sábado, 20 de fevereiro de 2010

MEDITAÇÃO



"As coisas que fazem um bom Juiz, ou um bom intérprete das Leis são, em primeiro lugar, uma compreensão correcta dessa principal Lei da Natureza chamada Equidade; a qual, não dependendo da leitura do que outros homens escreveram, mas da bondade da Razão natural do próprio homem e da Meditação, se presume exista naqueles que têm mais tempo e mais inclinação para meditar (…)."

"Leviathan" (Thomas Hobbes)


A antiga distinção entre a vida política e a vida filosófica, com o seu ideal contemplativo, parece inspirar esta ideia da Meditação, privilégio duns tantos que, graças à transferência das suas necessidades de sobrevivência para a maioria ou para uma classe sem direitos cívicos, dispõe do lazer do filósofo.

Apesar do esquema grego, que permitiu, no entanto, o disparo do pensamento ocidental, ser demasiado cru para nos agradar, não tem sido outro, desde então, o segredo do nosso desenvolvimento. É claro que o privilégio só numa pequeníssima percentagem é tão socialmente produtivo, sendo na esmagadora maioria dos casos pura ociosidade, senão parasitismo. Há uma divisão do trabalho que permite a alguns "perderem" tempo a resolver as charadas da Física, numa qualquer repartição, ou a escrever, deitados, longos romances no seu casulo de cortiça.

O problema do bom juiz, para voltar a Hobbes, é que os juízes, hoje em dia, se parecem, cada vez mais, com qualquer outra classe profissional, nem lhes faltando o sindicalismo. E a verdade é que, quando todos nos tornamos mais consumidores e menos cidadãos, o tempo não sobra para a meditação.

0 comentários: