terça-feira, 12 de abril de 2016

SEGUNDAS INTENÇÕES




"Não se pode viver com pessoas das quais conhecemos as segundas intenções."
(Albert Camus)

Segundo uma espécie de radicalismo ético-político isso seria talvez impossível. Porque tal transformaria a vida pública numa farsa. Poderia esta 'transparência' deixar de originar uma imediata 'descodificação'?

E, no entanto, não é a essa farsa que assistimos, todos os dias, no mundo político? Os partidos 'pensam' segundo a fórmula de que as 'verdadeiras intenções' dos partidos concorrentes são um 'segredo de Polichinelo'. E quando existe um partido radical, com as características, por exemplo, do nosso partido comunista, torna-se um jogo demasiado fácil desqualificar todas as suas propostas, porque as suas 'segundas intenções' balizam as fronteiras ideológicas do próprio regime. Só por ter confundindo os 'cães de guarda' da ideologia, este governo merecia governar.

A própria existência das instituições democráticas é o desmentido daquela citação. As 'pessoas' convivem com a diferença, encontrando uma linguagem comum, apesar de tudo, mas dotando essa diferença de uma característica dir-se-ia física, como se se tratasse de uma bossa de camelo, ou de um gargalo de girafa. A fábula teve sempre um grande significado político.

E em vez da incomunicabilidade abstracta, essas pessoas dedicam-se à 'comédia de enganos' que é um 'diálogo civilizado' perfeitamente funcional, porque nunca está em causa a verdade,  mas o 'contrato social'.


segunda-feira, 11 de abril de 2016

(Braga)

O CÉU DE ETTY

(Etty Hillesum - n.1914 na Holanda e m. em Auschwitz em 1943.)



"
Muitas pessoas julgar-me-iam louca e totalmente estranha à realidade, se soubessem o que eu penso e o que eu sinto. No entanto, eu vivo com toda a realidade que cada dia me traz. O Ocidental não aceita o sofrimento como inerente a esta vida. É por isso que ele é sempre incapaz de retirar forças positivas do sofrimento." 
"(...) É preciso saber viver sem livros, sem nada. Sem dúvida que um pequeno pedaço de céu continuará sempre visível e que eu terei sempre em mim um espaço interior suficientemente amplo para juntar as mãos em oração."
"Une vie bouleversée" (Etty Hillesum)

Etty sabia o que a esperava quando escreveu estas linhas no seu diário. Bastava-lhe ver o que acontecia aos outros judeus por essa Europa de trevas.

Ontem, encontrando-me diante do mar, pensei que, tirando o céu, nada talvez tenha o aspecto do primeiro dia da criação como o mar.

E o mar alimenta-nos de tantas maneiras.

domingo, 10 de abril de 2016

(José Ames)

METÁSTASES POLÍTICAS

S.t.a.l.k.e.r.: shadow of Chernobyl

"Stalker" (1979-Andrei Tarkowski) permite uma infinidade de olhares e não nos amarra a um fácil simbolismo.

Os cenários espectrais, filmados na Estónia, espectáculo duma generalizada mutação de paredes e máquinas em vegetação e água adequam-se de tal modo às sequelas dum acidente nuclear que muitos pensaram estarem, neste filme, diante duma verdadeira profecia de Chernobyl, ocorrido algum tempo depois da estreia (existe, aliás, um jogo para PC com fantásticos ecrãs, explorando o tema).

Mas é a própria mentira política que se poderia ver na metáfora da Zona.

Uma versão da realidade defendida com arame farpado e metralhadoras.

sábado, 9 de abril de 2016

(Lodz)

PENSAMENTOS TERRESTRES

Karl Jaspers (1883/1969)


"Estamos, decerto, mais adiantados do que Hipócrates, o médico grego. Mas já não podemos dizer que estejamos mais adiantados do que Platão, exceptuando apenas o conjunto material dos conhecimentos científicos que teve ao seu dispor. No filosofar propriamente dito, talvez nem sequer chegássemos ainda até onde ele chegou."

"Iniciação filosófica" (Karl Jaspers)

Como é possível que 2500 anos não tenham feito nada ao caso?
Por que não conseguimos avançar. O caminho não é apenas íngreme, é vertical.

Voltamos a cair no mesmo sítio. É a melhor prova de que só somos capazes de pensamentos terrestres.

Não há plataforma donde nos possamos ver a nós mesmos.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

(José Ames)

A VIRTUDE NO MUSEU

(Batalha de Queroneia)


"A última imagem da 'areté' (virtude), na Grécia, é o campo de batalha de Queroneia, juncado de cadáveres dos jovens de Tebas. Estes corpos apresentavam-se dois a dois: eram todos pares de amantes que tinham partido para o combate, um perto do outro, contra os Macedónios. Foi a última batalha da Grécia. A partir desse dia, Filipe e Alexandre transformaram-na em museu."
(Roberto Calasso)

A 'perfeição' (que faz parte do sentido de 'areté') deste morrer juntos dir-se-ia que se sobrepõe ao próprio objecto do combate. Não é preciso que a batalha tenha sucesso, se os 'amigos' cumprem a promessa do 'até à morte'.

Os reis da Macedónia ficariam, então, com as pedras dos templos, com a escultura, a epopeia e o drama. Alexandre dormirá com Homero à cabeceira e terá Aristóteles como mestre.

Mas já não é a vida, a vida daquela 'amizade' que nos é tão estranha. Uma outra 'areté' surgirá segundo outros códigos.

A nostalgia de Calasso é poética e 'verdadeira', sem ser histórica.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

(Porto)

A ABÓBADA

A fonte do Letes (Gustave Doré)


"Ainda não e no entanto já", foi a resposta do seu próprio peito, em suave voz de sonho, que já quase não era a voz do rapaz, mas antes a da noite e de todas as noites, a voz do espaço argênteo, que é a solidão da noite, da abóbada da noite, contemplada inúmeras vezes e no entanto nunca perscrutada, cujas paredes ele tinha tocado vezes sem conta e que agora se tinham transformado em voz. "Ainda não e no entanto já", graciosa e senhoril, sedutora e constrangedora, brilhando na noite e profundamente oculta, a palavra espontaneamente vibrante, a unidade da língua e da humanidade (...)"
"A morte de Virgílio" (Hermann Broch)

A experiência que nos é mais íntima é a que nos é mais estranha.

A abóbada de que fala Hermann Broch, de facto, fundimo-nos nela, formando um único ser, durante um terço da existência.

Mas antes de abrirmos os olhos e de nos pormos a pé, todos bebemos da água do Letes.

É um truísmo dizer-se que o sono se assemelha à morte. Mas nem por isso compreendemos melhor a noite.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

(José Ames)

O PODER CORROMPE

(Baltasar Garzón)

"Citando o amaldiçoado juiz Baltasar Garzón em "Um Mundo sem Medo", por exemplo,  os custos empresariais na China encarecem em cerca de 46% por causa das comissões de corrupção, na Rússia em cerca de 43% e na Turquia 36%."

(Maria José Morgado, Expresso de16/06/12)

Com os 'Panama Papers' e as revelações desta ululante crise financeira, torna-se evidente que a virtude não está em lado nenhum. Pode-se procurar à lupa: a corrupção parece estar em todo o lado e em todos os sistemas,  tanto no poder absoluto como no poder das novas ou velhas democracias. Claro que se pode sempre dizer que o poder, nestas, tem de mentir aos seus cidadãos, enquanto os servos de todos os queridos líderes da terra só podem esperar que a força tenha o rigor mecânico e o carácter indiscutível da morte. Daí o impacto das imagens das decapitações. 

A opressão de um déspota não é só pior do que o poder corrupto, ele é a quintessência da corrupção, porque o medo também corrompe.

Os 'offshores' não parecem meter medo a ninguém e até serão impecáveis do ponto de vista legal. São, no entanto, uma injustiça que brada aos céus. Se, 'ao menos mau dos regimes' que concede esta licença para alguns fazerem o mal através da lei, juntarmos a incapacidade, cada vez mais flagrante, em garantir a segurança dos seus cidadãos face ao terror global, temos todo um outro défice de que não se fala.

Este triunfo dos advogados 'do diabo' e dos legisladores contra a lei para proteger uma coutada que, depois da Revolução Francesa, ficou de repente sem futuro, ilustra bem aquele aforismo de que não adianta expulsar um demónio pela janela, porque ele logo encontra a entrada pela janela.

Esse Terceiro Estado que teve em Robespierre o seu luminar vive agora o pós-vida do cinismo. Se escapasse à guilhotina e tivesse podido desafiar a lei do tempo, seria talvez esse o futuro do Incorruptível.


terça-feira, 5 de abril de 2016

(Lisboa)

OS PRINCÍPIOS

(Alain Badiou)



"(...) a igualdade não é um objectivo nem um programa, é um princípio ou uma afirmação, não se trata de crer que os homens são iguais, ou tirar as consequências deste princípio."

(Conferência de Alain Badiou, na Argentina, 2/6/2004)

À  política  pertence,  por  exemplo,  uma 'política justa', à justiça, 'a transformação da situação subjectiva' pela consequência de duas afirmações: 'a afirmação da inseparabilidade do corpo e da ideia, e a consequência de princípios igualitários'.

"A justiça não é um programa a seguir no futuro, não é um estado de coisas, a justiça é uma transformação, digamos que é o presente colectivo de uma transformação subjectiva." (idem)

Da ideia de Badiou resulta que não pode haver justiça num país de escravos, como não pode haver entre as feras. Mas isso é ir um pouco longe de mais. Já foi reconhecido que, numa sociedade de ladrões, não deixa de existir uma espécie de justiça entre correlegionários - quem acreditaria num chefe que roubasse os seus homens?- e que isso seria um exemplo de homenagem do vício à virtude. Por outro lado, quem nos diz que certas situações 'exóticas' de desigualdade e de 'separação da ideia e do corpo' não passaram por algo de parecido com a 'transformação subjectiva' referida?

A sociedade da antiguidade clássica pôde conviver com a escravatura, talvez durante um milénio, sem que essa transformação subjectiva ocorresse de modo a permitir a unidade moral da Grécia e de Roma. Por outro lado, se houve uma declaração inaugural sobre o princípio da igualdade, ainda foi preciso imaginá-lo para além 'desta vida', com o triunfo do Cristianismo.

Parece, além disso, que no nosso 'presente colectivo', por força de uma subjectivação 'espontânea' ao nível do indivíduo, o princípio da igualdade não tem suficiente força declarativa, visto depender de outros princípios que, entretanto, entraram em crise.

Porque é tão natural que se comece por algum princípio de justiça, Badiou diz ainda: "o problema da justiça é o problema da sua perda,  não é o problema da sua vinda, há sempre a possibilidade de trazer algo de justo, e o  problema
mais difícil é o problema da sua perda, porque a justiça está sempre ameaçada."