quinta-feira, 14 de julho de 2016

TRAIR O QUÊ?


(The Punishment Of A Traitor)




"Mas existe um anti-patriota que honestamente provoca a zanga de homens honestos, e a sua explicação é, penso eu, o que já sugeri: ele é o pouco sincero amigo sincero; o homem que diz: "Tenho pena de o dizer, mas estamos arruinados" e que não tem pena nenhuma. E pode dizer-se dele, sem retórica, que é um traidor; porque está a usar desse feio conhecimento que lhe foi concedido para fortalecer o exército, para desencorajar as pessoas de se alistarem. Porque lhe é permitido ser pessimista como conselheiro militar, ele está a ser pessimista como sargento recrutador."

(G.K. Chesterton)

O sistema de partidos, feliz ou infelizmente, acabou com os traidores, porque não se pode trair na ausência de uma fé comum. E só a guerra pode calar as divergências e presumir uma tal fé. A traição só se entende no domínio privado.

Vemos, assim, que todos os pessimistas mudaram de humor com a sua passagem ao poder. E o optimismo dos que governaram até essa altura virou em fel político, arrastando com ele uma visão sobre o país fatalisticamente negra.

Contudo, ninguém traiu. Pelo contrário todos, não importa adeptos de que partido, cumpriram 'as regras do jogo' que já não são de inspirar quem quer que seja e de incutir a força moral necessária, mas as de permitir uma escolha entre o 'pareil' e o 'même'.

A que se presumia a mais forte e a mais antiga das democracias modernas, o modelo de tantas outras, mostrou no 'Brexit' que continua a ser possível a existência de democracias sem democratas, que o 'povo soberano' é tão passível de ser manipulado pelo medo, como as multidões do 'panem et circenses'.

As agências financeiras e os fundos especulativos tornaram-se os verdadeiros mestres de cerimónias. A sua função é espalhar o pessimismo (como o célebre 'there is no alternative') pelos povos.

Eles não podem condoer-se das consequências dos seus 'conselhos', porque vivem delas.


quarta-feira, 13 de julho de 2016

(José Ames)

A ROMA DE FEDERICO




"Sabemos que Roma é uma cidade carregada de História, mas a sua sugestão está antes num quê de pré-histórico, de primordial, que nitidamente aparece em algumas das suas perspectivas ilimitadas e desoladas, em certas ruínas que parecem resíduos fósseis, ossos, como de esqueletos dos mamutes."

(Federico Fellini)

O cineasta italiano diz também que em Roma há pouquíssimos nevróticos o que impediria uma certa maturidade:

"Aqui não há nevróticos nem tampouco adultos. É uma cidade de crianças apáticas, cépticas e mal-educadas; até um pouco disformes, psiquicamente, já que impedir o crescimento não é natural."
(idem)

É um paradoxo que a história, na cidade antiga mais 'documentada' tenha sido devorada por um passado ainda mais antigo. É certo que Fellini se refere à sugestão ou à imaginação. Mas as ruínas não têm que ser interpretadas como prova do passado. A proeza de Fellini é conseguir dirigir aos vestígios da Roma Antiga um olhar tanto quanto possível inocente de qualquer leitura histórica.

Assim, o que acontece é que a 'pègada humana' perde os seus contornos na 'pègada' maior. Com isto, são também os traços da culpa que se apagam.

O habitante da Roma felliniana vive numa espécie de limbo sem a falsa profundidade da culpa. E tudo isto é o mais pagão que podemos imaginar.


terça-feira, 12 de julho de 2016

(Porto)

A DOENÇA DOS ESPECÍFICOS



(Albert Einstein)


"Mas oponho-me à ideia de que a escola deve ensinar directamente aqueles conhecimentos específicos que viremos a empregar mais tarde na vida activa. As exigências da vida são demasiadamente variadas para que seja viável esse ensino específico e directo. Parece-me, à parte isso, condenável tratar o indivíduo como uma ferramenta morta. A escola deve ter como objectivo que os seus alunos saiam dela com uma personalidade harmoniosamente formada, e não como meros especialistas."


                                                                                               Albert Einstein (1936 - "Sobre a Educação")

Como, em vez disso, o nosso caminho é o da perdição quando ouvimos a classe dirigente lamentar-se de que a escola está demasiado afastada das necessidades da economia! Era caso antes para dizer que quanto menos específico o ensino, mais realista e mais adaptado à permanente mudança que é a da sociedade de hoje. Formar o juízo e a capacidade de inteligir é muito mais importante do que tudo o que possamos memorizar e que, em grande parte, está condenado ao esquecimento. E não está aí a memória objectiva das máquinas para relativizar esse tipo de saber?

segunda-feira, 11 de julho de 2016

(José Ames)

DUALISMO METÓDICO



Descartes (Groninger Museum)


"(...) não concebo qualquer extensão de substância em Deus, nos anjos ou em nosso espírito, mas apenas uma extensão de poder, de modo que um anjo pode proporcionar esse poder a uma parte maior ou menor de substância corpórea; pois se não existisse corpo algum, esse poder de Deus ou de um anjo não corresponderia a nenhuma extensão. Atribuir à substância aquilo que só pertence ao poder é efeito do mesmo preconceito que nos leva a supor toda substância, até a do próprio Deus, como uma coisa que pode ser imaginada."

(Descartes em resposta a Thomas More)

A acepção em que o grande filósofo considera a palavra poder não se 'encaixa' nos nossos usos de linguagem. Mas dentro do seu esquema dualista faz sentido considerá-la como a 'res cogitans' que, ao lado de Deus e da 'res extensa' formam a sua trilogia ontológica.

O 'método' leva-nos a pensar o mundo em termos de espírito e matéria, não como se fosse essa a sua realidade, mas como a forma mais 'rigorosa' de separar coisas absolutamente distintas e, assim, seria como uma 'prótese' epistemológica que nos permitisse entender o mundo em que vivemos e pensamos.

É o que Proust sugere no seu exemplo das lentes que experimentamos para obviar às insuficiências da nossa visão. O oftalmologista não nos interroga sobre a qualidade do que vemos, mas apenas pergunta se vemos melhor.

Segue-se que, para Descartes, não faz sentido atribuir realidade corporal ao que aumenta, em nós, o 'poder' (ou o espírito). E alguns contestarão esta afirmação com o testemunho de criadores motivados pela mescalina, por exemplo.

Mas o método cartesiano permite-nos mover a linha de separação. É o que todos fazemos quando empregamos a palavra 'verdadeiramente'.

domingo, 10 de julho de 2016

(José Ames)

O GÉNIO


Jinn lamp. ℱα℮ḯґ℮ Ðυṧт & Ðяεαღ †αł℮ṧ

"Na Grécia, o mito escapou-se do rito como o génio se escapa da garrafa."
(Roberto Calasso)

Seria, então, a dança a origem das ideias? O pensamento no estado de harmonia com o corpo. É tardia esta percepção entre os modernos de que o 'corpo' também pensa.

Muitos criadores situaram a origem das suas melhores ideias na sua infância quando os titãs, os deuses da terra, são tudo o que aparece, e o pensamento se debate no magma inicial.

Perguntamo-nos, contra essa ideia, se a 'originalidade' do indivíduo pode ter aí o seu fundamento e se, na ausência ainda da história de cada um, do seu 'acquis', não seria antes essa a marca do 'impessoal' que na interpretação de Simone Weil, por exemplo, seria a 'casa do sagrado'.

Se assim fosse, talvez vivamos na ilusão de que o 'génio' é o mais pessoal do indivíduo, quando o verdadeiro génio não está na idiossincrasia ou no percurso do indivíduo, mas em algo que o transcende de todo em todo.

sábado, 9 de julho de 2016

(José Ames)

A VERTIGEM DA NOITE

Luís II da Baviera


"(...) A noite... não há coisa mais bela do que a noite. Diz-se que o culto da noite...da lua...é um mito maternal... Enquanto que o culto do dia, do sol, seria um mito viril... E, no entanto, para mim o mistério, a grandiosa beleza da noite foram sempre o reino sem limites dos heróis. E, portanto, também o da razão... Pobre doutor Gudden, obrigado a estudar-me de manhã à noite e da noite à manhã. Mas eu sou um enigma. Eu quero permanecer para sempre um enigma, para os outros, e mesmo para mim."

("Luís da Baviera" in "Luchino Visconti, Les Feux de la passsion" de Laurence Schifano)

Mesmo um rei, quando mergulha assim no domínio do irracional e o seu romantismo tem tão desastrosas consequências no orçamento, depressa encontra os limites do seu poder.

Por maioria de razão, numa época em que a monarquia se achava já em tantos países limitada constitucionalmente.
Ainda assim, as fantasias de Luís II não foram em pura perda.

Os seus palácios, que atingiram a perfeição do kitsch, são hoje visitados por milhares de turistas, como tantas outras megalomanias do passado.

Mas o que torna o caso do sucessor de Maximiliano II tão cativante é a força das suas ilusões e do seu irrealismo que o separam do poder como se dum reagente químico se tratasse.

sexta-feira, 8 de julho de 2016


(Cuenca)

SILVA, SIMPLESMENTE




A propósito da fortuna dos nomes e da necessidade de arranjar outros para ter sucesso, Casanova, depois de citar os casos de Voltaire e d'Alembert, diz:

"Se ele tivesse conservado o seu nome de Tognolo, este nome prejudicá-lo-ia muito, porque não poderia nunca pronunciá-lo sem lembrar o que, pelo mais desprezível dos preconceitos, se chama de baixa extracção, e a classe privilegiada, por um abuso culpável, não crê que num camponês possa existir elevação e génio. Virá o tempo, sem dúvida, em que a sociedade, mais esclarecida e por conseguinte mais razoável, reconhecerá que em todos os estados os sentimentos nobres, a honra e o heroísmo se podem encontrar tão facilmente quanto numa classe cujo sangue nem sempre está isento da mácula do aviltamento."

"Memórias de Casanova"

Já por aqui passaram Beaumarchais, os Enciclopedistas e a Revolução Francesa.

É o que faz escrever sobre o passado longínquo.

O jovem estouvado que corria atrás das suas conquistas galantes não teria certamente feito esta reflexão.

Mas não me resta se não concordar quanto à questão dos nomes.

Ninguém poderá nunca reconhecer o mérito a alguém que assine simplesmente Silva.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

(José Ames)

ORIGINAIS E CÓPIAS

Teoria das Ideias de Platão (http://afilosofia.no.sapo.pt)

"Supondo ordem mesmo entre os objectos que não se precedem naturalmente uns aos outros."
Descartes
A força deste pensamento foi-me mais uma vez presente, ao ler as notas de Albert Einstein sobre a noção de espaço contínuo deste filósofo.

Naquela suposição, que é de facto uma posição, apenas apoiada na decisão de fazer o mundo corresponder às leis do espírito, está contido o essencial da doutrina cartesiana.

Não é que o mundo seja amorfo e caótico e que nesse caos a determinação da vontade faça a lei.
É antes crer que se encontramos a ordem dentro de nós, é porque ela existe também no universo, visto que nós não nos criámos a nós próprios.

É verdadeira, pois, a Teoria das Ideias expressa no "Fédon".

Só precisamos de nos lembrar do que, com todo o ser, já sabemos.