segunda-feira, 21 de outubro de 2013

PARA ALÉM DE "LA LUNA"

Bernardo Bertolucci


Lorenzo (Jacopo Antinori, com algo do olhar demoníaco do herói da 'Laranja Mecânica'), um adolescente de 14 anos em edipiana atracção pela mãe que se 'esconde' dos outros, mergulhado nos seus 'headphones', decide passar uma semana, alegadamente a fazer ski, refugiado na cave do prédio em que habita. Aí o vem a descobrir a meia-irmã drogada, Olívia (Tea Falco), com quem conhece uma grande intimidade. Prometem um ao outro mudar de vida, mas antes de se separarem e Lorenzo pôr termo às suas 'férias na neve', Olivia retoma, sem o irmão saber, o caminho da auto-destruição. Ele próprio regressa ao 'submarino' musical nas últimas imagens.

Não é um filme tão dependente como "La Luna" (1979) das premissas freudianas. Bertolucci amadureceu a ideia e a tese psicanalítica perde a sua necessidade. Talvez o célebre conflito de Édipo ocupe, ilegitimamente, um lugar real. Mas está em vez de outra coisa que não interessa muito conhecer do ponto de vista dramático. Que esse conflito tenha sido 'substituído' por um quase-incesto sororal mantém a história num dos temas preferidos do realizador. Com a grande vantagem, porém, de Bertolucci já não nos querer chocar.

A ideia psicanalítica é cada vez mais um 'operador' da narração, como o foi em 'Spellbound' de Hitchcock.

Se vier, por isso, a ser considerado daqui a alguns anos como um fime 'datado', sê-lo-á injustamente.

domingo, 20 de outubro de 2013

Sem título

Campanhã (josé Ames)

 

OS HIERÓGLIFOS DO PASSADO

Marcel Proust


"Cada dia que passa dou menos valor à inteligência. Cada dia me dou mais conta de que é fora dela que o escritor pode retomar alguma coisa das nossas impressões passadas, quer dizer atingir algo dele mesmo e a única matéria da arte. O que a inteligência nos dá sob o nome do passado não tem nada a ver com ele."

"Contre Sainte-Beuve" (Project de préface) de Marcel Proust

E como poderia a vida passada ser objecto de dedução? Não, não, a memória do que vivemos só pode ser "libertada" por um novo olhar sobre esses objectos que, eventualmente, tiveram uma parte insignificante na emoção passada e que, precisamente por isso, foram esquecidos pelos interesses do presente (incluído o de oblívio), mas que conservam intacto um eco do passado.

Este método, utilizado por Proust na "Recherche" está muito mais próximo da psicanálise do que da arqueologia.

E também aqui o sentido que se dá à interpretação prevalece sobre a verdade.

sábado, 19 de outubro de 2013

Sem título

(José Ames)

 

O ESPÍRITO JESUÍTICO

 


"Depois de vários meses de aplicação a todo o instante, Julien tinha ainda o ar de pensar. O seu modo de mexer os olhos e de trazer a boca não anunciava a fé implícita e pronta para tudo crer e tudo sustentar, se preciso fosse pelo martírio. Era com raiva que Julien se via suplantado nesse género pelos camponeses mais grosseiros. Havia boas razões para que eles não tivessem o ar pensativo."


"Le Rouge et le Noir" (Stendhal)


Um homem de génio, mas sem vocação, no meio dos boçais seminaristas de Besançon, apostados em imitá-la, obedecendo "como um pau entre as mãos" do santo padre, para fugir à enxada e "obter um soberbo lugar, em que mandarão como um chefe, longe de qualquer controle."

O espírito jesuítico tem aqui a sua plena demonstração.

A hipocrisia continuada acaba por dar os seus frutos e moldar o interior pelo exterior.

E até o abade Pirard, no entanto suspeito de jansenismo, se surpreende com a dúvida do seu amigo Chélan sobre a sinceridade do seu protegido.

Para que é precisa a sinceridade? Basta a obediência.

Como grandes missionários que foram, os jesuítas tiveram que simplificar a psicologia.

 

 

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Sem título

Jardim Botânico (Porto)

 

QUEDA NO HIPERTEXTO

"After Hours" (1985-Martin Scorcese)


A lógica do sonho conduz o herói de "After Hours", no brilhante exercício de Scorcese.

O mostrador do relógio vem repetidamente lembrar que se está a passar uma barreira, a partir da qual reina o insólito e todas as coincidências se tornam consistentes (como dizia Arendt, a propósito do totalitarismo).

É, de resto, a impossibilidade de estancar as coincidências que faz este jovem "word processor" perder o pé no hipertexto da realidade.

Ao contrário do pesadelo, a vida é um filme que pára se fecharmos os olhos e nos conseguirmos abstrair dele.

 

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Sem título

Poluição (José Ames)

 

DE CRISE EM CRISE

http://www.galizacig.com


"Segundo o director do FEEF, Klaus Regling, citado numa nota hoje divulgada, a extensão das maturidades concedida a Irlanda e Portugal “irá reduzir as suas necessidades de refinanciamento no período pós-programa” de assistência e “irá aumentar a confiança dos actores dos mercados, protegendo assim Irlanda e Portugal de riscos de refinanciamento”.
Jornal Púbico de 24/6/13 (Lusa)

Palavras, sem dúvida. Assim, o jovem Hamlet se dirige ao velho Polonius que em vez da sabedoria da sua grande idade não tem mais do que a 'maturidade' do príncipe (se como o caranguejo pudesse andar para trás).

As palavras levaram uma grande volta. Não é indiferente que a palavra maturidade seja associada aos prazos da dívida. Tal como a publicidade que 'assujeitou' a poesia e a arte em geral, desvalorizando-as, como fazem os elevadores ou os telefones com a música clássica, a "Economia", mais subrepticiamente, vai convertendo as nossas vidas na narrativa do défice. As crises do sistema são a nova incarnação do destino, o que nos distrai, passavelmente, da realidade...

 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Sem título

Braga

 

A CAVERNA DA PITONISA

"Para ele, falar era uma maneira de satisfazer um desejo violento e esgotante. No mesmo momento, o fenómeno da sua eloquência tornou-se para mim mais compreensível. Os oito ou dez últimos minutos dum discurso assemelhavam-se a um orgasmo de palavras."

Ernst Hanfstaeng (chefe de imprensa do partido nazi)

Hitler era o homem indicado para provocar a grande histeria das massas. As suas palavras e o tom em que as vociferava tinham o seu quê de narcótico e de hipnotizante.

A pitonisa na sua caverna vem-nos à ideia diante das imagens do grande comício de Nuremberga.

O encontro improvável entre a alma germânica e o 'insecto raro' que a devia inocular, como em Proust, no pátio dos Guermantes, foi fecundada a orquídea exótica, podia, de facto, não ter acontecido.

É outra versão da ideia do 'nariz de Cleópatra' referida por Pascal.

Não são as consequências lógicas que escrevem a história, mas a singularidade dos encontros e dos desencontros.

 

 

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Sem título

(José Ames)

 

EUNUCOS

 

(Babilónia, segundo David Griffith)

O eunuco não pode regressar. O déspota precisa do sexo dos outros para estabelecer o seu poder sobre a vida e a morte. Que há de tão importante no corpo das mulheres e dos castrados para ter um significado tão profundamente político? Um poder sobre os homens nunca é tão definitivamente expresso como no harém. Pela castração, o corpo é marcado para sempre como objecto do senhor, e o sujeito torna-se um homem sem língua, isto é, sem poder de resposta. Quanto à mulher no palácio, é o número mesmo que a desvaloriza. Ela é verdadeiramente um castrado, menos por razões anatómicas, do que pelo pensamento do gineceu. A concubina entre as outras nem sequer é uma mulher. O harém é um jardim ginecológico. O que aí se perpetua como espectáculo é a confiscação do poder de fazer filhos.

Cambises pode mandar assassinar toda a sua prole. Ele próprio é a imagem da sociedade escrava. Nenhuma humanidade lhe é permitida. Nenhuma sabedoria. A liberdade pode dar-se a um escravo, a uma concubina refractária, mas eles não se tornam livres por isso. Como o eunuco, estão marcados. A castração é irreversível, como as metamorfoses do corpo e o envelhecimento. A tortura é uma “distorção” do mundo e do pensamento.

Portanto, o escravo é ainda escravo doutra maneira. Mas pode pensar-se, esquecer. A verdadeira oposição é interior. De nós para nós. A liberdade não é um estado. Não se concede. Não se conquista como um forte. O escravo sem senhor, somos todos quando a primeira luz do espírito nos faz erguer sobre a natureza. O corpo, eis a memória que é preciso pensar. Este depósito misterioso do universo que se transforma em sonho e realidade. Como é que ele nos faz pensar? Os outros estafetas do fogo sagrado, esperam o corpo para fecundá-lo. E de cada vez é preciso aprender a fugir do harém e a escapar às garras do animal triste.

Alguns eunucos chegaram ao mais alto poder e a sua vingança como que triunfou. Mas o corpo do eunuco tem todas as paixões. A própria genitalidade deve exprimir-se noutro lugar, sob outra forma. Mas é tão forte o preconceito e a imaginação que esse mutilado me parece menos do que um homem sem uma perna ou um maneta. Aqui não é o corpo que falta, mas o símbolo e a palavra.

 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Sem título

Campo 24 de Agosto, Porto

 

GRAVIDADE

"Gravity" (2013, Alfonso Cuarón)

A gravidade, que é o título do filme, é também a personagem principal?

Podemos pensar isso porque toda a história se passa no espaço a menos de um Portugal posto de pé. Depois, o 'milagroso' regresso à terra, à gravidade, é realçado pelo pisar dos pés (do tamanho do écrã) de Sandra Bullock e do erguer das colunas poderosas das suas pernas. Assim, como um herói, à Schwarznegger.

A música triunfal doutra 'guerra das estrelas' vem por acréscimo, é esperada, como aquele punhado de lama que agarra a escapada do 'espaço' ("I hate space"). Não nos livramos de cavalgadas de valquírias.

O final, de facto, arruína todas as belas cenas com o 'planeta azul' por fundo, ou o grande vazio silencioso onde se perdem os escafandros brancos.

O começo é uma saída para reparar as comunicações, com um diálogo bem humorado com Houston. Mas logo é lançado o alarme sobre uma tempestade de destroços de um satélite russo que se avizinha. A partir daí tudo corre mal. O próprio Matt (Clooney) se deixa perder no vórtice. Está-lhe destinado um regresso virtual para dar ânimo a Bullock.

No final de contas, mais um 'western', com o seu herói solitário. É o que os americanos sabem fazer melhor.

Ficam as cenas no espaço, a dança dos artefactos humanos que se escangalha, infalivelmente, a interpretação de Bullock e a fotografia.