domingo, 25 de junho de 2006

A CURA DE PURSEWARDEN



"(...) Os seus abraços eram como a árida união de peças de cera, de figuras em gesso para qualquer túmulo clássico. As mãos dela moviam-se sem encanto sobre arcadas das suas costelas, o seu flanco, a sua garganta, a sua face; os seus dedos pressionavam aqui e ali no escuro, como o dedo dum cego à procura do painel secreto na parede, dum interruptor, esperando que se ligasse, iluminando um outro mundo, fora do tempo."

"Mountolive" (Lawrence Durrell)

No terceiro livro de "O Quarteto de Alexandria", depois de seguirmos fascinados o tropismo desta flora nocturna, cercada pelo deserto, de sentirmos as exalações do "Oriente fanático" inebriando estes europeus perdidos para qualquer regresso à sua cultura, surge esta cena de amor terminal, como nunca vi outra igual.

Pursewarden e Melissa, desencontrando-se, por falta de acesso à memória do corpo, falhando os filtros e os gestos, ele fechado para sempre no seu segredo, ela resistindo à pressão da sua luxúria.

Até que a morte (ela lê-lhe o futuro nas linhas da mão) abre o caminho à palavra.

Estamos longe de qualquer banalidade psicanalítica, mas é o reconhecimento do impasse, o abandono das defesas "constitucionais" da sua personalidade que libertam a corrente e a desafiam a "perder-se".

Segue-se, naturalmente o suicídio do diplomata escritor.

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