segunda-feira, 4 de abril de 2016

(José Ames)

A OBJECTIVIDADE DO COLECTIVO



"A matemática é, portanto: tão objectiva que apenas ela é verdadeiramente colectiva; tão colectiva que apenas ela é verdadeiramente objectiva:"
(Michel Serres)

Que significa esta redução, na matemática, do universal para o colectivo? Serres parece pensar num contexto político, mais do que numa abstracção 'para-teológica'. É uma saída intencional da Razão Iluminista do século XVIII que veio durante um tempo a disputar o trono celeste.

Ao fim de contas, vamos encontrar aqui a melhor justificação de Rousseau e da sua descendência democrática. A 'vontade da maioria' adquire uma espécie de certificação racional, com esta comparação entre o colectivo e a objectividade e a matemática. O colectivo no seu modo estático, entenda-se, ou não soubéssemos que a sua dinâmica o pode transportar para as regiões ignotas de um deus como Pã.

Esta outra história da matemática é, porém, adequada à nossa imperfeição. E, de alguma maneira, continua o Kant da 'Razão Prática'.


domingo, 3 de abril de 2016

(Adare, Irlanda)

O GRANDE INCÊNDIO




"Era o fogo que unificava a situação. Sentíamos o fogo (no Palácio da Justiça de Viena, em 15/7/1927), a sua presença era avassaladora; ainda quando o não víssemos, tínhamo-lo presente no espírito, a sua atracção e a atracção exercida pelas massas era uma e a mesma força..."

"Masse et Puissance" (Elias Canetti)

A experiência dessa atracção não saiu do pensamento de Canetti, até que a 'exorcizou' pela escrita. Quando jovem testemunhou, em Frankfurt (1920), uma multidão tumultuosa em protesto contra a inflação. Sete anos depois, em Viena, a massa furiosa lança fogo ao Palácio de Justiça. O espectador é arrebatado por um temor que o paralisa. Canetti fala em atracção. O que se entende se considerarmos que a 'massa' na sua exibição de força pode esvaziar o discernimento do indivíduo e submetê-lo ao poder da imitação. A multidão agitada provoca sempre o alarme no 'cérebro reptiliano'.

No caso de um grande fogo há também uma espécie de curiosidade, mesclada de prudência. Precisamos de ver o incêndio controlado, a fim de podermos dormir.

A segurança é uma necessidade muito mal compreendida desde que confiamos no Estado e na polícia. Mas o terrorismo tem vindo a subverter esse 'pacto'; o Estado falha na segurança mínima, desde que o inimigo individual esteja disposto a trocar a sua vida pelo maior número de vítimas inocentes.

sábado, 2 de abril de 2016

(José Ames)

O HOMEM É UM SÓ


Maurice Blondel (1861/1949)




"O animal não tem paixão; o que há de bestial no homem reclama pelo contrário tudo o que exige a razão e a vontade, uma infinita satisfação."
"L'action" (Maurice Blondel)

Por um lado, o inferior explica o superior, e é a verdade do materialismo.

Mas, por outro, se há um todo, a unidade das partes obedece a um princípio que justifica todo o idealismo.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

(Espinho)

O INDICADOR NÃO FALA




Numa conversa ao almoço, com um professor, a certa altura tive que expor uma originalíssima ideia de Alain e as palavras não chegaram, tal é a força da "doxa".

A ideia é que a melhor forma de ensinar não é a demonstrativa. Por exemplo, substituindo as palavras pela imagem do objecto.
Esta tendência é, como se sabe, dominante, e vai da televisão aos guias do American Express.

A imagem, de facto, parece dizer tudo, mas deixa-nos afásicos, sem pensamento articulado (embora com emoções estéticas).

Por isso, e por paradoxal que pareça, quem sabe descrever um objecto que nunca viu sabe mais sobre ele do que quem apenas viu a sua imagem.

É que só se sabe o que é linguagem.

Sentir é outra coisa.

quinta-feira, 31 de março de 2016

(José Ames)

O PIOR DOS REGIMES

(Karp Popper)

"'Democracia' na acepção de 'governo pelo povo' praticamente nunca existiu, e nos casos em que existiu foi uma ditadura arbitrária e não responsabilizada. Um governo pode e deve ser responsável perante o povo, o governo pelo povo não pode existir. Não pode ser responsabilizado."

(Karl Popper)

Tudo isto é verdade, mas é preciso dizer que este povo perante o qual o governo deve ser responsabilizado, numa democracia, também não existe. Não podemos contar com o sistema eleitoral e com a separação de poderes para o criar. Não se pode falar em povo como um sujeito colectivo com uma idiossincrasia e um sentido de responsabilidade, como se fosse uma soma de indivíduos. Não sei se não deveríamos antes falar de um caos ou de uma 'irresponsabilizade organizada', como diz Ulrich Beck ("The world at risk").

Os momentos em que uma 'vontade' colectiva parece emergir dificilmente pertencem a uma racionalidade política e, portanto, parece mais apropriado falar em húbris do que em responsabilidade. Porém, pode-se também argumentar que, nesses momentos se joga a vida ou a situação, sem medo das consequências, ou melhor, no total desconhecimento delas, como uma verdadeira aposta.

E, é verdade que o jogador, apesar do risco, não pode deixar de ser considerado como o único responsável, mas à maneira como os antigos heróis eram confundidos por um deus.

Com isto, não se está a fazer mais do que uma variação sobre o 'cepticismo' de Churchill quando se referiu à democracia como o pior dos regimes políticos...


quarta-feira, 30 de março de 2016

(Braga)

A LUA SEM OUTRA FACE





"O nosso tempo não compreende entre os êxtases do sentimento senão o êxtase 'sentimental', e reduziu a embriaguês lunar a um desprezível excesso deste género. Não pressente que este êxtase, a menos que seja uma perturbação mental incompreensível, só pode ser um fragmento de uma outra vida!"
"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)

Ulrich, o 'homem sem qualidades', critica a frivolidade 'burguesa' e o seu farisaísmo cultural. Claro que é um ponto de vista 'retrógrado', que o separa do seu meio. É como a prerrogativa de um tempo passado que o conserva numa identidade ameaçada.

As suas excelentes qualidades são inúteis para o futuro da Cacolândia. São parte de um impasse austro-húngaro que Musil não se cansa de tematizar.

O nosso Álvaro de Campos, engenheiro naval de profissão, é contemporâneo do autor austríaco, e escreve quase no mesmo estilo de Ulrich sobre a 'embriaguês lunar', mas não dando qualquer hipótese a uma 'outra vida'.

O célebre heterónimo, na linha de um Walt Whitman, é uma encarnação do espírito americano, prático, prático, prático.

Mas a ambivalência está em todo o lado. Não há povo mais ingénuo quanto ao 'êxtase sentimental' do que o americano: é só ouvir as suas canções de amor, de umas décadas atrás.

terça-feira, 29 de março de 2016

(José Ames)

PASSADO E FUTURO

(Hannah Arendt)



"Contrariamente à nossa concepção de uma maturidade orientada para o futuro, os Romanos pensavam que a maturidade era dirigida para o passado."
(Hannah Arendt)

No entanto, assistimos a uma espécie de desenvolvimento histórico, desde a fundação de Roma até ao império (mas pode ver-se o começo da decadência logo a partir do fim da república).

A ideia de Arendt leva-nos a ver esse fenómeno com outros olhos. Mas temos de nos libertar das 'escamas' hegelianas e abdicar daquilo a que chamamos o processo histórico (talvez a herança dos post-hegelianos melhor conservada).

O passado refere-se a uma origem simbólica (753 AC, provavelmente) donde decorrre a legitimação do poder e da estrutura das classes sociais. Numa sociedade inspirada pela primeira astrologia, onde tudo está fixado para todo o sempre, o futuro nada tem a ver com uma eventual apoteose do homem (se o progresso científico não se destruir a si mesmo) que caracteriza os nossos mais do que incertos amanhãs.

Que faziam, então, os primeiros historiadores da nossa civilização? Em que é que a sua perspectiva era diferente da dos 'cronistas' modernos?

O registo de um Tito Lívio deveria ser, deste ponto de vista, conservador do passado para educação dos vindouros e assumiria a forma, 'nostálgica', de um 'afastamento' da origem (a idade de bronze, por exemplo, em relação à idade de ouro).

A incerteza do futuro que é o nosso fardo, o risco crescente, à medida em que ascendemos a uma espécie de consciência da globalidade, não nos permite senão o sentimento da fragilidade humana, ou o refúgio na paranóia revivalista.



segunda-feira, 28 de março de 2016

(Cracóvia)