sexta-feira, 11 de novembro de 2011

SEM PROGRAMA





"Nenhuma das grandes conquistas sociais da Frente Popular (férias pagas, semana de trabalho de quarenta horas, etc.) estava inscrita no programa (muito moderado) da coligação que saiu vitoriosa em Abril-Maio de 1936; na realidade, foi o movimento grevista de Junho que as impôs ao patronato francês e à direita."


("As esquerdas, a crise e a transformação do mundo - Onde está a esquerda?"
por Serge Halimi)




No caso da presente "crise geral do capitalismo", em que nenhuma solução parece estar ao alcance da ideologia económica dominante, é-se tentado a virar a doutrina do "choque", inspirada em Milton Friedman e na chamada "escola de Chicago", num sentido contrário ao dos seus defensores. A doutrina do choque não é nova e podemos dizer que tivemos no nosso Marquês de Pombal um dos seus expoentes. Trata-se, no fundo, de aproveitar a oportunidade criada por um desastre natural ou social para impor medidas que estavam "na gaveta". O que torna a moderna doutrina do choque particularmente maquiavélica é o facto de poder ser provocada artificialmente, como aconteceu no Chile nos anos 70.

O terramoto de Lisboa deu essa oportunidade a Pombal e ele agarrou-a bem, colocando o país no passo da Europa. O seu poder não lhe veio da monarquia absoluta, que se revelou impotente para realizar as reformas, mas da grande calamidade pública, aliada ao triunfo, em alguns espíritos, das ideias modernas.

Como mostrou Naomi Klein ("The shock doctrine"), a agenda liberal foi posta em prática em Nova Orleães graças ao Katrina, tendo o Estado enviesado o seu apoio nesse sentido.

Também a crise do euro é uma oportunidade para inflectir políticas que levaram directamente ao desastre. Mas não se vendo, na área do poder, quem possa sair do seu pesadelo dogmático e escapar à poderosa teia dos interesses destrutivos da economia, devia ser possível olhar noutra direcção e impor, pela força da opinião pública, senão pela "desobediência civil", a agenda dos povos.

Infelizmente, ao contrário dos adeptos da doutrina do choque, que têm pelo menos ideias nefastas, não há ideias alternativas, na gaveta, que já não tenham  bolor. Para além disso, o que temos são remendos do sistema. Tal situação levar-nos-á a inventar e a correr riscos incontroláveis.

Mas foi assim durante a Frente Popular em França e o seu programa por escrever...

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