 'salvação' é quase um milagre, porque não há quem, no segredo do seu coração, esteja livre de 'pecado'.

Assim, a religião vencida nunca foi ultrapassada e está por detrás de todos os nossos juízos morais, mesmo quando não empregamos os termos consagrados de bem e de mal, perdição e salvação. Sem isso, em nome de quê combateríamos a corrupção?

 

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Sem título

(José Ames)

 

A MORAL SEM REDE

"Não tinha ele dito que no momento mais alto de um homem não havia nem bem nem mal, mas somente a fé ou a dúvida?"

"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)

O hábito ou o exemplo decidem do bem e do mal, na maior parte dos casos. A consciência vigilante é devoradora de energia e, algumas vezes, de bom senso. Não se pode viver assim, sem regressar à forma de cada um.

Sabendo disso, alguns líderes políticos 'cavalgam' o entusiasmo popular ("o meu reino por um cavalo!", dizia o Ricardo III do poeta inglês) para melhor o reconduzirem ao estábulo.

Mas há, de facto, momentos em que não há nada nos hábitos nem nos exemplos que nos ajude. Ora, o que são o bem e o mal quando temos de pensar nisso? É como dizia Agostinho a propósito do tempo. Eu sei o que é o tempo, mas se me perguntarem o que é, vão-se-me todas as certezas.

Ficam a fé e a dúvida, como no exemplo de Ágata, em Musil.

 

 

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Sem título

Lisboa (José Ames)

 

O MAL FRANCÊS

Edgar Morin e Jean-Louis Le Moigne

"O mal francês, sabe-se qual é: inventam-se sempre novos estratos, mas é-se incapaz de suprimir outros. A minha pergunta é a seguinte: por causa da descentralização, não há um degrau a mais e, se ele se encontra ao nível local, o senhor suprimiria essa colectividade que dirige?"


(Jean-Louis Le Moigne, num colóquio)

Já se chamou o 'mal francês' a uma doença venérea. Aqui, curiosamente, a expressão é aplicada a uma doença administrativa. A burocracia, tendo em si o seu próprio fim, não é reformável a partir de dentro (que é o que acontece, geralmente, nos casos de extrema centralização). Assim, ao contrário da serpente, que muda efectivamente de pele, a burocracia conserva a vellha pele a nova, sem se despojar de nada.

Isto é diferente de gerir a mudança com os menores custos sociais, como nos melhores exemplos se fazia entre nós. Uma reforma antecipada que abre um novo posto de trabalho, por exemplo.

Custa a crer que, nos dias de hoje, se continue a explicar esta idiossincrasia francesa como uma herança do Estado napoleónico. Se é verdade, o grande Corso foi melhor profeta ainda do que general. Viu o que Balzac viu na vida dos camponeses, que são a alma do povo, logo que se extinguem as luzes dos 'boulevards'.

A ideia napoleónica é, no entanto, cómoda. Tal como o grande cartaz na Praça Tien-Amen e a própria doutrina oficial chinesa. São sinais-túmulo que representam o vazio. Mao morto e embalsamado faz esquecer o verdadeiro.

 

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Sem título

(José Ames)

 

A PERFEIÇÃO

A Giant Traditional Chinese Painting



"Queres saber como pintar uma pintura perfeita? É fácil. Torna-te a ti mesmo perfeito, e pinta, então, naturalmente."
(Robert Pirsig)

Como diz Simon Leys, a propósito da pintura chinesa, não há nada de mais afastado da nossa cultura de que uma ideia como essa. A depravação moral pode plenamente conjugar-se com o génio artístico, tal como o consideramos. A não ser que o génio nada tenha a ver com a perfeição, na obra e na pessoa...

Temos em Giotto ou Fra Angelico dois exemplos do que poderia ser uma arte inspirada, senão numa vida perfeita, pelo menos no desejo dela. Em Picasso, génio multiforme, parece que o homem e o criador de formas se afastaram. A sua vida, como a de Caravaggio, parecem alheias à ideia de uma arte inspirada, como se bastasse o trabalho da pintura e o saber profissional. Tal concepção da arte, por outro lado, não destoaria em Bach, artista assumidamente consciente do seu 'profissionalismo'. Esta visão tão 'terrena' da criação musical não é decerto compartilhada com a imensidão dos seus admiradores, para quem o músico é o exemplo do artista inspirado pela sua religião.

Nesse sentido, a 'humildade' deste imenso artista traz à sua vida uma aura de perfeição. Fazer música perfeita, conforme a ideia de Pirsig, decorria 'naturalmente' da sua própria perfeição.

 

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Sem título

Santo Tirso (José Ames)

 

BABEL


"O mundo faz muito menos sentido do que pensas. A coerência vem quase toda da forma como a tua mente funciona."
(Daniel Kahneman)

Alain repetia que o mundo não nos quer bem nem mal, o que nos deixa livres para manobrar o leme. Não apesar das ondas, mas por causa delas.

O mundo, não sendo espírito, não precisa de ter um sentido. Nós, pelo contrário - porque é assim que a nossa mente funciona -, não podemos viver sem um. O nosso mundo, que é uma apropriação do mundo real, tem necessidade, por exemplo, das coordenadas espácio-temporais desenvolvidas pelo nosso cérebro desde os primeiros anos de 'exploração' dos nossos sentidos.

Viver sem gravidade é possível, mas não sem uma 'leitura' do mundo pelo nosso cérebro, com princípio, meio e fim, como num conto tradicional. As teodiceias e as gigantomaquias falam-nos disso. Zeus, que saiu vitorioso dessas lutas, marca já o sentido do Estado.

Tal como na Bíblia, o desconcerto das línguas traz consigo a confusão dos sentidos. Uma nova Torre de Babel ameaça o sentido do mundo. Mas desta vez não há transcendência que a possa abater.

 

domingo, 10 de novembro de 2013

Sem título

(josé Ames)

 

DESCONECTADOS


"Disconnect" (2012, Henri-Alex Rubin)

Três histórias se entrelaçam nesta eficaz demonstração de que os elos básicos da sociedade estão em crise profunda, coisa sabida desde há muito. Uma solidão desesperada caracteriza as personagens e o seu ambiente.

Um estudante quase autista que se enamora por Jessica, pseudónimo de dois colegas que se riem à sua custa e, por fim, passam a sua 'declaração de amor' para os telemóveis de toda a escola, levando-o ao suicídio, um adolescente que vende na internet cenas de masturbação em directo e que é utilizado pelo seu 'protector' para aliciar menores para o mesmo efeito, um casal que perdeu o filho e deixa de falar, entregando-se ambos às escapatórias da rede, ela 'consolando-se' com uma alma compreensiva e ele arriscando o que tem e o que não tem no jogo 'on line'.

As redes sociais, o fim da privacidade com a partilha da intimidade com relações virtuais, a instantânea disseminação de fotos e de mensagens assumem, cada vez mais, para a juventude, o papel do antigo diário confessional. O interior do 'eu' é varrido pelos projectores de um 'campo de desconcentração'. Nunca se foi tão prisioneiro numa liberdade sem grades. Do esplendor do individualismo caímos, sem solução de continuidade, no gregário mais absoluto.

Mas parece claro que a dissolução da família vai de par com a crise da consciência social (a da solidariedade e a da percepção da nossa natureza) e que esse fenómeno tem raizes muito mais antigas do que a revolução tecnológica.

O que acelerou a degeneração foi o aparecimento, no nosso tempo, de uma outra via, de uma alternativa à 'decadência do Ocidente'. Uma alternativa com o brilho das técnicas de ponta e da ciência mais avançada, que é, de facto, um não-humanismo, e, no limite, não tem ponto de vista ( o ponto de vista está em todo o lado).

As vítimas de 'Desconectados' fazem lembrar a imagem de borboletas queimadas contra a lâmpada.

 

sábado, 9 de novembro de 2013

Sem título

Lisboa

 

A IGUALDADE AMERICANA

Philip Roth

Em "A conspiração contra a América", Philip Roth ficciona o que teria acontecido, do ponto de vista duma família judaica, se Franklin Roosevelt tivesse perdido o seu terceiro mandato, em 1940, a favor de Charles Lindbergh, confesso admirador dos nazis.

Revoltado contra os primeiros sinais de discriminação, logo a seguir às eleições, o pai do narrador invoca o discurso de Gettysburg, em que Lincoln solenemente declara que todos os homens nascem iguais.

Mas o povo americano, que precisou duma guerra civil para decidir a questão da escravatura, tem uma concepção peculiar da igualdade, a qual se refere sobretudo a uma relação dos indivíduos com o Estado (exceptuado o episódio do McCarthysmo) e não entre si.

As diferenças de classe são, aliás, reclamadas pela ideologia do "self-made man". A igualdade entre os indivíduos não permitiria medir, nem recompensar o sucesso dos mais capazes.

Por isso, o judeu se indigna porque a polícia não o defende contra o zelo anti-semita do gerente do hotel, sentindo que se amortece o brilho do Capitólio e dos outros lugares de peregrinação patriótica.

Mas a extrema desigualdade económica não lhe faz ferver o sangue e, em vez disso, é capaz de admirar, como um grande americano, o magnata que abusa do seu poder para corromper a imprensa.

 

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Sem título

(José Ames)