quinta-feira, 16 de julho de 2015

Alvoco

HIERÓGLIFO





"A linguagem do amor é uma linguagem cifrada, e na sua suprema perfeição tão muda como um abraço."

(Robert Musil)

É uma linguagem perfeita quando consegue manter a informação à distância, numa inutilidade redonda. As palavras, então, são movimentos de dança, em que 'a verdade não se comunica, mas se entrega (se trai), involuntariamente (Deleuze, sobre Proust).

Por isso, o ciúme é uma transgressão desta harmonia. O ciumento monta as suas armadilhas, procurando, pelo contrário, informar-se.

A 'discussão sobre as provas' não tem fim. No melhor dos casos, a distorção do amor pode continuar porque o ciumento se vê obrigado a 'passar um atestado de inocência sobre um ser que sabe culpado' (idem).

"Não há logo, há só hieróglifos" (idem).

Para não cairmos na banalidade de dizer que o amor não é racional, pode dizer-se que deve ser interpretado como uma língua perdida, como se em algum período de oiro alguém dançasse com as palavras.

Mas parece certo que qualquer tentativa de interpretação precisa de supor sentido no seu objecto. É por isso que o hieróglifo é uma imagem feliz.


quarta-feira, 15 de julho de 2015

Sem título

(José Ames)

 

O SEM-FIM POLÍTICO

Clio, a musa da História

"O filantropo nem sequer pode admitir a diferença entre o político e o não-político. Não existe o não-político, tudo é político."

"A Montanha mágica" (Thomas Mann)

Tive um amigo que costumava dizer a mesma coisa. As próprias funções do corpo seriam ganhas para a causa. Mesmo no acto mais íntimo e normalmente subtraído aos olhares do semelhante, ele se sentia no "político".

Ora, a ideia duma tal instância sob cujo olhar tudo o que fizéssemos, mesmo como corpo, teria um "valor" pelo qual seríamos julgados (por História interposta) deve tudo, como se sabe, à teologia.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Museu de História Natural (Viena)

DISCIPLINA E AUTORITARISMO





"No espaço de poucas semanas, a Assembleia Nacional tinha claramente frustrado Salazar pelo número de propostas de lei e avisos prévios introduzidos pelos deputados. Salazar encontrou-se com estes a 19 de Fevereiro para os admoestar e tornou pública a sua crítica através de uma entrevista a 'O Século'. Parte do problema, admitiu, era a falta de disciplina partidária entre os noventa deputados que agiam como indivíduos destituídos de um propósito comum."

"Salazar" (Filipe Ribeiro de Meneses)

Dando como certo que o 'parti pris' não os impediria de ser isentos, se perguntássemos aos deputados de qualquer 'velho' partido da nossa Assembleia, se reconhecem a preocupação de Salazar na sua própria organização, veríamos que só as nuances distinguiriam, no caso da unidade interna, a forma democrática da forma autoritária. Por isso é que os partidos mais fechados são refractários às 'paredes de vidro' e os mais abertos depressa chegam à conclusão que a 'transparência' não pode ir ao ponto de minar a autoridade do líder.

Não estou a comparar os regimes que são muito diferentes noutras partes. E mesmo se a democracia já não pode ser a extensão da tradição que Chesterton, por exemplo, via nela, o voto, o debate público e a liberdade de oposição limitam os que, porventura, com a melhor das intenções, governam contra o povo, quer o voto tenha ou não tenha correspondência directa com a acção do governo (e até se possa traí-lo no dia seguinte), o debate não seja mais do que um remoinho no seio das elites e a oposição possa ser levada a usar a liberdade contra si própria, deixando de cumprir o seu papel de alternativa.

Talvez que, simplesmente, o poder não possa ser utilizado com 'pinças' e seja, no melhor dos casos, um mal necessário.

Que pacto pode ser, então, virtuoso? Há um aspecto do poder que lembra imediatamente a violência mecânica da natureza. A democracia talvez esconda melhor esse pacto faustiano, mas em situações raras, de grande simbolismo, o valor do voto e o que passa por ser a vontade do povo ficam mortalmente expostos.



segunda-feira, 13 de julho de 2015

(José Ames)

TUDO É RELATIVO?




"Einstein cita como exemplo do princípio da relatividade o facto de uns o considerarem um "sábio alemão" e outros um "judeu suiço."

(Em entrevista ao "Times", citado por Jacques Merleau-Ponty)



A infeliz confusão entre o nome da mais famosa teoria científica do século passado e a opinião espalhada por toda a parte que é conhecida por relativismo é aqui incentivada pelo próprio autor da teoria, talvez levado pelos seus sentimentos em relação à atroz perseguição dos judeus no seu tempo.

Porque é bom de ver que a revolução da Física, e da nossa visão do Cosmos não se podiam ter ficado a dever à afirmação banal de que a visão das coisas depende de um 'ponto de vista', a qual, já agora, não tem nada a ver com o 'relativismo' que, mais do que o reconhecimento da importância da perspectiva é uma filosofia e uma moral que defendem que tudo se equivale e que tudo está justificado pela sua circunstância.

A vida do grande homem de ciência demonstra que abominava o niilismo implícito na opinião relativista.

Mas - quem sabe? - talvez no momento estivesse farto de entrevistas e daí o seu descuido. Esse é tão pouco o verdadeiro Einstein como o daquela inagem em que nos deita a língua de fora.

No fundo, ele estava-se a borrifar para a gravidade.

domingo, 12 de julho de 2015

Sem título

Caminha

 

A CRENÇA NO FUTURO

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"Mas não podem escapar. Este puro elogio da volição acaba na mesma destruição e no mesmo vazio da mera perseguição da lógica. Exactamente como o pensamento completamente livre envolve a dúvida sobre o próprio pensamento, assim a aceitação do mero 'querer' na realidade paralisa a vontade."

"Orthodoxy" (G.K.Chesterton)

Nesta encruzilhada europeia, todos os países podem invocar a democracia e a vontade do povo para defenderem posições incompatíveis. Verifica-se que a ideia da Europa não vingará pela simples vontade das cúpulas, nem através de um processo genuinamente democrático. Lincoln surge aqui para nos lembrar que não foi a livre discussão que forjou a unidade americana. Os nossos costumes não mudaram tanto que não possamos aprender com a guerra civil dessa grande nação.

Todos os países que formam a UE são construções 'naturais', cheias de 'anomalias' resistentes a qualquer 'conformação' continental.

Claro que há grandes mudanças a partir de cima (mas nunca conforme os 'reformadores', ou os monarcas 'esclarecidos as pensaram). Ivan o Terrível ou Pedro o Grande da Rússia conseguiram-no, com custos humanos incalculáveis. O nosso Marquês foi um homem duro, com uma espécie de mandato conferido pela catástrofe

Mas não devemos menosprezar a força das leis para corrigir os costumes. A convivência com as novas ideias muda também a disposição dos povos, ou pelo menos a das novas gerações. Bonaparte perdeu a guerra europeia, mas não a paz que se lhe seguiu. Julien Sorel ("Le rouge et le noir") não foi a única cabeça esquentada pela 'Campanha de Itália' e a mensagem da Revolução Francesa.

Talvez se possa dizer que as grandes reformas precisam de força para serem rápidas (mas quase sempre traídas), e de tempo para se imporem pacifica e definitivamente

Do que a Grécia actual precisa é de líderes que vejam o horizonte para lá das árvores. Se faltarem, impor-se-á a força míope dos banqueiros.

A visão que se pede é, no fundo, uma crença no futuro. Aqueles que pensam só dentro da 'caixa do presente' são os nossos coveiros.

 

 

sábado, 11 de julho de 2015

(José Ames)

TATUAGEM




Ao balcão da snack, o calor expõe a rude tatuagem, com data e tudo.
O que é que a idade faz com tudo isso?

O arrependimento obrigava a constantes explicações.
Por isso, aquele momentâneo desvario juvenil se tornou doutrinário.

Ao inscrevermos no corpo uma pertença, fazemos um juramento para toda a vida.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Sem título

(Astorga)

 

A REDE TEÓRICA

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"O papel da física matemática é exactamente levantar questões, apenas a experiência pode resolvê-las."

(Poincaré)

Neste caso, de acordo com o raciocínio intuitivo, as questões teóricas não nasceriam da experiência, mas da própria teoria. É a ideia de uma rede de pensamento cobrindo o mundo.

Mas o grande matemático diz a seguir que os problemas teóricos só podem ter solução na experiência, o que já me parece objectável. Porque a teoria é consequente consigo mesma, em primeiro lugar, e a referência ao mundo não lhe é essencial. Qual é, pois, a relação entre a 'experiência' e a 'rede do pensamento', ou o mundo das ideias?

Para que a 'solução' na experiência de qualquer problema da 'física teórica' seja possível, tem de se acomodar à 'rede' ou provocar uma adaptação na lógica do reticulado. A teoria da relatividade deveu o seu enorme sucesso à sua capacidade de 'explicar' o mundo melhor do que qualquer outra teoria. A 'confirmação' pela experiência venceu as resistências e consagrou a 'relatividade', a nível mundial. Significa isso que o verdadeiro problema (teórico) não estava resolvido antes daquele sucesso?

É porque a ciência tomou partido por um mundo sem milagres, sem essência inacessível, sem intenção divina ou satânica que o nosso mundo se tornou o objecto passivo da análise teórica. O pensamento nunca é repelido pela força se se aprender a arte de navegar.

A rede, ou a prótese mcluhaniana do nosso cérebro (que o 'numérico' da Internet parece ter demonstrado de uma forma espectacular) dir-se-ia que contorna todos os obstáculos, simplificando o universo, cuja realidade deixou de nos interessar.

 

 

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Sem título

(José Ames)