quarta-feira, 12 de dezembro de 2007


(José Ames)

domingo, 9 de dezembro de 2007


Lisboa (José Ames)

sábado, 8 de dezembro de 2007

TELEMASSA




A misantropia vê mal. Quando todo um povo elege a telenovela, é melhor ser prudente e não falar em colonização e mediocridade demasiado depressa. Preferíamos que as pessoas se interessassem pelo teatro grego, mas esse povo já foi. O livro parece-nos uma cultura superior à televisão, e ninguém lê. O prazer da leitura é para o iniciado, enquanto a história do pequeno ecrã pode ser seguida por um analfabeto e despertar o seu interesse. De resto, nenhum livro conseguia reunir tantas pessoas ao mesmo tempo e nivelar assim a compreensão dos leitores. A possibilidade de escolher o seu ritmo de leitura, o treino da atenção e da inteligência abstracta, o esforço de tradução dos signos distanciam o leitor do homem que “convive” com as personagens da telenovela.
Descobriu-se um meio de aumentar a experiência global da humanidade e de conformar a linguagem. Mas seria errado pensar que isso significa tornar menos complexo o facto humano e cair numa civilização inferior. O mais provável que aconteça depois da sonda da televisão ter posto em contacto os diferentes planetas humanos é uma nova riqueza de formas e uma espécie de bilinguismo. Porque a vida e o trabalho não se transformam só por força da televisão, e a cultura tradicional subsiste por isso a par da cultura de massas. Ora essa situação é propícia ao juízo crítico e à mudança. Uma segunda língua permite pensar a língua mãe. A domesticação das espécies não teve como efeito reduzir as suas diferenças. Como mostra Darwin, foi o contrário que se passou. O meio humano multiplicou as formas de adaptação para além do que a vida selvagem poderia ser causa.
É verdade que a televisão não educa e é um meio ruinoso de formar o carácter e o pensamento. A televisão recria a aldeia humana, de acordo. É um instrumento de civilização, certamente. Mas quem vai ao teatro popular para se instruir? A telenovela é o teatro em grandes planos e som estereofónico. É a tragédia grega que merecemos. Mais os deuses da pequeno-burguesia.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007


Baleal (José Ames)

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

O MASOQUISMO


"O êxtase de Santa Teresa" (Bernini)



"O segundo dragão é a imputação de masoquismo (...). Temos de entender os seus esponsais de dor como etapas obrigatórias no caminho para "o Bem". E, uma vez mais, este é um tópico extremamente complexo. Mas o que é certo é que até os amigos íntimos de Weil ficaram chocados com a sua confessada inveja das agonias físicas de Cristo, com o seu desejo de emular a Paixão. Por muito que se enquadre numa tradição mística de maceração divina, um sentimento destes situa-se na linha de sombra do patológico."

"Paixão intacta" (George Steiner)


O masoquismo é uma acusação diabólica, pois pode converter a maior devoção e o sacrifício mais abnegado no seu contrário. Lançar o veneno da suspeita sob a intenção mais pura. Suspeita de quê? Da virtude não ser mais do que um meio para servir algo de inconfessável como o prazer do corpo na forma paradoxal duma dor física. Sabemos que a própria consciência da virtude lhe é funesta, mesmo se procura o bem, mas aqui o próprio bem está ao serviço da luxúria.

Com a arma do masoquismo, não há santuário que não se remodele em lupanar.

E, no entanto, quem pode olhar o êxtase da Santa Teresa de Bernini sem sentir a ambiguidade?

Mas deixemos as armas à entrada, no caso de Simone.

Por que é que o excesso e a loucura não seriam expressões do amor autêntico?

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

OS DRAGÕES DE SIMONE


a celebration of Simone Weil's spiritual journey by Megan Terry


George Steiner, em "Paixão intacta", refere-se à tese de H.L. Finch de que há quatro dragões que "obstruem o caminho que conduz a uma avaliação correcta" de Simone Weil.

"O primeiro é o da anorexia, tal como esta pode ser encarada pela psicologia comum."

Simone deixou-se morrer de inanição, num hospital do Kent, aos 34 anos de idade.

Supostamente, por compaixão, por querer compartilhar os sacrifícios alimentares da França ocupada. Steiner considera "mais ou menos" melodramática esta atitude.

Mas a verdade é que esta "paixão" não se compreende sem o modo, aos olhos do comum, excessivo de viver de acordo com a sua teologia.

O carácter sacrificial da sua proposta de participar na frente de guerra como enfermeira e, sobretudo, o grau da sua preocupação com os problemas sociais ou os duma colónia tão distante como a Indochina tinha a pungência duma dor física que aos outros podia parecer teatral (isto era antes da revolução mediática. Como suportaria a sua imaginação compassiva, por exemplo, as imagens da televisão?).

Num outro extremo, temos um exemplo, em Proust, duma preocupação impotente e um tanto ridícula no seu exagero, quando a duquesa de Guermantes confia a alguém, com toda a seriedade, que a China a inquieta.

Enfim, poderemos pôr em causa a autenticidade desta paixão e aquilo que hoje se chama de honestidade intelectual levada à sua quase impossível perfeição?

Voltarei aos outros dragões.


Toledo (José Ames)

ALGURES, COPÉRNICO


Retrato de Copérnico por Jan Matejko


"Camille - Digo-vos eu, se não recebem tudo sob a forma de cópias inábeis etiquetadas em teatros, concertos e exposições de pintura, eles não têm olhos nem ouvidos. Se alguém talha uma marioneta pendurada na ponta de um fio que a faz gesticular e cujas articulações rangem a cada passo em pentâmetros iâmbicos, que personagem, que lógica!"

"La mort de Danton" (Georg Büchner)


O tom do discurso denuncia a paixão do orador. Se nos move, é porque ele parece abarcar o assunto no laço da sua voz e das suas palavras, como se o tivesse sob o olhar flamejante e o pudesse varar de um lado ao outro com os raios da sua inteligência.

Um nome é melhor do que um conceito e uma "dramatis persona" melhor do que um simples nome.

A certa altura, falando do sistema político (já em si uma audaciosa simplificação), põe-no em cena como uma personagem, frente a outras do drama. Empresta-lhe as intenções e as palavras, e como tem a peça na cabeça sabe o que se vai passar. Temos a sensação, ao ouvi-lo, de que não estamos mais no tempo real, mas no da tragédia.

A sua ficção faz todo o sentido, como outra faria. O nosso orador não é diferente dos outros. É com uma ficção que interpretamos a história e a política. Sem excepção. O mito é o princípio da ciência.

Mas depois das lições do século XX, persistir na mesma ficção é como se insistíssemos na versão ptolomaica quando já um certo monge polaco escrevia "De Revolutionibus Orbium Coelestium".

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

OS ALCATRUZES DA NORA


Uma Roda da Fortuna futurista
(http://www.hgf-synthesizer.de/se/X-WoF/Wheel-Of-Fortune.jpg)

A consciência (essa invenção dos Judeus, segundo Hitler) é cismática e criadora de diferenças tanto como fazedora de concórdia e de unidade.

O mundo, tornado mais pequeno pela comunicação instantânea, é um espectáculo difícil de suportar para os filhos da Revolução Francesa (mesmo se têm tendência para reduzir o tríptico célebre à igualdade e à fraternidade).

No entanto, também os privilégios se encontram mais expostos e se tornaram mais vulneráveis.

Se perante a impotência de actualizar as ideias de uns e a de se justificarem com um mundo mais justo de outros, um consenso for possível, deverá ter por base uma nova versão da famosa teoria da "igualdade de oportunidades". Na realidade, muito mais próxima do antigo conceito de Fortuna. Desde que os factores que decidem a desigualdade possam ser separados da influência política, tenderão a assemelhar-se a uma espécie de fatalidade objectiva.

É por isso que a filosofia e a separação de todas as formas de religião da política se tornaram o caminho da paz e da sobrevivência.


(José Ames)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

FIDELIDADE


"Melancolia” de Edward Munch

"As palavras não mudam tanto de significado, em séculos, como os nomes para nós no espaço de alguns anos. A nossa memória e o nosso coração não são suficientemente grandes para poderem ser fiéis. Não temos espaço bastante, no nosso pensamento actual, para aí conservar os mortos ao lado dos vivos."

"Le côté de Guermantes" (Marcel Proust)


Questão de memória, questão de espaço.

Como o nosso convívio com as máquinas "inteligentes" nos permite compreender esse limite!

O temperamento melancólico (segundo a ordem clássica dos quatro temperamentos), propenso a fechar-se sobre si mesmo e a ver tudo negro, é também o mais fiel.

É que nele a fidelidade é possível à custa das novas sensações e dos novos afectos.

Neste caso, os mortos podem expulsar os vivos, por não haver espaço para todos.


Alqueva (José Ames)

SIMONE E OS CÍNICOS


Diogenes, Jean-Léon Gérôme

"Segundo consta, Platão disse de Diógenes, o Cínico: "Ele é a versão enlouquecida de Sócrates." Nesta observação há tanto de homenagem inquietante como de escárnio. Como podemos evitar que esta descrição nos venha à lembrança quando pensamos em Simone Weil?"

"Paixão intacta" (George Steiner)


Diógenes queria menos reformar o mundo com o seu exemplo do que poder troçar dele e confrontá-lo com as suas próprias contradições.

Há aqui, como é proverbial, um orgulho feroz e uma vaidade paradoxal ("a vaidade transparece através dos buracos do teu manto.").

Se Platão fala em loucura neste caso é porque o que está implícito na "pedagogia" de Diógenes nunca poderia obter o acordo dos outros, por ser intrinsecamente anti-social.

A loucura (ou a santidade) de Simone Weil, aquilo que Steiner descreve como a patologia presente na sua vida e nas suas ideias, como a inveja da crucificação e o desejo de obedecer como a matéria, parece também destruir todas as pontes para o outro e enfermar de um luciferino orgulho.

Mas com isto não se tocou ainda no que constitui a grandeza de Simone Weil, nem se explicou como é que a sua "loucura", que tanto a religião, como a sociedade só poderiam condenar, assumiu tantas vezes a forma da preocupação social (desde que não se tratasse do seu próprio povo, o povo judeu, acrescentaria Steiner).

Essa grandeza só será patente quando nos pudermos abstrair da hagiografia: "Naquela aragem fria, não há lugar para o incenso."

domingo, 2 de dezembro de 2007


(José Ames)

CONTRADIÇÕES MILITANTES


http://www.ulm.edu/studentsuccess/career


Um amigo brusco e que quer demasiado fazer-se amar contorce-se na eterna imprecação contra os males da empresa. Mas agora houve uma mão-cheia de promoções e ambos fomos contemplados. Bem vejo por isso na sua irritação o desejo de mostrar que permanece o mesmo, apesar dos novos galões. Com o chefe que lhe deu a notícia, sentiu-se obrigado a dizer que era muito crítico em relação ao que se estava a passar, ao que o outro respondeu que não tinha o exclusivo.

Esta capacidade que tem o poder para desarmar o militante distribuindo-lhe uma parcela que ele não sabe recusar é prova de inteligência e não de força. O delegado sindical é assim aspirado para o mundo dos gabinetes, e mesmo que queira conservar o seu anorak, tem de aprender a cortesia e a pensar como os homens de gravata. As ideias perdem sempre com a mistura, e o militante divide-se dentro de si mesmo. Acontece também, mas raras vezes, que o poder não satisfaça o homem de ideal e se veja então a mesma pessoa presidir ao conselho dos chefes e conspirar na célula do partido. São estes exemplos, de resto, que escondem a ambição do militante e levam a que perante o primeiro degrau da escadaria triunfal, o delegado diga sim.

E eu não disse que não. Tomei laconicamente como um dever a cerimónia da investidura. O mal-estar de ambos é porém uma crise da adolescência. É mais fácil acusar o poder de discriminação e de arbitrário, quando somos o exemplo vivo da incomunicabilidade com a hierarquia. É como gozar duma renda de situação. Sem palavras nem actos, o juízo está feito pelo simples contraste. Tudo isso muda, e quase sem custo, se o sistema nos oferece a paz e a tolerância, apesar de havermos quebrado tanta loiça e vociferado tanto. E se pensarmos que a ordem e a organização são coisas indispensáveis a qualquer sociedade, se não confundirmos a empresa com o poder e os títulos de propriedade, não podemos recusar um acréscimo de responsabilidades. Menos ainda o podemos se criticámos esse poder no passado e acusámos as pessoas de não cumprirem com o seu dever.

No fundo, receamos sempre não estar à altura da nossa crítica e falhar onde os outros falharam. A honestidade exige pois que se aceite o cargo, por muito que agradasse mais ao filósofo ser razão e juiz apenas. Para isso era preciso não entrar no jogo da política. O delegado sindical só será escolhido agora se fizer melhor do que os outros, porque não está confinado apenas à fala rebelde.

Quanto mais a necessidade cinge o homem, mais pura é a liberdade. Mas também mais difícil é agradar, e isso é bom para o espírito. O meu amigo prefere ler os factos pela grade da esquerda e da direita. E como não pode deixar de acontecer a sua cólera é toda política. O sistema explica tudo. É uma palavra que substitui a ideia da totalidade e nesse sentido, podia ainda ser útil. Mas quando se reduz o sistema a leis da produção manuseáveis pela sociedade ou pela vanguarda, pensa-se que é possível mudar a totalidade.

Daí que estas promoções selvagens sejam fruto do sistema, que nos indignem maximamente, mas que se desculpem os homens e se esqueçam as paixões até à Revolução.