quarta-feira, 21 de setembro de 2011
O PDRI
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“Na
nossa vida real, quero dizer, na nossa vida pessoal, tanto como na nossa vida
histórica e pública, só se verifica aquilo que não tem uma razão válida para
isso.”
“O Homem Sem
Qualidades” (Robert Musil)
Ulrich explica a Léon
Fischel, director do Lloyd Bank, o PDRI, Princípio Da Razão Insuficiente.
Trocado por miúdos, este princípio não quer dizer mais do que isto: as coisas
acontecem-nos, mais do que nós as fazemos acontecer.
Podemos ter a ilusão
de que a razão basta para compreendermos determinado fenómeno, porém, isso só é
assim porquanto reduzimos inconscientemente os seus parâmetros ao nosso limiar
de entendimento.
Há nesta fabulosa
obra, uma outra passagem em que Musil compara o processo criativo ao cão que só
consegue atravessar a passagem mais estreita do que o osso que leva na boca e
que, evidentemente, não quer largar, depois de várias tentativas aleatórias,
até encontrar, finalmente, a inclinação certa da cabeça.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
O LUBRIFICANTE
“A
colegialidade, que se pratica na elaboração das micro-decisões, na empresa, na
administração ou na universidade, permite a cada um ouvir-se falar, e aos
outros, de fazer o mesmo, dando-se a ilusão de existirem nesta troca de tansos,
onde tudo está, muitas vezes, decidido ou imposto à partida. A ‘ilusão retórica’
consiste em crer que os argumentos de cada um contam, quando o objecto da reunião
e do diálogo é antes o reconhecimento mútuo do papel de cada um, inflacionado
por este simples jogo, em que se negoceia a sua imagem ( a distância), e não
uma resposta, que se acaba por esquecer e que era na realidade secundária ou fora
antecipadamente decidida.”
“Principia
Rhetorica” (Michel Meyer)
Como diz Meyer, a
sociedade democrática “não é talvez mais
evoluída do que as que a precederam” por causa deste conformismo que tão
necessário é à identidade do grupo. Mas não se lhe pode negar uma articulação mais
complexa que lhe permite “negociar” todas as diferenças, mesmo as que são a
base dos seus valores.
É essa tendência
dessacralizante que rejeita os tabus proteccionistas que faz da crise de
valores o modo de ser deste tipo de sociedade. Como o capitalismo, aliás,
mostrou à saciedade, a crise é inseparável do desenvolvimento do sistema, e não
se pode dizer o que é mais relevante para a queda de todas as barreiras morais
e psicológicas, se a mercantilização universal ou a influência da tecnologia
das comunicações.
A “ilusão retórica”
permite a estabilidade possível das relações humanas num mundo em que o fosso
entre a realidade e a nossa percepção dela se abre cada vez mais.
Assim, todos
participamos num processo político da maneira que podemos, protegidos das
vertigens da velocidade e do caos. E a racionalidade das decisões funciona como
mais um belo lubrificante social.
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
A SEGUNDA POTÊNCIA
"A justiça é um número elevado à segunda
potência."
( Os
Pitagóricos, segundo Simone Weil)
A ordem dos números e a sua harmonia
inspiram a primeira ideia de justiça que ainda não é a justiça. A igualdade que
concebemos, graças a esta aritmética, é grosseira e impraticável, apesar de
poder ser extremamente atractiva no meio da torrente política.
A passagem para um segundo grau exige
outra medida e que seja outro o espírito que mede. Deve-se falar aqui de
intuição e de uma harmonia secreta, como na música.
A ideia de Simone e, segundo ela, dos
Pitagóricos, é que nesta segunda potência, a justiça não perde em rigor, nem
deixa de ser "calculável",
embora esse cálculo não esteja ao alcance da razão.
Aquilo a que os Gregos chamavam Necessidade
(anankè), que não era o contrário da liberdade, dá-nos uma ideia dessa
"segunda" justiça.
domingo, 18 de setembro de 2011
O INFERNO
Este Inferno de autor anónimo do
século XVI, que se encontra no Museu de Arte Antiga, em Lisboa, representa uma
ideia do horror ainda ingénua, para dizer assim. Não concebe o sanguinolento, o
"gore" dos filmes modernos, nem a dissolução das formas de que o
modelo da tetralogia de "Alien" fez um uso modelar, neste tempo de
medos virais, de poluição e de contaminação. O corpo torturado está inteiro,
não se derrama nem se liquefaz. É como se devesse conservar a forma para uma
nova reencarnação e um novo ciclo de punição.
Cada um dos demónios tem o papel de
funcionário do seu instrumento e são todos mais apagados do que os corpos dos
condenados. O próprio Satanás é uma figura insignificante que mal sobressai da
sombra.
A ideia que dá esta pintura é a de
mostrar a "carne" e a sua capacidade de se auto-destruir, sem
influências externas, o que é o contrário do que ensina Spinoza que diz, por
outras palavras, que cada ser é perfeito até encontrar a causa exterior que o
destrua. Para não considerarmos isto absurdo, devemos ter em conta que o ser
individual é, como alguém disse, a superfície da espécie ( e esta, por sua
vez...).
O que é curioso é que o objecto da
tortura, aqui, seja a boca ou a cabeça. Nada de sexual nesta parafernália
terrorista. Ao supliciar a carne, mas deixando-a intacta, visa-se o pensamento.
Diferentemente dos nossos medos de hoje que são mais físicos ( o que não quer
dizer que os possamos sempre definir) do que metafísicos, os homens de
Quinhentos, a julgar, por este retábulo, eram ensinados a temer o desvio de opinião. Para os poderes
obterem o conformismo tinham de recorrer às práticas mais violentas para deixar
uma marca na imaginação das gentes. Nisso, atingimos o cume do "menor
esforço": moldando os espíritos pela gestão de massas. Os hábitos privados
em vez de serem impostos são naturalmente adoptados, graças ao fascínio da
tecnologia e, como se sabe, atrás dos hábitos ou dos ritos vêm as crenças.
sábado, 17 de setembro de 2011
O PASSADO
“O
passado é o real ao nosso nível, mas não está de modo algum ao nosso alcance,
na direcção dele não podemos dar sequer um passo, na direcção dele só podemos
orientar-nos de modo a que uma sua emanação venha a nós. Por isso, o passado é
a melhor imagem das realidades eternas, sobrenaturais. ( A alegria, a beleza da
recordação talvez venha daí.) Proust entreviu isso.”
Simone Weil (“A
Fonte Grega”)
Águas passadas, tempos idos, memória
perdida. Como é que isso pode ser real? Todos nós, se já não perdemos contacto
com o mundo, fazemos essa pergunta do bárbaro diante da mística pitagórica.
Mística, sim. Como viu Simone Weil, as relações matemáticas que explicavam o
mundo aos olhos da seita mais culta que o mundo conheceu, eram a verdade revelada.
Se nós somos reais e não seres de
fantasia, somos a prova de que o passado "não passou". Além disso
estamos tão perto de abandonar o tempo do "aqui e agora", o tempo
biológico e o tempo dos transportes terrestres e aéreos, para mudarmos, sem
armas nem bagagens, para o tempo real das transmissões electromagnéticas e da
velocidade da luz, num mundo em que não temos de estar presentes num tempo ou
num lugar específico, que o passado não só não passou como pode estar à nossa
frente...
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