sexta-feira, 8 de março de 2013

AGUACEIRO




"Mas com o tempo, o seu deus adquiriu uma verdadeira mania legislativa e na actualidade o corpo jurídico constitui um imbróglio tão inextricável e minucioso que é impossível não incorrer em falta continuamente."


(Eduardo Mendoza, "A assombrosa viagem de Pomponio Flato")



É outra versão do pesadelo de Kafka. Não se trata de leis absurdas que colocam potencialmente a vida de toda a gente (K é qualquer um de nós) à disposição dum intérprete aleatório da transcendência juridicista.

A 'mania legislativa' talvez seja só a vontade de regular a realidade, de criar no plano das leis o contraponto do indivíduo culpado por definição. É a vida do 'direito' que é a 'verdadeira vida', como dizia S. Paulo da 'vida em Cristo'.

Pelas melhores razōes, pela racionalidade mais alicerçada, O 'corpo jurídico' complica-se para lá de qualquer funcionalidade doutrinária (que no melhor dos casos, seria a da justiça). É um acervo descomunal onde se 'pesca à linha' segundo o interesse que aparece.

No limite, podemos todos, de facto, estar em falta. Por causa desse estado suspenso da nebulosa jurídica, em qualquer um pode cair o aguaceiro da fatalidade.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Sem título

(José Ames)

 

A MORAL DE PANTUFAS

Charles Darwin


"Parece que os homens que têm para dar a certas questões uma resposta nova e revolucionária assinam com tudo o resto um compromisso que deixa em todo o lado sobreviver uma bela moral em pantufas."

"O Homem Sem Qualidades". (Robert Musil)


Um modelo energético parece inspirar esta ideia que é, de resto, difícil de rebater.

Simplesmente não temos forças para combater em todas as frentes. Temos de nos concentrar necessariamente num ponto, abandonando o resto.

Newton conservou Deus no seu sistema (que, de facto, não precisava dessa hipótese), porque, evidentemente, procurou nele o seu 'ambiente' racional. Não se poderia 'descobrir' leis universais sem as estender ao desconhecido. E a ideia de Deus permite que esse desconhecido faça sentido e que não ponha em causa, à partida, as ditas leis.

O homem religioso, no cientista, não mudou nada, 'limitando-se' a fornecer a inspiração duma razão universal.

Darwin foi talvez ainda mais longe sem abalar, em si próprio, o fundo das suas crenças. Pôs drasticamente em causa o mito do 'Génesis' sem tirar daí todas as consequências, pois dentro de si achou maneira de conciliar o inconciliável. As dificuldades encontradas para um novo compromisso, deixou-as a quem tinha mais energia e estava mais motivado.

Depois de Darwin, a solução passava pela descoberta da linguística que desssacralizou, como não podia deixar de ser, o texto antigo.


quarta-feira, 6 de março de 2013

Sem título

 

Salgueiros

 

OS MISTÉRIOS DE DEMÉTER





Alain dizia que importava pouco que a criança lesse antes de compreender: "a beleza de um poema acaba sempre por dar a verdade do homem e o segredo das paixões."

Todos começamos assim, repetindo, imitando as palavras dos falantes. A poesia constrói, dentro de nós, a habitação humana pelo 'tempo e o modo'. Não é pouco fazer o cônvavo do que há-de procurar lugar, ou abrir para o rio das emoções o leito da memória.

Se me dizem que a consciência deve regular sempre a aprendizagem do homem e que, por exemplo, a influência da religião deveria ter, em qualquer dos casos, o consentimento adulto e responsável, parece-me que quem o diz poderia defender, igualmente, que a educação (do latim 'ex ducere', encaminhar) deverá esperar pela maturidade.

Guiar uma criança seria, então, um abuso (veja-se no que deram as ideias praticadas em Summerhill, em que se invocam os 'direitos humanos' contra a educação 'directiva' das crianças). Foi a extremos como este que chegaram o individualismo e o 'politicamente correcto'.


A verdade é que nunca alcançaremos a compreensão de um grande texto literário ou duma verdadeira obra de arte se não tiver germinado em nós a semente misteriosa que outros lançaram em nós sem nos perguntarem se sabíamos o que isso era. Como poderíamos saber?

terça-feira, 5 de março de 2013

Sem título

 

(José Ames)

 

O LENHADOR E O MIRMIDÃO

A Ilíada



"Mas à hora em que o lenhador prepara a sua refeição (...)"


É assim que Homero (na tradução de Simone Weil) relaciona a liturgia do quotidiano com a história. À mesma hora em que, no bosque, foi poisado o machado, os Dánaos romperam a dianteira.

Os gestos da vida comum não estão aqui apenas para dramatizarem o contraste com a guerra, a acção que interrompe o trabalho e o pacífico correr dos dias.

A Necessidade, uma noção sem a qual os antigos não compreenderiam a vida, e que nós, pelo ambiente tecnológico e o nosso modo de vida, constantemente perdemos de vista, apresenta-se-nos na descrição da 'Ilíada', dividida em dois tempos, ou 'andamentos', como na música, mas no fundo a mesma.

O lenhador apoia-se contra a árvore cuja vida destrói, utilmente, e a sua vida é regulada como num serviço religioso, entre a casa e a floresta. Mas no mirmidão, o mesmo homem é conduzido pelas forças, como se fosse ele a árvore que sucumbe aos golpes do destino.

Da guerra, a paz do campo é vista com olhos de ver. O soldado que consegue regressar a casa conhece as duas faces da Necessidade: aquela que o levava enquanto 'dormia' e a outra que não lhe dá tempo para pensar.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Sem título

 

Santo Tirso

CAVERNÍCOLAS

Abraham Lincoln


"Mas será sempre verdade que 'ninguém engana toda a gente todo o tempo?' Ou a televisão terá o poder - ou já o tem - de reduzir o credo lincolniano a mais uma frase feita, ou como hoje se diz, a um conteúdo? Um 'conteúdo' sem frase nem fraseador. Um vazio."

(João Bénard da Costa)



Lincoln, ao dizer que 'ninguém pode enganar toda a gente todo o tempo', acreditava na verdade estatística, no efeito 'ordálico' das opiniões diferentes e até contrárias, no cômputo final. O resultado será a espécie de 'carácter' da soberania popular, idealizada por Rousseau. Como um corpo agitado que, por fim, encontra a sua 'assiette', o seu ponto de equilíbrio.

Infelizmente, mesmo antes do advento da televisão e dos outros mídia, talvez ainda mais poderosos, o povo arregimentado pelo nazismo forneceu a prova contrária: pode encontrar-se o 'ponto de equilíbrio' no extremo dos extremos, embora isso seja um 'Cisne Negro', como diria Nassim Taleb.

É o suficiente, porém, para acabar com as nossas certezas.

Mas depois que sobre esse astro frio, com o seu ponto de mira, se assestaram os olhos e os ouvidos de milhões, deixou de fazer sentido a frase enigmática de Cristo, em Mateus: "Quem tem ouvidos para ouvir que oiça."

Para ver e ouvir era preciso um aviso, porque a atenção 'abria portas' que, sem isso, permaneceriam fechadas, e estava em causa a 'salvação'. A televisão, essa, atrai o nosso olhar e o nosso ouvido como o fogo da caverna platónica.

Platão não hesitaria em considerar que os seus 'cavernícolas' estavam enganados, todos, o tempo todo. Estão, porque ninguém os engana. Eles é que se alimentam do engano.

Por essas e por outras, é que não acredito no monstro berlusconiano.

domingo, 3 de março de 2013

Sem título

 

(José Ames)

 

DESCAPELADOS



"Mas paremos neste ponto e passemos outra vez à dita História Literária. Eu quero que morra comigo porque, como essa gente é indómita e não sabe que coisa é crítica, me apedrejariam se a vissem (...);".


( Luís António Verney, carta de 1/1/1753)



A crítica talvez seja má para o negócio, no caso de um restaurante, como o disse o Miguel Esteves Cardoso há dias, razão pela qual ele se abstém de comentários quando o serviço piora. Contenta-se, pela sua parte, em precisar a data na qual o mesmo serviço se podia recomendar.

Já na literatura, uma crítica implacável pode matar no ovo uma falsa vocação, ou uma verdadeira, mas sem fé nela própria.

Ninguém é tão separável da sua 'obra' que não a considere como coisa das suas entranhas. São raros os que são capazes de reconhecer que muito dela merece o caminho do tubo digestivo. A verdade é que existe uma acepção do verbo obrar que é pertinente nestes casos.

Mas um primeiro êxito pode equivaler a um 'corte de asas'. A provação e mesmo a imediata incompreensão quase sempre fortalecem um autor. Alguns dos que, por timidez ou outra razão qualquer, não foram 'criticados' em vida podem ser ainda descobertos, o que deita por terra a ideia que diz que a crítica é indispensável.

Se Max Brod tivesse destruído os manuscritos do seu amigo de Praga, ninguém conheceria o verdadeiro génio de Kafka. E pode-se perguntar onde estava o crítico, à altura de reconhecer a absoluta novidade de, por exemplo, "O Processo"?

Verney não se quis sujeitar ao juízo tacanho de contemporâneos como o jesuíta Franco que " que só conta maravilhas e milagres dos seus". Ora não pertencendo Verney a nenhuma 'capela' (a não ser a dos 'estrangeirados'), só podia contar com a crítica 'destrutiva' com que uma capela ataca outra ou os 'descapelados'.

sábado, 2 de março de 2013

Sem título

 

Gare do Oriente

A SUBLIMAÇÃO DE ÉFESO


Éfeso

Uns lavabos desertos e com música de fundo é uma das coisas mais inóspitas e irrealizantes que imaginar se possa. Mas já não damos por isso.

Os passos de gigante que foram dados desde as latrinas romanas, do tipo salão, como se vêem em Éfeso, cujos assentos os patrícios mandavam os seus escravos aquecer!

É claro que estes criados não tinham qualquer privilégio de conhecimento sobre os seus patrões e a estes não se poderia aplicar o aforismo de que ninguém é profeta em sua casa.

As virtudes romanas exerciam-se no fórum e no terreno militar e podiam perfeitamente conviver com uma transparência da natureza.

Agora esta música é como uma máquina paranóica a funcionar sozinha, transformando o orgânico em sustenidos e bemóis.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Sem título

 

(José Ames)

 

ADÃO




"(...) porque um objecto apreendido no seu conjunto imediatamente perde a sua extensão e muda-se em conceito."

(Robert Musil)


Talvez seja por isso que à medida que avançamos nos anos tudo se torna insuportavelmente previsível. Perdemos a estrada sem fim pela qual caminhávamos, sempre à espera de uma volta no caminho que nos surpreendesse e nos transformasse, e o 'conceito' toma conta da nossa vida. Parece-nos que a partir de uma certa altura, deixamos de estar vivos e passamos a ser a ideia que nos acaba.

"Eis por que ele hesita em tornar-se uma coisa qualquer; um carácter, uma profissão, um modo de vida definido são nelas mesmas representações em que desponta já o esqueleto que será tudo o que dele restará no fim." ("O Homem Sem Qualidades")

Vê-se que esta hesitação em assentar numa 'forma e num espaço' não é mais do que o medo de viver. A ideia que parece resumir a nossa vida é o verdadeiro envelhecimento.

As auto-definições são sempre enviesadas e não têm entrada no paraíso. Foi o que aconteceu a Adão quando deu um nome ao seu estado de culpa.