quarta-feira, 5 de outubro de 2016
A NÊSPERA
"Plutarco opõe esta execrável liberdade (da igualdade) à verdadeira, a que ele chama também parrésia; poder falar sem medo ao soberano, falar-lhe de igual para igual (isegoria), eis a 'libertas', o franco-falar, eis a liberdade sob o Império."
(Paul Veyne)
O conceito de classe foi a escada para sair deste mundo sócio-político e pôr em movimento um novo mundo em que a política mal se distingue da dialéctica. E a dialéctica hegeliana é idealmente dinâmica, implica o dizer de um processo e de uma 'superação'.
No actual estado de coisas, o que já foi novidade e 'horizonte inultrapassável' (Sartre) envelheceu inexoravelmente e tornou-se simples retórica.
Supunha-se que o antigo orador falava verdade (se seguisse as regras) e era tanto mais verdadeiro quanto maior era o perigo que corria (Foucault). A parrésia, entretanto, morreu quando lhe foram exigidos provas e factos, segundo o espírito das ciências da natureza.
Evidentemente, a retórica continua a cumprir a sua função de encantamento, dispersa pela galáxia mediática, mas dispensando já orador e orações (é uma técnica experimentada e de eficácia segura) e largamente extravasando da vida política.
Nestas circunstâncias, a liberdade de tutear o soberano tornou-se possível graças a um avatar, ou a um 'banho de multidão', mas não tem qualquer relevância. A igualdade execrada por Plutarco, desde o princípio que foi mais ambígua do que o 'franco-falar'. E a igualdade das classes sempre foi o preâmbulo de uma evicção da História de todas as classes menos uma, que no fim já não teria direito a esse nome.
De qualquer modo, a realidade de hoje provou a falência de todas as profecias. E a 'salvação' é uma retórica que mirra a olhos vistos como a nêspera do Mário Henrique Leiria.
terça-feira, 4 de outubro de 2016
POTÊNCIA FRUSTE
opiniaocentral.wordpress.com
"As coisas que têm de ser tidas por certas perdem a sua força quando surgem na forma de proclamações arbitrárias...Fazer erradamente com que certas matérias sejam legisláveis resulta apenas na limitação, se não na anulação completa, daquilo que se tenta salvaguardar."
(Henry Kissinger)
Mas parece que só deve ser assim porque não conseguimos 'programar' com suficiente eficácia num mundo aberto. O sonho de qualquer monstro orwelliano é o de fechar o mundo ao imprevisto e poder desprezar o imprevisível.
Desde a República platónica que o ideal político continua a ser o do máximo controlo e da ordem espontânea (as cadeias não têm que se ver, pois a 'transparência' é o 'nec plus ultra"). Popper em 'A Sociedade Aberta e os seus Inimigos' elege Platão como o grande inspirador da ideia 'totalitária'.
Mas, por outro lado, todos os nossos esforços na ciência tendem para um controlo cada vez maior sobre as nossas vidas, vencendo doenças e as causas da instabilidade social e das revoluções políticas.
A URSS é filha dessa 'utopia' e só falhou por ter tornado as coisas piores comparativamente com alguns expoentes de um sistema 'historicamente ultrapassado'. A conclusão a tirar desse desfecho é pois que o controlo exercido não podia abarcar a 'realidade' e se tinha tornado conspicuamente opressor.
O famoso 'pragmatismo' da cultura anglo-saxónica não é mais do que prudência disfarçada em doutrina liberal.
Kissinger, evidentemente, nisto, tem razão. Para quê pressupor um poder e uma visão que (ainda) não podemos ter?
segunda-feira, 3 de outubro de 2016
A EXPRESSÃO DO NADA
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"Todavia, a teoria superficial e falaciosa de que toda a proposição verbal ou escrita é a expressão de um pensamento subjectivo veio a ter uma influência desastrosa. Expressão ( Ausdruck) corresponde ao latim expressio, e esta teoria nefasta deu origem ao expressionismo. A teoria ainda hoje quase geralmente aceite como evidente é a de que toda a obra de arte é a expressão da personalidade do artista. Quase todos os artistas acreditam que assim é, o que aniquilou a arte."
"Por um mundo melhor" (Karl Popper)
De facto, é assim que toda a gente parece pensar. Mas é ignorar que todo o artista aprende com o que faz (com o que vem de fora e o que se põe fora).
É da interacção da sua personalidade com o mundo objectivo da linguagem e da produção do espírito ( o Mundo 3 de Popper) que a obra nasce.
E, mais do que isso, é a própria obra no processo da sua objectivação que interage com o espírito do artista, exprimindo muito mais um estado imaterial do mundo do que a sua personalidade.
Evidentemente, esta tese de modo nenhum desvaloriza o papel da subjectividade, visto que em vez de concebermos a arte como uma sintomatologia e um acto autístico, nos permite encará-la como um trabalho, contra a morte, que transforma aquela parte do mundo que escapa à necessidade.
domingo, 2 de outubro de 2016
A MAIS DESGRAÇADA
"Vida de Oharu" (1952-Kenji Mizoguchi)
De filha de samurai a prostituta. A vida de Oharu não podia ter sido mais infeliz e, não fosse a finura de Mizoguchi, prestava-se a um pesado dramalhão.
De degrau em degrau, o opróbrio. Como dizia Simone Weil: "Especialmente, tudo o que diminui ou destrói o nosso prestígio social, o nosso direito à consideração, parece alterar ou abolir a nossa própria essência, tanto temos por substância a ilusão."("A espera de Deus"). Mas nunca o seu coração foi contaminado, como o prova a cena do templo em que parece reconhecer o rosto do amado na estátua dum samurai, assim realizando a igualdade das almas. Essa primeira queda com um homem de condição inferior é digna do amor. Katsunosuke declara-lhe a sua paixão. E porque ele arrisca a vida, ela reconhece o seu destino.
P.S. O mundo japonês (dos filmes históricos) é tão estranho como um mundo inimigo. Aqueles interiores precários, ao nível dos joelhos ( a grande articulação ), por exemplo. O futuro decapitado persegue Oharu de fora de casa, ao longo das paredes que vai deslocando lateralmente para proferir a sua declaração apaixonada, como se a casa disfarçasse a sua ocupante e uma a uma as máscaras fossem caindo.
sexta-feira, 30 de setembro de 2016
SOLIDÃO
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"Qualquer que seja a sua força comunicativa, o pensador proeminente está condenado à solidão: 'Allein zu sein / Und ohne Goiter, ist der Tod.' A solidão sem Deus é a morte. Nem mesmo o ser humano que mais amamos pode pensar connosco."
(George Steiner)
Mas pensar, na sua mais elementar expressão, também não nos poupa a esse destino. Não é por acaso que muitas pessoas preferem não pensar para não sairem do conforto de 'pensar' com os outros, isto é, de se conformarem com o ser superior que é o povo, a nação ou o Deus da sua religião. E sabemos como até um partido pode chamar a si todos os títulos dessa superioridade.
Ninguém procura conscientemente a solidão. Mesmo o eremita 'conversa' com o seu Deus, e o poeta mais inspirado tem a sua musa, ou seja o que for. Todo o nosso ser é a negação do solitário ideal. O mais fisicamente só vive numa comunidade do espírito que pode ser formada por outro 'solitário' como ele, pertencendo, ou não, ao mundo dos vivos.
Comte dizia que pensamos com a comunidade dos mortos. Limita-se geralmente essa pertença aos fenómenos da cultura. Mas vai muito para além disso. É do ser que se trata e não de folclore televisivo, nem de simples memória.
Não, 'directamente', não podemos pensar com aqueles que amamos. E é verdade que a dois nem sequer conseguimos compreender uma conta de somar, como alguém já disse. É preciso o desvio pelo que não tem nome, porque não tem parte no nosso mundo 'acabado', perfeito como é, ao ponto da robótica já prever o nosso futuro exílio.
quinta-feira, 29 de setembro de 2016
A FERA NA SELVA
Henry James em Talland House, 1894
Uma das mais extraordinárias novelas que conheço é "A fera na selva" de Henry James.
May Bartram seduz John Marcher como uma parca (embora o autor não o diga, parece que não teria podido seduzi-lo fisicamente), inspirando-lhe o segredo de que ele já se tinha esquecido "de estar destinado a qualquer coisa rara e estranha, talvez prodigiosa e terrível, que mais tarde ou mais cedo viria ao seu encontro."
Ele confessara-lhe essa crença, num encontro sem consequências, em Nápoles. Quando se reconhecem, dez anos depois, em Weatherend, ela fá-lo recordar esse segredo.
A partir daí a sua vida torna-se realmente mais interessante, sem que qualquer deles admita pelo outro um sentimento mais forte do que essa amizade, da parte dele oportunística.
Quando May morre alguns anos depois, a fera ataca-o no cemitério, diante do espectáculo da dor dum desconhecido que, na campa ao lado, chora a sua companheira.
"A paixão nunca o tocara, pois era isto que a paixão significava; sobrevivera balbuciando e lamentando-se, mas onde estavam as chagas da dor? A coisa extraordinária de que falamos foi a descoberta repentina da resposta a esta pergunta."
May alimentara-o, na sua própria espera, com a imagem de si próprio, mas, na sua aridez, ele não precisava de mais nada.
quarta-feira, 28 de setembro de 2016
ÁJAX
Albert Einstein era claro quanto a uma responsabilidade colectiva do povo alemão pelos crimes do nacional-socialismo. Em carta a James Frank, em 1945, dizia que a presença de alguns 'melros brancos' não devia atenuar esta condenação.
Não sabemos até que ponto a filosofia alemã em geral e o hegelianismo em particular não estão por detrás, mesmo num homem como Einstein, desta noção de um sujeito da história e de uma responsabilidade colectiva cuja incarnação o autor da Fenomenologia via no Estado alemão do seu tempo. Mas o seu famoso 'Espírito' parece bem limitado, quando se olha para a monstruosa prole da segunda guerra mundial.
A questão da 'responsabilidade colectiva' está cheia de ambiguidades e é até insolúvel quanto a mim. Mesmo no caso de uma democracia, de haver um voto explícito num líder ou num regime (sabemos que Hitler chegou ao poder através de eleições, embora, numa atmosfera política muito condicionada pelos métodos e pela propaganda do extremismo político), só por irracionalismo consensual se pode dizer que a escolha foi livre e consciente das consequências.
E, no entanto, temos de 'postular' algum género de responsabilidade colectiva, para que o sistema seja credível.
Verdadeiramente, a situação do herói que se castiga a si mesmo, 'perturbado pelo deus hostil', tão característica do teatro grego, ainda esclarece melhor do que o pseudo conhecimento do futuro e das consequências da nossa acção a questão da responsabilidade colectiva.
É assim que Ájax, o herói de Salamis, provoca uma chacina nos rebanhos gregos, julgando lutar pela vida...
terça-feira, 27 de setembro de 2016
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