quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

LEVIANDADE



“(…) ainda têm uma certa leviandade porque examinam tudo
como se se destinasse a ‘uma paisagem interrompida pelo frio.’”


“Autofagias”   (Herberto Helder) 



Conheci um homem que, logo que se sentava à mesa, procedia a uma minuciosa verificação da toalha, prato, copo e talheres. Podíamos chamar a isso um ritual securizante. Mas, no fundo, também ele tinha a “leviandade” de que fala Herberto Helder. Pretendia pôr-se ao abrigo dos incontáveis inimigos invisíveis que nos cercam a todo o momento.

Queria dar uma ajuda ao seu sistema imunitário, ou, simplesmente, não confiava nele, mas isso ocupava de tal modo o seu espírito que desorientava todos os seus sensores sociais. A “paisagem” tornava-se gelada.

Quando se perde a confiança no próprio corpo (e isso acontece com a primeira doença grave), o “examinar tudo” já não é uma leviandade, mas um modo de vida. É como viver com uma “prótese”.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

(José Ames)

O FATAL ABORRECIMENTO



“Mathilde s’ennuyait en espoir. Le Marquis de Croisenois parvint à l’approcher, et lui parlait, mais elle rêvait sans l’écouter. Le bruit de ses paroles se confondait pour elle avec le bourdonnement du bal. Elle suivait de l’oeil machinalement Julien, qui s’était éloigné d’un air fier et mécontent.”

“Le Rouge et le Noir”  (Stendhal)



Alain admirava esta expressão: “s’énnuyer en espoir”. A jovem marquesa fazia-se acompanhar para onde quer que fosse duma provisão de aborrecimento antecipado que lhe estragava a vida. Era orgulhosa do seu sangue e do seu génio, e à sua volta só encontrava cortesãos. É próprio duma corte aborrecer-se mortalmente, o que é pagar demasiado caro os privilégios.

Mathilde de La Mole decretara, pois, que nunca haveria nada de novo e que nunca poderia conhecer alguém interessante. Há-de apaixonar-se, não pelo plebeu Julien Sorel e os seus modos selvagens, mas pela ideia de amar tal personagem, com um romantismo por que estava disposta a arriscar tudo.

O tipo de aborrecimento de Mathilde é característico da velhice e não duma jovem de vinte anos. A expectativa de aborrecer-se é natural naquela e está à medida do seu pequeno futuro e do seu mundo que desaparece.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Leça (José Ames)

"ANEU LOGOU"

(http://www.life.com)



“(…) Aristóteles apenas formulou a opinião corrente da polis acerca do homem e do modo de vida político, e de acordo com esta opinião, toda a gente fora da polis – escravos e bárbaros – era aneu logou, privada, naturalmente, não da faculdade da palavra, mas dum modo de vida em que a palavra e somente ela fazia sentido e onde a principal preocupação dos cidadãos era a de conversarem uns com os outros.”


“A Condição Humana” (Hannah Arendt)


Segundo Arendt, a acção e a palavra eram consideradas do mesmo nível e da mesma espécie e isto significava que “tanto quanto (a acção política) permanece fora da esfera da violência, é de facto transaccionada por palavras, mas mais fundamentalmente que encontrar as palavras certas no momento certo, independentemente da informação ou comunicação que possam veicular, é acção.” (ibidem)

Custa-nos, é verdade, transpor esta ideia para os modernos hemiciclos, depois da modificação neles operada pela organização partidária, porque se é verdade que o mais importante dos debates não pode ser considerado informação ou comunicação, parece que a eficácia do discurso é igualmente independente da coisa pública.


Que a palavra, entendida como praxis política, é incompatível com a tirania e o autoritarismo é ilustrado pelos recentes acontecimentos no mundo árabe. Logo que os telemóveis, a internet e as redes sociais abriram um novo espaço de palavra independente do espaço policiado, a acção política fez a sua aparição, com os resultados que estão à vista.


Mas algo se deve passar com as nossas democracias para, em quase ideais condições, a interacção plural não resultar em acção política, ou, então, será o caso do inter-jogo dos poderes ter, de facto, deixado de existir. A tese de Arendt não daria, assim, conta dos efeitos não políticos da interacção.


Seríamos demasiado ingénuos se esperássemos da revolta árabe um progresso político baseado na “interacção linguística e plural”.


Um sintoma de anomalia é o êxodo de tunisinos para a ilha de Lampedusa. Esses parecem não acreditar grandemente no futuro político do seu país…

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

(José Ames)


FALAR A SÉRIO

"Gargântua" (Rabelais)


“O reconhecimento da verdade é enfim expresso na forma de proposição afirmativa. Não é para isso de modo nenhum necessária a palavra ‘verdadeiro’. Mesmo que a empregássemos, a força propriamente afirmativa não reside nela, mas na forma da proposição afirmativa; se a proposição perde a sua força afirmativa, a palavra ‘verdadeiro’ não lha pode devolver. É o que acontece quando não se fala a sério. Do mesmo modo que o trovão de teatro é apenas um pseudo-trovão, que o combate de teatro é apenas um pseudo-combate, do mesmo modo que a afirmação de teatro é apenas uma pseudo-afirmação.”

“Écrits Logiques et Philosophiques” (Gottlob Frege)


Não poderíamos, então, enunciar uma lei da Física, por exemplo, com um sorrido giocondesco, como quem aponta para a máscara (‘larvatus prodeo’). O sorriso seria, neste caso, como as aspas que colocamos numa qualquer expressão. Não estamos aqui a citar outrem, mas a indicar que o sentido de tal expressão não é a do seu ‘valor facial’.

A ideia de Frege remete-nos para a questão da actualidade dos signos. Por exemplo. Um livro fechado, que ninguém lê, não tem nenhuma relação com a verdade, nem se nele estivessem contidas a melhor história do Império Romano ou a própria Teoria da Relatividade. Assim, uma teoria que não estivesse “actualizada” por uma qualquer forma viva (que não fosse pensada), seria como a verdade de teatro de que fala Frege.

As Sorbonnes com que gozava Rabelais representavam esse tipo de pseudo-saber. É um caso em que a “seriedade” não é sinal de se estar a “falar a sério” (com verdade).

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Tuy (José Ames)

GARRA



Um segundo grau do cinema está sempre presente nos filmes dos irmãos Cohen. As citações cinéfilas abundam, desde “Cat Ballou”(1965-Elliot Silverstein)   a “Buffalo Bill and the Indians” (1976-Robert Altman), “True Grit” é um remake da obra homónima de Henry Hathaway (1969) e, apesar disso, estamos diante duma obra original, se não de um estilo que deixa a sua marca dum filme para o outro.

Uma das características cohenianas é, naturalmente, a violência (nos piores exemplos quase estética), outra é a qualidade gráfica dos ambientes. A violência, como “atributo simbólico” (assim como a maça de Hércules) é essencial para a personagem de Rooster (Jeff Bridges), com o seu contraponto irónico que não chega ao delírio de Lee Marvin, em “Cat Ballou”. É uma violência que interrompe a narrativa (por exemplo, na cena da cabana), como se nesse momento, o nosso estatuto de espectadores ficasse em causa. Rooster dará, noutra altura, uma explicação a Mattie (Hailee Steinfeld), a rapariga que o contratou para vingar o pai assassinado, do que se passou quando defrontou sete sozinho: a fúria e a rapidez do ataque fez com que cada um deixasse de se sentir acompanhado e em vantagem numérica para pensar só em si próprio.

Os exteriores são magnificamente filmados, valorizando sempre o contraste entre o homem e a paisagem, e as elipses que dão conta da passagem do tempo, exímias. Mas fica-se com a sensação, depois de tudo, de termos visto um exercício de virtuosismo que vive sobretudo da figura interpretada por Jeff Bridges. Imagine-se, por um momento, que tivesse havido aí um erro de “casting”: o filme não se salvava dum “neo-academismo”.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

(José Ames)

IDOLATRIA

Clemente de Alexandria



“Clemente de Alexandria (c.150/215) acreditava que a ideia filosófica de um cosmos eterno era idólatra, porque apresentava a natureza como um segundo deus co-eterno.”


(“The case for God” (Karen Armstrong)



O infinito e a eternidade, para nós mortais, são incompreensíveis (em ambos os sentidos da palavra) porque, como Kant demonstrou, nem sequer podemos dizer que o mundo teve um começo e qual é o tamanho dele.

São palavras que fazem parte do nosso mundo mas são ainda mais “contra-intuitivas” do que a ideia dos triliões de dólares da dívida pública americana. Embora as possamos utilizar todos os dias, podemos “concebê-las”, mas não, realmente, compreendê-las. São como todos os “omni” atribuídos a Deus.

O infinito e a eternidade aplicadas ao universo “resolvem” muitos dos problemas que nos colocamos (por exemplo, o que é que havia antes do Big Bang ou de qualquer outra teoria do começo de tudo), mas é da mesma maneira que a ideia de Deus põe “uma pedra sobre o assunto”. E, como se sabe, tudo começa pela primeira pedra, até as barragens.

Tinha toda a razão Clemente de Alexandria. Todos nós somos crentes (na sua opinião, idólatras) em relação ao que aparece com a beleza duma noite estrelada.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Azurara

PARADOXOS DO VOTO

Slavoj Zizek e Alain Badiou


Entre o que chama os paradoxos do voto, Alain Badiou inclui este: “Que existe uma flagrante assimetria entre o ‘sim’ e o ‘não’. A consequência dum ‘não’ é a eliminação, e é efectiva. Pelo contrário, o que se joga num  ‘sim’ não podia ser mais ilusório. A que compromissos se sentem obrigados os membros eleitos? Nada de importante, em todo o caso, o que é ainda mais verdadeiro hoje, quando a noção de ‘programa’ se encontra praticamente desacreditada. Assim, para o votante, há um efeito real para a sanção negativa, mas nenhuma previsível no caso de sucesso, excepto o da conservação dos principais parâmetros da existência.”


“Philosophical considerations of the very singular custom of voting”



Para não ser inviabilizado pelas condições não previstas ( e o futuro, por natureza, é sobretudo feito destas), um programa de governo não deve adiantar-se muito no tempo, nem ser muito específico, sob pena de se tornar mais uma causa do descrédito da política e dos políticos.

Claro que o que resta é, de certa maneira, um “cheque em branco”, que não é facilmente “digerível”, porquanto desvaloriza completamente a participação directa do eleitor nas decisões políticas que, de facto, contam.

O povo eleitor, por intuição, desconfia do valor dos compromissos feitos na base dum programa e prefere escolher as pessoas no formato mediático, já que uma experiência de pessoa a pessoa é impossível para a esmagadora maioria.  

Quando Churchill prometeu “sangue, suor e lágrimas”, todos tinham a ganhar se essa promessa não fosse cumprida. Nos outros casos, as promessas são pouco mais do que as mentiras úteis de que falava Platão.

É isto um paradoxo do voto? Não mais do que o que se aloja na própria palavra democracia. A palavra só é pertinente em comparação com as outras formas de governo. A democracia distingue-se da tirania e da monarquia pela liberdade de que o povo parece, relativamente, usufruir.

Mas quando o mesmo Churchill diz que a democracia é só o menos maus dos regimes, não é por acaso que se inibe de formular qualquer conteúdo positivo. É porque, realmente, se trata duma comparação e nada de absoluto em si mesmo.

Enfim, a verdade é que não se inventou ainda o processo de pôr milhões de tripulantes ao leme do barco em que todos estamos.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

(José Ames)

BECO-SEM-SAÍDA

Atenas



“O remédio pré-metafísico que (os Gregos) encontraram para esta fragilidade (dos assuntos humanos, ‘ta anthrõpina pragmata’) foi a invenção da polis, concebida como um lugar estável onde fosse possível partilhar e registar (memorialize) feitos e palavras publicamente. Dito de outro modo, a vida política, sob a forma especificamente grega de isonomia, foi instituída com respeito a um comum horizonte de aparências, dentro do qual o estar-juntos de praxis e lexis podiam ser mantidos em segurança e florescer, estar-juntos dentro do qual se podia localizar a emergência de sentido para além das necessidades da vida e para lá da utilidade.”


“The Thracian Maid and the Professional Thinker” (Jacques Taminiaux)




Criar um mundo que perdure, para além da morte individual, parece ser, de facto, uma necessidade básica dos humanos e, em primeiro lugar, da função de pensar. Sem uma língua e sem uma cultura, decerto, não poderíamos pensar e ambas transcendem o indivíduo e exigem uma dimensão temporal que não é a do nosso quotidiano. Esse meio é tão vital quanto as condições físicas do nosso habitat.

No caso da cidade criada pelos Gregos só se pode falar dum “para”, duma finalidade consciente, com alguma liberdade filosófica, porquanto ela não é uma criação individual, nem um objecto “fabricado” para ter um fim consciente.

Se parece ter uma lógica a posteriori, tal como na natureza darwiniana, não se pode deve deduzir dessa lógica a inteligência dum criador, mas compreender como é que a forma da polis pôde adaptar-se e perdurar, ao contrário de outras experiências do “estar-juntos”.

A mesma ideia pode aplicar-se ao mundo de hoje, e ao domínio do trabalho em particular, o qual, cada vez mais, se aproxima da fórmula do viver sem amanhã.

Se pudéssemos estar à frente dessa lógica por pouco que fosse, perceberíamos que entrámos numa experiência que não pode vingar. Mas só nos museus de amanhã poderemos ver os seus lamentáveis abortos.