domingo, 13 de outubro de 2013

Sem título

 

DA TRISTE FIGURA

Dom Quixote
"Porque ele obstinadamente recusou ajustar 'a imensidão do seu desejo' à 'pequenez da realidade', estava condenado a um perpétuo fracasso."
(Miguel de Unamuno, citado por Simon Leys in "Tha hall of uselessness")

Aquelas palavras referem-se a Dom Quixote, o Cavaleiro da Triste Figura. Leys emparceira com Unamuno e muitos outros na crítica dirigida ao autor, que fez tudo para tornar ridícula a sua criação, na verdade, um símbolo da verdadeira fé. É como se Cervantes não estivesse à altura da sua personagem...

Parece que não há nada a fazer. O maior dos filósofos teve uma sorte parecida, visto que só é lembrado na linguagem corrente pelo adjectivo platónico, para significar o amor que não se consuma, que não sai da esfera do ideal, características que hoje são distintivas da frustração e do malogro.

Quixotesco, pelo seu lado, remete para alguém fora do seu juízo, perdido, não na 'imensidão do seu desejo', mas encarcerado na sua lamentável loucura. O desfecho do romance parece dar razão aos 'ajuizados', aos que se conformam com o estado do mundo, e o próprio fidalgo, na hora da morte, 'reconhece os seus erros'.

Donde vem então a universal admiração por esta figura anacrónica, que confunde moinhos com gigantes e persevera em tratar uma pobre camponesa como a mais bela e merecedora das damas?

Não existe, infelizmente, um quixotesco 'positivo' (nem a palavra o consente; quixotesco rima com grotesco e outros epítetos pejorativos). Não deixa de ser verdade que grande parte das acções 'nobres', desde o princípio votadas ao insucesso, se aparentam à espécie de loucura de Dom Quixote.

Segundo Simon Leys, o fiel escudeiro, Sancho, "não acreditava naquilo em que o seu mestre acreditava, mas acreditava no seu mestre." Pelo que Sancho foi 'convertido', não pelo fidalgo trocar gigantes por moinhos, mas pela sua fé.

 

sábado, 12 de outubro de 2013

Sem título

Gramido

 

A QUEDA DOS CORPOS

"La haine" (1995)


Em "O ódio" (1995-Mathieu Kassovitz), conta-se uma anedota que resume o filme: um homem cai abaixo dum edifício de 50 andares e vai dizendo para si, ao passar pelas janelas:

- até aqui, tudo bem; até aqui tudo bem.

A moral da história é, então, que o importante não é a queda, mas a aterragem.

E, hora a hora, a vida dos três marginais de "O ódio" é como uma vertigem, sem um momento para pensar.

A partir do momento em que um aparece com um revólver nas mãos, sabemos que a "aterragem" é uma questão de minutos.

Uma necessidade, nem por ser social e indefinível, menos imperiosa, actua sobre estes seres destituídos de qualquer autonomia, como outra lei da queda dos corpos.

 

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Sem título

(José Ames)

 

PEREGRINAÇÃO

Peregrinos

" Se queres ir de Roma a Jerusalém, segue para sul e pergunta ao longo do caminho."

('Guia dos peregrinos a Santiago de Compostela' referido por Umberto Eco)


Não é por termos um mapa ou um GPS que os encontros e desencontros da vida deixam de se suceder. Mas se à partida temos de perguntar o caminho, a incerteza parece muito maior.

Não há dúvida que ao rodearmo-nos de tanta informação e de instrumentos cada vez mais precisos, satisfazemos um desejo de segurança e nos sentimos como que agarrados à realidade. Mas a precisão é muito relativa. A nossa segurança está assente em alguns mitos confortáveis.

Muitos, como Morin, consideram que a teoria do 'Big Bang', por exemplo, é um desses mitos. É menos ingénuo do que a Teogonia de Hesíodo? Talvez, mas isso é um exercício como o de Mark Twain em "Um americano na corte do rei Artur".

Calafetamos a nossa embarcação para a proteger do que não faz sentido. Coisas que estão no âmago do ser, mas com as quais a grande maioria não consegue conviver.

A morte, em primeiro lugar, claro. Não podemos iniciar a peregrinação sem perguntar pelo caminho...

 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Sem título

Dubrovnik

 

O CHÁ DA TARDE

Fiama Hasse Pais Brandão

"Só o chá me traz a minha tarde,
com a chávena e a minha mão que são
o mesmo pedaço de calcário."
(Fiama: "Canto da chávena de chá")

Será o 'chá da tarde' uma dessas coisas inúteis de que fala Zhuang Zi? E, claro, a própria palavra chá não é indiferente para quem pensa no que é o chá...

Depois, há aquele parapeito donde avistamos a semelhança do calcário. Mas o poema não evoca em nós a morte e a passagem do tempo com a mais ténue sombra de nostalgia. É o momento, mas não a passagem. Dir-se-ia tratar-se antes de uma reconciliação sem margens para o espírito inquieto.

O 'chá da tarde' é um mito pensado e saboreado. Real.

 

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Sem título

(José Ames)

 

A INFERNAL VIRTUDE

"Hannah Arendt" (Margerete von Trotta)


Ainda o filme de Margarete von Trotta sobre Hannah Arendt. Ligada ao julgamento de Eichmann, está tambem a questão da atitude ambígua dos conselhos judaicos. Essa atitude estaria entre a zona da responsabilidade e a da indiferença.

Como perfeccionistas da organização, os alemães aproveitaram a força dos laços tradicionais entre os judeus, a sua própria organização, como alavanca para os levar o mais ordenadamente possível para o matadouro. É aí que entram os famosos conselhos.

Não é preciso pensar no privilégio (desde logo o de terem mais probabilidades de salvar a própria vida) que isso representava para os que 'colaboraram' com as autoridades nazis, nem na justificação de esporadicamente poderem intervir a favor de um ou outro judeu. A verdade é que o caos ou a simples desorganização trariam, provavelmente, mais sofrimento desnecessário às vítimas.

Não é absurdo pensar que o mito da superioridade ariana produzisse, naqueles que eram tratados como menos que nada, o desejo de serem dignos ao menos como partícipes da eficiência, mesmo quando era dirigida contra eles.

O filme de Trotta revela como ainda é nova a percepção de Arendt. Porque a incapacidade de pensar, ou a falta de coragem para pensar são de todos os tempos.

 

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Sem título

 

Santo Tirso

 

HANNAH ARENDT


"Hannah Arendt" (2013, Margarethe von Trotta)





Entre um cigarro e outro, Hannah pensa (o tal saber que não é conhecimento, como diz o mestre). Donde vem a estranheza perante a mediocridade daquele dignitário nazi que organizou, por toda a Europa, o transporte de judeus para as câmaras de gás? Donde vem aquela invulnerabilidade da consciência funcionária?

Arendt, ao escrever sobre o julgamento de Eichmann, não podia ignorar que era uma pessoa e não um regime, e não uma doutrina por mais assassina que fosse que estava no banco dos réus. Um julgamento pelas vítimas, no país das vítimas. Podia falar-se de justiça, 'segundo as formas da justiça', ou deveríamos falar de ajuste de contas, de aparatoso linchamento, de uma espécie de julgamento popular?

A mediocridade desta 'fera capturada' vinha-lhe de, obviamente, ele não estar à altura dos seus crimes. Crimes nunca vistos na história e que não podiam ser o resultado da vontade de um funcionário zeloso. A tese de Hannah Arendt é que este homem banal era um perito da organização ( no que, por vaidade, podia até ir além das ordens que tinha), mas era incapaz de exercer um juízo próprio, para se adaptar ao 'estado do mundo' tinha abdicado de pensar. O tal pensamento que não é cálculo, nem habilidade de fazer, que não é esperteza, nem sequer inteligência. Mas que é saber viver e pôr-se as questões fundamentais da existência.

A lição do nazismo alemão foi a de que o mal que qualquer um de nós pode fazer não tem limites, a partir do momento em que a dimensão pessoal deixe de ser da nossa responsabilidade. Quando entregamos a nossa capacidade de julgamento a qualquer coisa fora de nós: um colectivo, um partido, um computador. Lembram-se do Hal 9000 do filme de Kubrick?

Não admira que tantos dos seus amigos tivessem virado as costas a Arendt depois da publicação de "Eichmann in Jerusalem".

Para esses ou outros como esses, Arendt será sempre a que traiui o seu próprio povo. Mas um povo não pensa...

Pensar, verdadeiramente, é sempre um escândalo para
o 'sono dogmático'.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013


(José Ames)

A ARTE DO ABORRECIMENTO


The coca chewer (Colombia)



"No seminário, há uma maneira de comer um ovo escalfado, que anuncia os progressos feitos na vida devota."
"Le Rouge et le Noir" (Stendhal)

Parece uma "boutade", mas o homem conhecia, como ninguém, o poder das maneiras sobre a paixão.
O marquês de La Mole sugere que Julien receba lições de dança para se livrar dum rústico movimento de ombros, ou, por ter ainda o ar dum provinciano, que estude a aristocracia à saída da ópera.

A perfeição é eliminar-se o pensamento parasita que nos faz perder o balanço na acção e que ofende em sociedade. Mas o preço a pagar é alto: "Apesar do bom tom, da perfeita polidez, do desejo de ser agradável, o aborrecimento lia-se em todas as frontes. Os jovens que vinham cumprir um dever, tendo medo de falar de alguma coisa que fizesse suspeitar um pensamento ou trair qualquer leitura proibida, calavam-se depois de algumas palavras elegantes sobre Rossini e o tempo que fazia."

É por isso que o modo de comer um ovo pode revelar tanto sobre a obediência e a completa absorção do espírito pela tarefa. Ocorre-me, porém, o exemplo daquele estadista americano de quem se dizia que quando mascava o seu chicklet não se esperava que pensasse em mais nada.

domingo, 6 de outubro de 2013

Sem título

 

Puglia