domingo, 25 de setembro de 2005

CAMPANHAS

Desde os espectaculares frescos com que a Igreja Católica combateu as ideias da Reforma, a “tradução”, plástica ou não, não tem parado.

Já não são as baladas “engagées” doutros tempos, mas o rock e o puro “music hall” que anima as campanhas.
Hoje, ouvi dum carro de som uma nova letra. Cantavam-se as virtudes dum candidato: porque ele é o mais competente, e porque é sua a transparência ...

sábado, 24 de setembro de 2005

PANIS ET CIRCENSES

"Pollice verso" (Jean-Louis Gérome)





Depois de ver na televisão a inenarrável apoteose popular de uma autarca fugida à justiça, apetece fazer a seguinte pergunta: existirá um instinto popular seguro, que seria o guardião dos valores, e no fim de contas a “voz de Deus”?

E não é essa a justificação última da democracia? 

Não era essa a ideia de Platão, mas ele era um aristocrata que escarnecia de qualquer tipo de sabedoria estatística.

Rousseau teme as paixões colectivas, que obnubilam o juízo, mas confiava num jogo de compensações dos instintos individuais e de grupo.

O que acontece é que hoje se acredita sobretudo no consenso sobre a instância soberana. É a regra sem o que a legitimidade iria nua como o rei da fábula.

Com a sagração popular, os políticos não têm ainda uma ideia de governo. Mesmo quando testam as suas ideias nas eleições, não podem estar certos de que no momento seguinte elas, ou a mesma política, deixem de ter cobertura, como os cheques. O que eles têm é o poder legitimado, até novo acto eleitoral. 

A ideia de que o povo governa, sobretudo quando se perdeu a dimensão da ágora e se desaguou no espaço mediático global, é duma inocência que faz rir.

O povo ocupa aquele trono fantasmático da “Sombra do guerreiro” (Kagemusha), o filme de Kurosawa.

E às vezes perde a cabeça como qualquer mortal, como aconteceu agora na Alemanha, com o país paralisado entre o querer e o não querer.

terça-feira, 20 de setembro de 2005

A ROSETA DA NECESSIDADE

Champollion (1790/1832)


 

Hoje, ouvi o motorista do autocarro mandar trabalhar um velho que o censurava, já no passeio, por não ter aberto a porta quando lho pediram.

Felizmente que esta prepotência não ficou sem resposta, o que se notou nas hesitações da condução. A certa altura, parecia que o monstro de aço, ferido no seu ego, ia tomar o partido do condutor, entrando em “panne”.

Mas o que me interessa neste “fait divers” é a presunção, fundada, certamente, na ética judeo-cristã, de que se ofende alguém acusando-o de não estar a trabalhar. Mesmo neste caso, em que, aparentemente, o idoso já teria dado à sociedade o contributo que se lhe podia pedir, a injúria funciona, pelo menos na cabeça de quem a profere.

Ao mesmo tempo, são tantos os inactivos, forçados ou não, legítimos ou não, que a injunção de “ganhar o pão com o suor do seu rosto” parece já uma legenda a pedir a perícia dum Champollion.

Há todo um debate por fazer à volta das modernas figuras da Necessidade.

segunda-feira, 12 de setembro de 2005

TUDO É POSSÍVEL

Hannah Arendt



 
“As predições do futuro nunca são mais do que projecções dos presentes processos e procedimentos automáticos, quer dizer, de ocorrências que provavelmente acontecerão se os homens não actuarem e se nada de inesperado sobrevier.”

Hannah Arendt (On violence)


Desde a televisão ao telemóvel e à Internet, e desde os espectaculares ataques terroristas, a tsunamis e furacões devastadores, as últimas décadas têm sido férteis em acontecimentos inesperados, e de enormes consequências a todos os níveis.

O futuro do mundo parece não ser menos imprevisível do que o do indivíduo, cuja condição física e social está sujeita à roleta russa das doenças, acidentes e crises de todo o género.

Não tira que se continuem a fazer projecções e a sentenciar, com convicção aparente, sobre o que nos espera se continuarmos na mesma rota, de baixa produtividade, défice orçamental, etc., etc.

Ora, nem os profetas da desgraça, nem os Pangloss do governo que estiver em exercício, podem saber do que falam.

Nós é que temos de saber que TUDO é possível.

sexta-feira, 9 de setembro de 2005

O DIREITO ÀS PERSIANAS

Evgueni Zamiatine





Devo a um dos blogs que mais aprecio o conhecimento de Evgueni Zamiatine (1884/1937), emigrado russo que escreveu em 1920, na aurora duma época que para tantos significava a realização da Utopia, “Nós”, uma distopia que mergulha no mais negro pessimismo.

Percursor de Huxley e Orwell, mas por sua vez influenciado pela ficção de H.G.Wells, Zamiatine extrapolou para o ano 3000 (um salto mais prudente do que o de Orwell, em “1984”), a tendência que julgava já visível na sociedade bolchevique e que, no seu entender, corresponderia, mais do que a uma lei social e política, a uma lei do cosmos (“A história do mais importante”).

O método para nos confrontar com a “alienação” do indivíduo inteiramente submetido ao poder do Estado é o da inversão do sentimento. O polícia que nos causaria horror e revolta, por exemplo, é-nos apresentado na mais natural das missões, inspirada pela benevolência sem limites do poder:

“É muito agradável sentir o olhar vigilante de alguém sobre o nosso ombro, alguém que está ali para evitar que dêmos um mau passo, que façamos disparates. Pode ter o seu quê de sentimental, mas penso sempre na mesma analogia: a dos anjos da guarda com quem os antigos costumavam sonhar. Quantas das coisas com que eles se limitavam a sonhar se materializaram na nossa vida!”
 
Outra intuição luminosa:
O indivíduo, quando “uma alma se forma dentro de si” só pode meter baixa, como dizemos. Se o pensamento é o crime por excelência, resta-lhe adoecer ou fingir que adoece, e opor à razão infalível do “Big Brother” a Criação. A proposição do corpo é uma maneira de invocar Deus. E o médico é Hermes Psicopompo, Condutor de Almas, que estabelece a comunicação entre os dois mundos. É o relé da subversão.

Ainda vou a meio, mas já encontrei coisas deliciosas, como esse “direito às persianas” (num mundo em que tudo se devia fazer diante dos outros), que só podia ser requisitado no “Dia Sexual”, também ele controlado por um cupão.

quinta-feira, 8 de setembro de 2005

OS VALORES DO GINÁSIO

Leptis Magna (Líbia)




“Um cavalo de corrida genial confirma em Ulrich o sentimento de ser um homem sem qualidades.”

Musil


Modernamente, o ser mais parecido com um deus pagão deve ser o jogador de futebol. Se, para além de ser requestado pelos clubes e pela publicidade bancária, tiver uma boa figura, se for escultural, é por todos adulado, desde o dirigente desportivo à revista sentimental, a ponto do pobre Apolo só não perder a cabeça se for, realmente, divino.

Ainda agora, atingido pela morte do pai, um desses ídolos, vencendo a dor natural, entendeu colocar a carreira acima do luto, pelo que, à porfia, se levantou um coro de louvores à sua abnegação e sentido profissional.

São coisas a que nos vamos habituando.

Mas claro que a idolatria é isso mesmo, e felizmente que nenhum Moisés vai descer da montanha por tão pouco.

quarta-feira, 7 de setembro de 2005

A SEGUNDA QUEDA DO REI ÉDIPO

Édipo e a esfinge de Tebas






“(...)Mas também não se deve supor nenhuma malícia, nenhum género de alma inferior, nenhum pensamento separado e como que perdido, enfim, nada do que o espírito preguiçoso reúne sob o nome de inconsciente.”
Alain (Idées)


 
No Nouvel Observateur, volta-se a debater o valor científico da psicanálise e dos seus conceitos maiores, como o do Inconsciente.

Por um lado, e segundo o testemunho do próprio fundador, nenhum dos doentes tratados no famoso divã conheceu a cura (a análise pode ser “interminável”), por outro, nenhum facto ou lei foram provados, de modo a satisfazer os critérios científicos. Popper considera a doutrina, ironicamente, como uma metafísica.

Para recriar os seus próprios mitos, Freud recorre largamente, no sistema, à mitologia grega, a começar pelo maior sucesso do seu revivalismo: Édipo.

Não se pode subestimar o papel da psicanálise como dispensadora de sentido e de racionalidade. Uma disfunção, um problema, ganham em passar a sintoma e, desde logo, a um diagnóstico compreensivo e integrador da personalidade, se bem que falso.

Mas não estamos no mundo físico e dos objectos a que se possa aplicar o rigor matemático.

A conclusão do artigo é que, não sendo uma ciência, a psicanálise não deixa de ser uma espiritualidade, a par do ioga e do tantrismo, pelo que tem o seu lugar mais do que justificado no mundo de hoje.

E embora a tradição dos Sutra ateste duma perene reflexão sobre a sexualidade, de que visão do cosmos se pode reclamar a psicanálise?

terça-feira, 6 de setembro de 2005

CONSIDERAÇÃO INQUIETA





Para Raul Brandão, o Baleal é a mais linda praia portuguesa. Mas neste domingo, ao fim de muitos anos de noite artificial, foi para mim o reencontro emocionante do céu estrelado.

No fim da ilha, por detrás da capela de S. Estêvão, cuja sombra nos protege das luzes mais próximas, enquanto o grito surpreendente das cagarras se faz ouvir nos ares e entre os rochedos, de repente, o luzeiro abissal das constelações.

Lá estava o colar de pérolas da ursa maior e as outras figuras que não soube decifrar, mas que, de qualquer modo, me prenderiam na borda do precipício. As metáforas que acorrem de muito longe no tempo, vindas de textos insignes, recriam o mais belo espectáculo do mundo.

Mas haverá aqui um sujeito diante duma cartografia identificada pelos mitos poéticos ou pela balbuciante astronomia?

É terrível dizê-lo, mas é a impaciência de que fala Musil que nos permite subtrair-nos à força aspirante e irrealizante que os nomes ocultam.

“Podia-se vê-lo sentado numa pedra, esquecido do mundo, mergulhado na contemplação, torturado por essa impaciência frenética. Ele tinha ido até ao fim, tinha acolhido tudo em si e corria o perigo de começar a falar alto na sua solidão, para contar a si próprio tudo outra vez. “ 

"O Homem sem Qualidades" (Robert Musil)

domingo, 4 de setembro de 2005

O RESPEITO DOS PARENTES



 


“Grandes primatas em vias de extinção”, diz o título da notícia. E o secretário-geral da ONU comenta que “são nossos parentes...mas não os tratamos com o respeito que merecem.”

Tal como o mundo vai, se calhar, a pior estratégia para salvar qualquer espécie ameaçada é tratá-la como parente. Porque o semelhante, nos últimos cem anos, foi mais mal tratado pela razão que classifica do que pelos cataclismos naturais.

Por isso não estou certo do que aqueles que contestam Darwin, ainda hoje, não possam ser bons aliados dos primatas, o que nada tem a ver com o respeito.

E será o respeito que salva, na Índia, as vacas do matadouro?

quarta-feira, 31 de agosto de 2005

TELEMÓVEIS AMIGOS DO CÉREBRO




 

Soube-se hoje pelo “Público” que um grupo de especialistas concluiu no “British Journal of Cancer” que, pelo menos num período de 10 anos, o uso de telemóveis não faz aumentar o risco de tumores cerebrais. 

É caso para dizer que se o resultado do estudo fosse outro, os telemóveis não deixariam de proliferar nas nossas vidas, como o fumo activo e passivo ou a assiduidade à televisão, embora se saiba que o tabaco é a primeira causa do cancro do pulmão e que a TV é uma bomba de neutrões no seio das famílias, destruindo a capacidade de atenção das crianças e a conversação dos adultos.

Já repararam no uso e abuso da figura do marginal nos programas de entretenimento? É o “boneco” com mais sucesso, e revela bem que a televisão, por amor das audiências, não é capaz de caricaturar o telespectador típico.

segunda-feira, 29 de agosto de 2005

ABUSO DE LITIGÂNCIA





A propósito do conceito de abuso de litigância judicial aplicado ao caso do dono duma escola de condução de Lisboa apanhado a 224 kms à hora, e ao facto de graças aos sucessivos recursos não só não ter sido ainda punido, mas de continuar a conduzir, penso num caso semelhante passado num certo sindicato, só que, desta vez, não por excesso de velocidade.

O processo é já tão velho quanto os fariseus do Antigo Testamento que utilizavam a letra da lei contra o seu espírito.

Mas é bem verdade que temos de descobrir tudo outra e outra vez, sem o que a sabedoria que se encontra plasmada na própria linguagem e nos seus provérbios não será mais viva do que a aritmética numa calculadora.
E é certo que este conceito (de abuso de litigância) nos ajuda a lidar com esse tipo de malícia que se estriba na lei para atingir os homens, e que, fortalecida por essa posição, fica ao abrigo de qualquer sanção, por maiores que sejam os prejuízos.

É como uma doença depois de identificada. Parece que já é metade da cura poder dar-lhe um nome.

Ao dizê-lo, separamos as águas.

domingo, 28 de agosto de 2005

CREPÚSCULO INTERIOR



 

Apesar dos equívocos a que se tem prestado, nomeadamente aquilo a que se chama o direito à expressão, reivindicado por uma certa contracultura, a ideia de que o ser humano precisa tanto de absorver como de reflectir as suas sensações e experiências, parece uma evidência. Desde que se entenda que o corpo não é uma esponja nem um espelho.

Aquele que se fecha, só o consegue parcialmente, e condena-se a viver em estado pítico, num crepúsculo em que a luz é quase só memória, e em que o mundo se exprime inexoravelmente. Mas é tal a sua natureza que mesmo esse lusco-fusco é habitado pela divisão de si mesmo.

Pela palavra nos possuímos, separados. Mas o regresso da infância (estado do que não fala), só pode ser como tragédia (ao contrário do “mot” de Marx).

Vem-me esta reflexão depois de ter atravessado as terras solares de Castela e Extremadura diante do silêncio.

terça-feira, 23 de agosto de 2005

ÁRVORE





Though leaves are many, the root is one,
Through all the lying days of my youth,
I swayed my leaves and flowers in the sun;
Now I may wither into the truth.

J.B. Yeats

segunda-feira, 22 de agosto de 2005

A SOLUÇÃO MELIANA


Tucídides

 
“Vós sabei-lo como nós, tal como é feito o espírito humano, só se examina o que é justo se a necessidade for igual para ambas as partes, mas se há um forte e um fraco, tudo o que é possível é feito pelo primeiro e aceite pelo segundo.”
(os habitantes da Ilha de Melos aos Atenienses que pretendiam massacrá-los - Tucídides, citado por Simone Weil in “Écrits de Londres”)


Num interessante artigo assinado por Jorge Almeida Fernandes, no “Público”, lê-se, a propósito da situação na Palestina:

“Há uma relação de assimetria. O forte tem a potência e pode arrasar o fraco. O fraco tem a arma da "irresponsabilidade"”
 
Israel tem, pois, o poder e a organização, ou seja, responde pelos seus; os Palestinianos não tem uma coisa nem outra e não podem responder por ninguém, o que impede qualquer negociação.

A violência e o ódio são a consequência deste impasse. O conflito está demasiado internacionalizado e mediatizado, as suas ramificações simbólicas são tão extensas que não é possível ao mais forte usar a solução meliana. 

Falar de potências e de conflitos isolados já não faz sentido. No mundo da comunicação instantânea, a velha pecha apontada aos EEUU de quererem ser os polícias do mundo, significa talvez que se sinta a necessidade duma polícia na “aldeia global”, mas que nenhum país é suficientemente forte para tal.

A retirada de Gaza podia ter sido ditada por essa autoridade supranacional, como passo indispensável para uma pacificação gradual. Mas foi o mais forte dos dois antagonistas que fez esse gesto, sem qualquer compromisso da outra parte.
Ora, é como se Israel tivesse lido no futuro que a sua solidez assenta em areias movediças e que a sua tradição espiritual tem vindo a ser convertida em terras e colonatos.

sexta-feira, 19 de agosto de 2005

A VIOLÊNCIA DA RETÓRICA






“Mas a natureza especifica da retórica (da propaganda, da lisonja, da diplomacia, etc) consiste em corromper essa liberdade (solicitar o sim do Outro)"

Emmanuel Levinas

É possível que algum facto jornalístico ponha de lado a retórica, mesmo quando parece apresentar a realidade nua, como num documentário?

Em primeiro lugar, tenhamos presente que há uma retórica do excesso e uma retórica da pobreza. Entre o barroco (que terá passado hoje para o lado da citação e da conotação inter-media) e a falsa modéstia, a que levava a que se apontasse a um cínico que a vaidade transparecia através dos buracos do seu manto, há todo um largo espectro de formas a que também se pode chamar técnica de comunicação ou marketing.

Quando Esther Mucznik (no “Público” de hoje) diz que a cedência unilateral, em Gaza, ordenada por Ariel Sharon é o reconhecimento por parte deste de que nenhum compromisso é possível com o interlocutor palestiniano (porque seria fatalmente acusado de traição) e um acto tão inteligente quanto inesperado da parte do chefe dos falcões israelitas, que forçará uma saída do impasse com maior repercussão do que quaisquer negociações, sabemos que nenhum radical do outro lado verá aí mais do que propaganda, que pretende negar a evidência dum retumbante triunfo da sua própria luta. Aqui a acção militar fala por si e a retórica está apenas nos que comentam ou interpretam, impedindo-os, porventura, de se aperceberem do que há de novo na situação.

A linguagem está sempre entre nós e o sim do Outro. E o acordo poderá servir-se de andaimes pouco estéticos.