domingo, 14 de novembro de 2010

O DIVINO



“Permito-me acrescentar que aqueles que não tiveram esta experiência acharão estranho o presente parágrafo; porque a intuição do divino bem pode ser antropológica, uma vez que é irredutível a uma experiência próxima, ela não deixa de ser irregularmente distribuída entre os indivíduos: para uma metade da humanidade, ela é evidente; a outra metade ignora-a e nega-a com irritação; no máximo pensará que se trata duma vaga sentimentalidade, cultivada com uma complacência suspeita: quando pode tratar-se duma tempestade afectiva à qual o indivíduo desorganizado procura em vão escapar.”

Paul Veyne (“Le pain et le cirque”)


Essa emoção de um momento que provoca em nós a visão duma aura de “majestade, terror e suavidade” que “pode envolver certos objectos reais ou imaginários” seria a essência do religioso.

Como diz Veyne, quem não sentiu isso alguma vez, por exemplo, diante de uma noite estrelada, não pode fazer ideia do que se trata.

O pensamento dum Carl Sagan é já uma tentativa de racionalizar esse sentimento, “o sentimento da insignificância do homem perante uma força (eu nem disse uma pessoa) esmagadora e adorável, permite reconhecer nas religiões históricas um núcleo essencial.” 

Tal como o sol que não se pode olhar directamente sem cegar, a nossa razão reduz essa força a uma dimensão humana que só a sua beleza terrível é capaz de trair.

E o que é o indivíduo “organizado”, que está acima destas coisas? Um habitante típico da caverna platónica.

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