
(José Ames)

"Enquanto que a primeira ciência era vista como uma série de provas para o argumento do desígnio, a de Newton era paradigmática. Não só ele tinha visto conexões onde outros viram o caos, encontrado as fórmulas mais elegantes e de maior alcance, juntado o céu e a terra relacionando os seus movimentos. Dum modo mais preciso ainda, Newton tinha mostrado que dada a descrição das condições e propriedades iniciais de todas as suas partes, uma pessoa podia deduzir o estado do sistema do universo em qualquer momento."
"Evil in modern thought" (Susan Neiman)
Como diz a autora, um mundo tão perfeito não precisava de Deus para nada, quando até ali "as pessoas temiam um Deus incompetente, como o de Afonso (o X, que achava que se fosse Deus teria feito melhor), ou um Deus malévolo, como o de Descartes."
Com um mundo entregue a si mesmo e funcionando como um relógio, é a Providência que desaparece de cena. No entanto, Newton, que era um crente fervoroso, apenas pretendeu engrandecer a figura de Deus. Um Deus que só poderia ter criado um mundo perfeito tal como a razão iluminada o poderia compreender.
Como se percebeu depois, a ficção do relojoeiro permitiu aos humanos descobrir engrenagem atrás de engrenagem e acrescentar desmesuradamente o seu poder sobre a natureza mais próxima.
Até que a crise do humanismo e o impasse ambiental vieram alertar para o paradoxo de se considerar o mundo de que fazemos parte como objecto de domínio.

"O filme foi anunciado como um documentário épico, com sentimento, sobre a vida selvagem; contudo, o subtexto subtil mas familiar produziu alguma especulação no público sobre uma agenda política disfarçada. Para a vasta maioria do público, o documentário era mais um filme espectacular sobre a vida selvagem, um episódio de uma recente tendência nos filmes. Para uma audiência muito particular, a retórica da "A marcha dos pinguins" circulou como uma narrativa que naturalizava a agenda política do fundamentalismo cristão.
(…) À superfície, "A marcha dos pinguins" é um olhar sobre a vida e a adaptação dos pinguins imperadores ao agreste e mutável ambiente que os cerca. Ao nível formal, a narrativa do filme, o enquadramento, a selecção de conteúdos e a técnica de montagem encorajam a audiência a ler conexões entre a vida dos pinguins e a dos humanos."
"The Re-visioned American Dream" (Angela J. Aguayo)
Pergunto-me se seria possível um olhar puramente "documental" sobre o que nos parece o drama da adaptação do pinguim imperador. Em primeiro lugar, o drama cinematográfico impõe uma linguagem do movimento que obedece à flecha do tempo, que não é reversível, e a que não podemos deixar de atribuir causas e motivos.
A identificação do comportamento de homens e animais em situações de sobrevivência não parece injustificada. O contrário levar-nos-ia a isolar o homem da natureza (o que é sem dúvida uma corrente actual muito forte).
Se os humanos tivessem que experimentar as condições rigorosíssimas que enfrentam aqueles animais, decerto que toda a nossa civilização não nos impediria, no essencial, de nos parecermos com eles. Nem nos viria à cabeça especular sobre a melhor forma de acasalamento ou de criação da prole.

Em “A queda”, Hitler aparece no declínio da força, quando as célebres explosões de cólera acontecem num teatro cada vez mais confinado ao bunker e quase desligadas do aparelho neuro-místico do regime.
O argumento, baseado nas memórias duma secretária ingénua é psicologicamente credível. E o seu olhar, depois da revelação de toda a verdade, não é o da culpa retrospectiva, mas o da inocência comprometida por uma determinada vontade de não saber. É a primeira história alemã, e não da perspectiva dos juízes de Nuremberga ou de outros juízes, fossem eles os da História. Daí o seu retumbante êxito na Alemanha.
Os tiques provocados pela doença do ditador, a sua cortesia paternal para com o pessoal feminino do bunker e até esse amor misantrópico pelo seu cão parecem recentrar o papel do Führer na tragédia colectiva.
Aqui a imaginação não suporta já o mito e o que vemos é apenas um velho acossado na sua loucura.
Não vemos a queda, o fim duma aventura que se pretendia grandiosa (como viram os Goebbels e outros altos dignitários), vemos a miséria humana e o castigo dos deuses.

"Para Girard (René Girard), a violência que ameaça verdadeiramente uma sociedade de ruína tem a ver não com as diferenças que a atravessam – as quais, tanto quanto estruturam o pensamento, limitam o mecanismo mimético –, mas, pelo contrário, com a indiferenciação, quando já nada põe um freio às identificações. O mesmo é dizer que as sociedades actuais estão ameaçadas."
"Le symptôme identitaire" (Olivier Rey)
Mas se a personalidade parece ser, na nossa civilização, o totem do indivíduo, como diz Lévi-Strauss, como é que funciona o mimetismo gerador de violência?
Não parece antes que o individualismo (chamemos-lhe assim) é o melhor antídoto contra as "agregações perigosas"?
O problema é que a solidão do indivíduo não é real, nem racional (não encontra o universal pelos seus próprios meios). Podíamos falar num governo através das imagens e do pensamento não assumido, que equivale, de facto, a uma indiferenciação.
Os totens individuais não contam grande coisa no novo Olimpo a que preside nenhum Zeus. Se a indiferenciação existe e o mimetismo (competitivo) é sob a forma de um mecanismo indispensável ao "sistema".

"Mas um crime é qualquer coisa para que temos procedimentos – pelo menos quanto à punição, senão para preveni-lo. Dizer isto é dizer que um crime poder ser ordenado, adaptado de alguma maneira ao resto da nossa experiência. Invocar o mal a propósito duma acção é sugerir que ela não pode – e que por isso ameaça a confiança no mundo de que precisamos para nos orientarmos dentro dele."
"Evil in modern thought" (Susan Neiman)
A confiança no mundo é tão fundamental que criámos o conceito de Deus-Pai. Simone Weil diz que Deus não responde com pedras a quem lhe pede pão.
O que é que significa a figura do Pai neste contexto senão que ele é o garante de que não somos indiferentes ao mundo, nem por ele hostilizados, porque o Pai exerce uma vigilância benevolente, a que, também, poderíamos chamar sorte.
Ora a confiança no Pai pode perder-se quando o seu poder de protecção abre brecha e deixa passar os sinais de que, pelo contrário, o mundo parece querer-nos mal, que não somos verdadeiros filhos.
O mal seria assim esse sentimento de abandono e de orfandade.
Depois de Auschwitz, é essa a situação. A confiança no mundo (ou no Homem) perdeu-se, como se perde a confiança na saúde depois de uma doença grave.

"Recusamo-nos a acreditar que os homens da publicidade são no máximo nossos colaboradores, ajudando-nos a criar ilusões para nós próprios. Na nossa indignação moral, no nosso empenho em encontrar os maus da fita que criaram e frustraram as nossas exageradas expectativas, subvalorizámos o efeito do ascenso da publicidade. Pensamos que ele significou um incremento da não-verdade. De facto, significou uma reformulação do nosso conceito de verdade."
"The Image" (Daniel Boorstin)
Alguém poderia ter previsto o efeito dessa continuada "colaboração" entre publicitários e consumidores?
Os desejos que os primeiros "inventam" hão-de ter alguma coisa a ver com o desejo do desejo, com o interesse em merecer a inequívoca solicitude dos segundos.
A publicidade não podia "enganar" tantos por tanto tempo sem o acordo implícito dos que sabem que não é a verdade já que está em causa, mas o mundo das imagens, o mundo das ilusões funcionais.

"Não escreveu, não ditou, as suas palavras faziam a viagem das abelhas sobre as pétalas abertas das orelhas. Salvou uma mulher condenada à lapidação pedindo aos seus acusadores que o primeiro dentre eles, desde que puro de pecados, se chegasse à frente com a primeira pedra. Sabia que os homens atiram com prazer as segundas. Diversas mulheres o seguiram de lugar em lugar juntamente com os apóstolos. Não pediu abstinência, o celibato veio depois, feito pelas igrejas."
"O caroço de azeitona" (Erri De Luca)
Não é a psicologia que explica o efeito maravilhoso daquela excepção: desde que "puro de pecados".
Não é preciso viajar no tempo para encontrar quem, pecador aos olhos do Mestre, impoluto se julgasse. Diz-se que os fariseus eram hipócritas, mas depressa de mais. Porque o cumprimento da letra predispõe, em muitos, à boa consciência. Claro que há aqui uma certa estupidez que, precisamente, não deixa ver o espírito. Mas já é outra ordem de razões.
Se ninguém se apresenta para atirar a primeira pedra, isto é, se todos são sensíveis à verdade e não os tolhe o orgulho, nem a doutrina ou outro empecilho qualquer, é porque isso é exigido pela forma literária.
A parábola tem uma economia que não é da vida, embora exista para ser imitada, e assim é que deve ser.