quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Lisboa (José Ames)

O PDRI

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“Na nossa vida real, quero dizer, na nossa vida pessoal, tanto como na nossa vida histórica e pública, só se verifica aquilo que não tem uma razão válida para isso.”


“O Homem Sem Qualidades”  (Robert Musil)



Ulrich explica a Léon Fischel, director do Lloyd Bank, o PDRI, Princípio Da Razão Insuficiente. Trocado por miúdos, este princípio não quer dizer mais do que isto: as coisas acontecem-nos, mais do que nós as fazemos acontecer.

Podemos ter a ilusão de que a razão basta para compreendermos determinado fenómeno, porém, isso só é assim porquanto reduzimos inconscientemente os seus parâmetros ao nosso limiar de entendimento.

Há nesta fabulosa obra, uma outra passagem em que Musil compara o processo criativo ao cão que só consegue atravessar a passagem mais estreita do que o osso que leva na boca e que, evidentemente, não quer largar, depois de várias tentativas aleatórias, até encontrar, finalmente, a inclinação certa da cabeça.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

(José Ames)

O LUBRIFICANTE





“A colegialidade, que se pratica na elaboração das micro-decisões, na empresa, na administração ou na universidade, permite a cada um ouvir-se falar, e aos outros, de fazer o mesmo, dando-se a ilusão de existirem nesta troca de tansos, onde tudo está, muitas vezes, decidido ou imposto à partida. A ‘ilusão retórica’ consiste em crer que os argumentos de cada um contam, quando o objecto da reunião e do diálogo é antes o reconhecimento mútuo do papel de cada um, inflacionado por este simples jogo, em que se negoceia a sua imagem ( a distância), e não uma resposta, que se acaba por esquecer e que era na realidade secundária ou fora antecipadamente decidida.”


“Principia Rhetorica”  (Michel Meyer)



Como diz Meyer, a sociedade democrática “não é talvez mais evoluída do que as que a precederam” por causa deste conformismo que tão necessário é à identidade do grupo. Mas não se lhe pode negar uma articulação mais complexa que lhe permite “negociar” todas as diferenças, mesmo as que são a base dos seus valores.

É essa tendência dessacralizante que rejeita os tabus proteccionistas que faz da crise de valores o modo de ser deste tipo de sociedade. Como o capitalismo, aliás, mostrou à saciedade, a crise é inseparável do desenvolvimento do sistema, e não se pode dizer o que é mais relevante para a queda de todas as barreiras morais e psicológicas, se a mercantilização universal ou a influência da tecnologia das comunicações.

A “ilusão retórica” permite a estabilidade possível das relações humanas num mundo em que o fosso entre a realidade e a nossa percepção dela se abre cada vez mais.

Assim, todos participamos num processo político da maneira que podemos, protegidos das vertigens da velocidade e do caos. E a racionalidade das decisões funciona como mais um belo lubrificante social.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Almada (José Ames)

A SEGUNDA POTÊNCIA




"A justiça é um número elevado à segunda potência."


( Os Pitagóricos, segundo Simone Weil)



A ordem dos números e a sua harmonia inspiram a primeira ideia de justiça que ainda não é a justiça. A igualdade que concebemos, graças a esta aritmética, é grosseira e impraticável, apesar de poder ser extremamente atractiva no meio da torrente política.

A passagem para um segundo grau exige outra medida e que seja outro o espírito que mede. Deve-se falar aqui de intuição e de uma harmonia secreta, como na música.

A ideia de Simone e, segundo ela, dos Pitagóricos, é que nesta segunda potência, a justiça não perde em rigor, nem deixa  de ser "calculável", embora esse cálculo não esteja ao alcance da razão.

Aquilo a que os Gregos chamavam Necessidade (anankè), que não era o contrário da liberdade, dá-nos uma ideia dessa "segunda" justiça.

domingo, 18 de setembro de 2011

(José Ames)

O INFERNO



Este Inferno de autor anónimo do século XVI, que se encontra no Museu de Arte Antiga, em Lisboa, representa uma ideia do horror ainda ingénua, para dizer assim. Não concebe o sanguinolento, o "gore" dos filmes modernos, nem a dissolução das formas de que o modelo da tetralogia de "Alien" fez um uso modelar, neste tempo de medos virais, de poluição e de contaminação. O corpo torturado está inteiro, não se derrama nem se liquefaz. É como se devesse conservar a forma para uma nova reencarnação e um novo ciclo de punição.

Cada um dos demónios tem o papel de funcionário do seu instrumento e são todos mais apagados do que os corpos dos condenados. O próprio Satanás é uma figura insignificante que mal sobressai da sombra.

A ideia que dá esta pintura é a de mostrar a "carne" e a sua capacidade de se auto-destruir, sem influências externas, o que é o contrário do que ensina Spinoza que diz, por outras palavras, que cada ser é perfeito até encontrar a causa exterior que o destrua. Para não considerarmos isto absurdo, devemos ter em conta que o ser individual é, como alguém disse, a superfície da espécie ( e esta, por sua vez...).

O que é curioso é que o objecto da tortura, aqui, seja a boca ou a cabeça. Nada de sexual nesta parafernália terrorista. Ao supliciar a carne, mas deixando-a intacta, visa-se o pensamento. Diferentemente dos nossos medos de hoje que são mais físicos ( o que não quer dizer que os possamos sempre definir) do que metafísicos, os homens de Quinhentos, a julgar, por este retábulo, eram ensinados a temer o desvio de opinião. Para os poderes obterem o conformismo tinham de recorrer às práticas mais violentas para deixar uma marca na imaginação das gentes. Nisso, atingimos o cume do "menor esforço": moldando os espíritos pela gestão de massas. Os hábitos privados em vez de serem impostos são naturalmente adoptados, graças ao fascínio da tecnologia e, como se sabe, atrás dos hábitos ou dos ritos vêm as crenças.

sábado, 17 de setembro de 2011

Parque de S. Roque (Porto)

O PASSADO




“O passado é o real ao nosso nível, mas não está de modo algum ao nosso alcance, na direcção dele não podemos dar sequer um passo, na direcção dele só podemos orientar-nos de modo a que uma sua emanação venha a nós. Por isso, o passado é a melhor imagem das realidades eternas, sobrenaturais. ( A alegria, a beleza da recordação talvez venha daí.) Proust entreviu isso.”

Simone Weil (“A Fonte Grega”)



Águas passadas, tempos idos, memória perdida. Como é que isso pode ser real? Todos nós, se já não perdemos contacto com o mundo, fazemos essa pergunta do bárbaro diante da mística pitagórica. Mística, sim. Como viu Simone Weil, as relações matemáticas que explicavam o mundo aos olhos da seita mais culta que o mundo conheceu, eram a verdade revelada.

Se nós somos reais e não seres de fantasia, somos a prova de que o passado "não passou". Além disso estamos tão perto de abandonar o tempo do "aqui e agora", o tempo biológico e o tempo dos transportes terrestres e aéreos, para mudarmos, sem armas nem bagagens, para o tempo real das transmissões electromagnéticas e da velocidade da luz, num mundo em que não temos de estar presentes num tempo ou num lugar específico, que o passado não só não passou como pode estar à nossa frente...