sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Irlanda (José Ames)

TEOLOGIA


Emmanuel Kant (1724/1804)


"É enganar-se grosseiramente extrair do que se faz as leis do que se deve fazer, ou querer restringi-las a isso."

(Emmanuel Kant)

E, no entanto, esse é o fundamento do experimentalismo e da compreensão moderna do mundo.

Kant, o expoente máximo da Teologia Protestante, nas palavras de Sloterdijk, quis fundar a moral num ponto cego, compromisso entre o que se sabe e o que não se pode provar.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Sem título

 

(José Ames)

 

O SEGREDO DO HOMEM

Persona (Ingmar Bergman)

 

"Quando se é jovem, adere-se melhor a uma paisagem do que a um homem. É que as primeiras se deixam interpretar."

(Albert Camus)

Devia ser ao contrário, parece-me. Um vale não não tem um significado oculto. Se mais tarde se descobrir nele uma caverna do paleolítico, não foi o seu significado que se desocultou.

Pelo contrário, o homem tem sempre muita coisa a ocultar e serve-se permanentemente da máscara que o torna identificável entre os outros. Por isso, todo o actor corre o risco de Elisabeth Vogler (Liv Ulmann), em "Persona" de Ingmar Bergman: o de perder a ligação da palavra e do corpo à sua máscara. Não é por acaso que a sua enfermeira (Bibi Andersson) se chama Alma. A verdade é que a personagem e o texto teatral precisam de ser incarnados.

Os jovens projectam-se melhor na paisagem, é certo. E perante o 'segredo' do homem só podem ficar 'desconcertados'. Não imaginam que aquilo neles que mais seduz os mais velhos é a simulação da profundidade, característica distintiva da beleza 'superficial'.

Um vestígio, talvez, da identificação platónica entre a beleza e a verdade.

 

 

 

 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Sem título

Bérgamo

 

SAPIENS SAPIENS



"Deus é a verdade...Não perguntes o que é a verdade; porque imediatamente a escuridão das imagens corporais e as nuvens de fantasmas te virão ao caminho, perturbando a calma que ao primeiro pulsar brilhou para ti, quando eu disse verdade."

"De Trinitate" (Santo Agostinho)

'Línguas de perguntador' era a resposta que se dava antigamente às crianças demasiado inquisitivas. Porque as crianças têm de perguntar, embora também seja natural que perguntem o que não poderão compreender através de qualquer resposta. Mas é a verdadeira maneira de aprender quando tudo ultrapassa a sua compreensão.

Alain dizia, por isso, que o poema soletrado pela criança lhe transmite qualquer coisa de precioso, se bem que não compreenda as palavras e o 'significado' do poema. Isso virá mais tarde, porque, na verdade, todos aprendemos a falar imitando os sons primeiro incompreensíveis, mas fiéis, pronunciados pela mãe.

Pode ser que Deus, no exemplo de Agostinho, pertença à constelação do pai, e realmente o Pai é uma das figuras da Trindade, ela própria um modelo do mistério em que devemos crer, porquanto pareça absurdo.

O conselho do bispo-filósofo é o de que tomemos o nome de Deus como se não estivesse ao nosso alcance nenhuma esperança de entendimento. Aos olhos da doutrina agustiniana, seremos sempre 'filhos de Deus' a cuja ânsia de saber (ou de perguntar), a Igreja só pode responder com 'línguas de perguntador'.

Tudo isso parece uma 'história da carochinha' para o 'sapiens sapiens'. Mas, de facto, o homem só pode julgar que sabe.



terça-feira, 7 de outubro de 2014

Sem título


 

A DESAPARECIDA ASPADA

Gone Girl (2014, David Fincher)



A certa altura, no começo do filme, Nick (Ben Affleck), enquanto acaricia a cabeça apoiada na almofada de Amy (Rosamund Pike), de costas para ele, pensa "nas questões primordiais do casamento": "Em que é que estás a pensar? Como é que te sentes? O que é que fizemos um ao outro?". Mas essas questões não revelam aqui uma preocupação 'habitual' no amor ou na dependência. Revelam vigilância defensiva, porque ele explicita a seguir o que quer dizer: "Imagino abrir-lhe a cabeça e desbobinar o seu cérebro, à procura de respostas." Terrível, não é?

Por que é que aquela relação, tendo começado (no ambiente efusivo de uma festa) pelo 'cliché' do 'coup de foudre', em que o espírito de ambos brilhou no uníssono orgasmático, afinal, foi o primeiro passo em falso
Seguiram-se cinco anos de observação mútua, em que só se podiam registar desilusões. Ele, que vinha dum meio social 'inferior', experimentava todas as especiarias da humilhação, ao lado de uma mulher tão dotada.

O descalabro veio com a mudança para o Missouri, a terra natal de Nick, para cuidar da mãe cancerosa.
Ele arranjou um caso com uma aluna e passou a 'estranhar' Amy com quem era já uma tortura viver. É então que Amy resolve vingar-se, desaparecendo e deixando pistas para incriminar o marido com um muito presumível assassinato.

A resposta de Nick foi tentar convencê-la, através do 'reality show' montado pela televisão tablóide que tinha assentado arraiais à porta de sua casa, de que deseja ardentemente o seu regresso, de que continua a amá-la.

O desfecho seria melodramático contado por outro. Amy regressa, ensanguentada do crime que acabara de cometer na pessoa dum seu antigo admirador, e a 'opinião pública' logo se converte a esta nova oportunidade do casamento.

Mas a desconfiança entre ambos não podia ser maior. Nick rende-se à 'realpolitik' para não ir preso. Quando, para convencer Amy (toda entregue à simulação do grande amor), lhe descreve o futuro desse casamento como uma prisão, ela responde com toda a seriedade que o casamento é isso mesmo.

Esgota-se aqui a riqueza das interpretações possíveis do mais hitchcockeano dos filmes de Fincher? Nem por sombras. Hitchcock talvez nos enganasse com a simplicidade explícita dos seus motivos. David Fincher, com mais esta obra magistral, não teme ser complexo. "Gone Girl" não é apenas um 'thriller' inquietante.

A análise do casamento moderno, sobretudo do casamento sem filhos, da utopia sempre presente nele, apesar de cada vez mais se oferecer ao 'materialismo', promete-nos uma temática com grande futuro.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Untitled

 

Bolonha

 

A VERTIGEM DA SUPERFÍCIE

A construção do navio Argos


"Já não acreditamos que a verdade continue a ser a verdade sem os seus véus - vivemos de mais para isso. Fazemos agora uma questão de decência de não querer ver tudo nu, de não assistir a tudo, de não procurar compreender tudo e tudo "saber".

"-É verdade que Deus Nosso Senhor está em toda a parte? perguntava uma rapariga à mãe. Acho isso muito indecente..."

"A Gaia Ciência" (Friederich Nietzsche)


Ainda hoje, estas palavras causam escândalo.

O saber grifado remete-nos para um outro saber, o saber viver, dos tempos sem falsa consciência, o dos Gregos, que na expressão de Nietzsche eram superficiais pela profundidade.

Como se fosse possível imaginar uma obscuridade sem obscurantismo, um destronar da Razão sem irracionalismo. É possível a muito poucos. Àqueles que já viram que, nem como espécie, alguma vez saberemos tudo, compreenderemos tudo. Que já hoje sabem que isso nem sequer faz sentido.

E, daí os véus da verdade, eternamente se sucedendo.

Que nada nos obriga a sentirmo-nos culpados (de quê?), que podemos recuperar a inocência perdida (mas haverá uma inocência sem ilusões?).

Estas ideias, como se sabe, engrossaram a torrente anti-racionalista do século XX, de cujo aluvião não emergimos ainda.
Mas o que é que não flutuou nessa corrente e por ela não foi desfigurado, feito em pedaços, irreconhecíveis peças dum futuro Argos?

domingo, 5 de outubro de 2014

Sem título

(José Ames)

 

A FORÇA DO DESAFECTO

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" A vossa preferência política determina os argumentos que acham convincentes (heurística do afecto) "

(Daniel Kahneman)

A razão deve ser porque já estamos convencidos antes de ouvir o argumento. Alain dizia que qualquer um vê de muito longe o argumento que o obrigaria a uma mudança de opinião. Esquivamos, pois, o escolho, contornando-o. Daí que a moderna expressão de que qualquer coisa é 'incontornável' significa que ela não faz parte das opiniões 'perigosas'.

Compreende-se que não possamos expor o núcleo da nossa 'segurança' e da nossa identidade social à ponta de um argumento mais ou menos brilhante e mais ou menos inatacável. Com a idade, essa defesa parece-se, cada vez mais, com uma retirada do mundo.

Pelo contrário, a juventude pode dar-se ao luxo de parecer instável e incoerente, sem por isso estar menos segura de si mesmo e da sua esplêndida saúde. Infelizmente, qualquer contacto com o poder é securizante, isto é, dominado pela estrutura e pela organização.

A estabilidade e a previsibilidade do comportamento colectivo assentam nesta força conservadora dos afectos. É essa força mesma que está em causa quando o novo não nos surge sob a forma de ideias e de modelos de sociedade alternativos mas da simples utilização e 'incorporação' dos novos mídia.

 

 

sábado, 4 de outubro de 2014

Dublin (José Ames)

UM COMPORTAMENTO INDECENTE

Witold Gombrowicz (1904/1969)

“Ofereceram-lhe chá que ele bebeu; ficou um pedaço de açúcar no pires, estendeu a mão, mas sem dúvida deve ter considerado esse gesto insuficientemente motivado, porque recuou; no entanto, o gesto de recuar sendo ainda mais imotivado, estendeu de novo a mão para o pedaço de açúcar que levou à boca e comeu – não já pelo prazer de o trincar mas para ter um comportamento mais ou menos decente… em relação ao açúcar e em relação a nós… Querendo sem dúvida apagar esta impressão desagradável, tossiu, depois para motivar esta tosse, tirou do bolso um lenço – mas já não se atreveu a assoar-se e mexeu simplesmente o pé. Mas mexer o pé devia, sem dúvida, criar-lhe novas complicações, porque se calou e se imobilizou completamente.”

“Pornografia” ( Witold Gombrowicz)

A personagem descrita é Frederico, uma espécie de alter ego do autor que participa num estranho crime erótico por juventude interposta. Ele aqui é apresentado como uma organização perfeitamente incongruente. Mas ao longo da novela irá tornar-se o mestre da acção.

Esse catálogo de gestos falhados é a imagem perfeita dum ser que perdeu a inocência. Tudo nele é consciente, a ponto de, sem automatismos e sem o jogo do instinto, o seu corpo não saber comportar-se, como se lhe faltasse a razão de existir. É o processo do rubor. Pensas nele e ele cresce. Queres evitá-lo, provoca-lo.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Sem título

 

Lisboa