quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
PERSÉFONE
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| Deméter e Perséfone |
“E se ele acorda, então dizem-lhe
que durma e
sonhe.
E ele morre e passa dum dia para o outro.
Inspira os dias, leva os dias
para o meio da eternidade, e Deus ajuda
a amarga beleza desses dias.
Até que Deus é destruído pelo extremo exercício
da beleza.”
“Lugar”
(Herberto Helder)
O amor entre dois
sonos. Donde vem esta ideia da mulher que vigia o sono do amado, como se só ela
pudesse, sem se perder, ter um pé em dois mundos? O mundo do humano, de cuja
forma ela é a guardiã como de uma casa ou de um templo, e o da natureza que
nunca lhe é completamente estranha e muito menos coisa a conquistar.
É Perséfone, a rainha
do labirinto e do mundo subterrâneo, onde a morte se converte em vida como as
sementes.
E depois essa ideia
de Deus como uma cápsula que se abandona para se ser um só com a viagem…
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
O INFERNO POLICIAL
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| Cardeal Richelieu ( 1585/1642) |
“Depois
do assassinato de Henrique IV, uma criança de doze anos foi executada por ter
dito publicamente que faria o mesmo ao pequeno Luís XIII. Richelieu começou a
sua carreira por um discurso em que pedia ao clero que proclamasse a danação de
todos os regicidas; dava como motivo que aqueles que alimentavam este desígnio
estavam animados dum entusiasmo por de mais fanático para serem contidos por
qualquer pena temporal.”
“L’Enracinement”
(Simone Weil)
O Inferno, como
castigo temporário (afinal somos simples mortais), pode ser uma ideia moral.
Como pena para a eternidade é uma ideia de polícia, demasiado útil, quando credível,
para poder ser dispensada por um homem na posição de Richelieu.
O medo a incutir era
à medida do ódio recalcado contra o despotismo e os impostos arbitrários. “Durante todo este período, (o povo francês)
foi olhado pelos outros europeus como o povo escravo por excelência, o povo que
estava à mercê do seu soberano como o gado.” (ibidem)
A falta que o Inferno
fez a Mubarak, Ben Ali e quejandos!
E a falta que um
ditador faz à chamada “geração parva”…
Tanto como o medo dos
suplícios eternos ou, simplesmente, da morte ou do cárcere, a ideia dum sistema
sem alternativas pode ser de boa polícia. Muito mais eficaz, de resto, por não
ser tão vulnerável à incredulidade profana, visto que é moderna e pode esconder os seus motivos na
complexidade do mundo de hoje.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
HEIDEGGER E O TURISMO
“O
acontecimento teve lugar durante o último seminário de Heidegger, para o qual
eu tinha sido convidado, em 1973. Heidegger falava sobre Gestell (armação) em contraste com Ereignis (acontecimento). A sua meditação
alcançou uma grande intensidade; evocou temas como a Tecnologia, a Habitação, a
Gelassenheit (tranquilidade). Os cinco participantes,
todos falando francês, foram arrastados pelo ‘vento do pensamento’. Heidegger
estava em diálogo consigo próprio, à nossa frente, o olhar dirigido para
qualquer outro lugar. Mas, de repente, voltou do seu retiro e estava outra vez
entre nós. E isto foi o que disse com voz firme:’ O turismo devia ser proibido.’
Assim, apanhados de surpresa, ninguém sorriu. Estavam todos sob o fascínio do
seu intenso monólogo.”
“The Thracian Maid and the Professional Thinker” (Jacques Taminiaux)
De volta ao hotel,
Taminiaux não pôde deixar de ironizar: “Será
que ele não se apercebe de que, sem a infra-estrutura turística na cidade de
Freiburg, nós não poderíamos assistir ao seu seminário?”
Foi, sem dúvida, esta
inclinação para um certo despotismo que levou o filósofo a fazer a mais
polémica das suas incursões na política: o “Discurso Reitoral” de 1934 que o
associou (indevidamente) ao nazismo e para sempre manchou a sua reputação.
Mas essa inclinação
não pode ser atribuída a qualquer defeito no carácter de Heidegger, porque é
quase sobre-humano manter o pensamento no estado contemplativo (a bios theoretikos)
e confiar apenas na sua influência indirecta, através do espírito, para “corrigir”
o mundo, que é o objecto de tantas elucubrações solitárias, quando se apresenta
uma oportunidade real de poder, ou a sombra disso apenas.
domingo, 13 de fevereiro de 2011
DO BOM E DO MAU USO DAS PAIXÕES

René Descartes (1596-1650)
“Porque nos pomos em amor, como nos pomos em cólera, fazendo tão-só os gestos. Mas justamente porque sabiam isso, eles não os faziam.”
Robert Musil (“O Homem sem Qualidades”)
A ideia já vem do “Tratado das paixões” de René Descartes e continua a ser actual, porque todos nos deixamos iludir pelas paixões e a todo o passo esquecemos a “ligação do corpo e da alma”.
Claro que hoje deveríamos incluir nessa influência todas as formas de acoplamento tecnológico que prolongam as nossas capacidades físicas e intelectuais. Poderíamos assim falar dum corpo-automóvel (agressivo e irrealista, por efeito da velocidade), o corpo-walkman ( com que mergulhamos, armados de head-phones, num mundo paralelo), o corpo-televisão ( e a espécie de estrabismo da atenção que comporta), o corpo-computador ( e a sua virtualização das relações sociais), etc., etc.
Cada uma dessas extensões do nosso corpo modifica as paixões naturais, mas verificando o mecanismo descrito por Descartes na sua correspondência e, tal como é comentado por Alain (“Ideias”) :
“Tentarei, portanto, fazer três grupos destes curtos artigos, ligando-os a três ideias. A primeira consiste nisto que as verdadeiras causas das nossas paixões nunca estão nas nossas opiniões, mas antes nos movimentos involuntários que agitam e sacodem o corpo humano segundo a sua estrutura e os fluidos que nele circulam; e é uma visão do homem-máquina a partir do paradoxo célebre do animal-máquina. A segunda ideia é que as paixões estão na alma, quer dizer são pensamentos, que dependem, é verdade, das afecções do corpo, mas que não oferecem menos uma variedade que é preciso ainda descrever. Estas duas ideias estão expostas juntas em quase em todo o lado, nas três partes da obra. Quanto à terceira ideia, que só se mostra episodicamente na terceira parte do Tratado, é no entanto aquela que suporta a segunda; porque as paixões só são tais na alma, e só podem receber este nome tão expressivo de paixões, por oposição a um pensamento livre no seu fundo, duma ordem muito diferente e dum muito diferente valor em relação aos acontecimentos físicos do corpo, e mesmo aos pensamentos servos pelos quais traduzimos a nós mesmos estes acontecimentos.”
E continuaria a ser possível fazer um bom e um mau uso das paixões se tivéssemos alguma ideia do que somos...
sábado, 12 de fevereiro de 2011
TUDO É OUTRA COISA
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| "Shutter Island" (2010-Martin Scorcese) |
“Minha
cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu
procuro dizer como tudo é outra coisa.”
“Poemacto” (Herberto Helder)
São apaixonantes os
filmes em que o protagonista, depois de muitas peripécias, acaba por perceber
que estava no filme errado e que o seu mundo ficou virado do avesso.
Veja-se “Shutter
Island”, por exemplo. Nós vivemos todas as alucinações de Teddy Daniels
(Leonardo DiCaprio) como se fosse a única história, quando há uma última versão
que é a do mundo que julga a sua insanidade mental.
Mas o cinema é apenas
um caso. E todos nos “convertemos” ao longo da vida noutra personagem que conta
a nossa história doutra maneira. A revelação é o processo que nos faz avançar
no labirinto das narrações, e quase todos podem lembrar-se dum encontro, duma
cena vivida ou dum livro que mostraram que “tudo era outra coisa”.
Aquele que pudesse
olhar-nos da plataforma de Arquimedes provavelmente não seria capaz de contar
nenhuma história, porque estaria fora do contexto das nossas ilusões.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
UM MUNDO DE TOLOS
“Astroff
– Eu mudei muito desde então?
Marina – Oh, sim. Tu eras bem-parecido e jovem
então, e agora és um velho, deixaste de ser bem-parecido. Além disso, bebes.”
“O Tio Vânia” (Anton Tchekov)
O médico, “enterrado”
na província, deita contas à vida diante da velha ama. Ela interrompe o triste
solilóquio de Astroff, perguntando-lhe se quer comer alguma coisa.
A melancolia dos
senhores faz questão de ser lúcida. Astroff considera-se um tolo como os
restantes, mas não estúpido. Entre as duas palavras, existe de facto uma grande
diferença, porque até um sábio pode entontecer por amor.
A decadência, o
sentimento da vida estragada para sempre (compreende-se como a ideia da
revolução foi um tónico revigorante), a vida confinada a um lugar, tudo isso pode
fazer um mundo de tolos que bebem, em vez de viver.
O mundo do bom senso,
esse, é representado pelos servos, como Marina.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
O ENTESOURAMENTO
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| Lao Tse (sec.VI AC) |
“Aquele
que porfiar em aprender aumentará em cada dia; aquele que porfiar no Tao,
diminuirá todos os dias.”
Lao Tse
Quem, como Sócrates,
chegar à maturidade com o sentimento de nada saber, concordará que o crescendo
do conhecimento é inseparável da consciência de que a sua ignorância cresce
ainda mais depressa. O Tao não ensina outra coisa. Se olharmos para o que
aprendemos como um tesouro acumulado, ele não pára de aumentar e, mesmo o mais
rude dos homens, do nascimento até à morte está a “entesourar”. Mas o valor
desse “acumulado” tem de medir-se, não com o Forte Knox ou a caverna de Ali
Babá, mas com o infinito.
Na vida prática, que
se passa no nosso casulo, corridos os estores sobre o universo, todos julgamos saber
que o “tesouro na terra” é bem real. É esse o efeito da “nuvem” humana.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
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