terça-feira, 2 de agosto de 2016
PROMETEU SAGE
“Tive, pois, de suprimir o saber para encontrar lugar para a crença, e o dogmatismo da metafísica, ou seja, o preconceito de nela se progredir, sem crítica da razão pura, é a verdadeira fonte de toda a moralidade e é sempre muito dogmática...”
(Immanuel Kant)
A nossa época sempre nos tem apresentado o preconceito e o dogmatismo (que os crentes, no ambiente religioso, aceitam como parte importante da 'pertença' a uma comunidade) como qualidades negativas para o 'cidadão cosmopolita' que tem de se confrontar 'correctamente' com as crenças dos outros.
Como demonstra o filósofo alemão, o crente não tem meio de provar a sua fé, através da razão, e por isso tem de afirmar dogmatica e acriticamente as 'grandes verdades'. Mas crentes e não crentes (ou crentes em verdades menores) não podem provar, pela ciência ou pela razão, que a dogmática de cada um é verdadeira ou falsa.
Sabe-se que Kant ambicionava alcançar uma justificação da metafísica, logo, independente da experiência, que a tornasse semelhante à matemática, que é 'verdadeira' e de facto independente da experiência.
Era preciso, porém, que Prometeu fosse mais comedido e aceitasse que há coisas (incluídas as deste mundo) que não pode saber.
segunda-feira, 1 de agosto de 2016
PATHOS
"Ethos, Pathos and Logos: Three Communication Elements since Aristotle" (Savio Nassar)
"(...) só agora o 'pathos' da auto-afirmação se torna a principal característica de uma subjectividade que domina a modernidade. Na filosofia da última fase irá substituí-la o 'pathos' do deixar ser e da servidão.
(Jürgen Habermas)
Haveria, então, uma 'sentimentalidade' geral que caracterizaria as diferentes épocas e que deveria fazer parte do 'paradigma', proposto por Foucault?
Seguindo esta ideia, a auto-afirmação pode ter sido minada pela vontade de conciliação e por fenómenos como o 'politicamente correcto'.
O 'deixar ser' seria o sinal de que, enfim, venceu a tolerância, graças, entre outras coisas, à moderna democracia. Esta conservou o vício da demagogia, denunciado pelos Antigos. Mas as razões para ver no semelhante uma ameaça parecia terem se evaporado num mundo centrado no indivíduo 'liberal', até que o 'recalcado' medieval da religião islâmica engendrou o extremismo global.
Esta ressurgência não é, verdadeiramente, um fenómeno religioso, mas é antes a explosão mediática resultante do encontro, no global, entre sociedades abertas e sociedades fechadas. A violência com que a 'Idade Média' é reproduzida numa representação em que os 'mais aptos', tecnologicamente falando, se tornam num desafio à sua sobrevivência, desafio que os 'mais atrasados' estão ainda muito longe de poder racionalizar. A falta de uma tradição crítica é, talvez, responsável por isso.
domingo, 31 de julho de 2016
EROS E TÂNATO
"Podemos dizer do erotismo que é a aprovação da vida até na morte. Propriamente falando, esta não é uma definição, mas creio que esta fórmula dá melhor do que nenhuma outra o sentido do erotismo."
"L'érotisme" (Georges Bataille)
Um filme de 1976, considerado por muitos como pornográfico, "O império dos sentidos", de Nagisa Oshima, parece ilustrar esta concepção. Os amantes deixam-se guiar por um instinto do prazer que os leva à exaustão e à morte. Não podemos, claro, deixar de ver aqui, o aspecto doutrinário do sexo. Michaux dizia que, na nossa época, o 'phalus' se tinha tornado 'doutrinário'. Isto é, tornou-se cultura, em vez de obedecer a qualquer instinto genesíaco.
Freud, nos últimos tempos, debateu-se com a sua famosa 'pulsão de morte', sem ter desenvolvido o conceito. Poderá explicar-se o suicídio com uma tal pulsão? E não sacrificará, no fundo, aquele par do filme japonês ao mesmo 'instinto'?
A 'aprovação da vida' acaba, assim, por ser reduzida à mais feliz das eutanásias. Uma despedida da vida num outro castelo de Silling, como o de Sade.
Mas há aqui, além disso, uma contiguidade com o budismo que transfigura de todo a pornografia.
sábado, 30 de julho de 2016
ARQUEOLOGIA DE CÉZANNE
"Jogadores" (Paul Cézanne)
A revolução de Cézanne, pintor em que tantos reconhecem o pai da pintura moderna, corresponde ao fim duma certa natureza e da inocência do olhar.
A ideia de geometrizar as formas e de recusar a ilusão da perspectiva e do sensualismo fazia parte daquilo a que Foucauld chamou de novo paradigma, que abria o caminho e em que a moderna consciência se revia.
A liberdade em relação a um referente externo tornou a pintura definitivamente na coisa mental que segundo Leonardo já era.
Percebemos a concordância e a pertinência com a nossa experiência, mas elas já não são imediatas.
E penso naquilo que Einstein diz da ciência dos nossos dias: ela é cada vez mais abstracta e mais longe do empirismo. É preciso permanentemente reconduzir o ideal ao concreto, mas nunca será deste, nunca será da experiência que nasce o novo.
A pintura poderá então deixar de ser visual?
sexta-feira, 29 de julho de 2016
A DEUSA DA HISTÓRIA
"O Partido nunca está enganado.', disse Rubashov. .'Tu e eu podemos errar. Não o Partido. O Partido, camarada, é mais do que tu e eu e milhares de outros iguais a ti ou a mim. O Partido é a corporização da ideia revolucionária na história. A História não conhece escrúpulos nem hesitações. Inerte e sem errar, ela corre para o seu objectivo. A cada curva do seu percurso, deixa a lama que transporta consigo e os cadáveres dos afogados. A História conhece o seu caminho. Não comete erros. Aquele que não tem uma fé absoluta na História não tem lugar nas fileiras do Partido.' Richard não disse nada; com a cabeça nos punhos, permanecia imóvel com o rosto virado para Rubashov."
"Darkness at noon" (Arthur Koestler)
Donde surgiu este indefectível optimismo? A teoria da evolução dava à doutrina do comissário uma espécie de certificação científica. Tal como as espécies parecem resolutamente evoluir, em direcção ao Homem, através de uma providencial 'struggle for life', a História hegeliana, depois de corrigida, e de deixar de estar assente sobre a cabeça, adoptou o mesmo modelo de evolução imparável rumo ao Homem Novo.
Rubashov limita-se a repetir mecanicamente o oráculo. O detido sabe o que o espera depois de ter tentado contrariar a História ao ter criticado o rumo do Partido. Mais do que um crime, a sua rebeldia só pode ser vista como um pecado 'contra o espírito', a auto-exclusão da Teologia racional, identificada com o que 'já está escrito' (visto que podemos antecipar as principais etapas da história dialéctica).
O resto da história contada neste romance também podia ser previsto. Chega a vez de Rubashov, o velho bolchevique que 'fez' a revolução, é atirado para fora do comboio da vitória, numa das também esperadas 'reestruturações' oficiais da História.
quarta-feira, 27 de julho de 2016
NORMALIDADE
"(...) interpretar consiste em reduzir um tipo de realidade a outro;"
(Claude Lévi-Strauss)
Onde começa, pois, a interpretação? O bebé procura interpretar a linguagem materna, reduzindo-a ao seu estado pré-linguístico que, como uma nave, a seguir é abandonado no espaço sem nome.
Observemos que Lévi-Strauss não fala em realidade, mas em tipos de realidade, como se estivesse a referir-se a mundos distintos. Nós podemos entender que, por exemplo, na nossa relação com a natureza, invoquemos qualquer coisa como níveis de realidade. E cada ferramenta tecnológica introduz no nosso mundo as práticas reveladoras de que só existe uma única realidade, ou uma 'última' realidade, se nos entregarmos ao 'quietismo' ou ao torpor da auto-satisfação.
Sabemos que uma realidade comum (que hoje nos propõem que seja a economia) é necessária para que a sociedade humana exista. Mas também sabemos que só conseguimos alcançar essa meta se excluírmos uma parte de nós próprios, que é infrequentável. Para isso servem os vários tipos de 'normalidade' e de ambientes de 'realidade'.
terça-feira, 26 de julho de 2016
EQUILÍBRIO
![]() |
| (Daniel Kahnman) |
"Ilusão da focalização. Na vida, uma coisa nunca é tão importante como se pensa que é quando se está a pensar nela."
(Daniel Kahnman)
O contrário disso é uma espécie de automatismo. Não pensar nas coisas salva-nos de exagerar a sua importância, mas entrega-nos ao fatalismo e à incoerência. Talvez que a verdade por detrás disto esteja no valor da pluralidade. Só fazemos justiça ao mundo quando conseguimos formar a ideia comum de perspectivas diversas e até incompatíveis.
Isto é o mesmo que dizer que a integridade do pensamento pressupõe a ideia do todo que dá a cada parte o seu lugar na harmonia. Os excessos são sempre compensados e um ponto de vista só é justo através de um novo equilíbrio que o compensa.
Isto, evidentemente, faz pensar na democracia como um regime mais complexo, cujo equilíbrio é posto em causa pelas organizações primárias ou simplificadoras.
segunda-feira, 25 de julho de 2016
Subscrever:
Mensagens (Atom)














