domingo, 15 de maio de 2016

(José Ames)

A DÉCIMA PRIMEIRA


197º Aniversário - Karl Marx - 2015 

" Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo."
"Teses sobre Feuerbach" (Karl Marx)

A enorme influência de Marx na sociedade contemporânea não pode ser negada, e muito menos pelos seus adversários, pessoas, instituições e até estados, que viram nas suas ideias um retrocesso da civilização e um perigo para a humanidade.

A chamada refutação do filósofo de Trier pelos factos, no entanto, tem sido posta à prova e apresenta indisfarçáveis fissuras. O objecto de estudo do 'Capital' talvez já tenha pouco a ver com as metamorfoses do 'sistema' nos nossos dias. Mas o velho Marx, não já como grande economista (título que, no mundo ocidental, poucos lhe concederam), e antes como profeta, parece erguer-se do túmulo e saltar das T-shirts da pop-arte para a maré suja das opiniões (a 'doxa', bem ou mal desprezada desde Platão).

Talvez este ressurgimento tenha a ver com uma real falta de alternativas e, por isso, não seja mais do que uma pausa na corrida da 'modernidade' para o abismo.

A verdade é que a 11a. tese sobre Feuerbach não foi apenas um clique genial para simplificar a escolha revolucionária. Não nasceu do nada, obviamente, e no fundo representava o 'espírito do tempo' (incluído o do 'capitalismo') com mais eficácia do que os analistas de todos os jaezes o podiam supor.

O enfoque na 'praxis' (a 'transformação do mundo') foi a chave para uma 'caixa de Pandora' que ninguém sabia que se estava a abrir. Não significa o abandono de todo o 'idealismo', de todos os 'pruridos' da filosofia alemã, o derrube de uma das últimas barreiras que entravavam o (futuro) advento da 'Desregulação'? Não se agravaram, incomensuravelmente, os riscos e a falta de controlo a nível global?

A consigna da 'transformação do mundo', por ser necessariamente baseada na 'impossibilidade de saber', libertou as forças contidas no caldeirão das bruxas de McBeth que hoje apresentam as fauces do 'eterno sistema' da 'irresponsabilidade organizada' (Beck).

Como é da praxe, as primeiras vítimas foram os 'revolucionários'. A figura tutelar desse 'sacrifício' continua a ser Saint-Just. O justo feito carrasco e depois justiçado e, a seguir, de uma certa maneira, 'santificado'.

sábado, 14 de maio de 2016

(Lisboa)

O AMUO DO HERÓI




O herói da Ilíada é Aquiles, mas na maioria do poema está ausente, longe da cena, junto às naus dos Mirmidões, no mais celebrado amuo de toda a literatura.

A guerra só poderá decidir-se a favor dos Gregos se Aquiles se vencer a si mesmo e voltar aos combates.

"Como se sabe a Ilíada tem vinte e quatro cantos. Durante os primeiros dezoito, Aquiles continua amuado em consequência da desconsideração de que foi alvo no Canto I e recusa-se a combater. É o herói bélico por excelência , mas podemos ler oitenta por cento da Ilíada sem que ele pegue numa única arma." (Frederico Lourenço)

Esta espera é pois um longo "suspense" (técnica que, como se vê, não foi descoberta por Hitchcock).

Se pensarmos, porém, que o regresso do herói significa também o fim da sua curta vida, pois que a seta de Páris o ferirá no seu único ponto vulnerável, o deferimento é motivado por muito mais do que uma paixão irracional.

Porque é uma boa imagem do amor à vida, quando se sabe que o cálice não pode ser recusado por muito tempo.

E o calcanhar, por onde o segurou Tétis, em criança, para o mergulhar nas águas do Estige, um dos rios do Inferno, é o sinal da impotência e da imprevidência dos deuses, da Lei a que mesmo eles têm de obedecer.

Nada disto é abstracto, como a ideia da perfeição, da ubiquidade ou dum ser todo-poderoso.

A teogonia é um teatro nas núvens para edificação dos mortais.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

(José Ames)

A SEGUNDA CRUCIFICAÇÃO






'Salvator mundi' (Antonello da Messina) 


"A arte liberta-nos da verdade, como dizia Nietzsche." (Romeo Castellucci)


"Sobre o conceito do rosto de Cristo", ontem no Rivoli.

O teatro de Castellucci emancipou-se da palavra; os actores falam um italiano neutro, quase supérfluo, sem as conotações da língua e num estado de transição para a 'matéria'. É ainda teatro? Por que se invoca a raiz política da cena grega?

Procurar o rosto de Cristo no escatológico é a operação anti-cartesiana por excelência. Como se a ambição de 'salvar o mundo' tivesse deixado o homem para trás e literalmente pretendesse salvar a matéria, torná-la numa metamorfose da 'beleza do mundo' ("Este espectáculo é uma reflexão sobre a decadência da beleza, sobre o mistério do fim." Diz o autor em entrevista ao 'Expresso')

A música de Scott Gibbons e a 'epifania" da conversão do rosto do Cristo de Antonello Da Messina em matéria fecal, com a frase "I am your shepherd" impondo-se sobre a sua negação ("I am not your shepherd") e os tonitruantes decibéis da conclusão fazem lembrar um concerto de 'heavy metal rock' e um anti-Jesus Christ Superstar.

A citação do filósofo do Zaratustra ajuda a esclarecer o que quer dizer Castellucci com a frase: "Vamos ver um espetáculo porque queremos ser enganados. O teatro não serve para mostrar uma verdade, mas sim para a esconder."

E o desafio é pensar no que é que esconde a degradação física do velho pai que ocupa toda a cena, atingindo o olhar de Cristo e provocando a sua segunda 'crucificação'.



quinta-feira, 12 de maio de 2016

Baleal

A NÊSPERA





"(...) aquele que tiver lido mais romances engenhosos, ouvido mais narrativas curiosas, esse, digo eu, terá mais conhecimento que um outro, ainda que não haja uma palavra de verdade em tudo o que lhe descreveram ou contaram; porque o hábito que tem de representar no seu espírito muitas concepções o torna mais capaz de conceber o que lhe propõem."
("Nouveaux Essais sur l'entendement humain" de G. Leibniz, citado por Paul Veyne)

Um filósofo do século nascido no século XVII, Leibniz, com este argumento, parece esperar-nos na Segunda Modernidade (Beck).

Porque talvez nos devamos interrogar se esta vantagem em conceber as novas propostas do nosso tempo, graças ao estudo especializado nos mais diversos campos do saber (ou, talvez se devesse dizer, do não-saber), graças à investigação científica e à inovação tecnológica, representam de facto mais do que aquele conhecimento no 'sentido restrito', que seria, de facto, independente da verdade.

Mas, se fosse assim, deveríamos, também, interrogar-nos se alguma vez alcançaríamos os cumes do 'conhecimento restrito' se não fosse a crença de quase todos, de uma maneira ou de outra, conscientemente ou não, na existência da verdade, ou numa verdade da existência.

Profetas, como o autor de "The World at Risk" falam de uma 'impossibilidade de saber' (sobre a realidade, ou a verdade) que atinge todos os nossos esforços para antecipar o futuro.

Ainda não nos demos conta disso, mas o 'conhecimento restrito' mingou assustadoramente, como a nêspera de Mário Henrique Leiria.

A Nêspera

Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia
chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece





quarta-feira, 11 de maio de 2016

(José Ames)

O IMPASSE ÉTICO




"Por causa da sua multifacetada inconsistência, Proteu é, entre todos os deuses, aquele que tem menos existência. Antes de escolher, um indivíduo é mais rico; depois de escolher, é mais forte."

(Rascunho do prefácio de Gide para a sua peça 'Saul', citado por Simon Leys)

A riqueza, neste sentido, seria uma potencialidade, um estado virtual. Do género daquele crédito que todo o desconhecido goza antes de falar, ou o escritor antes de 'macular' a página em branco. A decisão por um rosto e um caminho não se faz, porém, numa ilha deserta. A força de que fala Gide nasce do estreito que comprime a torrente ('La porte étroite' tem a ver com isso). Em termos mecânicos, faz-nos pensar numa alavanca.

Em comparação, o que é a riqueza do 'podre de rico' expressão popular que tão bem descreve a espécie de maldição associada ao dinheiro, mas hoje quase incompreensível?

Tal riqueza desespera de se converter noutra coisa, através da escolha. E assim não se pode contrapô-la à força que resultaria de uma decisão. É um impasse ético.



terça-feira, 10 de maio de 2016

Braga

PARADISE LOST


www.paradiselost.co.uk




"(...) como sabemos, o efeito imediato da revolução coperniciana foi o de espalhar o cepticismo e a confusão, dos quais os famosos versos de John Donne dão uma tão impressionante, embora tardia, expressão, dizendo-nos que 

"a nova Filosofia põe tudo em questão,
O Elemento do fogo é completamente extinto;
Perde-se o Sol, e a terra, e nenhum engenho humano
Pode dirigí-lo aonde o procurar.
E os homens são livres de confessar que este mundo está gasto,
Quando nos Planetas e no Firmamento
Procuram tantos mundos novos;
vê então que tudo isto
É desfeito até não restarem mais do que Átomos.
Está tudo em pedaços e foi-se toda a coerência;
Tudo se compensa, e tudo é Relação."*


"From the Closed World to the Infinite Universe" (Alexandre Koyré)


Percebemos pelos versos de Donne que, além de poeta, era pastor anglicano, como a coerência da geometria e da matemática 'tirou o tapete de debaixo dos pés' à coerência intuitiva da religião. Donne fala expressamente em 'relation' e 'supply', consciente de que o mundo da ciência é um mundo sistemático.

Esse novo mundo e essa 'boa nova' não se anunciaram através de nenhum profeta ou salvador de almas. Foi um deslize progressivo para um mundo 'aberto', mas ambivalente, em que o homem se foi revelando a si mesmo, enquanto se 'fechava' à realidade cósmica e às suas próprias origens.

Depois de alguns séculos de um 'iluminismo' sem má-consciência, a presente época confronta-nos com nova expulsão do Paraíso. A velocidade a que as coisas acontecem e as consequências acumuladas das nossas decisões (informadas, especializadas e acima de quaisquer improvisos ou simplificações indevidas) trouxeram-nos aqui. Ulrich Beck alertou para o facto da presente situação de perigo mundial se dever não aos nossos falhanços, mas ao próprio sucesso da ciência e da tecnologia e aos outros avanços.

O cepticismo voltou, agora, não em relação ao mundo religioso, mas ao que Beck chama de 'segunda modernidade'.

Desta vez, neste 'Paradise Lost', não há coordenadas. Não estamos a leste de nada.


*
". . .new Philosophy calls all in doubt, 
The Element of fire is quite put out; 
The Sun is lost, and th' earth, and no mans wit 
Can well direct him where to looke for it. 
And freely men confesse that this world's spent, 
When in the Planets, and the Firmament 
They seeke so many new; then see that this
Is crumbled out againe to his Atomies. 
'Tis all in peeces, all cohaerence gone; 
All just supply, and all Relation."

segunda-feira, 9 de maio de 2016

(José Ames)

DUAS MULHERES E DUAS CASAS

"As noites de lua cheia" (1984-Eric Rohmer)


O provérbio escolhido por Eric Rohmer é: "Quem tem duas mulheres, perde a alma; quem tem duas casas, perde a razão."

Louise e Rémi amam-se. Moram num prédio nos subúrbios. Mas ela pretende, ao mesmo tempo, manter o seu apartamento de solteira em Paris, para sair sozinha alguns dias à noite e ver os amigos. Ele não gosta de sair.

Este programa contra o amor causa alguns dissabores ao casal, mas Louise leva a sua por diante. De facto, as oportunidades para ambos de conhecerem novos amantes abundam.

E, ela dizendo que não faz mais do que ser feliz para amar melhor, comporta-se, realmente, como se procurasse um novo amante.

O filme acaba com Louise reconhecendo, à sua custa, o valor da fidelidade e da estabilidade que Rémi e a sua vida suburbana lhe proporcionavam, apenas para descobrir que entretanto o seu companheiro tinha encontrado noutra mulher o "amor da sua vida".

O provérbio champanhês diz que não se pode ter duas mulheres sem mentir (e Louise começa a mentir quando se tem de esconder de Rémi num café de Paris).

Quanto à casa, é claro que não se trata duma casa principal e duma casa secundária, mas de duas personalidades. Organizar a vida em dois espaços tão diferentes é de facto o caminho para o desvario.

Porque a casa, mais do que um lugar, é uma maneira de pensar.

domingo, 8 de maio de 2016

Minho (José Ames)