quarta-feira, 6 de julho de 2016
O ÚLTIMO PASSEIO NA NEVE
O último passeio na neve de Robert Walser
O estilo de Walser é caótico. Parece que diz tudo o que lhe vem à cabeça, sem nunca perder o fio da meada.
E tudo isto banhado numa inoportuna e desconcertante ternura.
Como diz Musil deste autor:
"(...) não um jogo literário, mas um jogo humano, cheio de agilidade, de devaneios, de liberdade e que oferece toda a riqueza moral desses dias de ociosidade, aparentemente inúteis, em que as nossas convicções mais firmes se desfazem numa agradável indiferença."
É por isso que se pode pensar que esta escrita tenha já o segredo dos longos anos de silêncio que se iam seguir, no asilo de Herisau.
O período crucial que ali passou, desde 1930, até à sua morte, em 1956, coincide com o capítulo mais negro da história europeia. E foi como se este homem, que parecia "não reparar em nada", não tivesse forças para se envolver, nem mesmo com uma atenção distraída.
terça-feira, 28 de junho de 2016
ANTI-ÉDIPO
"Em vinte e cinco séculos atravessaram-se três idades do amor: o prazer, a carne e o sexo."
(Michel Foucault)
E que pode suceder a esta decadência? O prazer é jovem e sem 'complexos', a carne é feita destes, e o prazer deixa de ser inocente. Por fim, o que o 'Anti-Édipo' (Deleuze & Guattari) chamou de 'corpo sem órgãos', a máquina desejante.
Entre as duas 'ausências' do sujeito, a 'carne' sempre culpada de não ser espírito. Podia dizer-se que esta culpa é estrutural na consciência moderna. Sem ela as 'causas' não seriam o que são.
O 'sexo' corresponde, talvez, a um estado real de desestruturação da culpa e ao regime de liberdade da 'mercadoria' (Marx).
Os autores do 'Anti-Édipo' chamam a esta fase paradigmática de 'capitalismo esquizofrénico'. O sistema simula a sua própria revolução 'molecular' e o fim do indivíduo. Ele é o sexo do sexo.
segunda-feira, 27 de junho de 2016
A CRIATURA
Hulk Hogan Finds God. And Joel Osteen
"Normalmente diz-se que o Mal são mentiras, ignorância, ou mortal estupidez. A condição do Mal é muito mais o processo de uma verdade. Só há Mal na medida em que existe um axioma da verdade no ponto do indecidível, um caminho da verdade no ponto do indescernível, uma antecipação do ser para o genérico, e o forçar de uma nomeação no ponto do inomeável."
"Infinite Thought" (Alain Badiou)
Estará já este debate a ser travado no plano do religioso, ao usar da categoria do Mal? O que é que se subtrai quando em vez de Mal falamos de Falso? Não é esta a palavra que se deve contrapor à palavra Verdade? Mas a Verdade pode ser também uma categoria religiosa, como quando Cristo diz: "Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida;(...) Porquanto a Lei foi dada por intermédio de Moisés; mas a graça e a verdade vieram através de Jesus Cristo."
(Bíblia do Rei Jaime Actualizada · João 14:7)
O falso científico não nos permite extrapolações transcendentais. E não faz sentido aplicá-lo à questão do 'inomeável":
"Finalmente, o inomeável é o motivo central do pensamento do político que deseja submeter o Nazismo ao pensamento; como o é do poeta que explora os limites da força da linguagem; como o é para o matemático que procura os indefiníveis de uma estrutura; como o é para a pessoa enamorada atormentada pelo que o amor transporta de inomeável sexual."
(Alain Badiou)
O 'genérico' (ou o universal) da ciência não pode ser científico ao ponto de reclamar o carácter de definitivo e do 'Tudo ficou dito'. Não. A incompletude e o que não se pode saber não marcam apenas o destino do indivíduo, mas a própria espécie que, mesmo fora da perspectiva religiosa, é como se fosse uma 'criatura'.
domingo, 26 de junho de 2016
COMO OS DEUSES
LUCIO CORNELIO TÁCITO
"Principes instar deorum esse." (Os imperadores são como os deuses)
(Tácito)
Este crime foi chamado de 'lesa majestade divina' em lei posterior. Não era crime reparar a estátua do imperador que estivesse arruinada pelo tempo, atingí-la com uma pedra por acaso, fundí-la se não tivesse sido consagrada, usar de meros insultos verbais contra o imperador, faltar ao cumprimento de um voto jurado pelo imperador ou decidir um caso contrariamente à constituição imperial."
in "Expansion of the law of treason under Tiberius" (Wikipedia e Encyclopædia Britannica)
Eram como os deuses, mas não inspiravam um terror sagrado. Era permitido beliscar a imagem do imperador, uma tolerância que faz lembrar a que os Ingleses têm para os que troçam da sua rainha. Mas o império e a própria 'era de Augusto', restringiram tais liberdades.
"Nos primeiros tempos da Antiga Roma, 'perduellio' era o termo para a ofensa capital de alta traição. Estava, sem rodeios, escrito assim na Lei das Doze Tábuas: "A Lei das Doze Tábuas ordena que aquele que provocou um inimigo ou entregou um cidadão ao inimigo deve ser punido com a pena capital."" (Paul Veyne)
Essa insegurança inicial voltou mais tarde a dominar o clima político, já não por causa de uma ameaça do exterior, mas devido à corrupção interna e à falta de crença nas instituições. A loucura atingiu em cheio os herdeiros da 'Gens Julia' e o governo arbitrário tornou-se a norma. A fórmula de Lord Acton talvez tenha sido inspirada pelo exemplo dessa extirpe: 'o poder absoluto corrompe absolutamente.'
Os imperadores deixaram de 'ser como os deuses'. Mas enquanto os Gregos tinham deixado de acreditar nos seus mitos por causa da filosofia e da livre discussão, os Romanos deixaram de acreditar nos seus por que lhes eram demasiado familiares, demasiado (in)humanos. É um exemplo de como as boas convenções dependem de crenças inatacáveis.
sábado, 25 de junho de 2016
QUANDO ELE PASSA AO ATAQUE
Um crime delirante de Fantômas: a vítima, amarrada a uma cadeira, sente fugir-lhe um fio de sangue pelo braço . Uma venda impede-a de perceber que o facínora abriu a torneira de água quente. A via do tratamento pela água para o crime perfeito.
A criminologia do herói de Pierre Souvestre e Marcel Alain é um Kama Sutra. O inspector Jouve, sua antítese fraterna, é o factor velocidade. Por sua causa, o bandido imagina os golpes mais audazes e fulgurantes. Há quase uma contiguidade física entre o criminoso e o justiceiro, este falhando o outro por segundos. Essa é a situação da metamorfose: Mr. Hyde torna-se no Dr. Jekyll, isto é, no mesmo.
Lady Beltham não é uma clandestina, mas uma urna de vidro. Essa figura que se anima pela única vontade de Fantômas é a bela adormecida. Fandor, nome de ressonância eslava, é o comentário do génio. Para não se dissolver na música, a acção trágica cinde-se na fala magistral e no sentimento de assombro. Fantômas é apresentado como uma criatura diabólica, o mesmo é dizer, íntima. Na sua natureza, há um insondável psíquico, organizado como um segredo portador de morte. Fantômas é o resultado triunfante e livre do espírito da ambiguidade.
A máquina do prazer em Sade é um jogo infinito. A morte, como mostrou Barthes, é contrária à economia do castelo-refúgio. Fantômas tem o mundo debaixo da sua sombra. Não é a roleta russa, é a metralhadora. O seu prazer não olha a gastos. E a morte é o último fetiche duma lógica poética que não põe fim à vida, nem se alimenta da nossa angústia.
sexta-feira, 24 de junho de 2016
CLARIVIDÊNCIA
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Higher Clairvoyance
UK Arhatic Yoga Retreat 2016
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"Já não amamos suficientemente a nossa clarividência quando a comunicamos."
(Nietzsche)
Todo o budismo está aqui. Ver 'claramente' sem que a vontade de informação (que é o tratamento da experiência para os outros) perturbe a nossa visão, não é egoísmo, é expansão do ser e mística comunhão.
É, enfim, uma ideia do Oriente contra a qual desenhámos a nossa silhueta. E aí está a 'Noite Antiquíssima' em que o poeta atira ao Oriente uma das folhas do malmequer esquecido, as outras, o resto de si: "(...)
Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,
Ao Oriente pomposo e fanático e quente,
Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,
Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta,
Ao Oriente de tudo o que nós não temos.
De tudo o que nós não somos (...)"
Como todo o programa de Nietzsche sobre o Super-Homem e a vontade do poder parece desmentido por nessa profissão de fé no êxtase da contemplação sem sujeito nem objecto!
E Pessoa ainda:"(...)
um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida."
quinta-feira, 23 de junho de 2016
O MUNDO PODE ESPERAR
Empty Road Wallpapers
"'A acústica do vazio'. Quando um alfinete cai no soalho de um quarto vazio, o ruído parece desproporcionado, desmesurado: acontece o mesmo quando o vazio reina entre os seres."
"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)
Na harmonia entre o fero e a bela, Iago faz o vazio. Uma insinuação sua é aquele alfinete. O veneno que destila no caracol do ouvido. Havia o vazio antes, entre o mouro e Desdémona? De que era feita essa harmonia de contrários? De crença numa bela história, num sonho tornado pesadelo.
Uma história, um enredo são feitos de palavras, e é uma palavra que desencadeia a tragédia. No teatro, isso é por de mais visível. O que é dito não tem retorno e faz avançar a acção. Em Homero diz-se: '- que palavras atravessaram a barreira dos teus dentes?' Antes era um estado de coisas, depois das palavras ditas, é outro. De certo modo, o teatro é uma campânula para as palavras sob protecção do mundo.
O mundo é o que falta aos seres em que 'reina o vazio'. Porque o mundo desfaz o destino entretecido nas palavras e em todas as histórias e mitos. Mesmo aqueles que são necessários à nossa 'fraqueza'.
Houve um tempo em que os monges se afastaram do mundo para a ele voltar, depois de iniciados na missão a que tinham votado as suas vidas. Já era o que Platão esperava dos que vissem o Bem com os seus próprios olhos.
A "acústica do vazio", então, facilmente se torna na 'acústica do cheio', e o mundo pode esperar.
quarta-feira, 22 de junho de 2016
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