segunda-feira, 12 de maio de 2008


(José Ames)

A FÁBRICA DO DESEJO


Deleuze e a filha Emilie, 1972


Na única entrevista, ao que julgo, de Gilles Deleuze à televisão, em 1988, já doente e como se falasse para a posteridade, o filósofo aborda variadíssimos temas a partir dum abecedário proposto pela jornalista.

Entre eles, a ideia do anti-Édipo que descreve o inconsciente como uma fábrica (do desejo) contra a do teatro freudiano e a amizade, nomeadamente, a que o ligava a Félix Guattari.

A sua noção duma amizade de que se devia desconfiar sempre, embora o amigo seja também aquele que nos faz rir, dá que pensar. Suponho que a razão dessa desconfiança seja a de que existe na amizade uma tentação para aceitar o outro tal como ele é e de, com isso, frustrar o seu desejo de se superar, de anular essa "tensão para um valor".

Muito original é a sua definição do escritor como o que escreve em vez dos que não podem escrever, ou que não têm acesso à linguagem, como os analfabetos, os idiotas e os animais.

Aqui há uma ideia muito profunda que é a do artigo indefinido: não se escreve sobre o pessoal, mas sobre o mundo; quando um grande escritor retrata a sua infância, o que tem valor é tratar-se de uma infância.

Os animais são um dos elos essenciais da nossa ligação à natureza e ao mundo. Escrever por eles é, evidentemente, o mesmo que tentar compreender essa relação.

Uma das coisas que mais seduz no entrevistado é a expressão das suas antipatias, quer elas sejam literárias, quer políticas. O adjectivo imonde assoma algumas vezes e abre todo um campo de susceptibilidade quase aristocrática.

domingo, 11 de maio de 2008


Lisboa (José Ames)

A CONTAMINAÇÃO DO NOME



"Monsieur Klein", um filme de Joseph Losey (1976), com Alain Delon, é a história duma aventura pessoal num ambiente totalitário.

Há um outro Robert Klein, judeu, que se esconde e obriga a personagem a lutar pela sua identidade. Primeiro, nega com displicência qualquer ascendência semítica, arriscando-se a requerer um certificado pela via burocrática. Depois, procura esse duplo misterioso, numa verdadeira obsessão, perseguindo-o até ao Vélodrome d'Hiver, onde os judeus aparcados aguardam os vagões para os campos. Essa corrida para a sua perda leva-o a entrar no mesmo vagão do seu homónimo.

Este (Jean Bouise) aparece no início do filme a vender um quadro, bem de família, a Klein que se aproveita, como um abutre, da sua necessidade, oferendo-lhe uma quantia inferior ao seu valor.

Esta sequência e a primeira do filme, em que assistimos à verificação médica das características raciais duma mulher mergulham-nos imediatamente no contexto social e político.

O desafio do Klein judeu arranca a personagem de Alain Delon ao seu comodismo burguês e como que roubando-lhe o nome precipita-o numa psicologia de auto expiação.

sábado, 10 de maio de 2008


(José Ames)

O SELVAGEM E A QUEDA


Thomas Hobbes (1588/1679)

"A vida do selvagem era, como Hobbes o disse, "suja, bestial e curta.""

"Ensaios Impopulares" (Bertrand Russell)


Como se sabe, o selvagem era bom e, na sua inocência, completamente feliz.

Se, segundo os nossos padrões de higiene, nos pareceria infecto, era coisa de que não tinha a mínima noção e os deuses estavam sempre por perto para explicar uma epidemia.

Como os animais seria, mas também os compreendia muito melhor do que nós, e a natureza era a sua casa, como já não pode ser no nosso caso.

Por fim, se vivia poucos anos era pouco menos do que eterno, subjectivamente, já que acreditava na reciclagem e na comunidade dos vivos e dos mortos.

O autor do "Leviatã" resume, naquele aforismo, os preconceitos da sua época e o orgulho do homem civilizado.

Paradoxalmente, o mito do bom selvagem parece contradizer esse orgulho pois implica a crença num outro mito: o da Queda.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

MATÉRIA EMANCIPADA


"Woodland Entropy" (Michael Spillane)


"A matéria que sofre emancipa-se da gravitação, não é mais solidária com o resto do universo, isola-se do conjunto adormecido; porque a dor, agente de separação, princípio activo de individuação, nega as delícias dum destino estatístico."

"Précis de Décomposition" (Emil Cioran)


É levar bem longe os estados da matéria, mas não deixa de ser consequente com o materialismo, dialéctico ou não.

Os nossos sonhos de grandeza, a sucessão de deuses que nos reservavam um lugar privilegiado no universo, cedem o passo ao princípio da desordem, à entropia e ao caos de que seríamos a consciência sofredora.

Nesta versão, as forças do Bem, da ordem cósmica, conheceriam o equivalente da contemplação platónica: a beatífica imobilidade, um torpor musical, sem ruídos nem atrito. O Bem desliza sobre esferas.


Nápoles (José Ames)

DO PECADO À FALTA



"Deus quis o pecado, por toda a eternidade, na sua omnisciência e na sua omnipotência? Então ele é de Deus e os homens nada têm a ver com isso. O pecado vem dos homens? Mas isso só é concebível se eles tiverem sido radical e definitivamente separados do seu Criador: não é então mais do que falta dos homens em relação aos homens."

"La foi d'un incroyant" (Francis Jeanson)


Faz sentido que um ser que tudo possa se abstenha e se retire da sua criação (era a ideia de Simone Weil). Mas a liberdade deixada aos homens, donde nasce a ocasião do mal, é só liberdade para eles.

O Criador sabe que a história só pode ter um desfecho e o que eclodirá do ovo da serpente.

Assim, Deus jogaria com dados viciados. Não pode ser.

A alternativa de se extrair a metafísica do pecado e chamar-lhe falta do homem para com o semelhante é a moral social e nada mais do que isso.

Por isso, não se pode deixar de pensar que esta "naturalização" reduz o homem à sociedade, em prejuízo da dimensão cósmica, mesmo se ela era expressa por um antropomorfismo.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

PRECONCEITOS SEXUAIS


Uma bota de estilo vitoriano

"Mediante a reclusão a que forçara as mulheres respeitáveis, tornou-as monótonas e desinteressantes; as únicas mulheres que podiam ser interessantes e ousadas eram proscritas sociais.

Devido à insipidez das mulheres respeitáveis, muitos homens civilizados, na maioria dos países civilizados, tornaram-se, com frequência, homossexuais."

"Ensaios Impopulares" (Bertrand Russell)


A sexualidade quase nada tem a ver aqui com a natureza. Esta relação entre os sexos de que nos fala Russell evoca muito mais o espírito mundano e a ideia duma amizade intelectual que, na época, era mais comum encontrarem-se entre homens.

Como se está longe do espírito do "Sois belle, et tais-toi!" de Baudelaire!

Aquilo que a Russell parecia insipidez e monotonia podia ser realmente a mais secreta fonte do prazer para um culto do feminino que hoje não podia deixar de parecer insuportavelmente sexista.

Mas é talvez a ideia duma igualdade dogmática, em reacção à hipocrisia vitoriana, que leva a procurar-se na mulher as características viris em vez do espírito feminino.


(José Ames)

O INTERIOR PELO EXTERIOR



"Daqui, a exigência do ensino matemático e astronómico na escola primária desemboca directamente na peculiar teologia das "Leis", que vê na contemplação do ciclo matemático eterno dos astros uma fonte essencial da sua fé em Deus."

"Paideia" (Werner Jaeger)


Da imobilidade espectacular da noite, com os astros descrevendo os seus círculos perfeitos, terá surgido a primeira ideia de ordem (cosmos).

Tudo aquilo que não temos dentro de nós, pois somos caóticos como as nossas paixões. Uma ideia de Comte é a de regular o interior pelo exterior.

Interiorizar a harmonia desse espectáculo criava em nós uma sintonia propícia à fé na transcendência.

Platão, melhor do que ninguém, antes ou depois dele, imaginou no centro dessa harmonia o Deus da geometria e da música.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

QUEM TOMA CONTA


Harold Pinter

Um velho vagabundo (Donald Pleasance) é levado por Aston (Robert Shaw), um homem tranquilo e de poucas palavras, a casa deste por causa dum par de sapatos.

Acaba por passar a viver ali, sendo-lhe confiada a guarda do prédio, vigiando as escadas e limpando os metais.

Aston confessa-lhe ter sido operado ao cérebro, contra a sua vontade, devido a uma doença psíquica e que a própria mãe o traiu nessa altura.

Tem um irmão mais novo (Alan Bates) que é o proprietário da casa e que se compraz no jogo do gato e do rato com o vagabundo.

Aston tem um projecto, sempre adiado, de construir um barraco no quintal, para o que diz ter habilidade manual. Só essa ideia o separa do regresso ao hospital, para se vingar ou ser internado definitivamente.

Uma noite em que fez mais ruído a dormir, o vagabundo é posto na rua.

O filme acaba com os seus patéticos esforços para reconquistar o tecto, mas Aston volta-lhe as costas, imperturbável.

Donald Pleasance dá-nos um vagabundo magnífico, ingrato e prepotente ao menor sinal de segurança, impondo as suas manias e o mau cheiro que impede o outro de dormir.

O drama de cada um (a raiva mansa de Aston e a quase loucura do irmão mais novo) impede, no final, qualquer solidariedade.

É esta a moral pessimista da peça de Harold Pinter "The Caretaker", que Clive Donner filmou graciosamente, em 1963.


Lisboa (José Ames)

MATÉRIA PARADOXAL


Werner Heisenberg (1901/1976)


"O processo patogénico deixava-se agora reconstruir com facilidade. Para ficarmos por um exemplo simples, uma tendência isolada tinha surgido na vida psíquica, tendência à qual outras, poderosas, se haviam oposto. O conflito psíquico então nascente devia, segundo a nossa expectativa, seguir um curso tal que as duas grandezas dinâmicas - chamemos-lhes instinto e resistência - lutassem uma contra a outra por um tempo, a consciência tomando poderosamente parte no conflito, e isto até que o instinto tivesse sido repudiado e despojado do seu investimento energético. Eis a solução normal."

"Ma vie et la Psychanalyse" (Sigmund Freud)


Adiante, Freud explica como na neurose aquela energia conserva toda a sua eficácia, apesar do conflito se ter tornado inconsciente, graças ao processo que ele chamou de recalcamento.

Compreende-se segundo este modelo energético, em que "nada se cria, nem nada se perde", que, nos casos normais, uma parte da energia seja consumida pelo conflito e outra nalguma satisfação tolerada, sem deixar qualquer resto metafísico.

Assim, falando de forças e energias, parece que Freud abria a porta a uma qualquer futura medida ou ponderação do mundo psíquico. E é interessante pensar que Simone Weil chegou a algo de semelhante a propósito da graça espiritual, acreditando que à atenção pura aplicada num determinado sentido devia corresponder uma alteração física.

Mas não é preciso postular a transcendência do mundo espiritual para invalidar qualquer pretensão científica à psicanálise, e podíamos mesmo partir do princípio que estávamos a lidar com a pura "realidade material". A aproximação de alguns conceitos e tendências da física moderna ao que tradicionalmente sempre se considerou do domínio da metafísica é esclarecedora.

Compreendemos então por que é que os chamados conflitos psíquicos podem estar tão fora do conhecimento objectivo quanto a localização duma partícula conforme o princípio da incerteza de Heisenberg.