quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

GUIA PARA CEGOS


(Michel Houellebecque)

"Os homens e as mulheres que frequentam as 'boîtes' aos pares renunciam rapidamente à procura do prazer (que exige finura, sensibilidade, lentidão), em proveito de uma actividade fantasmática bastante insincera no seu princípio, de facto, decalcada das cenas de 'gang bang' dos pornos 'mode' difundidos pelo Canal +."
(Michel Houellebecque)

É sabido que a luxúria é considerada pela teologia católica como um pecado capital que consiste em procurar os 'prazeres da carne', e os 'anjos maus' foram os responsáveis pela sua introdução no mundo: "Com efeito, estes anjos pecadores e apóstatas ensinaram as mulheres a se maquilharem e a frisarem o cabelo."

Não se pode dizer, claro, que este 'pecado capital', é uma construção artificial dos teólogos, dado que a sua importância no sistema da culpa católica vai muito para lá do 'prazer sexual', e é, por assim dizer, estrutural. Para criar a altura do Céu não se podia deixar de cavar o abismo. A distância em relação à natureza é, pois, uma condição necessária.

Houellebecque, pelo seu lado, fala-nos de uma "baixa tendencial da taxa de prazer' que 'seria, ao mesmo tempo, sumária e inexacta. Fenómenos culturais e antropológicos, segundos, o desejo e o prazer, finalmente, pouco explicam da sexualidade."

A 'renúncia do prazer' na cultura da noite de que nos fala o escritor evoca um 'mundo do avesso' em que parece necessário um guia para cegos.


terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

(José Ames)

UMA ENTREVISTA

(Agustina Bessa-Luís)


CFA: Deus? Deuses? 
AB-L: Deus. O equilíbrio perfeito do cosmos. Acredito nisso, e numa sobrevivência. Vivo rodeada de fantasmas. 
CFA: Isso não contradiz a sua racionalidade? 
AB-L: Não. É também uma forma de racionalidade. Para certas pessoas é mais fácil acreditar que não acreditar."

(Entrevista de Clara Ferreira Alves a Agustina Bessa-Luís)

Esta entrevista já tem uns anos e não é possível hoje voltar a interrogar a sibila. Mas aqui, a grande escritora deixa-nos uma ponta do seu novelo ariânico.

Como é que a racionalidade se liga tão intimamente à crença, tão longe de ser o seu oposto, como pretende uma certa tradição filosófica e o próprio senso comum? Não se censura aquele que se deixou vencer pelas preferências pessoais na hora de julgar?

Esse 'erro' não se pode atribuir a Descartes, o pai do racionalismo moderno. Basta ler o seu 'Tratado das Paixões' para ficarmos a saber que a razão ganha mais no bom uso das paixões do que no combate a elas, sabedoria que nos legaram os estóicos.

É razoável, pois, que esta 'política' pressuponha, não uma racionalidade separada, mas uma razão consubstancial à 'inteligência do corpo' (Agustina).

A dificuldade em não acreditar vem de não ser 'natural' este desentranhar da razão e de esta não poder encontrar em si o seu próprio fundamento.

Começamos por acreditar que a razão não nos engana (o que Descartes dizia de Deus). Depois nas provas dessa razão que trouxeram ordem ao caos. Mas, no entanto, devemos também acreditar que a razão não se esgota na ciência e na técnica, nem no ordenamento do caos.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

(Porto)

O CONSENSO

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"O consenso é apenas um estado das discussões e não o seu fim. Este, na verdade, é a paralisia."

Jean-François Lyotard ("La condition post-moderne")

Isso depende do tempo de que se trata. O tempo da acção não é paralisado pelo consenso, antes pelo contrário. Ele pode ser o clique que a precipita, por corresponder a uma opinião previamente condicionada e aparentemente 'espontânea'.

Porém, a discussão foi tão-só interrompida pelo consenso. Os 'dados', uma vez lançados, modificam a situação e as opiniões. Se a 'assembleia' permanecesse em discussão aberta depois do primeiro consenso, logo a necessidade de um segundo acordo se apresentaria, confirmando ou alterando a sua primeira forma.

Não é assim, evidentemente, que funcionam os órgãos políticos de decisão. O que se parece mais com o modelo implícito de Lyotard é a reflexão solipsista que, de facto, mesmo se o acordo é apenas consigo própria, não pode deixar de continuar a discutir.

Claro que o 'fim da discussão' corresponde a uma paralisia do pensamento para o indivíduo, mas é um pressuposto da acção. Razão por que faltam ao 'solipsista' as motivações 'terrenas' para agir.

domingo, 31 de janeiro de 2016

(José Ames)

HOMO SIMPLEX




"(...) a ideia que Engels retirou de Saint-Simon: a dominação dos homens pelos homens cede lugar à administração das coisas."
(Jürgen Habermas)

Foi esta fórmula que inspirou a Lenine a célebre parábola da cozinheira, suficientemente instruída para dirigir o Estado proletário, a qual, por sua vez, esteve na origem de "La cuisinière et les mangeurs d'hommes" de André Glucksmann.

A ideia é 'proletária', como diria Alain. Se a sociedade deixar de ser 'artificialmente' complicada pela desigualdade nas 'relações de produção', isto é, quando a 'divisão de tarefas' implicada pelo sistema de produção for apenas técnica e sem consequências políticas e sociais, quando, finalmente, a sociedade, vendo-se ao espelho, se reconhecer numa imagem sem fracturas 'esquizóides' (Deleuze), inconsútil na unidade virtuosa do 'bom selvagem' todos os problemas políticos serão mitológicos e o governo do Estado poderá ser entregue a um administrador ou a uma administradora medianamente competente.

O 'espírito proletário', confrontando-se com um problema mecânico, vai direito ao assunto sem mais subtilezas interpretativas. A ferramenta (a revolução), existindo desde os Profetas Alemães, há só que aplicá-la, pondo fim ao palavreado inútil que mais não é que um sofisma da 'ideologia dominante'.

A realidade, depois desta terraplanagem teórica, torna-se de facto muito simples. E a única divisão que persiste é entre os que têm e os que não têm 'vontade política'.

sábado, 30 de janeiro de 2016

(Alcácer-do-Sal)

LEVIATÃ

Frontispice du Léviathan de Thomas Hobbes


Na política, onde se encontram tantas paixões, qualquer coisa tem de ser sempre de mais, ou sempre de menos. O ponto de vista é rei e, dum certo ponto de vista, todos têm razão. Quando há um acordo sobre o princípio é para melhor se dissentir na aplicação.

Reclama-se tempo para estudar ou para negociar e ao mesmo tempo quer-se a energia e a coragem de cortar a direito.

Embora todos saibam que decidir não é conciliar, nem contemporizar, mas preterir, pôr de lado, sacrificar, ter uma agenda e ter prioridades, a escolha a todos escandaliza. Não sendo as mais importantes, as questões de forma ocupam toda a cena política.

É desta algazarra, porém, que sai o poema coral e, se não se vê uma racionalidade, é porque um equilíbrio de tensões não é um pensamento, mas é como que um ser natural que se move sempre para a frente e sempre em risco de cair.

"Não se desmonta uma máquina enquanto ela trabalha; assim, para que a unidade do indivíduo se mantenha e se confirme, é preciso que uma cooperação constante associe as suas forças, e que o equilíbrio sem cessar ameaçado seja sem cessar reparado, como numa marcha que é com efeito apenas uma queda sempre impedida."
"L'action" (Maurice Blondel)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

(José Ames)

ENTRE CILA E CARÍBDES




"Alain é daqueles que sabem que crêem, e não daqueles que crêem que sabem."
(André Sernin) 

Não podemos culpar a Europa que cumpre uma rotina ao mandar-nos os seus 'legatis in partibus' para nos lembrar os nossos compromissos, de acordo com regras consentidas, regras que, desde o princípio, servem para normalizar a 'relação de forças' e a violência da sociedade real. Não preciso de lhe chamar capitalista, o que tal sociedade obviamente é, porque no capítulo da violência estrutural, nenhuma utopia política que até agora se tenha tentado levar à prática foi capaz de resolver esse problema.

O poder da União Europeia não se pode definir por nenhuma das alternativas em epígrafe. Com efeito, não precisa de crêr que sabe, nem de saber que crê. Porque toda a sua ciência é administrativa e fiscalizadora das suas condições de auto-preservação, e mais não se pode pedir à burocracia, ou ao 'Afável Monstro de Bruxelas', como lhe chamou Hans Enzensberger. Como a União não existiria sem a criatura, com mais ou menos decoração democrática, o melhor é procurar outro antídoto, dado que uma certa dose de burocracia é sempre necessária.

Se isto for verdade, Catarina Martins (não falo do resto da esquerda porque tem uma história de bloqueamento suficientemente elucidativa.) talvez não seja tão irrealista como parece nas entrevistas da televisão. Porventura ela sabe que crê, porque ninguém sabe, e muito menos os técnicos de economia e as agências de notação que, no entanto 'existem', como verdadeiros escolhos.

Mas a política pode ser um mar agitado e o importante é encontrar passagem entre Cila e Caríbdes.



quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

(Lisboa)

HIPNOSE

cienciahoje.uol.com.br




"(...) ele quis acordar do sono antropológico todos aqueles 'que não querem pensar sem ao mesmo tempo pensarem que é o homem que pensa.'"

(Jürgen Habermas, referindo-se a Michel Foucault)

Como se sabe, Kant tentou despertar-nos, a primeira vez, de um sono 'dogmático', sono que impedia a razão de reconhecer os seus próprios limites e a fazia correr atrás dos nossos sonhos.

Mas, entretanto, a filosofia descobriu um sono mais profundo ainda, aquele que tem sustentado, há mais de dois milénios, a noção de sujeito que está na base da civilização ocidental e do próprio monoteísmo.

Desde que o objecto de estudo passou a ser a forma e as condições do pensamento, a estrutura linguística e as suas regras, de acordo com o programa materialista (que já vem de Demócrito - Marx dixit), a 'hipótese de Deus' tornou-se, de facto, supérflua (Laplace).

O inesperado surge com a necessidade teórica de fundamentarmos a existência de um sujeito individual que pensa, depois da genial tentativa cartesiana. E dá-se que a hipótese de tal indivíduo, pode ser, também ela, afastada.

A conclusão é a de que não podemos pensar o que pensamos. Algo, a linguagem, o contexto, a história, a Natureza, nos confisca essa autoria. Já dizia o poeta: 'o que em mim sente, está pensando'. E Freud cavou no mesmo terreno com o seu Inconsciente.

Até a fórmula de Alan Kay, um pioneiro dos computadores ('A melhor maneira de predizer o futuro é inventá-lo.'), parece parte de uma hipnose.



quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

(José Ames)

O VAZIO



www.elephantjournal.com



"'A acústica do vazio'. Quando um alfinete cai no soalho de um quarto vazio, o ruído que faz parece desproporcionado, desmedido: é o mesmo que acontece quando o vazio reina entre os seres."

"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)

Basta a mobília para que um quarto não esteja vazio. Ninguém precisa de estar lá. Entre os seres, é o tempo (em) comum que os 'mobila'. Não só o passado, porém, mas todos os modos do tempo.

Perante um desconhecido não é o vazio que aparece, mas as projecções recíprocas de um futuro, por insignificante que seja. De facto, o que é natural é darmos-lhe algum crédito, antes de sabermos se o merece. Alguns dos mudos figurantes da nossa 'comédia humana' são mesmo indecifráveis e, provavelmente, profundos (de um modo não queirosiano). Mas o vazio nunca é o caso.

O cineasta Antonioni, nos anos setenta, ficou célebre por ter introduzido em alguns dos seus filmes o tema do silêncio entre as personagens, uma espécie de 'mal de vivre' sem causa específica. É, contudo, legítimo pensar que o cinema tem a sua própria geneologia e que este desconforto das personagens de Antonioni descenda, por emaranhados caminhos, do 'Rebel whithout a cause' de Nicholas Ray. O ponto, no entanto, é que o vazio não dá lugar a nenhuma rebeldia. São mundos separados por velocidades diferentes. Daí a incomunicabilidade que James Dean tão bem exprimiu.

A frustração e a impotência é que preenchem esse silêncio. Coisas negativas, decerto, mas que não fazem o vazio.