segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
O REAL INCANDESCENTE
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| emzazasstock.deviantart.com |
"Ainda bem que, sempre, os objectos que nos aparecem já desapareceram. Ainda bem que nada nos aparece em tempo real, nem sequer as estrelas no céu nocturno. Se a velocidade da luz fosse infinita, todas as estrelas estariam ali simultaneamente e a abóbada do céu seria duma incandescência insuportável."
"O Crime Perfeito" (Jean Baudrillard)
Ao lançarmos a rede do pensamento, "tudo o que vem à rede é peixe", isto é, pensamento, separado do mar da existência.
Não suportaríamos a ausência do tempo (porque é isso que significa a simultaneidade), por isso a ilusão é o que maior força exerce nas nossas vidas.
O "tempo real" da informação tem esse limite. Não resistiríamos a saber tudo ao mesmo tempo. No entanto, que diferença entre o "La Chine m'inquiète" da duquesa de Guermantes, em Proust, e as imagens do nosso desfasamento mediático (ou a entrada nas nossas casas da "Three Gorges").
Conta Platão que as almas, antes de reencarnarem, bebiam a água do Letes. Era essa água que punha os relógios a zero.
domingo, 8 de janeiro de 2012
A INQUISIÇÃO
"A
Inquisição Espanhola não foi uma tentativa arcaica de preservar um mundo
religioso ultrapassado; foi uma instituição modernizante concebida pelos
monarcas para criar a unidade nacional."
"The Case for God" (Karen Armstrong)
Introduzamos aqui a ideia marxista de
que, objectivamente, era esse um dos resultados da Inquisição, assim percebido
por alguns dos monarcas mais astutos, mas que não foi, 'in nuce' concebido para isso.
É até mais do que certo que o
fanatismo com que a perseguição foi executada não podia ser estimulada por uma
ideia política tão abstracta.
Podia também dizer-se que Hitler
utilizou os judeus com o mesmo fim, mas sabemos que não é verdade.
A monstruosidade de certos planos
"racionais" só é eficaz quando a razão perde o seu carácter
universal, isto é, quando o pensamento se fecha para o mundo.
Nessa altura, a Igreja deixou de
ser, legitimamente, católica. Quando se
falava tanto no Inferno, a ideia de o "antecipar" na terra era
natural. O poder exerce-se sempre até ao fim, se não for contido. Como alguns
reis viram que eram servidos, deixaram os torcionários à vontade, ao ponto de
alguns lhes ganharem medo.
sábado, 7 de janeiro de 2012
PALAVRAS COM PODER
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| Martin Heidegger |
Com o termo "unbezüglichkeit",
Heidegger parece querer designar o carácter não relacional da existência
autêntica. Por outras palavras, estaríamos a falar do estado de
"fusão", em que todas as coordenadas se perdem na experiência do Ser.
A palavra, assim traduzida, perde todo
o seu poder teórico e quase se confunde com o nirvana de algumas religiões
indianas.
Tal como uma palavra em grego
transporta o halo daquela civilização que a distingue de qualquer prosaísmo, o
alemão deste filósofo parece querer dizer muito mais do que o que diz,
subtraindo-se ao destino da linguagem corrente.
Talvez sejam necessárias estas
palavras com estatuto. Não há ordem esotérica que as dispense. E nos dias que
passam já nos acostumamos a toda uma classe de técnicos, muito dada a profecias
(refiro-me, claro, aos economistas), vir a público trocar o seu "unbezüglichkeit"
por miúdos.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
A ÚLTIMA VAIDADE
Na última cena de "Providence" (Alain Resnais, 1977),
o velho escritor (John Gielgud) despede-se da família e da vida erguendo a
última taça de vinho. É o momento dum triunfo literário sobre o seu cancro nos
intestinos.
Sabemos, desde o início, que estamos
para lá do "no trespassing"
do Xanadu de "Citizen Kane",
porque aquela é a matéria da sua escrita na qual se "manipula" a
história familiar e tenta extrair das personagens o seu segredo, seja a
rivalidade entre os irmãos ou a infidelidade do mais velho (Dirk Bogard) e a
sua impaciência perante o naufrágio paterno que se arrasta.
O romance torna-se, assim, o exercício
do poder patético dum moribundo sobre os vivos e futuros juízes da sua arte de
iludir a morte.
Aquele final tranquilo nos jardins,
com a família como que descendo do pódio
depois do régio "Let there be no
kisses, nor touch" dum pai entronizado é a sua última vaidade.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
OS ILUMINADOS
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| Robespierre |
"A
virtude esteve sempre em minoria nesta terra."
(Robespierre,
a propósito das tergiversações sobre o processo do rei)
Naquela boca, é, evidentemente, uma
profissão de fé anti-democrática. A minoria devia não só deter o poder, como
sempre aconteceu, mas, igualmente, ter o exclusivo da virtude.
É verdade que a virtude, tanto quanto
a sabedoria, por exemplo, não são apanágio do grande número. Mas a razão por
que a democracia, mesmo assim, deve preferir a "mediocridade" é a
necessidade de se defender de todas as ditaduras, incluída a
"esclarecida", que rapidamente deixa de o ser, mesmo se começou com
um bom motivo.
A longo prazo, as consequências duma
má escolha da maioria são sempre menos prejudiciais do que as do poder sem
controle entregue a uns poucos. Estes, defenderão sempre os seus interesses em
prejuízo da maioria. Esta, se se enganou, rectificará o seu erro na primeira
oportunidade. O melhor regime será, assim, aquele que mais oportunidades criar
de ajustar a política que serve a maioria contra os abusos de uns poucos.
Hitler sabia disso. Depois de ganhar
as eleições, mais ou menos livres, preocupou-se logo de seguida em silenciar as
vozes discordantes, e acabou com todas as oportunidades do povo corrigir o seu
trágico erro.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
A LUA VERMELHA
"Marie—Como
a lua nasce vermelha!
Woyzeck
—Como uma lâmina ensanguentada."
"Woyzeck"
(Georg Büchner)
A cena final da peça de Büchner faz-me
lembrar a atmosfera do "Deserto Vermelho" de Antonioni, filme em que
não se assassina ninguém, mas em que a paisagem industrial e o céu enfumarado,
o baixo contínuo das máquinas conspiram para desertificar as almas, como aqui,
para colocar um punhal nas mãos dum homem.
Há um momento em que toda a iniciativa
como que foi aspirada pela natureza que, depois de fazer balouçar o espírito do
pobre soldado, escreve no céu nocturno as palavras apropriadas ao rapto da
violência.
Woyzeck é um ser sem interior. O seu
monólogo é confuso como as dum actor embriagado que esqueceu as deixas.
A morte de Marie resulta dum encontro
de forças e parece que, aí, o assassino não é tido nem achado.
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
A GREVE DO MONTE SACRO
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| O Senado Romano |
"Se
mostram à fera pedaços de carne ensanguentada colocados perto dela, e em
seguida lhos retiram, até que por fim ela se ponha a rugir: pensais que esse
rugido significa justiça?
(Niezsche;cit.Paul-Augustin d'Orcan)
Michel Rocard pergunta em "Le
Monde" por que deverão pagar os
Estados 600 vezes mais do que os bancos, e propõe que as dívidas mais antigas
sejam pagas ao juro de 0%, como os bancos nos vão pagar a nós terem sido salvos
da bancarrota.
"(...)
Bloomberg mostra que a Reserva Federal emprestou secretamente aos bancos em
dificuldade a soma de 1200 mil milhões à taxa incrivelmente baixa de 0,01%. Ao
mesmo tempo numerosos países sofrem planos de austeridade impostos por governos
aos quais os mercados financeiros não aceitam emprestar alguns milhões a taxas
de juro inferiores a 6, 7 ou 9%!" ("Le
Monde" de 2/1/2012)
Façamos a pergunta de Nietzsche: é
isto justiça?
Aquele 1% da população, contra o qual
se levantou o movimento "Occupy Wall Street", bem pode reclamar a sua libra de carne humana
que nenhum juiz impoluto ou que não esteja à espera da melhor oferta pode
encontrar equidade nestas condições.
Só falta que os 99% despertem do seu
sono fatalista e deixem de confiar nos "especialistas" que pregam em
favor desta divisão do mundo em nome da "economia".
"Asfixiados
por tais taxas de juro, os governos são 'obrigados' a bloquear as pensões de
reforma, os apoios familiares ou os salários dos funcionários e a cortar nos
investimentos, o que aumenta o desemprego e nos fará em pouco tempo cair numa
recessão muito grave." (ibidem)
Os plebeus precisam de outra fábula
que não seja a dos economistas e a das agências de 'rating', ou o truque de Menénio Agripa, no sec. V AC, para os
plebeus voltarem à cidade,
É que, virtualmente, já não estamos na
nossa casa, nem na nossa cidade, nem no nosso país.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
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