quinta-feira, 11 de agosto de 2005

CAMPANHÃ


Campanhã

 
Só o que veio ao meu encontro, ao descer a pé a rua de Justino Teixeira, ontem de manhã!

Chuviscava, depois destes dias de calor, e o granito da calçada deixava evolar-se o cheiro da terra misturado aos aromas do vinagre, de que há ali uma fábrica. Um muro derruído, uma magnólia e as suas folhas em forma de canoa espreitam dum quintal.

Este caminho para Campanhã, com os seus velhos armazéns não perdeu o ar de confim defronte dos campos. Ninguém assoma às janelas à hora em que passo. Pela frincha duma porta, na penumbra, um homem em tronco nu faz a barba. Ninguém diria que estamos a dois passos duma grande estação ferroviária e do novíssimo Metro!

terça-feira, 9 de agosto de 2005

OS GRAFITI SÃO MESMO ASSIM



A desexpressão


O estranho poder da Opinião, mesmo quando se paralisa a si mesma, num eterno sopesar de prós e contras, decidindo-se finalmente por uma equidistância, anémica e sem carácter!

Tive, ontem, mais uma prova de como já não sabemos o que pensar quando pretendemos apenas pensar como os outros, a maioria, as pessoas normais, etc. 

Diante dum amigo que resolveu retomar os estudos, sendo pela sua “décalage” um involuntário analista do meio universitário, lamentava o estado deplorável de alguns edifícios da rua do Breiner, cobertos pelas garatujas que, para mal dos nossos pecados, invadiram as paredes da cidade. 

O meu interlocutor teve esta reacção significativa: - são graffiti! Os graffiti são mesmo assim.

Ante a minha indignação, confessou que não sabia que posição tomar, visto que os graffiti eram mesmo aquilo.

quinta-feira, 4 de agosto de 2005

PORTO DEFUMADO




Podia ser um céu azul cristalino, hoje, à beira-rio, no Porto. Mas uma nuvem de fuligem obscurece o horizonte e vai tomando conta do céu.

Mais um dia de calor, mais quilómetros de floresta ardida, como uma fatalidade.

Uma entidade parece desculpar-nos de irmos todos mais longe: a Seca. Parece que não era assim há quase sessenta anos. E o vento que empurra as labaredas parece um diabo à solta.
Tem de ser possível prevenir e atacar no princípio esta calamidade. Saber se há, na sua origem, uma doença mental endémica ou um comércio frutuoso. Nada há que corrompa tanto o sentimento da justiça como ver soltar um incendiário por não haver lei que o puna. E é mais importante dar aparato à punição justa do que ao sensacionalismo do crime.

Li algures que uma câmara, no nosso país, resolveu ocupar desempregados na prevenção dos fogos. Não sei se é o caminho, mas é algo a enaltecer como experiência.

Os meios são poucos, o voluntariado não alcança a eficácia desejável, são lamentações que se repetem de cada vez.

Uma elite para ocorrer aos fogos no seu início e os meios aéreos indispensáveis podem falhar se tivermos mil incêndios ao mesmo tempo. Mas podemos dar-nos ao luxo de não ter essas forças e esses meios?
Neste momento, entra-me pelo nariz o odor dos bosques incinerados. Pinheiros, carvalhos, eucaliptos, olmos e faias sobem pela chaminé da nossa impotência como vida que se esfuma.

quarta-feira, 3 de agosto de 2005

O PRIVILÉGIO DA DISTÂNCIA MÉDIA

Flores do metrosídero




Mais uma citação musiliana: 

“Nós sabemos que a vida se vai perder tanto nas extensões inumanas do espaço, como na inumana pequenez do átomo, mas entre as duas, não receamos chamar “objectos” a uma simples camada de ilusões, quando só se trata, com efeito, duma preferência acordada às impressões que nos chegam duma certa distância média.”

(“O homem sem qualidades”)


Na rua do Molhe, há um metrosídero que estende o esplendor da sua cabeleira para o passeio, qual Mélissande. Pela Foz, há muitas árvores destas, mas sem flor e quase anãs, que, como uma corte de subalternos antecede o mágico recinto da rua do Molhe.

Gosto de pensar que uma presença destas, fiel, de noite e de dia, na exclamação das suas raízes, é uma abertura do espaço maior do que o dos astronautas, e que, através da sua beleza selvagem, de facto, se superam os limites do olhar e da “distância média”.

Cortem as árvores, e a terra encolherá como uma certa nêspera...

domingo, 24 de julho de 2005

A PONTE DAS ALMAS


A ponte de Entre-os-Rios


 
Agora, em vez da ponte ruída, e que causou a morte de 59 pessoas, em Entre-os-Rios, há duas pontes novas. A faixa de macadame estende-se até às colinas verdes a sul como uma passerelle para o desfile das almas.

É tentador converter os mortos em engenharia que une as duas margens (o que eles também são, entre este mundo e o “outro”). Como se a camioneta cheia de gente que se afundou no Douro fosse um sacrifício exigido por um deus a quem só um holocausto arrancasse da sua surdez.

É a culpa como motor do desenvolvimento ou o rendimento do simbólico. A economia, não conseguindo explicar esta lógica, parece um imponente parque industrial desafectado.

Não sei como, mas isto tem algo a ver com o momentoso problema do défice...

sábado, 23 de julho de 2005

A CAÇA AO ELEFANTE BRANCO






“Há uma íntima relação entre a imprevisibilidade do resultado e o carácter revelador da acção e do discurso; o agente revela-se sem que se conheça a si mesmo ou saiba de antemão “quem” revela.”

 
Hannah Arendt (in “A Condição Humana")


Leio vários artigos nos jornais sobre os investimentos estratégicos deste governo. As opiniões dividem-se. Uns acusam-no de cedência aos lobbies ou de se estarem, assim, a criar novos elefantes brancos e a inviabilizar o objectivo prioritário de redução do défice. Outros acham que é preciso decidir, de uma vez por todas, sobre o novo aeroporto de Lisboa e o TGV, que deverão ter repercussões positivas no desenvolvimento, como outros pretensos elefantes brancos já tiveram, e que, de resto, ninguém pode contabilizar à partida todos os efeitos desse investimento público.

Enfim, estarei mais informado? Não teria ainda elementos para tomar uma decisão, se precisasse de a tomar. Mas o que obtive daquela leitura permite-me, ainda assim, ter uma opinião? Também não. O que acontece é que são as escolhas políticas anteriormente feitas ou as simpatias do momento que acabam por fazer sair as pessoas da indecisão. E a primeira palavra proferida é já um corte do nó górdio, que nos obriga a um princípio de coerência.

Por higiene intelectual, não nos deveríamos pronunciar sobre o que não sabemos, e só sabemos duma acção no seu contexto. Mas não é assim que as coisas se passam. Uma imagem mais eloquente faz-nos embarcar na aventura.

domingo, 17 de julho de 2005

A POLUIÇÃO DAS IMAGENS


Poluição



Não se pode compreender o moderno terrorismo sem a dimensão mediática que amplia as suas repercussões tornando-o numa encarnação do Mal, ubíquo e omnipresente como qualquer facto da imaginação.

A ideia da globalização que pouco a pouco tornou as teorias de Mc Luhan no catecismo de qualquer mortal mediatizado faz com que o terror tenha deixado de ser um fenómeno local circunscrito a qualquer guerra ou conflito em aberto.

Por outro lado, é muito sedutora a imediata notoriedade que os media conferem àqueles por quem o terror vem, e que muitas vezes são as suas primeiras vítimas voluntárias, com o que ganham uma espécie de imortalidade no espaço virtual. Sem esse eco tecnológico à escala mundial, esses actos perderiam ao mesmo tempo o seu fundamento religioso ou político e se tornariam numa loucura banal e inexplicável. Porque estamos confrontados, apesar de tudo, com uma racionalidade, que só se compreende pelo rendimento da comunicação planetária.

Por isso, o modo como as autoridades responsáveis e a polícia londrina lidaram com os atentados de 7/7, numa lógica anti-mediática, é o caminho para esvaziar de sentido um flagelo moderno.

Nesse caso, ficou também demonstrado que outro ganho de não se ter enveredado pela intoxicação do pensamento através das imagens da violência e de se fomentar o medo, foi o dos Ingleses e os europeus em geral, em vez do espanto e do horror paralisantes que provocou o ataque às Torres Gémeas, terem conhecido, nestes tempos de cepticismo e de relatividade moral, o primeiro suplemento de alma desde há muito tempo.

Da provação veio o princípio da força e não o pânico.

sábado, 18 de junho de 2005

DOS GRAFFITI AO ARRASTÃO


A liberdade de descriação



A violência é como o jogo de espelhos de Arquimedes que incendiou a frota.
O medo na praia de Carcavelos desfigurou os factos em espíritos preparados para esperar o pior.

Porque o espectáculo da televisão anestesia, torna-nos indiferentes à violência. Mas a experiência real já não encontra a inocência nem a incredulidade.

Tudo estava já escrito pela TV e pelos graffiti nas paredes.

quinta-feira, 16 de junho de 2005

SÍMBOLO E PARADOXO





O funeral de Álvaro Cunhal revelou que um homem pode sempre salvar um erro, mesmo monumental, desde que firmemente creia em si.

Todas as virtudes da vontade persistente e da fidelidade às ideias acabam por pesar mais do que a disponibilidade para aceitar a verdade dos outros e aquilo que hoje se chama de abrangência de ideias.

Os milhares que seguiram a urna até ao Alto de S. João ou que viram o imenso cortejo pela televisão não pensaram que a vida deste homem devia ser julgada pela queda do Muro de Berlim ou pelo fracasso da URSS, ou sequer pelos desaires eleitorais do partido a que dedicou a sua vida. Dir-se-ia que se tivessem sido sucessos em vez de fracassos, não poderíamos assistir a tão pujante e comovente cerimónia. Porque ali se projectava, na sua força alucinante, a verdade da fé, sobre um fundo movediço de sombras que é o do relativismo e do pragmatismo dos novos tempos, e toda a problemática do politicamente correcto.

Tudo isto transcende a política e é maior do que a vida, maior do que o próprio Álvaro Cunhal. E com ele morto, a sua lenda pode subir aos céus. E é a sua heróica resistência à ditadura que agora sobressai, em detrimento do segundo período da sua vida, o da luta pelo poder e do fracasso, fazendo que o homem que, segundo muitos, mais chegou a ameaçar a liberdade se tenha tornado num perene símbolo dela.

quarta-feira, 1 de junho de 2005

A INVASÃO DOS WALL-SNATCHERS


A verdade pichada



Hoje a conquista de Ceuta pelo 78 foi fácil ( ao contrário dos últimos dias, em que houve pandemónio). Mais adiante, as pirâmides de terra do Museu e, por todo o lado, além do pó, a babugem dos graffiti, que pelos vistos, apoquenta mais os velhos do que os novos.

E talvez haja por detrás desse sentimento algo mais do que um preconceito estético ou uma saudade. A mensagem dessas garatujas é a da desordem e a da insegurança. É tudo desleixo, ninguém liga. Razão para os mais frágeis se sentirem.

Mas esta vulnerabilidade de todas as paredes da cidade, à compulsão maníaca da pichagem, envolve-nos a todos nesse outro fenómeno social dos nossos tempos: a precariedade.

É o fim dos empregos para toda a vida e é o princípio do fim dos monumentos.

A solução está talvez na cópia pessoal.
Qualquer dia, a cada um restará ter a sua Amazónia virtual e a sua cidade de antes da invasão dos “wall-snatchers”.

segunda-feira, 30 de maio de 2005

THE OLD MOON




Hoje não se diz que um homem lê muito para significar sabedoria. Diz-se que lê. Se tirarmos a oração matinal do filósofo de Iena, ou a sebenta dos estudantes, a leitura é um esforço sem apoios de nenhuma espécie. O jornal é um guia para a conversação depois do sono. Dá-nos o mundo em títulos, uma história para contar, um programa para a noite ou para o fim-de-semana. Enquanto que os livros de estudo são a iniciação às honras e aos privilégios sempre que a situação do emprego é favorável. Os jovens aprendem na universidade a fazer parte duma classe. Quanto ao uso que podem dar às milhares de horas de estudo, é esquecer o conteúdo do que leram e actualizar a confiança em si mesmos e a força de vontade. Que valor terá a memória escolar diante do computador? Claro que a máquina não sabe o que diz e, sobretudo, não pode dar vida a um pensamento. Nos livros, o espírito dorme como a bela do conto de fadas. Mas não basta ler, nem decorar. É preciso admirar os autores imortais, buscar com amor o segredo das palavras. Isso só é frutuoso na literatura e nas humanidades. A matemática encerra a beleza mais nua. Mas as fórmulas são um produto da indústria. São tanto minhas, como da máquina. Essa espécie de conhecimento não perde em passar para um cérebro electrónico.

A nossa sociedade fez do verdadeiro leitor e do homem de escrita o grego antigo, preceptor da juventude patrícia. A alma colectiva veste como um escravo, embora se lhe confiem ainda, entre os jogos, os filhos do conquistador. Mas um simulacro desse decaído preceptor espera já nos laboratórios das grandes firmas.

Esta mutação é o que há de mais natural. Porque os que liam para passar o tempo, ou para um fim utilitário, hoje, com menos esforço e menor atenção, constituem a massa dos telespectadores. A lei da inércia e do prazer explica este desprezo dos livros, que é também temor. É curioso pensar que o homem civilizado venha um dia, tal como o primitivo de que fala Mac-Luhan, a venerar a palavra prisioneira da biblioteca.

Mas a televisão é além de tudo o mais um relógio social. Que milhões vejam no mesmo momento uma telenovela e oiçam no mesmo instante a réplica dos actores, eis o que nem a Bíblia pôde fazer. Uma instituição que acerta o tempo das pessoas e o seu pensamento. Não é pelo que se vê e o que se ouve, mas por este mágico consenso que nos reúne debaixo da lua.

segunda-feira, 23 de maio de 2005

CONSPIRAÇÃO VS MICHAUX

Encontrei em http://blabla.blog.lemonde.fr/blabla/citations/index.html esta citação que se poderá aplicar, talvez, ao Congresso que se realizou na rua do Breiner no último sábado ( desde que se pretenda evitar o recurso a uma qualquer teoria conspirativa):

“Os Ouménés de Bonnada têm por desagradáveis vizinhos os Nippos de Pommédé. Os Nibbonis de Bonnaris entendem-se seja com os Nippos de Pommédé, seja com os Rijabons de Carabule para preparar uma ameaça contra os Ouménés de Bonnada, depois de naturalmente se terem aliado com os Bitules de Rotrarque, ou depois de terem momentaneamente, por compromissos secretos, neutralizado os Rijobettes de Biliguette que estão situados no flanco dos Kolvites de Beulet que cobrem o país dos Ouménés de Bonnada e a parte noroeste do território dos Nippos de Pommédé, para lá dos Prochus de Osteboule.

A situação naturalmente não se apresenta sempre duma maneira tão simples: por que os Ouménés de Bonnada são eles próprios atravessados por quatro correntes, a dos Dohommédés de Bonnada, a dos Odobommédés de Bonnada, a dos Orodommédés de Bonnada e, enfim, a dos Dovobodémonnédés de Bonnada.

Estas correntes de opinião não se facto básicas, contrariando-se e subdividindo-se, como se calcula, conforme as circunstâncias, de tal modo que a opinião dos Dovobodémonnédés de Bonnada é apenas uma opinião média e não se encontrariam decerto dez Dovobodémonnédés de Bonnada que a partilhem e talvez nem mesmo três, embora eles a aceitem como referência por alguns instantes para facilitar, não certamente o governo, mas o recenseamento das opiniões que se faz três vezes por dia, embora segundo alguns isso seja demasiado pouco, mesmo como simples indicação, enquanto que, segundo outros, talvez utópicos, o recenseamento da opinião de manhã e o da tarde fosse praticamente suficiente. Há também opiniões francamente de oposição, fora dos Odobommédés. São as dos Rodobommédes, com os quais nenhum acordo se pôde até agora fazer, salvo naturalmente sobre o direito da discussão, do qual eles usam mais abundantemente do que qualquer outra fracção dos Ouménés de Bonnada, de que usam incansavelmente.”

(Henri Michaux, Face aux verrous)

quarta-feira, 18 de maio de 2005

AS PIRÂMIDES DO SOARES DOS REIS

Não podíamos ficar atrás. O Louvre tem a pirâmide de I.M. Pei. O Porto tem, agora, à porta do seu mais importante museu, não uma, mas duas pirâmides!

Em vez de aço e de vidro como a que se pode ver na alameda Napoleão, em Paris, estas são, talvez, de um material menos nobre, mas mais genuíno, mais característico das ruas da urbe quando se descalçam ou se transformam em trincheiras. Estamos a falar da simples terra, enfim , do pó bíblico em que todos nos tornaremos ( os autores das pirâmides e os outros).

Essas duas pirâmides de terra, uma de cada lado da porta de entrada do Soares dos Reis, estão ali como dois leões alados, não para afugentar o visitante ou o turista, como à primeira vista se poderia pensar, mas como um monumento, infelizmente temporário, à guerra da burocracia.

Quem não entender a política, sobretudo se se embrenhar na crítica do gosto, não pode estar à altura de penetrar o supremo mistério destas pirâmides.

quarta-feira, 20 de abril de 2005

O BURRO


 



« (…) O que é preciso dizer é que nenhuma escravatura é boa. Hugo é um desses raros homens que sempre remontam à liberdade como à fonte de todo o bem. Quer se trate do ensino, do sufrágio, da imprensa, do livro, do teatro, é a liberdade que ressoa e que se faz eco a si mesma nos discursos políticos do poeta. Esta posição é difícil de manter; ela exige que se confie no homem; não uma vez, mas mil vezes, mas sempre. Sobre isso, Hugo é o mestre dos mestres. Infelizmente, a impaciência e o desprezo estragam tudo. Decerto faltou-me a coragem; faltou-nos a coragem. Há mil caminhos para trair. Há certamente uma maneira de ser socialista que trai a República. Mas de qualquer maneira que se traia, é-se sempre louvado pela inteligência. Esta grande ideia não escapou a Hugo. Ele viu-a: ele entrou nela, ele esclareceu-a completamente de modo a torná-la para sempre insuportável. Isso tem por título “O burro”; é um imenso poema, e é o monólogo dum burro que se regozija por ser burro observando as elegantes traições daqueles que sabem.(…)”
“(…)
Eu li, busquei, cavei, até me estropiar.
Quase em água se fez a minha inteligência.
Quem quer que fordes, vós que passais, Excelência,
Zurzi-me e espancai, não me ensineis porém.
Cansa-me o que sabeis em vão; guardai-o bem,
E não roleis p’ra mim do mesmo que se enrola.
Trepai-me para as costas, não para a cachola.(…)”

(Duma “Homenagem a Vítor Hugo” in “Humanidades” de Alain – tradução de José Ames)

terça-feira, 5 de abril de 2005

EUROMILHÕES




Oiço dizer à empregada do café da praia que se lhe saísse o euromilhões mandava o pessoal todo passear.

Ou seja, o dinheiro nestes casos é um dissolvente poderoso, rompendo os efeitos socializantes da família, do trabalho, etc. 

Por que terá de ser assim?

O dinheiro é um 'ersatz' da liberdade. Tudo aquilo que se fez até sermos contemplados pela sorte foi efeito da necessidade. Tudo quanto aprendemos foi um corpo a corpo com a vida, espiando de perto todas as saídas nas situações difíceis. Acabamos, pois, por ser o resultado dessa interacção constante com o mundo que nos não permite muitas fantasias. Ora, as relações sociais constroem-se assim, sem que a vontade livre tenha nisso um papel relevante.

O dinheiro é o reverso aparente de todas essas coacções, fazendo-nos crer que podemos, com ele, criar as relações e viver uma vida de homem.
Essa ilusão é natural, e nunca se viu um milionário de nascimento que não tenha aderido a um mundo de necessidades artificiais (as visitas sociais, as obras de caridade, a política, etc) , nem um milionário da sorte que tenha feito o “que sempre sonhou fazer” sem se tornar num infeliz abandonado por todos.

É por isso que o euromilhões só serve aos que não têm sonhos.