sexta-feira, 29 de setembro de 2017

(José Ames)

CONIVÊNCIA


Martin Heidegger (1889/1976)



"É isso que confere a sua força sugestiva ao desejo de recomeçar com ela (a metafísica) desde o princípio, de questionar radicalmente, de esgaravatar a aparência com a qual a cultura fracassada recobre a sua culpabilidade e a verdade. Mas desde que esta pretensa demolição consentiu em pôr-se à procura de uma camada profunda, intacta, é que ela verdadeiramente se ligou à cultura que ela se vangloria de demolir. Enquanto os fascistas tonitruavam contra o bolchevismo cultural destruidor, Heidegger tornava a destruição respeitável como dispositivo para penetrar o ser. A crítica da cultura e a barbárie não vão sem uma certa conivência."

"Dialectique négative" (Theodor Adorno)

Talvez essa afinidade secreta entre o que parece mais elevado (a crítica em nome do Ser ou da Verdade) e o mais vil, a barbárie que, às vezes, é só o que parece radicalmente diferente, como o eram todos os não-Gregos, explique a vertigem de Heidegger, a sua estranha fascinação por um poder que justamente pretendia criar o novo, a partir de supostas raízes.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017


Varsóvia 

A IMPORTÂNCIA DO CABELO



"O pobre homem, pesado e mole, não conseguia, nesta noite suprema da monarquia, estar de pé até ao fim; dormira uma hora, e acabara de levantar-se. Via-se pelo penteado, liso e desfrisado de um lado. Foi então que se pôde avaliar o perigo dessas modas pérfidas na Revolução. Quem pode estar certo, em tais crises, de ter à mão o valete cabeleireiro?...Assim estava ele, e assim os ineptos o deixaram descer, mostrando-o e passeando-o. Para cúmulo do mau augúrio, estava de roxo, cor que é o luto dos reis; era, aqui, o luto da realeza."

"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)

Nas horas que precedem o 10 de Agosto de 1792 que iniciou o compasso trágico da Revolução e ditou a sorte do rei, este não estava à altura dos acontecimentos.

Mais uma vez, a importância do detalhe, do minúsculo na grande história. É ainda a tese de Pascal e do "nariz de Cleópatra". Este desfrisado da cabeleira de Luís XVI, a balofa figura que ganhava coragem só na religião. Michelet diz, noutro passo: "A conversa tomava uma feição desagradável; toda a gente estava emocionada, excepto talvez o rei, que acabava de deixar o seu confessor, tendo posto a consciência em ordem e não se preocupando muito com o que poderia acontecer."

A fatalidade está na cabeça dos homens apenas. A importância de cada gesto, que nos parece de antemão poder ser delimitada, atribuindo-se a este a força e àquele a pusilanimidade, só seria definitiva se os homens nunca se excedessem e se não fossem, de bom ou de mau grado, arrastados pela onda que cavalgam ou que os submerge.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

(José Ames)

A ACTUALIDADE DOS ESPECTROS

Karl Marx (1818/1883)


"Os homens fazem a sua própria história (ihre eigene Geschichte), mas não a fazem espontaneamente (aus freien Stücken), nem nas condições escolhidas por eles só, mas antes nas condições que encontram, aquelas que lhes foram dadas e transmitidas (überlieferten Umständen). A tradição de todas as gerações mortas (aller toten Geschlechter) pesa (lastet) com uma carga muito pesada sobre o cérebro dos vivos [Marx diz:"lastet wie ein Alp", quer dizer "pesa à maneira de um fantasma", um dos seres espectrais que dão pesadelos (...)]. E mesmo quando parecem ocupados a se transformarem, a eles e às coisas, a criar alguma coisa de completamente novo (noch nicht Dagewesenes zu schaffen), é precisamente nessas épocas de crise revolucionária que eles evocam [conjuram, precisamente, beschwören] temerosamente os espíritos do passado ( beschwören sie ängstlich die Geister der Vergangenheit zu ihrem Dienste herauf ), que eles lhes pedem emprestados (entlehnen) os seus nomes, as suas palavras de ordem (Schlachtparole), os seus trajes, para aparecer na nova cena da história sob esse disfarce respeitável e com a linguagem emprestada (mit dieser erborgten Sprache),"

"Le dix-huit Brumaire de Louis Bonaparte" (Karl Marx, comentado por Jacques Derrida em "Spectres de Marx")

Este dístico, apesar da ruína que atingiu o resto do edifício, tem ainda hoje um ar lavado e actual. E, reflectindo a verdade de uma continuidade entre o passado e o presente (não só sob o aspecto material, mas da própria subjectividade) parece infirmar o próprio conceito de Revolução, o qual, a partir da Revolução Francesa, ganhou o sentido de uma tabula rasa sobre o passado. Mas é o próprio Marx, noutro passo, que reivindica para as revoluções do futuro (depois do século XIX) a libertação dos "espíritos do passado" e do recurso a uma linguagem emprestada, consequentemente, de resto, com a nova fé no materialismo histórico.

Depois havia aquela curiosa necessidade de uma máscara respeitável, como se vigorasse a velha tradição platónica de, em política, não se poder prescindir dos mitos, nem transpor o fosso entre a elite dos que sabem para onde vão e a massa anónima que deve ser "levada", como um animal susceptível de movimentos bruscos e perigosos.

Claro que Marx não se refere naquele trecho a uma hipocrisia implícita dos agentes, mas à sua falta de liberdade. Se tanto a vanguarda quanto a massa pudessem assumir plenamente o que são, com nomes que nunca se viram e um discurso nunca antes ouvido, é provável que ninguém se entendesse.

E talvez que a necessidade de todos os actores falarem a mesma linguagem seja o princípio do descaminho.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Wroclaw 

A DIFICULDADE DO CONCRETO




"Apenas uma teoria sociológica suficientemente complexa 
( e isso significa sempre: abstracta ) permite seguir a pista das relações entre os desenvolvimentos estruturais e semânticos. Para toda a questão relativamente concreta, a teoria precisa de desenvolver uma complexidade adequada. Ora, o caminho que leva ao concreto passa sempre pela abstracção, e mesmo por um grau de abstracção muito inabitual, senão estranho, para as ciências sociais contemporâneas."

"Politique et complexité" (Niklas Luhmann)

O amor da simplicidade quer dizer alguma coisa. Não é por acaso que, no quotidiano, prezamos aquelas pessoas que não gostam de "complicar" e que estão só em si mesmas e não nos tamancos de ninguém, ou a armar a profundidade, como aquela personagem de Eça que, não se sabendo o que pensava, por estar sempre calada, prometia as elucubrações de um vasto intelecto, só pela dimensão do crânio.

A simplicidade pessoal é avessa a toda a teoria, sobretudo, a que possamos ter sobre nós próprios. E, na prática, pouco nos ajudam as teorias sobre os outros, sendo quase sempre mais fiável o instinto ou a intuição.

Não é assim com o mundo dos objectos ou a sociedade como um mundo ou um sistema. Aí, só as teorias nos permitem compreender, e sem isso só podemos "navegar".

Como as teorias com algum sucesso passam rapidamente a preconceitos e se tornam uma espécie de segundo mundo (como diria Popper), só aquelas suficientemente estranhas nos acordam do nosso "sono dogmático".

Mas, voltando ao princípio, poucas pessoas estarão dispostas a conceder que o valor da simplicidade não pode querer dizer a mesma coisa fora da moral.

Em ciência, a simplicidade é a extrema elegância, resultado de uma complexa depuração.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

(José Ames)

A VENDA DA JUSTIÇA

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"(...) do mesmo modo a balança na mão de Zeus, símbolo da Justiça em todo o mundo patriarcal, recorda simplesmente a natureza. A passagem do caos à civilização, em que as condições naturais são mediatizadas pela consciência humana e não exercem por isso directamente o seu poder, em nada modificou o princípio da equivalência. Mais ainda, os homens expiaram justamente esta passagem venerando aquilo a que, como todas as outras criaturas, estavam sujeitos. Outrora, os fetiches eram submetidos à lei da equivalência. A partir de agora é a equivalência que se torna um fetiche. A venda nos olhos da Justiça não significa apenas que não se deve intervir na justiça, mas que a justiça não nasce da liberdade."

"La dialectique de la Raison" (Max Horkheimer e Theodor Adorno)

Na imagem tradicional da Justiça, esta não deve olhar a quê, nem a quem (tudo o que seria um comportamento estúpido, se tivéssemos que tomar uma decisão de que resultassem consequências para nós ou para os outros). Mas essa imagem é de outra maneira que está certa: a balança traduz o ideal da objectividade, em que os crimes e as injustiças pudessem encontrar uma equivalência automática nas penas.

Este ideal só é razoável porque o juiz não pode avaliar o caso humano na sua verdade.

Por isso, é, realmente, como se a Justiça fosse cega por necessidade.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Wroclaw 

COMÉRCIO LIVRE



"Atribui-se a Harry Truman o pedido de um economista maneta, que fosse incapaz de dar um conselho e dizer a seguir: "por outro lado" ("on the other hand").

"The undercover economist" (Tim Harford)

O autor deste ensaio estimulante começa o seu capítulo por aquela anedota para, concordando que nem sempre os economistas estão de acordo entre eles, acrescentar que raros são os que não apoiam, com entusiasmo, o comércio livre.

"Por exemplo, quando o Japão foi forçado pelos EUA a abrir os seus portos ao comércio nos anos 1850, depois de décadas de isolamento, começou a exportar seda e chá para um ávido mercado internacional, em troca de tecidos de lã e algodão que eram baratos internacionalmente mas caros no Japão. Como resultado, o seu rendimento nacional aumentou em dois terços."

Mas há sempre alguma razão em se falar nos malefícios do comércio livre, se adoptarmos o ponto de vista de um grupo especial.

"(...) contrariamente à crença popular, não é simplesmente possível que o comércio destrua todos os nossos postos de trabalho e que nós possamos importar tudo do estrangeiro e exportar nada."

Assim, os grupos prejudicados pelas importações estão, de facto, em concorrência com aqueles que são favorecidos pelas exportações. "Uma política de não às importações é também uma política de não às exportações."

Pode defender-se que o consumidor e o país como um todo saiam beneficiados com o fim dos entraves à liberdade do comércio, sem esquecer que há aqui, ainda assim, uma escolha que não pertence só ao domínio económico, embora a questão se confunda, geralmente, com a do interesse dos vários grupos de pressão, empresariais, sindicais ou burocráticos.

Todavia, a resposta dada, pela adesão e o comportamento de quase todos aos valores do "desenvolvimento" não deixa lugar para dúvidas.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

(José Ames)

O GRÃO DA PELE



"Mulher empoando o pescoço" (Utamaro)


"Eu, dizia-me isso a mim mesmo, porque acreditava que há um conhecimento pelos lábios; dizia-me que ia conhecer o gosto dessa rosa carnal, porque não tinha pensado que ao homem, criatura evidentemente menos rudimentar que o ouriço do mar ou até a baleia, falta no entanto um certo número de órgãos essenciais, e nomeadamente algum que sirva para o beijo. Esse órgão ausente, ele substituiu-o pelos lábios, e através disso talvez chegue a um resultado um pouco mais satisfatório do que se estivesse reduzido a acariciar a bem-amada com um chifre. Mas os lábios, feitos para levar ao palato o sabor daquilo que os tenta têm de contentar-se, sem compreender o seu erro e sem confessarem a sua decepção, com vaguearem à superfície e chocar com a barreira da face impenetrável e desejada."

"Le côté de Guermantes" (Marcel Proust)

Pouca gente subscreveria, suponho, esta teoria do beijo, ainda que noutras culturas ele não tenha a importância que lhe damos.

Proust começa por uma metáfora gastronómica, mais próxima da verdade do desejo, e acaba na do microscópio. Ele diz: "nessa zona desolada, onde não podem encontrar o seu alimento, eles (os lábios) estão sós, o olhar e a seguir o odor abandonaram-nos há muito tempo. Primeiro, à medida que a minha boca começou a aproximar-se das faces que os meus olhares lhe tinham proposto beijar, estes, deslocando-se viram novas faces; o pescoço, visto de perto e como que à lupa, mostrou, nos seus largos grãos, uma robustez que modificou o carácter da figura."

O tacto e o gosto, transferindo-se ambos para o olhar, encontram o objecto não comestível, verdadeiro índice da ausência do desejo.

Mas com a mudança final da figura, e conhecendo as inclinações do romancista, perguntamo-nos se não é precisamente então que o desejo pode ser conjurado.

terça-feira, 19 de setembro de 2017


Alcobaça