terça-feira, 30 de agosto de 2016

(José Ames)

A ÓPTICA DO DESERTO


Diálogo entre Casanova e o turco Yosouff:

"- Estás seguro, meu querido pai, de que a tua religião seja a única em que uma pessoa se pode salvar?

- Não, meu querido filho, não tenho essa certeza, e nenhum homem pode tê-la; mas estou seguro de que a religião cristã é falsa, porque não poderia ser universal.

- Porquê?

- Porque não há pão nem vinho em três quartas partes do globo. Repara que o Corão pode ser seguido em toda a parte."

E comenta o veneziano: "Eu não soube o que lhe responder, e achei que devia tergiversar."
"Memórias de Casanova"


Do embaraço de Casanova não havia de sofrer um teólogo experimentado em dialéctica, que saberia fazer reverter o concreto em abstracto e o histórico em universal.

Mas a questão das formas e da liturgia é aparentada com a da representação do divino.

No deserto, a única sombra é a nossa e a simplicidade de Deus é experimental.

Continua Yosouff: "Nós dizemos que ele é uno; eis uma imagem do simples. Vós dizeis que ele é um e três ao mesmo tempo; e isso parece-me uma definição contraditória, absurda e ímpia."

- "É um mistério", replica Casanova.
(ibidem)

Há demasiada luz no deserto, e o homem não pode ter segredos, mesmo dos que são essenciais à espécie.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

(Abadia de S. Antimo, Toscânia)

A LEITURA


("La lecture" de Fantin-Latour)

Em mais uma visita à Gulbenkian, revejo o quadro de Fantin-Latour "La lecture" (1870), que me aparece subitamente moderno.

A luz concentra-se no rosto da auditora que, aparentemente, está a pensar noutra coisa. Ela está sentada e rodeada pela voz de uma mulher que lê para ela em voz alta. Mas adivinha-se um drama que não é o do livro e que ela procura, em vão, distrair-se da sua premência.

A que ouve tem o rosto preocupado sob a luz, como se o pintor procurasse nele captar todas as vibrações despertadas pela leitura. 

Dir-se-ia ter desistido de sair. Com uma luva já descalçada vive um drama alheio ao enredo literário. Serve-se, talvez, da leitura para se acalmar. Vai ficar em casa e mil suspeitas lhe atravessam o rosto.

O que nós vemos é a vida impondo-se sobre todos os paliativos. Um livro pede toda a atenção e esperaríamos que o rosto assim cinzelado pela luz fosse uma 'tradução' da palavra escrita.

Mas, no caso, a leitura é apenas um calmante.

domingo, 28 de agosto de 2016

(José Ames)

NOCTURNIDADE

(Sissi e Luís II da Baviera)


"A noite, afirma Thomas Mann, é o asilo e o reino de todo o romantismo, ela é a descoberta disso. Ele (Luís II) apresentou-a sempre como a verdade em oposição à vã ilusão do dia, o reino da sensibilidade contra a razão. Nunca esquecerei a impressão que me fez a visita em Linderhof do castelo de Luís II da Baviera, o rei doente em busca de beleza, onde se afirma na distribuição interior precisamente esta preponderância da noite."
("Luchino Visconti, Les Feux de la passsion" de Laurence Schifano)

E tudo começaria com Wagner, a quem o escritor chama de Cagliostro da modernidade.

A cultura humanista, a das "Luzes", entrou em imparável declínio, a ponto de nos terem vencido quase sem resistência os pesadelos do século XX.

A verdade que assim oscila entre o diurno e o nocturno que em nós existem só nos deixa como âncora o passado ideal e a idade de oiro (porque o futuro não existe, como dizia Simone Weil).

sábado, 27 de agosto de 2016

(José Ames)

PRECEDÊNCIA DE FORMOSURA

Birth of Helen (Apulian Krater, c. 375-350 BCE)

Numa praia da Catalunha, o cavaleiro da Branca Lua desafiou D.Quixote numa questão de precedência de formosura.

Tratava-se de levar o manchego a reconhecer que existia uma beleza superior à de Dulcineia del Toboso.

É mais um caso de tratamento do mal com o veneno que lhe deu origem. Entrando no jogo da loucura, até certo ponto (mas em Cervantes, tanto a estratégia do riso quanto a da medicina levam a que o mundo da loucura tenha o mesmo direito à existência do que o do bom-senso), pretende-se, pela sua honra, fazer D. Quixote renunciar às altas cavalarias.

Ele é, assim, derrubado, mas não convencido a comparar com qualquer outra a mulher que só existe na sua cabeça.

domingo, 21 de agosto de 2016

(Paris)

OS ÍNDIOS DE FELLINI

Federico Fellini

Em "Entrevista" (1987), Fellini volta ao tema de "Otto e mezzo", filmando o fazer do cinema, a pretexto de contar as suas memórias sobre a Cinecittà.

O mesmo silêncio encantado, a presença do vento, o artifício do teatro e do circo, a galeria de monstros. O mundo do cineasta é povoado de tipos inconfundíveis. Anões e mulheres-gigantes. Convenceram uma de grande busto de que tinha o tipo felliniano, por isso ela aparece na audição. 

E, inesperadamente, nesta evocação sentimental que acaba numa paródia do western contra a televisão, com antenas em vez de flechas, a visita ao ícone de "La dolce vita", à mais felliniana das actrizes.

O reencontro do mítico par da Fontana di Trevi é potencialmente destrutivo.

Cerca de trinta anos depois, a realidade disforme debate-se como um pássaro ferido contra o ecrã.

Mastroiani, maquilhado como o Aschenbach no Lido de Visconti, é uma sombra repetindo um papel que foi o seu no mundo dos vivos e uma Anita enorme e porosa, na sua mansão guardada por molossos, deixa aparecer uma lágrima.

Esta confrontação da memória com o presente é como o contra-método do seu estilo. Um Fellini, cedendo ao pessimismo, diz-nos que sabe muito bem que não é o sonho que comanda a vida.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

(José Ames)

O PODER



"O poder é o que mantém o domínio público, o espaço potencial de aparecimento, entre homens que agem e falam, em existência. A própria palavra, o seu equivalente em grego 'dynamis'... indica o seu carácter 'potencial'. O poder é sempre, como poderíamos dizer, um poder potencial e não uma entidade imutável, mensurável e confiável como a força ou a resistência.
(Hannah Arendt)

A primeira consequência deste enunciado é que o poder que 'mantém o espaço público em existência' se distingue do 'poder' tal como ele é visto, nos nossos dias, pelos 'homens que agem e falam'. Não quer isto dizer que esse poder não assuma as funções de enquadramento necessárias, nem garanta o espaço da palavra, a qual, mesmo diminuída, permite, ao menos, uma comunidade política. É que essa natureza do poder fundador deixou de ser reconhecida no espaço público, para só aparecer o seu carácter constringente, burocrático e classista que  teorizações como a de Marx, lhe destinaram. Não é sem razão que já crismaram o nosso tempo como a era da suspeita. O poder é mais uma história do 'lobo mau'.

Trata-se tão-só do triunfo do individualismo e da Crítica (esta tem sempre que calar em nome de quem fala, não é?) que o 'capitalismo', com a sua terraplanagem, tão eficazmente desenraizou, ou é outra coisa, completamente diferente?

À medida que o 'sistema' passa a ser compreendido como uma catástrofe 'natural', percebemos que não é possível conservarmos uma teoria da evolução consistente. Isto é, há que introduzir  a narrativa do espaço público.



quinta-feira, 18 de agosto de 2016

(Alvoco)

TAGARELICE




"(...) toda a gente fora da 'polis', escravos e bárbaros, era 'aneu logou', privado, naturalmente, não da faculdade da fala, mas de um modo de vida no qual a fala e só a fala fazia sentido e onde a preocupação central de todos os cidadãos era falar uns com os outros."
(Hanna Arendt)

Não se deve levar esta ideia para o lado da proverbial tagarelice dos Gregos. Porque uma linguagem, uma mundividência não se constroem com indivíduos isolados ou desenraizados. Era o caso dos escravos, antigos prisioneiros de guerra ou descendentes destes.

A Grécia clássica não durou o tempo bastante, ou o seu sistema de classes foi suficientemente estável para que os 'aneu logou' tomassem a palavra e se pudesse falar numa cultura própria.

A própria noção de uma 'vontade de falar' característica do cidadão ou do emancipado presta-se por demais a uma interpretação pela dialéctica marxista para esta não se impor, à falta de melhor. A classe ociosa é a que tem todo o tempo para falar consigo própria.

É verdade que através dessa 'actividade' se chegou a algo de novo que está na base do mundo moderno. A ciência, nem é preciso relembrar as séries de Auguste Comte, começou pela especulação teológica, fase que, entre os Gregos, já não se podia incluir na tagarelice e no falar por falar.

Tudo isto sugere que a linguagem nos conduz mais do que a conduzimos. Que ela, por assim dizer, 'sabe mais' do que aquilo que lhe 'ensinámos'.



quarta-feira, 17 de agosto de 2016

(José Ames)