sexta-feira, 15 de abril de 2016
REQUISITÓRIO CONTRA A CEGUEIRA
"In the Penal Colony", opera by Philip Glass
Numa conversa de pendular, alguém empregou a expressão de "justiça cega" para dizer que a Lei não seria só insensível aos interesses, mas ao próprio homem.
Seria como uma máquina que não pudesse ser travada, um formalismo sem estados de alma, cuja aplicação fosse não só incontroversa mas quase automática, à maneira do dispositivo engendrado por Kafka na "Colónia Penal" que marcava a carne, de acordo com o desvio, com a precisão de uma tabela.
Quem assim falava procurava compreender a injustiça de que fora uma vez vítima.
Mas Shylock é o anti-juiz, e a cegueira que proverbialmente se atribui à justiça é ao mesmo tempo impessoal (não olha a quem, ao seu poder ou prestígio) e atenta ao que faz de cada caso um problema sem qualquer comparação.
A justiça depende, pois, por parte dos juízes duma qualidade negativa como a pureza e dum género de atenção criadora ( a positividade que não está na Lei).
quinta-feira, 14 de abril de 2016
A UTILIDADE DO ESPÍRITO
"Não será preciso, então, preservar as realidades espirituais para nelas encontrar a inspiração necessária ao exercício prático, efectivo, da solidariedade e da responsabilidade?"
"Levantar o céu" (José Mattoso)
Esta defesa do espírito (contra o materialismo) poderia ser assumida por um materialista mais subtil. Com efeito, não é preciso acreditar em Deus, nem em qualquer espécie de transcendência, para reconhecer que não é o interesse vital ou económico que só por si pode inspirar uma ideia como a solidariedade, ou a responsabilidade. É preciso uma cultura mais complexa que o capitalismo, e, aparentemente, em contradição com ele, para 'produzir' um ser solidário.
É mais um exemplo do princípio da boa utilização de uma ideia contrária, como é o caso da célebre teoria do aproveitamento das paixões pela vontade moral.
Alain fala-nos do interesse muito moderno que seria o de um negreiro do século XVI que tratasse os seus escravos com os cuidados de higiene e saúde que já nessa altura tinha para com o seu gado.
Isto, evidentemente, não tem nada a ver com humanismo. É comércio apenas. Como na citação de Mattoso, tampouco se trata de espiritualidade ou religião, mas, por mais chocante que pareça, de utilidade social.
quarta-feira, 13 de abril de 2016
PARA LÁ DO VERBO
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| http://woolpix.deviantart.com/art/meaningless-351051978 |
"Não há ciência se não se instituíram [...], numa operação independente, as regras arbitrárias da ciência. É no arbitrário que a ciência se prepara para fazer leis, é pelo arbitrário que ela é possível."
(Paul Valéry)
Se isto é assim, fará alguma diferença que o fundamento da ciência seja este ou outro (já que é arbitrário)? E podia, talvez, acrescentar-se que esse fundamento só não é Deus, porque a história da ciência é a história da sua longa luta para se distanciar da religião.
Descartes, pai do racionalismo moderno, pôde ainda incluir a figura de Deus na abóbada do seu sistema. Mas depressa a necessidade dessa inclusão deixou de ser evidente, como deixou de ser para Laplace.
Mas porque é que o 'arbitrário' dos fundamentos parece não prejudicar a lógica dos subsistemas ciêntíficos?
Não será porque o pleno desenvolvimento do animal racional exigiu a crença num universo racional e num ser providencial que é o homem?
Esse optimismo falha necessariamente, quando aplicamos a nós próprios os instrumentos e os conceitos que aplicamos à 'natureza'.
terça-feira, 12 de abril de 2016
SEGUNDAS INTENÇÕES
"Não se pode viver com pessoas das quais conhecemos as segundas intenções."
(Albert Camus)
Segundo uma espécie de radicalismo ético-político isso seria talvez impossível. Porque tal transformaria a vida pública numa farsa. Poderia esta 'transparência' deixar de originar uma imediata 'descodificação'?
E, no entanto, não é a essa farsa que assistimos, todos os dias, no mundo político? Os partidos 'pensam' segundo a fórmula de que as 'verdadeiras intenções' dos partidos concorrentes são um 'segredo de Polichinelo'. E quando existe um partido radical, com as características, por exemplo, do nosso partido comunista, torna-se um jogo demasiado fácil desqualificar todas as suas propostas, porque as suas 'segundas intenções' balizam as fronteiras ideológicas do próprio regime. Só por ter confundindo os 'cães de guarda' da ideologia, este governo merecia governar.
A própria existência das instituições democráticas é o desmentido daquela citação. As 'pessoas' convivem com a diferença, encontrando uma linguagem comum, apesar de tudo, mas dotando essa diferença de uma característica dir-se-ia física, como se se tratasse de uma bossa de camelo, ou de um gargalo de girafa. A fábula teve sempre um grande significado político.
E em vez da incomunicabilidade abstracta, essas pessoas dedicam-se à 'comédia de enganos' que é um 'diálogo civilizado' perfeitamente funcional, porque nunca está em causa a verdade, mas o 'contrato social'.
segunda-feira, 11 de abril de 2016
O CÉU DE ETTY
(Etty Hillesum - n.1914 na Holanda e m. em Auschwitz em 1943.)
"Muitas pessoas julgar-me-iam louca e totalmente estranha à realidade, se soubessem o que eu penso e o que eu sinto. No entanto, eu vivo com toda a realidade que cada dia me traz. O Ocidental não aceita o sofrimento como inerente a esta vida. É por isso que ele é sempre incapaz de retirar forças positivas do sofrimento." "(...) É preciso saber viver sem livros, sem nada. Sem dúvida que um pequeno pedaço de céu continuará sempre visível e que eu terei sempre em mim um espaço interior suficientemente amplo para juntar as mãos em oração."
"Une vie bouleversée" (Etty Hillesum)
Etty sabia o que a esperava quando escreveu estas linhas no seu diário. Bastava-lhe ver o que acontecia aos outros judeus por essa Europa de trevas.
Ontem, encontrando-me diante do mar, pensei que, tirando o céu, nada talvez tenha o aspecto do primeiro dia da criação como o mar.
E o mar alimenta-nos de tantas maneiras.
domingo, 10 de abril de 2016
METÁSTASES POLÍTICAS
S.t.a.l.k.e.r.: shadow of Chernobyl
"Stalker" (1979-Andrei Tarkowski) permite uma infinidade de olhares e não nos amarra a um fácil simbolismo.
Os cenários espectrais, filmados na Estónia, espectáculo duma generalizada mutação de paredes e máquinas em vegetação e água adequam-se de tal modo às sequelas dum acidente nuclear que muitos pensaram estarem, neste filme, diante duma verdadeira profecia de Chernobyl, ocorrido algum tempo depois da estreia (existe, aliás, um jogo para PC com fantásticos ecrãs, explorando o tema).
Mas é a própria mentira política que se poderia ver na metáfora da Zona.
Uma versão da realidade defendida com arame farpado e metralhadoras.
sábado, 9 de abril de 2016
PENSAMENTOS TERRESTRES
Karl Jaspers (1883/1969)
"Estamos, decerto, mais adiantados do que Hipócrates, o médico grego. Mas já não podemos dizer que estejamos mais adiantados do que Platão, exceptuando apenas o conjunto material dos conhecimentos científicos que teve ao seu dispor. No filosofar propriamente dito, talvez nem sequer chegássemos ainda até onde ele chegou."
"Iniciação filosófica" (Karl Jaspers)
Como é possível que 2500 anos não tenham feito nada ao caso?
Por que não conseguimos avançar. O caminho não é apenas íngreme, é vertical.
Voltamos a cair no mesmo sítio. É a melhor prova de que só somos capazes de pensamentos terrestres.
Não há plataforma donde nos possamos ver a nós mesmos.
sexta-feira, 8 de abril de 2016
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