terça-feira, 31 de julho de 2007

A RECONSTRUÇÃO DO TEMPLO


Isaiah Berlin (1909/1997)


"A criação do Estado de Israel prestou aos indivíduos o maior serviço que uma instituição humana pode prestar: devolver aos judeus, não já simplesmente a sua dignidade e o seu estatuto pessoal, de seres humanos, mas qualquer coisa de incomparavelmente mais importante: o seu direito a escolherem enquanto indivíduos a sua maneira de viver - ou seja, essa liberdade de escolha de base, o direito a viver ou morrer, a tomar o caminho do bem ou do mal, conforme cada um entenda, à falta da qual a vida humana é uma forma de servidão, como efectivamente o foi no caso da comunidade judaica durante quase dois mil anos."

"O Poder das Ideias" (Isaiah Berlin)


Este ensaio de Berlin foi evidentemente escrito antes da questão palestiniana se ter tornado o protótipo dos conflitos aparentemente insolúveis.

Mas é útil perceber a importância desse simbolismo na realidade do Estado judaico. A memória dos dois mil anos de exílio está omnipresente e influencia todas as considerações políticas.

Não sei se esta "territorialização" acabará de vez com o destino do judeu sem pátria, eterno e frustrado imitador dos outros. Mas face à dramatização do conflito e à precariedade e do seu estatuto aos olhos dos seus inimigos, não é de estranhar que aquele destino se prolongue na imaginação, sendo Israel mais uma das reconstruções do templo destinadas a repetir-se até o fim dos tempos.


Bastide (José Ames)

segunda-feira, 30 de julho de 2007


(José Ames)

domingo, 29 de julho de 2007

A DEFORMAÇÃO DO DUPLO



Do filme de Tarantino, "À prova de morte", saio com a impressão de que é só a violência que nos agarra à cadeira e que a imagem de marca deste realizador o está a encurralar neste único registo.

Mas tem de se fazer justiça ao jogo que a citação cinematográfica desempenha nos seus filmes. Nesta segunda parte, pensamos logo em "Thelma and Louise", de Ridley Scott, mas com um final paródico.

Por outro lado, há a fabulosa personagem de Kurt Russell e o significado da sua "deformação profissional". Como duplo, vivendo as cenas mais mortíferas como um simulacro, salta para a realidade numa confusão de códigos assassina. O paralelo com a violência virtual dos jogos electrónicos e de filmes como este não pode ser evitado.

É por isso que "à prova de morte" deve ser entendido à letra na boca deste "stuntman", visto que a morte nunca ocorre no virtual.

E a cena de pancadaria das mulheres com que termina o filme e o próprio comportamento de adolescente apanhado em falta evidenciado pelo assassino sugerem-nos que este é o nosso mundo e as suas fronteiras é que se tornaram indecisas.


Veneza (José Ames)

sábado, 28 de julho de 2007

O OUTRO MUNDO


"Os Outros" (2001-Alejandro Amenábar)


Na origem, há um acontecimento demasiado grave de que só as crianças retêm a memória.

Os filhos de Grace (Nicole Kidman) sofrem duma doença rara que os obriga a viver protegidos da luz natural. Por isso, a mãe se esforça por conter o sol, fechando os quartos à chave, um a um, como num navio se tem de estancar a água.

Depois, chegam três serviçais que ninguém chamou e que já conhecem a casa dum passado misterioso. São eles que explicam a Grace o estranho costume que tinham os anteriores inquilinos, de geração em geração, de posarem para a fotografia de olhos fechados. Era simplesmente porque estavam mortos. É assim que Grace descobre que esses criados também estão mortos, porque encontra o trio fotografado de olhos fechados.

A partir daí, percebemos que esta história de vivos convivendo com os mortos está mal contada desde o início. De facto, Grace, num acesso de loucura, tinha assassinado os filhos, suicidando-se a seguir, e esse é que é o acontecimento trágico original.

Os "actualmente" vivos entram no filme (são os novos ocupantes da casa) numa breve cena de espiritismo, em que os dois "mundos" comunicam.

E esta é a primeira vez que o cinema nos dá o ponto de vista do "outro mundo", dos espíritos com que o medium consegue estabelecer contacto.
Mesmo para quem não é seguidor do dr. Kardec, há nesta engenhosa encenação, sem os habituais truques para criar o suspense, suficientes motivos de admiração.

Se os mortos só podem viver no espírito dos vivos, de facto, não há limite para o bem e para o mal da sua influência. Isso é suficientemente credível para ter inspirado um dos mais antigos terrores da humanidade.

ALERGIA


"Uzak" (2002 - Nuri Ceylan)


Um jovem da montanha vem viver uns dias no apartamento do primo, fotógrafo, em Istambul.

Apesar dos laços de sangue, os dois homens não parecem ter nada a dizer um ao outro. A diferença de idades e de cultura é demasiado óbvia.

O rústico deambula, meio perdido, pela paisagem urbana (já alguém imaginou Santa Sofia coberta de neve?). O tráfico, os centros comerciais, as mulheres, não são bem reais para o seu olhar curioso, mas passam por ele como uma corrente de água.

O outro, habituado a viver só, observa com um rigor maníaco todos os pequenos transtornos que a presença desta criatura estranha implica no rame-rame da sua vida. Sente-se obrigado a esconder-lhe que às vezes gosta de se relaxar vendo um filme pornográfico.

Exasperado, mas sem verdadeiras razões, decide-se a dar-lhe a entender que chegou a hora de o deixar em paz.

Ao ver o seu saco de viagem no chão, o hóspede compreende o que lhe resta fazer.

Esta é uma imagem da Turquia moderna que nada tem a ver com a impressão que nos deixa uma visita turística. E este problema, da alergia ao outro, as mais das vezes latente nas nossas vidas de empedernidos individualistas, podia encontrar-se em qualquer das nossas metrópoles.

Fiquei muito motivado para ver os outros filmes de Ceylan.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

UMA PROMOÇÃO


http://populo.weblog.com.pt


A distinção apaga todos os juízos de valor que formam a psicologia duma secção. É como se um manto nos caísse sobre os ombros, tornando-nos irreconhecíveis. Tenta-se manter a mesma atitude e não mudar em nada, mas os outros esperam um sinal vindo doutra direcção. O silêncio de todos os dias passa a ser “caixinha”, ou gravidade prenunciadora dum distanciamento. Assim, a cortesia nos aliena das antigas amizades e o salto hierárquico é significado pela lei humana. Porque é irrelevante a violência interior e a complexidade moral da aceitação das honras. Não pode haver mistura para salubridade da inteligência. O silêncio, a atitude pacífica fazem-nos alinhar pelo princípio contrário. Seria preciso o escândalo e a indignação para conservar o direito ao estado anterior. Novas amizades se esboçam que repugnam ainda a quem gostou sempre de ser soldado raso.

À falta de galões, os homens mudam a expressão e a continência. A autoridade precisa de se impor pela aparência apenas. Daí o ar carrancudo de alguns chefes; eles têm medo de que o respeito falte se forem naturais. Mas nenhum homem se aceita como chefe sem as marcas da autoridade. É preciso que o trabalho, que é violência civilizadora contra si próprio e disciplina moral, se inspire no espectáculo dum homem exilado da pessoa e do mundo natural dos justos. Porque toda a parcela do poder tem o ricto da necessidade inflexível e do juiz que tem de julgar as acções só e os resultados. No aspecto do chefe aparecem as paixões no pelourinho e a ofensa também.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

A ESCOLA DAS UTOPIAS


"Simplicius Writing Lesson"- Max Klinger, 1881


Confesso que ao princípio me pareceu uma boa ideia: todos os miúdos com um computador em cima da carteira. Que há de mais democrático e de melhor intencionado, para o bem das cabecinhas?

Mas se a calculadora pode ser uma falsa boa ideia, porque trava o desenvolvimento das capacidades mentais, instigando à preguiça no momento mais sensível, o que dizer do computador?

O que se esconde por detrás desta doutrina tão amada, é uma idolatria, de facto muito antiga, a mesma que pôs Moisés fora de si, ao descer do Sinai.

Hoje, ofuscam-nos as maravilhas da tecnologia, a ponto de cairmos na superstição de que elas se reproduzem a si próprias, e esquecemos que, por muito aparatosa que seja a casca, fosse ela a duma aeronave espacial, daquelas que demoram alguns minutos a passar no ecrã, o importante é a víscera pensante que se encontra no seu âmago.

Rapidamente, quase em alvoroço, como quem cai numa armadilha de olhos fechados, o governo, qual comitiva de outros reis-magos vem adorar a inteligência artificial que, num compreensível desvario, tomou pela inteligência tout court.

Acaso se acredita que a interactividade com um computador vai deixar de reforçar a destruição dos níveis de atenção e de concentração que os mesmos miúdos, ou grande parte deles, já contraíram em casa?

Serão todos decerto mais iguais, mas na distracção e na inibição da inteligência.

A ideia que se aprende melhor brincando chega, assim, a um novo patamar do declínio intelectual.

A nossa salvação está, então, nos "meninos selvagens", perdidos e encontrados, noutras selvas menos sofisticadas. Está nos rebeldes ao sistema de ensino, como, se calhar, sempre esteve.

A VISÃO DE CHAADAEV


Pyotr Chaadaev (1794/1856)

"(...) Chaadaev interrogava-se, com efeito, sobre se os russos, tão tarde entrados no banquete das nações e ainda jovens, bárbaros e inexperientes, não teriam por isso mesmo certas vantagens - vantagens, de resto, esmagadoras - por comparação com as sociedades mais antigas e mais civilizadas."

"O Poder das Ideias" (Isaiah Berlin)


Autor duma famosa "Carta Filosófica" e arauto das ideias ocidentais, Chaadaev mostra-se aqui duplamente filósofo, ao admitir que podemos sempre aprender com os erros dos outros (sobretudo se nos parecem mais adiantados) e que há, às vezes, um lado positivo no objecto da nossa crítica, que pode resultar numa verdadeira oportunidade.

Mas para tal é necessário abandonar a demonização do adversário político e as utopias de refundação.

Pudemos ver, em Portugal, como a experiência doutras latitudes e as interpretações históricas a que deram azo acompanharam o nosso "processo" como uma espécie de "cábula", umas vezes acelerando, outras travando, ou poupando-nos alguns becos-sem-saída.

E com o golpe de asa de parecermos originais, a ponto de iludir, por um tempo, um homem como Sartre...

De resto, é a atitude de Chaadaev que nos permite ter alguma esperança em relação a esse gigante que entra agora em cena e que já não pode ter a inocência dos que o antecederam: a China.

terça-feira, 24 de julho de 2007

SISTEMAS


http://www.microsan.com.br

"A burocracia é sem dúvida o fenómeno mais notável, mas certamente não o único a caracterizar a evolução estrutural recente do sistema político. A democratização da formação da vontade política e a inclusão activa e passiva do conjunto da população no sistema político conduziram a passar dum impedimento dos desvios a um reforço dos desvios, ou ainda dum feedback negativo a um feedback positivo. O Estado democrático orienta-se segundo as necessidades da população e esforça-se por melhorar a sua satisfação pela institucionalização da concorrência para o acesso ao poder (...). Isso tem por consequência o aumento do número das próprias necessidades assim como das expectativas do público, e acaba-se por esperar do Estado prestações que são impossíveis de realizar tecnicamente com os meios da política, na ocorrência pelas decisões colectivas constringentes."

"Politique et complexité" (Niklas Luhmann)


O conceito de sistema, que passou a ser usado a propósito de tudo e de nada, pode ter desenvolvimentos surpreendentes.

Considerado como um sistema cibernético, o Estado e a burocracia, a sua forma específica de organização, só conseguem reproduzir-se, segundo Luhmann, graças a uma teoria auto-referente que integre todos os desvios possíveis.

Mas a população concebeu a peregrina ideia de que o Estado existe para a servir a ela, e daí que as suas necessidades, por não serem geradas no espírito daquela teoria, entrem em conflito com o sistema político, o qual deixa de ser estável.

E então? Luhmann sugere que o realismo está do lado dos sistemas e que a democratização imporia desvios ingeríveis, por "falta de medida".

Esses desvios só encontrariam um limite na falta de recursos.

Mas por aqui se vê que nunca estivemos no reino da economia, porque a própria abundância de recursos não parece prometer qualquer estabilidade.


Porto (José Ames)

CAIXAS ENCOIRADAS


http://www.nicholsoncartoons.com


"Encarregado de negócios, em países com os quais estivemos a dois passos de entrar em guerra, o Sr. Norpois, ansioso pela volta que os acontecimentos iam levar, sabia muito bem que não era pela palavra: paz, ou pela palavra: guerra, que elas lhe seriam significadas, mas por uma outra, banal na aparência, terrível ou abençoada, e que o diplomata, com a ajuda da sua cifra, poderia imediatamente ler, e à qual, para salvaguardar a dignidade da França, responderia com outra palavra de igual modo banal, mas sob a qual o ministro da nação inimiga veria imediatamente: guerra."

"Le côté de Guermantes" (Marcel Proust)


A diplomacia deve ter mudado muito desde os tempos de que nos fala Proust, mas terá conservado, ao menos, este espírito alusivo de circunlóquio, de "beating around the bush", sem o qual esta arte perderia a razão de ser.

De resto, antes das vias de facto, não é só a diplomacia que ocupa o terreno, pois, cada vez mais, na medioesfera, as mensagens disparam de todos os lados, banais ou não, as quais, com os gestos, abertos ou encriptados, que as acompanham deixariam o Sr. Norpois terrivelmente frustrado por já não poder controlar o segredo, nem ser mais o canal privilegiado.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

ÍCARO E A VANGUARDA


"Icarus"
http://www.bewsgorvin.co.uk


"Na Rússia, a ideia da profissionalização - a separação entre aquilo que alguém faz como especialista e a sua actividade como ser humano, a divisão entre o métier público e a vida privada, a concepção do homem como um actor que recita ora um papel, ora outro - foi sempre mais fraca do que no Ocidente."

"O Poder das Ideias" (Isaiah Berlin)


O papel extraordinário da "intelligentsia" russa, como uma verdadeira vanguarda, na transformação cultural desse grande país e na sua abertura às novas ideias que culminaram com a Revolução de Outubro, não foi por ninguém melhor observado, tanto quanto sei, do que por Isaiah Berlin.

Num livro dedicado ao poder das ideias que, no caso da Rússia dos séculos XIX e XX, nem sequer eram autóctones, nem os seus apóstolos especialmente coerentes (Berlin cita o exemplo de Turguenev "apaixonado e eficiente" inimigo da servidão, mas que nunca chegou a emancipar os seus servos, ao contrário de Tolstoi), esta vanguarda intelectual é de uma impressionante eficácia.

Mas percebemos como é que a "sublimação" da pulsão religiosa por via da utopia política pôde confundir de forma tão estrondosa os cálculos de Marx.

E não podemos deixar de ver aqui o efeito acelerador da organização, de acordo, aliás, com a visão leninista.

Só que, neste caso, melhor diríamos precipitação, como no mito de Ícaro.


(José Ames)