quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

(José Ames)

A BUROCRACIA



"Se não tivesse sido criada num bom momento, graças a certas circunstâncias históricas, uma burocracia eclesiástica e politicamente eficaz, dificilmente teríamos hoje quaisquer vestígios do cristianismo (...)"

"O Homem Sem Qualidades"
(Robert Musil)



O raciocínio é dum homem de Estado, o conselheiro Tuzzi. Ainda não tinham passado cem anos sobre a apoteose do Estado celebrada por Hegel. E, na verdade, se quisermos encontrar algo que sobreviva aos regimes e às maneiras de pensar, a burocracia é um dos melhores exemplos.

Se não se pode viver, em sociedade, sem um mínimo de segurança contra os perigos internos e os que vêm do exterior, está justificada a perenidade do Estado.

A religião (no sentido lato, incluíndo o ateísmo de Estado), a julgar pelo testemunho da história, é uma necessidade não menos importante do que a segurança.

Mas se os textos, as práticas cultuais e as tradições religiosas não tivessem sido conservados, o que poderia hoje ser o cristianismo? Mais uma civilização simplesmente esquecida, ainda que não tivesse sofrido a repressão que atingiu, por exemplo, os Albigenses.

Os "guardas do arquivo" são, portanto indispensáveis, mesmo se a sua função estivesse desprovida de toda a espiritualidade, o que não seria, de qualquer modo crível. Os Tuzzi acreditam na grandeza do Estado que servem. Aquilo que fazem é aquilo que pensam. É assim que todas as burocracias se perpetuam. O cinismo é naturalmente expulso das suas cabeças e a crítica só pode vir de fora. Não há nada que a Igreja mais tema do que um verdadeiro santo.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Porto (José Ames)

A PERSPECTIVA


Gary Hill (uclavisitingartists.blogspot.co)


"A visão já não é mais a possibilidade de ver, mas a impossibilidade de não ver."

 (Gary Hill, citação de Paul Virilio)



É dessa impossibilidade que a pintura nos quer libertar. Todas as "distorções" se justificam porque estamos a experimentar lentes novas (Proust). Essas lentes permitem-nos abandonar, por momentos, a perspectiva, que, mais do que um conceito sobre a representação do espaço, é uma forma inconsciente de pensar.

Dizia Pasolini que a verdadeira repressão não é impedir de falar, mas obrigar a fazê-lo. Aqui também é evidente que essa obrigação como que nos "esvazia", suprimindo as condições do pensamento.

Embora se possa considerar a impossibilidade de não ver como uma limitação, esse nunca será um tema político, mesmo se parece haver alguma analogia com a situação da Caverna, em Platão.

Poderia ser uma nova percepção reivindicada senão pelo artista que explora os nossos limites?

Pelo contrário, em política, seria como propor que em vez de mudarmos o mundo nos mudássemos a nós... Desde Marx, que isso não parece possível.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

(José Ames)

A DAMA DE FERRO II



Depois de ter visto o filme, pergunto-me se o que ressalta dele é a personalidade de Margareth Thatcher. Se o que nos é dado a ver é, de facto, a mulher que ela foi, a sua carreira política e as  qualidades que pôs ao serviço das suas ideias.

Porque a retrospectiva, a partir da velhice e da doença, só pode diluir a importância dos actos e do carácter da pessoa na grande torrente do destino comum. Poder-se-ia concluir, com o Eclesiastes, que tudo é vaidade, e que antes da líder do partido ter sido abandonada pelos seus correlegionários (com fundadas razões, dados os seus tiques autoritários?), o corpo já começara a traí-la, preparando-lhe a triste glória de sobreviver a si própria.

Há tanto mais razões para achar que o filme, no fundo, desvaloriza a política, quanto a história nos deixa na incapacidade de decidir quais são os verdadeiros motivos que justificam que o seu retrato emparelhe com os de Lloyd George e Churchill no célebre "number ten".

Ora, o mito da "Dama de Ferro" explica muito do sucesso "póstumo" da personagem. Empregando o seu estilo característico, apetece dizer que aquele epíteto corresponde à imagem de alguém que se confrontou com uma cultura política de conciliadores e em que se prezam mais os sentimentos do que as ideias. E isso está, evidentemente, no filme. Mas também ali estão as reacções duma sociedade que não vê na firmeza e na convicção dos seus líderes um valor em si mesmas.

É também verdade que a decadência física e intelectual da antiga primeira-ministra contribui para reforçar uma impressão de sinceridade retrospectiva e de grandeza na forma como lidou com a queda do "pedestal".

Tudo somado, Phyllida Lloyd deu-nos um filme que só pode deixar insatisfeitos tanto os admiradores de Thatcher como os que a odiaram, e isso talvez seja um bom sinal em termos cinematográficos. Contudo, o mérito principal é o de ter proporcionado a Meryl Streep uma interpretação que só pode deixar rendidos todos os partidos.


domingo, 12 de fevereiro de 2012

Angeiras (José Ames)

CORRUPÇÃO E REFORMA

economist.com

"O ensaio de Bodenhorn ("Free Banking as Reform") enfatiza o facto da reforma poder ser o resultado do interesse próprio de políticos concorrentes. Ele analisa um dos primeiros episódios da reforma anti-corrupção na história dos EUA - a luta contra a corrupção na autorização (chartering) dos bancos do Estado de Nova Iorque no final da década de 1830. Boderhorn argumenta que a reforma emergiu do desejo dos conservadores (Whigs) de privar os seus opositores - a regência democrática de Van Buren - das rendas de patrocínio. A desregulação foi a arma preferida contra a corrupção, visto que reduzindo os requisitos da autorização se limitava a capacidade do governo de gerir o seu monopólio duma maneira corrupta."


"Corruption and Reform: Introduction" (Edward L. Glaeser  & Claudia Goldin)



A ideia da justiça é demasiado abstracta para inspirar uma reforma que tem de mobilizar um grande grupo de pessoas.  O despique entre os partidos políticos, pelo contrário, pode ser apaixonante para o grande número. É assim que, no dizer de Hegel, funciona a Ideia, através do que ele chama de "astúcia da razão", que, na verdade, não é diferente da astúcia da Natureza, através dos instintos, para perpetuar as espécies.

Tudo isto, porém, é demasiado decepcionante para os que têm o ideal de mudar o mundo, visto que aparecem como títeres do "destino", das forças, ou do que se quiser chamar. A História inventada, com maiúscula,  é apenas uma outra mecânica que priva o homem da sua liberdade.

O conselho do Olimpo, que se vê a funcionar em Homero, é, no fundo mais verdadeiro no retrato da nossa situação do que qualquer outra teoria inventada até hoje.  É que os deuses, eles próprios, são sujeitos a paixões, pelo que não podem responder por nada do que acontece aos homens. São tempestades em cima e em baixo.

Por isso é que o monoteísmo foi uma bela tentativa para ordenar o caos.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

(José Ames)

TRISTES TRÓPICOS?

Claude Lévi-Strauss


"Chegados a este ponto, não queria que pensassem que isto é um perigo ou que estas diferenças deveriam ser eliminadas. Na realidade, as diferenças são extremamente fecundas. O progresso só se verificou a partir das diferenças. Actualmente, o desafio reside naquilo que poderíamos chamar a supercomunicação – ou seja a tendência para saber exactamente, num determinado ponto do mundo, o que se passa nas restantes partes do Globo. Para que uma cultura seja realmente ela mesma e esteja apta a produzir algo de original, a cultura e os seus membros têm de estar convencidos da sua originalidade e, em certa medida, mesmo da sua superioridade sobre os outros; é somente em condições de subcomunicação que ela pode produzir algo. Hoje em dia estamos ameaçados pela perspectiva de sermos apenas consumidores, indivíduos capazes de consumir seja o que for que venha de qualquer ponto do mundo e de qualquer cultura, mas desprovidos de qualquer grau de originalidade."


"Mito e significado" (Claude Lévi-Strauss)



Não podemos recuar no movimento da mundialização, nem que proliferassem as comunidades Amish e cortássemos voluntariamente as pontes, porque o desenvolvimento da tecnologia vai todo no sentido da integração das diferenças "naturais". E nem as sociedades mais desfasadas do modo de vida ocidental estão imunes à atracção tecnológica. Veja-se como mesmo o extremismo islâmico se serve da técnica como se ela fosse neutra e não o fruto duma cultura e duma maneira de pensar sobre as quais, por outro lado, eles lançam as mais terríveis maldições.

A questão é de saber se a "super-comunicação" de que fala Lévi-Strauss, estiolando a originalidade dos grupos humanos, não compensa esses efeitos nefastos graças, por exemplo, a uma actualização do passado (de todas as épocas e de todos os lugares) com uma difusão e um alcance nunca vistos.

As diferenças não seriam já, então, o resultado acidental da disseminação e do isolamento das culturas, mas a consequência dum aprofundamento "vertical" e da dialéctica entre as várias idades do homem, à escala planetária.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Antas (José Ames)

A DAMA DE FERRO



Começo por dizer que ainda não vi o filme, mas é neste estado que a reflexão me parece mais "livre".

Margareth Thatcher, há muitos anos retirada e sofrendo de Alzheimer, é uma sombra da "Dama de Ferro", nome por que foi conhecida quando esteve à frente do governo conservador da Grã-Bretanha. Foi a sua firmeza de carácter em defesa das ideias polémicas em que acreditava  que lhe valeram aquele título.

Mas a história não deverá ser tão benevolente como os seus inúmeros admiradores ( os do seu tempo e os do filme que inspirou, protagonizado por Meryl Streep), pois que as ideias que defendeu são as mesmas que atolaram o seu país e a Europa pelos caminhos da desregulação e da anarquia capitalista.

Não é nada estranho que muitos dos seus opositores políticos passem a ver a sua figura com outros olhos, depois da sua espécie de mitificação através do cinema. A firmeza e a convicção nunca nos impediram de julgar as personalidades históricas pelo que elas representaram na vida dos povos. Não é a falta dessas qualidades que imputamos aos grandes e aos pequenos cabos de guerra cuja acção levou ao massacre de tantos milhões de vidas. 

Por um lado, a mulher de carne e osso é uma pálida memória e as consequências da sua política, e da de outros como ela, fazem parte duma complexidade inextricável que nos deixa a todos confusos e entregues às intuições psicológicas e às tendências políticas.

Por outro, com a passagem ao cinema, entramos, como agora se diz, noutra narrativa. Podemos, sem pruridos de consciência, admirar a força, o espírito indomável da heroína de mais uma história.

A ironia é que o exemplo dessa personagem pode, hoje, inspirar qualquer acção política numa direcção oposta à que a Thatcher real eventualmente tomaria...

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

(José Ames)

CENTAUROS

Parténon


"(...) não se pode tirar dum tal estado uma convicção; pelo menos sem ter de imediatamente abandoná-lo, como um amante tem de sair do seu amor para o poder descrever."

"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)



E mais à frente, vem isto: "Sem dúvida é justo e natural que se queira saber antes de deixar a palavra ao sentimento."

Era preciso então que nos "apeássemos do cavalo", para o vermos todo, mas, infelizmente, sem cavaleiro.

A imagem do centauro é mais expressiva do que a primeira leitura da mitologia no-lo dá a ver. Não terá sido por acaso que Platão, quando tenta descrever a alma, emprega a figura do cocheiro e dos dois cavalos no "Fedro". Estes representam o desejo do Céu e o desejo da Terra, sendo aquele que os conduz a própria Razão. A natureza compósita e em conflito consigo própria da alma (cada animal puxa para o seu lado) é o que diferencia os homens dos deuses. E esta diferença é a própria vida, visto que o Olimpo não é a vida, mas uma grandiosa projecção nas estrelas.

Mas é verdade que todos podemos, como o amante de que fala Musil, "sair" do amor, seja para o descrever, perdendo-o num sentido, e noutro ganhando-o para uma outra dimensão, seja para "fazer o luto".  E estas opções afiguram-se-me agora como tendo algo em comum, porque ambas perdem o sentimento.

Por outro lado, como todos "entramos e saímos" várias vezes na vida e mesmo em cada dia que passa, é preciso crer que o amor é o melhor exemplo da "ressurreição".

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Pula (José Ames)