quinta-feira, 11 de julho de 2013

Sem título

Salamanca

 

PARUSIA

http://religiaodavida.blogspot.pt

 

Sobre a vida da criança, Alain dizia que pedir é o meio e que saber pedir é o primeiro saber.

Assim, nenhum de nós começa pela física, nem pela série comtiana, mas pela magia das palavras e pela mímica. Só o homem racional de alguns filósofos e os Econs de alguns economistas não começaram por esta absoluta dependência da família e do mundo humano.

É preciso reconhecer que este começo condiciona fortemente as tentativas futuras, noutra idade, para ir ao encontro da chamada natureza. A Mãe-Natureza e a Mãe dos Céus são um vestígio disso.

Conforme as profissões e o papel social, cada um é mais ou menos influenciado pelo poder da palavra. O mesmo filósofo definia o burguês por aquele que vive de persuasão (que 'sabe pedir'), enquanto o 'operário' é materialista e sabe que o ferro não verga se não puser mãos à obra.

É muito interessante verificar no 'irrealismo' da nossa esquerda a marca tão vincada da magia das palavras que todos já experimentámos na infância. Não é, porém, como já se viu na história dos povos, um verdadeiro anacronismo. A magia das palavras influencia-nos a todos, como não podia deixar de ser. Todos lhe cedemos constantemente. São as tradições e as ideias que nos seguram.

Mas já houve um tempo em que o 'Reino do Céu' (ou o regresso ao Paraíso) estava ao virar da esquina e era esperado para esses dias. Só depois a Igreja moderou essa expectativa, com um adiamento 'sine dia'.

A parusia de partido continua viva e, na verdade, poupa-nos maiores desordens.

 

 

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Sem título

(José Ames)

 

OS MONGES

Huesca la Magia

 

"O conceito de fraternidade proposto pelos revolucionários de 1789 inspirava-se, de facto, consciente ou inconscientemente, no modelo monástico e religioso da Idade Média ocidental."


"Levantar o Céu" (José Mattoso)

 

A acção dos revolucionários de 1789 podia inspirar-se no exemplo da antiga República Romana, mas de facto inaugurava algo de audaciosamente novo (audácia era o lema de um Danton inconsequente).

O espírito que movia esses homens já não era o espírito religioso da Idade Média. Um novo deus, sem transcendência, que soprava ao ouvido do homem, em mais um ciclo de orgulho e humilhação, entrara em cena com Newton, falecido havia pouco mais de meio século.

A passagem do filho de Deus a conquistador da Natureza conservou, como diz Mattoso, o 'modelo monástico e religioso' na sua ideia de fraternidade, uma das palavras fundadoras da Revolução Francesa. Mas a relação dos 'conquistadores' entre si não é uma fraternidade. Move-os o individualismo e a emulação recíproca.

Não durou uma geração essa irmandade dos devotos da causa da Humanidade. Os 'monges' da revolução foram sacrificados para que pudesse existir a sociedade. O oportunismo burguês que se seguiu à unção da guilhotina correspondeu, pois, ao instinto da vida.

De qualquer modo, foi preciso que a outra grande revolução, já no século vinte, fizesse a demonstração do que significa um absurdo que 'vinga' (pelo menos 70 anos).

Quando caiu a URSS, já não havia monges, nem - 'celà va sans dire' - fraternidade.

 

terça-feira, 9 de julho de 2013

Sem título

Matosinhos (José Ames)

 

O IMPERADOR

"The Emperor" (2012, Petter Webber)

No filme, o governo americano dá 10 dias a MacArthur (Tommy Lee Jones) para decidir se Hirohito, o imperador do Japão, é responsável pelo ataque a Pearl Harbour (1941) e pela Guerra do Pacífico.

O general confia essa tarefa a um 'expert', Bonners Fellers (Mathew Fox), que conhecia o país antes da guerra por causa duma estudante que conhecera nos States e seguira depois até Tokyo.

Depois de ouvir as reluctantes deposições de altas personagens do regime, Bonners conclui, num primeiro momento, que não existe nenhum indício que ilibe Hirohito.

Todos lhe falam na 'devoção' dos japoneses ao seu líder espiritual, e um conselheiro do imperador menciona a coragem deste ao usar de uma metáfora poética para exprimir os seus sentimentos em relação à guerra. Mas tudo isso é incompreensível para o 'expert' ocidental.

A posição do imperador não chega a ser uma posição, contudo, pode considerar-se 'corajosa' porque implica o abandono, momentâneo embora, do puro cerimonial. O imperador, de facto, não governa, e a política mais militarista podia impor a sua via sem qualquer 'gesto' de apoio ou de rejeição de Hirohito. A ordem de rendição, aliás, pode considerar-se, não um acto de governo, mas provinda da instância mais sagrada da nação.

MacArthur acaba por seguir a recomendação, mais pensada, de Fellers e exige um encontro com o imperador 'para a fotografia', apesar de todos os obstáculos 'religiosos' e protocolares. No encontro, Hirohito 'assume' toda a responsabilidade pela guerra, que o general declina, dizendo o contrário da verdade: que não se tratava de encontrar um responsável...

Os Americanos exigiam cabeças e algumas rolaram depois, mas já não é assunto do filme.

Aqui, o que está em causa é o abismo que separa as duas culturas, a grande 'justificaçāo' do racismo de parte a parte, e que levou o governo dos EUA a colocar a própria questão da responsabilidade do imperador.

E indo mais longe, são as nações responsáveis pelos seus governos, independentemente do regime, e o que é que então substitui o 'imperador'?

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Sem título

(José Ames)

 

ESPECTRO

Edward Said

 

"Todo este exercício avançava em parte devido a uma mistura anacronicamente israelita de terra com segurança; em parte por uma escatologia irredentista pós-67 (em que o Velho Testamento é invocado como uma espécie de contrato imobiliário com um Deus partidário); e em parte pelo antigo entusiasmo sionista pelo alargamento do território como fim em si mesmo."
(Tony Judt, citando Edward Said)

A motivação já pode ter sido a melhor arma do combatente. Os israelitas têm um 'contrato imobiliário' com Deus e a sua retumbante vitória na Guerra dos Seis Dias, quando eram largamente ultrapassados em homens e meios materiais pelos adversários ("Os israelitas teriam no máximo um quarto dos aviões, um quinto dos tanques, e apenas 275000 homens.") foi tão mau para Israel como "uma derrota histórica" (Said). Convenceu-os de que era aquela a vontade de Deus e de que eram praticamente invencíveis. Mas a consequência dessa supremacia cega às 'coordenadas terrestres' foi o surto de fanatismo político-religioso que nos levou ao mundo 'pós-torres gémeas' e aos delírios securitários do Ocidente, pois a soberba do 'povo eleito' tinha de concitar, uma unidade muito mais forte e natural do que a que o famoso Lawrence da Arábia conseguiu electrizar num breve momento histórico. No filme de Lean, a história começa e acaba pelo suicídio de Lawrence, naquela desvairada corrida de mota, a mais simbólica das 'fugas para a frente' do cinema.

Hoje, como se sabe, não é a motivação que falta às nações desavindas. Os Americanos, que já não a têm, confiam mais nos 'drones' e nos mercenários.

Mas já me cansa a história do 'lobby' judaico e do seu poder para determinar a política americana no Médio Oriente. Parece-me, em primeiro lugar, demasiado simples. É outro 'cherchez le pétrole' com que normalmente, com toda a boa consciência, misturamos 'alhos com bugalhos'. As 'meias-verdades' têm sempre mais capacidade de sedução do que a verdade pura e simples (para sermos mais ingénuos do que Pilatos...).

Qual é então a verdadeira força de Israel? Os judeus foram desde a Idade Média os proscritos da sociedade cristã. Hitler levou até às últimas consequências esse anti-semitismo implícito por causa do deicídio. Esse cerco continua agora que o resto do mundo se secularizou, à excepção, precisamente, desse mundo em parte bíblico ou corânico, em parte político, do judeu e do àrabe, na sua dimensão espelhar. Embora esse mundo seja actual, não é real (Deleuze). A infecção que ele constitui impede o resto do mundo, por sua vez, de se tornar real.

"É um espectro que anda à volta do mundo..."

 

domingo, 7 de julho de 2013

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Funchal

 

LIMPEZA ÉTICA

Alfred Sauvy (1898/1990)

 

Alfred Sauvy, conhecido antropologista falecido em 1990, dispôs-se, nos anos setenta, a calcular o custo e o valor da vida humana ("Coût et valeur de la vie humaine"), o que em si era já uma espécie de basfémia: pois não são, ao contrário, a vida e o espírito humanos que conferem o valor?

A tese de Marx é que o trabalho é considerado, no sistema capitalista, como uma mercadoria como as outras e a sua teoria do valor é inseparável da ideia da 'exploração do homem pelo homem'. A lógica disto pode levar-nos a dizer que a tendência actual de substituição do trabalho pela tecnologia nos há-de levar ao fim daquela exploração e ao fim do próprio valor. As profecias às vezes cumprem-se, mas como ninguém esperava.

Mas o que eu queria realmente abordar é a questão da dívida e, especialmente, da chamada 'dívida odiosa'. Vou permitir-me colocar a questão assim: o valor da dívida (por exemplo, a de Portugal) é um composto político-ideológico-matemático determinado pelo sistema financeiro dum conjunto de países, em que entram coisas como a guerra económica entre nações e organizações, a arbitrariedade do jogo especulativo e a sempiterna 'relação de forças', nestas condições a 'limpeza ética' da dívida é uma tarefa tão urgente e tão desesperada como o cálculo do valor da vida humana por Sauvy no sistema capitalista.

Geralmente desvia-se esta discussão através do sado-masoquismo das nossas elites. Então não andámos estes anos todos a 'viver acima das nossas possibidades?' Era como se tivéssemos que pagar aos que nos fizeram 'correr atrás da cenoura'...Há responsabilidades, claro, mas quem monta a armadilha tem-nas maiores e de outra gravidade.

De qualquer modo, a desmistificação da dívida pressupunha um outro acordo tácito (sobre a 'verdade' das contas) e uma nova relação de forças.

Já estivemos mais longe dum e doutra. A deusa da economia e os seus sacerdotes, infelizmente, só encontram pela frente a jeremíada dos interesses e dos direitos da grande maioria lesada, hipotecada por uma ideia de revolução que é o melhor antídoto da mudança.

 

sábado, 6 de julho de 2013

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CULTURAS DA FORÇA



Na empresa isola-se, como em nenhum outro lado, a contradição que é essencial à nossa cultura.

Os direitos dos indivíduos, os valores da liberdade e da democracia têm uma insistente presença na linguagem, mas a correspondência prática esbarra sempre com uma lógica mais forte, no entanto, sujeita a denegações e ocultações, ou travestida nos termos da especialidade económica ou gestionária. Essa lógica é a da acção colectiva dirigida a um fim, que está sempre para além da própria empresa e que só um meio mais amplo explica.

Essa realidade está encoberta pela permanência da empresa e dos seus agentes no espaço público que nos permite considerá-la como objecto dum regime de propriedade e uma comunidade de trabalho.

A precaridade do emprego e o accionariato especulativo, por outro lado, contribuem para a desmaterialização e o desocultamento da empresa, revelando e pondo em xeque a sua natureza instrumental.

Ao mesmo tempo, ficam a descoberto o desperdício e a irracionalidade da organização, como se nos seus genes, estivesse sempre uma coacção essencial.

Como se lê em “O crepúsculo dos deveres”, de Gilles Lipovetsky:

"É por isso que o conteúdo particular do projecto (empresarial) conta muito mais do que a participação e a comunicação internas que permitem a sua realização. Mas esta finalidade é inconfessável, não pode ser reivindicada sem a anulação do processo participativo, o qual requer um objectivo superior a si próprio. Impossível admitir oficialmente que apenas conta o efeito de participação; a gestão que visa pragmaticamente a mobilização dos homens é obrigada a sacrificar o sentido. Daí o carácter parcialmente “manipulatório” da gestão pelos valores.”


sexta-feira, 5 de julho de 2013

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Salamanca

 

ROMA NA ERA ELECTRÓNICA

 

A Antiga Roma e o seu peculiar sistema político, em que a plebe residente gozava de um poder exorbitante face aos restantes habitantes da República e do Império, através da pressão permanente da rua, é o exemplo histórico que mais se parece com o moderníssimo fenómeno das 'flash mobs' e das massas instantâneas convocadas na 'Rede'.

As chamadas primaveras árabes são outro exemplo de irrupção da tecnologia num mundo quase medieval que se presumia imóvel e ao abrigo da contaminação cultural do Ocidente. O meio é aqui inequivocamente a 'mensagem'.

Fala-se em 14 milhões de turcos nas ruas, contra a sociedade imobilizada e o fechamento ao mundo defendido pelos islamistas tradicionais. O parque de Taksim tornou-se o símbolo desse anseio da juventude turca pela modernização do seu país. É evidente que o grande contraste entre a vida numa cidade como Istambul, mais populosa do que Portugal, com as zonas rurais da Turquia, coloca um problema difícil à democracia. Por que carga de água deviam os cidadãos de Istambul ou Ancara viver segundo a vontade do eleitorado rural, aquele em quem Erdogan confia para afogar o voto laico no oceano islâmico?

Este caso e outros, como o do Egipto, um pouco mais ambíguo, dado o papel dos mlitares, onde já se chegou ao ponto de prender o primeiro-ministro eleito há um ano, por causa da sua agenda islamizante, corresponde a um processo de ruptura cultural e de aceleração das desigualdades por via da tecnologia que tem muitas analogias com as tácticas da plebe romana. Na antiga capital, a multidão podia encher as ruas facilmente, com a 'técnica' da 'boca-à-orelha', estava sempre 'mobilizada', fazendo o que hoje chamaríamos de pressão lobística, porque esse era de facto um poder 'impressionante' (e impressionável, como se vê no discurso de Marco António, em Shakespeare).

Sabemos como os patrícios 'moderaram' essa plebe insaciável com a instituição tribunícia. Mais tarde, os césares e as campanhas militares impuseram outra espécie de ordem.

Não sabemos qual será o futuro das 'massas instantâneas'. Mas uma das soluções possíveis é tornar o voto universal e igualmente instantâneo ou... consagrar a singularidade da grande cidade.

 

 

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Sem título

Salamanca