domingo, 6 de janeiro de 2008


(José Ames)

REMINISCÊNCIA


"Archeological Reminiscence of Millet's Angelus"
by Salvador Dali


"Porque, primeiro que tudo, eles estavam a tentar encontrar um critério que tornasse a metafísica num disparate sem sentido, pura algaraviada, e qualquer critério como esse estava a destinado a dar problema, visto que as ideias metafísicas são muitas vezes precursoras das científicas."

"Unended Quest" (Karl Popper)


Karl Popper refere-se aos filósofos da linguagem, como Wittgenstein e ao Círculo de Viena.

Esta ideia da importância da metafísica na ciência vai também contra o senso comum positivista que pretende que a observação e a experiência estão na origem da descoberta científica.

Na verdade, a percepção e a indução (que extrai dos casos a lei) nunca fariam avançar a ciência.

Como diz Popper, não existe a percepção sem um interesse e uma expectativa. Para percebermos uma lei, temos de antecipar uma qualquer teoria ou um mito que, depois, através da razão crítica, tentaremos aproximar da verdade, assintoticamente (isto é, sem nunca a alcançarmos).

E, por aí, a teoria platónica da reminiscência é verdadeira. É como se, de facto, a ideia que conjecturamos estivesse já em nós, porque da Natureza e do mundo é que ela não vem.

sábado, 5 de janeiro de 2008


Veneza (José Ames)

O ÚLTIMO METRO


"Le Dernier Metro" (1980-François Truffaut)


O filme de Truffaut é a arte mais refinada, mas eu quero entrar e sair e compreender como é possível nas grandes obras o todo pela parte. As leis anti-semitas não fazem rir, e sabe-se hoje como acabou essa perseguição ao ser humano. Mas os propósitos de Daxiat, o jornalista do regime, nos seus discursos radiofónicos ou nos seus artigos em “Je suis partout” são verdadeiramente loucos, como diz Steiner. E no entanto essa loucura tem a força pelo seu lado.

A guerra precisa de desarmar o espírito que sabe rir da estupidez. Eis por isso uma aliança natural entre o ocupante e os fracos de pensamento, homens sem coragem e sem razão. Contudo, as denúncias não são de dez nem de vinte, mas de milhares. Isso parece provar o triunfo dos maus, que são gente que cai mal, como nos faz ver Alain. É que a guerra mata os melhores na frente e amordaça e decapita a elite na retaguarda. São os militares que governam, ou melhor, a máquina militar.

Quando a parte razoável da sociedade deixa de fazer-se ouvir, cala-se também a razão no indivíduo. A mediocridade é o fruto dum regime que só respeita a força. Mas a falar verdade é impossível um tal regime. As próprias paixões do homem chamam o espírito em nome da vida e da sobrevivência. Não se pode honrar só a força por muito tempo, e mesmo o idólatra quer salvação e paz com o seu ídolo. Mesmo o tirano quer consentimento. O domínio dos brutos, que é dum momento, pôs um revólver em cada pusilânime, e o que se viu foi um ajuste de contas mesquinho pela lei do interesse e do ódio. Poder acusar o senhorio de judeu, o patrão, ou o amante da mulher era tomar parte na violência do Estado. Juntar-se aos fortes.

Longe de ser uma mania do conquistador, o anti-semitismo era uma espécie de partido inorgânico. Descobrir e essência do judeu e o seu traço genealógico tornou-se assim o supremo exercício intelectual. Era essa a depravação própria de Daxiat. O bem e o mal deixavam finalmente de ser princípios abstractos. Incarnados no sistema racial, eram agora tangíveis e conforme o mais estrito materialismo. A religião descia ao nível da bota. O homem é crédulo e perde-se por aí. Basta que o pensamento não se exprima em palavras e actos para tudo cair na noite mais profunda. É assim que fazem os senhores da guerra. E porquê tanta atenção sobre as pernas? Esta opinião que se julga com direito a comentar a heresia sexual é certamente moderada. Mas o outro já não pode pensar-se senão como estrela cor-de-rosa, e é mudar a cor natural. Mas não dá vontade de rir este preconceito. O espírito sangra diante de tantas lanças apontadas. A guerra de religião é sempre possível.

O homem que põe em causa o rito sexual escandaliza absolutamente. E todos os ritos tendem a cair no abdómen. O esforço contra a queda é a lei do pensamento.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

O VERMELHO E O NEGRO



"Stendhal escreveu que a bela Mathilde se aborrecia de esperança (s'ennuyait en espoir). Esta espécie de choque deixou-me primeiro aturdido de admiração. Isso soava verdadeiro. A personagem, assim coroada, entrava nesse baile: as alas abriam-se; o futuro abria-se; os olhos de Mathilde eram-me presentes: eu gostaria de lhe agradar; temeria agradar-lhe. Eis-me já quase a tocar todas as faltas que Julien há-de cometer."

"Propos de Littérature" (Alain)


A felicidade do romancista é aqui igualada pela qualidade do crítico. Alain continua: "admirai a força da expressão. Por meu decreto; vou, espero bem, aborrecer-me; conto com isso; jurei isso. Isso faz uma outra atitude, outros gestos, e uma majestade."

A Mathilde de "O Vermelho e o Negro" é uma jovem aristocrata, cheia de ideias de heroísmo romântico e do seu próprio valor. Não há como agradar-lhe porque ela jurou que nada era digno do seu amor.

É como se tivesse sobrevivido a si mesma a si mesma e já não pudesse esperar surpresas da vida.

No palácio do marquês de La Mole, esse fruto do preconceito e da cerimónia encontra o seu húmus artificial.

O que nos surpreende é que a natureza e o temperamento tenham sido vencidos assim, numa pessoa tão jovem. Mas não fazemos ideia, nos nossos dias, da força da educação.

A esperança de Mathilde é negativa. Não cumpre nenhum desejo, nenhuma aspiração. Ela vivia noutro século (o do seu antepassado Boniface de La Mole) e "sabia" que o passado não volta.

Por isso, só o imaginativo heroísmo de Julien a fará duvidar de si mesma.


(José Ames)

O MUNDO DE PARMÉNIDES


Parménides (cerca de 530 a.C. - 460 a.C.)

"Esta primitiva teoria, baseada no que se podia chamar "o princípio da conservação da riqueza" foi a base do mercantilismo. Está na raiz da teoria marxista de que a acumulação ou o aumento da riqueza entre capitalistas tem de ser igualada por um aumento de miséria entre os trabalhadores. Assim, Marx reteve na mais importante e revolucionária das suas doutrinas uma peça já quase obsoleta da teoria económica parmenidiana - apesar da sua marcadamente anti-parmenidiana dialéctica."

"The world of Parmenides" (Karl Popper)


A teoria cosmológica de Parménides é a de que não existe real mudança no universo (princípio que, por exemplo, a ideia de entropia põe em causa), o que está implícito também na fórmula lavoisieriana. Ela é parmenidiana na medida em que a transformação não afecta a "estrutura" do universo (nada se cria, nem nada se perde).

Contra o parmenidianismo de Marx, Popper invoca a ideia pioneira de Adam Smith de que "numa troca voluntária, por norma, ambas as partes ganham e nenhuma perde."

Mas ao nível da produção, a ideia dum resultado de soma zero (o lucro de uns deve equivaler ao prejuízo ou à exploração de outros) é fácil de sustentar, devido à nuvem da complexidade e ao poder do "wishful thinking".

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

A SINGULARIDADE DO CORPO


Gulliver em Liliput


"Törless sentiu-se maravilhosamente protegido desses personagens demasiado astutos e, pela primeira vez, compreendeu que tinha na sua sensualidade - porque havia muito tempo já que a tinha reconhecido - qualquer coisa que ninguém lhe poderia tirar, que ninguém poderia imitar tampouco, qualquer coisa que o guardava, como uma muralha muito elevada e muito secreta, de toda a inteligência exterior."

"Les désarrois de l'élève Torless" (Robert Musil)


O jovem Törless, depois de ter sonhado com os pais, "mas tão pequenos que era incapaz de sentir o quer que fosse por eles", sonha com o seu professor de matemática e com Kant (os homenzinhos).

Nesta viagem onírica a Liliput, tudo o que constitui o mundo estranho e ameaçador dos adultos se vê reduzido no tamanho e, pelo contrário, a consciência do seu próprio corpo cresce e rodeia-a como uma muralha.

Parece a defesa do irracional e da sensualidade, como último reduto da infirme personalidade contra a abstracção das regras universais.

Mas, mais uma vez, é o primeiro ponto de apoio, exclusivamente nosso, e ao abrigo da "inteligência exterior", para o desenvolvimento do que somos.


S. Paio de Oleiros (José Ames)

OS JUDEUS DO LESTE


"Between Worlds" (Samuel Bak)
http://www.chgs.umn.edu/museum


"Durante a Primeira Guerra Mundial houve um influxo, em Viena, de refugiados judeus do velho Império Austríaco, que tinha sido invadido pela Rússia. Estes "judeus do Leste", como eram chamados, vinham directamente de virtuais guetos, e foram causa de ressentimento por parte daqueles judeus que se tinham já estabelecido em Viena; pelos assimilacionistas, por muitos judeus ortodoxos, e até pelos Sionistas, que se envergonhavam dos que consideravam como parentes pobres."

"Unended Quest" (Karl Popper)


A situação judaica na Áustria e na Alemanha mudou drasticamente em consequência deste movimento e por causa da parte activa que estes imigrantes tomaram no jornalismo (sensacionalista) e na política, o que contribuiu para o descrédito dos partidos de esquerda.

Sem estes antecedentes e uma hostilidade social crescente que criava as condições favoráveis para a ceifa do ódio racial, não se compreenderia o rápido progresso das ideias hitlerianas, algo que contrastava dum modo flagrante com o nível de civilização alcançado por aqueles dois países.

Tendo em conta essa hostilidade, Popper defendia o "low profile" na comunidade judaica, mas percebe-se quanto é fácil ajuizar mal a situação quando os homens se batem pelos seus "direitos".

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

OS PADRINHOS DE SHAKESPEARE


Hamlet e a caveira

"Se "Hamlet" nos caísse do céu desamparado, sem o longo cortejo dos admiradores, os críticos troçariam dele, não sem uma aparência de razão. Não se encontraria, talvez, um homem de gosto que tomasse a obra pelo que ela é. Cada um formou para si uma ideia do belo, a partir dum grande número de objectos venerados. Mas, como essa ideia não pode de maneira alguma produzir uma obra nova, do mesmo modo não convém de maneira nenhuma a uma obra nova."

"Propos de Littérature" (Alain)


O que não quer dizer que não possa ser compreendida pelo seu tempo. Popper diz que essa ideia é um mito. E que, de qualquer maneira, a intenção de produzir uma tal obra é uma razão para o seu malogro.

A arte verdadeiramente original é também a menos "voluntária". E com isto quero dizer que a antiga ideia da influência das musas está mais próxima da verdade do que a do génio independente.

Por isso é bem certo que, pelo desfasamento dos tempos, a peça de Shakespeare cairia como uma pedra de roseta indecifrável, se não a pudéssemos referir ao período isabelino e não dispuséssemos do testemunho de tantos e ilustres "padrinhos" (na verdade, séculos dum verdadeiro culto), que nos dispensa de inventar uma nova teoria para ajuizar dela.

Não pomos em causa o génio de Shakespeare (embora, como nos lembra George Steiner, existam alguns juízos menos incondicionais) e, se não o compreendermos, a falta deve ser nossa. É a nós que compete fazer o esforço da tradução.

Por isso um prémio Nobel desarma hoje tão facilmente a crítica, antes mesmo da prova do tempo ter separado o trigo do joio.


(José Ames)

A PRINCESA DE PARMA


"Les Pauvres" (Pablo Picasso)


"Ah! a sério, disse a princesa de Parma. Eu teria ficado muito feliz em apertar a mão a um espírito tão distinto. Gostaria que ele esboçasse algumas rimas em honra dos meus pobres."

"Esquisse de Le Côté de Guermantes" (Marcel Proust)


A conversa é a seguir desviada pelo duque para o seu objectivo principal: a maledicência. Mas Proust tinha já deixado, perdida no ridículo da sua ingenuidade e na enormidade da sua boa-consciência, a pobre princesa.

Contudo, os "seus pobres" eram afinal mais sinceros do que a democracia da duquesa de Guermantes ou os seus remoques contra o espírito de casta.

E não se pode querer mal a tanta "bondade", fácil, mas real.

A crítica metafísica exigia-lhe o sacrifício do que era, para lhe passar um atestado de verdadeira bondade. Nesse aspecto, porém, todos somos ridículos e ficamos aquém do exigido.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008


Paços de Ferreira (José Ames)

NO PRINCÍPIO, O DOGMA


Salmos de David

"A minha conjectura foi a de que foi a canonização das melodias de Igreja, as restrições dogmáticas sobre elas, que produziram o cantus firmus contra o qual o contraponto se podia desenvolver. Foi o cantus firmus estabelecido que providenciou a armação, a ordem, a regularidade que tornou possível a liberdade inventiva sem caos."

"Unended Quest" (Karl Popper)


Para Popper, a música polifónica, que se terá desenvolvido entre os séculos IX e XV, foi a mais milagrosa realização do Ocidente, "não excluída a ciência".

A sua tese, que aplicou mais tarde à lógica da descoberta científica, é a de que só inventamos a partir duma posição firme, dogmática, e a invenção é o resultado da atitude crítica que, pela eliminação dos erros, no caso da ciência, nos aproxima mais da verdade.

Alain exprimiu uma ideia semelhante, quando disse que as nossas ideias ( e as nossas acções) são sempre a continuação de algo que já existe, como um preconceito ou um mito, a que damos uma nova forma, mais de acordo com a realidade.

Por isso, a melhor maneira de compreender a ciência não é começar pelo fim, pelos últimos avanços, mas pelo princípio, pela própria metafísica.

Os erros prometem muito mais do que as verdades feitas.