quinta-feira, 17 de março de 2016

O CALDEIRÃO DOS VENTOS

(Torre dos ventos, em Atenas)


"O executivo é monárquico necessariamente. É preciso sempre, na acção, que um homem dirija (...). O legislativo é oligárquico necessariamente, porque, para regular qualquer organização, são precisos sábios, juristas e engenheiros que trabalhem em pequenos grupos nas suas especialidades (...). Onde está então a democracia, senão nesse terceiro poder a que eu chamo o Controlador? Não é outra coisa que o poder de depor os Reis e os Especialistas no minuto se eles não conduzirem os assuntos segundo o interesse do grande número."
(Alain) 

Alain foi o grande mentor do pensamento político radical, entre as duas guerras mundiais, em França. A doutrina não podia ser mais cristalina.

O povo (os milhões de cabeças) não pode governar, nem legislar (não é especialista em nada). Resta-lhe controlar os seus representantes.

No tempo em que por cá se discutia o controlo de gestão nas empresas, o 'poder monárquico' do executivo obrigou-se a um ritual de comunicação de dados às comissões de trabalhadores, que para não serem tidas por lorpas, os sujeitavam ao escrutínio de algum advogado ou economista, 'amigo dos trabalhadores'. Essa informação e os respectivos pareceres dos assessores sindicais foram uma arma política, a favor dos sindicalizados, mais do que um verdadeiro controlo de gestão.

A empresa era, na ideologia em voga à esquerda, a mina de uma mais-valia que tinha de ser disputada à picareta para haver justiça. Não era um organismo que fazia parte do seu ambiente, com necessidades próprias e de cuja 'saúde' dependiam os postos de trabalho, os dividendos, os bónus e os salários. Na linha do que muitos 'empresários' faziam às suas empresas antes do 25 de Abril, a nova política trouxe rapidamente a descapitalização e o FMI.

A ilusão de um 'controlo de gestão' foi das primeiras a perder-se e, sem pena, para a maioria, essa complicada encenação foi trocada por melhores contratos que mantiveram a 'monarquia' de sempre.

O apólogo de Chartier tem a utilidade de nos lembrar que o Controlo por parte do cidadão numa sociedade mil vezes mais complexa do que a maior das organizações estatais ou empresariais é pouco mais do que um voto piedoso. De facto, toda a gente devia estar consciente desse facto que aproxima a nossa percepção do mundo de um caos titânico, antes de Zeus trazer uma espécie de ordem.

A consolação é que, mesmo assim, a democracia é o único regime que através de eleições livres, torna possível não o controlo, directo ou indirecto, mas a participação no 'caldeirão dos ventos'.

quarta-feira, 16 de março de 2016

(José Ames)

SHERMAN E CRASSO

William Sherman



"Um dia em que perguntaram a Crasso se disputaria o consulado, e em que ele não se importava de responder, deu como resposta uma bela frase: 'Sim, se for útil ao Estado, se não, não'."
(Paul Veyne)

São conhecidas outras respostas do género, entre a insolência e o 'pontapé para canto'.

Mas a posição de William Sherman, general da Guerra Civil, contra a ideia de uma qualquer obrigação de se candidatar ou de aceitar o cargo presidencial, fez história: "Aqui declaro, querendo dizer tudo o que digo, que nunca fui candidato a Presidente, nem nunca serei; que, se for nomeado por qualquer dos partidos, peremptoriamente declinarei; e que, mesmo se eleito por unanimidade, declinarei servir." (John F. Marszalek in Encyclopedia of the American Civil War-A Political, Social, and Military History; Wikipedia)

O que é que diferencia as duas declarações, a do homem mais rico do fim da República romana e a do general americano?

Marcus Licínio Crasso, apesar de toda a sua fortuna e do seu prestígio político, sente-se obrigado a prestar homenagem à 'coisa pública', por isso a sua resposta ressuma de hipocrisia. Como nunca se pode saber 'a priori' a utilidade do esforço cívico de qualquer cidadão, a resposta de Crasso é uma não-resposta e uma prosápia indigna.

Tudo na declaração do americano nos faz sentir o novo estatuto do indivíduo, fruto da revolução social e moral ocorrida entre os dois períodos da história. Sherman é um homem livre, comparado a Crasso. Isto apesar do poder ser tão desigual entre os dois.



terça-feira, 15 de março de 2016

(Berlim)

UNHAPPY END

Mel Brooks


"E se é verdade que a análise do real não está acabada, nem poderá está-lo nunca, longe de os inquietar, disso se valem; porque, mesmo em face do desconhecido, a ciência não tem que recear encontrar o nada, nem o ser, nem o incognoscível; o que ela ignora ainda, pode vir um dia a sabê-lo; o que ela ignora não destrói o que sabe agora, e não a impede de explorar cada uma das suas conquistas sucessivas."

"L' action" (Maurice Blondel)

A infinidade da ciência não é o Infinito.
Que a tarefa da ciência nunca possa acabar compreende-se à luz do pensamento positivista.
O Infinito é outra coisa.
É o que torna a ciência um jogo. Uma diversão, no sentido que Mel Brooks lhe deu, numa entrevista.
Disse ele que a vida era um grande divertimento, com um final muito, muito sério.

segunda-feira, 14 de março de 2016

(José Ames)

MENTES OBNUBILADAS

Zeus


"(...) e uma dor aguda lhe atingiu o fundo do espírito e logo agarrou na Obnubilação pela cabeça de cabelos gordurentos, enraivecido no seu espírito, e jurou um juramento ingente, que nunca mais ao Olimpo e ao céu cheio de astros de novo regressaria a Obnubilação, que a todos obnubila."

"A Ilíada" (Homero, tradução de Frederico Lourenço)

Ter sido obnubilado é a desculpa que Agamémnon oferece a Aquiles para o ter ofendido. E invoca o exemplo de Zeus, que também fora obnubilado por Hera, no caso de Héracles.

É um belo sistema para enjeitar a responsabilidade própria sobre quem pode mais do que nós.

Assim, o chefe dos Aqueus descarrega sobre o Pai dos Deuses. Mas este, que não tem ninguém acima dele, sacode para cima do que hoje se poderia ainda chamar de Eterno Feminino.

Hera, para favorecer Euristeu, obtém do seu divino e ingénuo esposo um decreto: "Mas agora jura-me ó Olímpio, um poderoso juramento, que a quantos vivem à sua volta regerá o homem que neste dia cairá entre os pés duma mulher (...)" e, amarrando-o à sua palavra, frustrou os direitos de Héracles, antecipando o parto da mulher de Esténelo e atrasando o de Alcmena.

A Palavra é pois maior do que Zeus.

E era a forma de encontrar no espírito uma lei que correspondesse à harmonia no universo.

O programa de Kant já está todo aqui.

domingo, 13 de março de 2016

(Setúbal)



ORÁCULOS

Carl Jung (1875-1961)

Jung acreditava na existência dum inconsciente colectivo e em figurações ancestrais não hereditárias, mas "possíveis", os famosos arquétipos.

Este nível mais profundo explicaria a semelhança de alguns mitos primordiais em culturas diferentes.

Diz Deleuze que, segundo Freud, as três grandes ignorâncias do Inconsciente são o Não, a Morte e o Tempo. É o que nos permite, de facto, fazê-lo dizer tudo o que quisermos e nele encontrar motivo para tudo.

Não tendo a versatilidade, nem o valor psicológico da Teogonia que permitia que um grego perseguido por uma divindade pudesse ainda buscar a protecção de outra, tem a mesma função de moderar, através do mito, a paixão da liberdade.

Os arquétipos seriam então um recurso de última instância, quando falhasse a defesa das reminiscências pessoais.

sábado, 12 de março de 2016

(José Ames)

O PROBLEMA DA VIDA

A Lua


"Em vão portanto se esperaria resolver, dum ponto de vista positivista, o problema da vida; haveria incompetência, haveria inconsequência em fazê-lo. As ciências positivas não são mais do que a expressão parcial e subalterna duma actividade que as envolve, as apoia e extravasa."

"L'action" (Maurice Blondel)

Este texto de 1893 é ainda novo hoje.

E quanto maior o progresso da ciência, mais visível o facto de que, apesar de contínuo e indefinido, em nada se aproxima do que Blondel chama o problema da vida.

O que ninguém disse como ele é que o sucesso da ciência (que se confunde com a sua justificação) depende de serem os homens, através da acção, a realizarem a "ponte" entre o simbolismo matemático, que é perfeito em si mesmo, mas não pertinente em termos de realidade, e o mundo misterioso em que aqueles sucessos se verificam.

sexta-feira, 11 de março de 2016


(Moscovo)

PILOTOS E POLÍTICOS

"The Sea Wolf" (1941, Michael Curtiz)



"É muito natural pensar que o homem que, doente, mais depressa se confia aos cuidados de médicos especializados do que aos seus pastores, não tem nenhuma razão, quando está de boa saúde, para se deixar tratar por tagarelas muito pior classificados do que pastores, como é o caso nos seus negócios públicos; é por isso que os jovens, que se prendem ao essencial, começam por julgar secundário tudo aquilo que, no mundo, não é nem belo, nem verdadeiro, nem bom, por exemplo o Ministério das Finanças ou, justamente, um debate parlamentar. Pelo menos, outrora, eles eram assim (...)

"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)

O exemplo é socrático e lembra-nos o argumento do piloto (numa tempestade, confiamos no piloto ou no primeiro que aparece?).

Mas assim como há médicos especializados, há burocratas e políticos que se movem 'como peixe na água' no domínio dos 'negócios públicos'. É também uma especialização, mas cuja utilidade é muito mais discutível do que aquela dos que cuidam de nós na doença.

Vamos discutir a necessidade de um Draghi à frente do BCE? Queremos, em cima dos defeitos da União, um órgão central acéfalo, ou governado pelo 'twitter' (que nos serve aqui para caricaturar uma democracia 'instantânea').

É verdade, como diz o autor austríaco, que os políticos sabem menos do que os pastores em...pastorícia. E, indo mais longe, sabem menos do que alguns pastores daquilo que realmente importa à vida das pessoas. Mas se fossem realmente sábios, só constrangidos aceitariam um cargo público, como já aconteceu na Antiguidade. Mas ninguém os escolhe por brilharem na sapiência antiga. Se muitos já estão convencidos de que a política é, em primeiro lugar, um espectáculo da reprodução da própria política, o que importa é que 'representem' bem. Alguns ex-actores de Hollywood, como se sabe, chegaram à cúspide do poder máximo, em sincronia com um eleitorado crente na magia do cinema.

Quanto à juventude de hoje, parece-me tão generosa e tão superficial como a do passado. É costume empregar-se aquele adjectivo porque se supõe que os jovens, em princípio, estão menos comprometidos com os interesses instalados e por isso se julgam mais livres. E acrescenta-se a superficialidade porque é própria de quem  tem de aprender tudo desde o princípio (é preciso sempre subir aos ombros dos gigantes). Não é um defeito moral, nem coisa que se pareça; é uma condição.

As categorias platónicas do Bem, do Belo e do Verdadeiro, na sua pureza e simplicidade, parecem-lhes mais destinadas do que a qualquer outra idade. 



quinta-feira, 10 de março de 2016

(José Ames)

ENIGMAS E VÍRUS





"Sugere o eventual benefício da irracionalidade (não a irracionalidade sentimental do romantismo, mas a que resulta da oposição e da conjugação dos contrários, em que insiste a sabedoria chinesa), não enquanto fautor de caos, mas enquanto mistério irredutível à uniformização."
"Levantar o céu" (José Mattoso)

É o que diz Morin: "Temos de reconhecer esta característica consubstancial ao universo, à realidade, ao ser, ao nāo-ser, à razão, às ciências, ao homem: o enigma." ("Le vif du sujet").

Mas o mistério não se opõe à razão. É de outra ordem. Pelo que a irracionalidade, como o contrário da razão, não o pode 'descrever'; só como não-racional o problema pode ser posto. Porque podemos ser irracionais, por exemplo, por descontrolo emocional. A ignorância, por outro lado, não faz com que o nosso comportamento seja, eventualmente, contrário à razão. Os nossos erros não são irracionais. São apenas uma maneira inadequada de pensar. Temos de ter em conta que a humanidade se iludiu durante milhares de anos com o geocentrismo que a teoria de Ptolomeu consagrou. Um erro fértil para a história da Igreja e para o endeusamento do poder terreno.

A dualidade dos contrários da antiga filosofia chinesa parece infringir o princípio da não-contradição. Porque não é em tempos diferentes que uma coisa é o que é e o seu contrário. A razão nunca pode ter a última palavra. Este princípio pode explicar uma civilização estática, que se limita a viver no seu isolamento e na sua forma de eternidade. E isso significa - não é verdade? - uma espécie de desprezo da acção, tal como a entemos, que é coerente com algumas religiões do Oriente. 

Mas o mundo aberto e o fim do isolamento confrontam uma tal civilização com uma nova dialéctica em que a filosofia dos 'bárbaros' é a outra face da quietude e do estaticismo tradicional. Esse processo foi 'providencialmente' facilitado pelo vírus do idealismo alemão.