
(José Ames)

"Há uma leviandade quase grosseira na maneira como, por detrás duma grade de parlatório, uma freira, coberto o rosto com um véu negro, recita em várias línguas a lista das relíquias de que é guardiã. A caveira de Santa Inês, a túnica do Poverello pela própria Santa Clara…"
"Embaixada a Calígula" (Agustina Bessa-Luís)
Agustina fala-nos da sua visita à basílica de Santa Clara, em Assis.
O aparato da mortificação (as grades e o véu negro) é aqui desfeito pela poliglossia. As diferentes línguas, declinadas pela freira, condenam a descrição das relíquias à insignificância impedindo-as de repercutirem no simbólico.
Também, e sem mesmo pensarmos na conotação turística, a leviandade já existe no próprio inventário.

"Mas era visível que nela a necessidade de conservar a amizade deles era cada vez mais dominada pela de que essa amizade não fosse nunca prejudicada por aquela que eles poderiam ter uns pelos outros. A homossexualidade só lhe desagradava na medida em que tocava na ortodoxia. Mas, como a Igreja, ela preferia todos os sacrifícios a uma concessão sobre a ortodoxia."
"La Prisonnière" (Marcel Proust)
O poder "sacerdotal" de Mme Verdurin sobre os seus fiéis das quartas-feiras não podia ser pessoal na forma. Ali, prestava-se o culto a uma certa ideia da inteligência e da sensibilidade artística contra o mundo dos "maçadores" (ennuyeux), isto é, dos outros snobes que fechavam os seus salões a gente como os Verdurin.
Ao nível desta pequena sociedade funcionava o mesmo jogo de demarcação que se verifica entre os partidos políticos. Mas a ortodoxia pode mudar em termos absolutos. O caso Dreyfus ou a wagnermania podem ser objecto duma nova distribuição das adesões e dos anátemas. Quanto ao parlamento, sobretudo naqueles em forma de hemiciclo (Churchill preferia as bancadas dum lado e do outro, como na House of Commons, por ser um passo mais grave e conspícuo atravessar a sala), toda a contradição e toda a mudança é permitida desde que corresponda a um arrastamento do espectro partidário, mantendo-se, nominalmente, as distâncias.
É em termos relativos que não se pode "tocar na ortodoxia".

"Se tudo o que precisássemos fosse um perito para tomar decisões por nós, não precisávamos de democracia – podíamos simplesmente ter um cientista, um advogado ou um economista a decidir por nós. Os funcionários tratavam o conhecimento como um objecto que tivessem em armazém e pudessem depositar nos cérebros esponjosos da cidadania – a 'teoria bancária do conhecimento' (Freire 1970). Em contraste, os activistas queriam ajudar a produzir conhecimento, através da discussão."
"Avoiding politics" (Nina Eliasoph)
O lugar (ou o rendimento) faz o homem. Como detentora do poder, a burocracia (do Estado ou empresarial) tem uma concepção restritiva do envolvimento dos cidadãos, mesmo na democracia americana: "os cidadãos podem pedir informação, mas não podem ser fonte de informação". Discutir a competência oficial e o controle dos critérios de validade está fora de questão, porque isso seria a negação do próprio poder.
Uma diferença notória em relação ao nosso panorama político é que o conceito de activista resulta para nós quase incompreensível. Um activista tem de ser militante dum partido, senão um funcionário desse partido, o que dá o mote para a sua desvalorização, por demasiado "político". Nos EUA, onde a sociedade civil tem, apesar de tudo, outra pujança, a política é igualmente desvalorizada, mas em favor dos interesses pessoais, familiares, etc., os quais, evidentemente, não questionam os princípios nem as políticas.

Numa tarde de verão, dois homens vindos de direcções opostas (um da Bastilha e outro do Jardim das Plantas) sentaram-se no mesmo banco e, tendo tirado ambos o chapéu por causa do calor, deram-se conta de que tinham tido a mesma ideia de escrever o nome no chapéu (- Mon Dieu, oui! On pourrait prendre le mien à mon bureau!) e logo a seguir, que ambos partilhavam a mesma opinião sobre as mulheres (frívolas, azedas e obstinadas, embora algumas fossem melhores do que os homens, e outras piores do que eles, pelo que o mais avisado era viver sem elas), os operários ou aquilo de que se lembrassem. Uma sintonia tão surpreendente deu lugar, como era natural, a uma longa amizade. Acontece que ambos acreditavam no progresso e na ciência e começaram uma aprendizagem enciclopédica que era alimentada pelo prazer de ambos chegarem às mesmas conclusões.
É claro que estou a falar de "Bouvard et Pécuchet" e que esta história de Flaubert pode ser interpretada como uma parábola sobre certo tipo de estupidez, que passará, aos olhos de alguns, por sabedoria.
O que condena estes dois burgueses a essa estupidez, por muito que se esforcem por absorver a mais actualizada informação das revistas científicas e de se entregarem a estapafúrdias experiências para arrancar da natureza o que julgavam os seus segredos, é justamente os dois homens serem quase uma cópia um do outro. O par flaubertiano é como o microcosmos da opinião geral, beata das suas convicções superficiais e da sua força de maioria.
Para provar a esterilidade duma sociedade como essa que segrega a diferença e o confronto das ideias, Flaubert acaba a sua história com os dois amigos copiando a enciclopédia, tais monges da Idade Média no seu scriptorium.

"Quando eu era criança, nenhuma personagem bíblica me parecia mais lastimável que Noé, devido ao dilúvio que o manteve preso na Arca durante 40 dias. Mais tarde era frequente adoecer e também eu tive de permanecer dentro de uma 'Arca' durante dias sem fim. Foi nessa altura que percebi que Noé nunca teria sido capaz de ver o mundo tão bem como da Arca, apesar de esta estar completamente fechada e de ser noite na terra."
Marcel Proust (in "Como Pode Proust Mudar a Sua Vida" de Alain de Botton)
A "Arca" não é, pois, um ponto elevado de observação. E o mundo de que fala Proust não pode ser o dos companheiros de quarentena. É o mundo dos ausentes, que se tornam pensamento e que podemos, enfim, "compreender", isto é, tornar uma criação do nosso espírito, sem lugar para a imprevisibilidade e para o profundamente outro.
Proust na "Arca" vê-se como o Narrador da sua viagem à volta do Passado, e todo o sentido que ele consegue dar à existência das suas personagens depende de ter fechado o Tempo.
Marguerite Duras dizia que o escritor escreve por nada ter já a perder. Proust levou para a sua Arca toda a experiência duma mundanidade que já não queria.
Quando a pomba branca anunciar o fim do dilúvio, estes seres inteligíveis que são os heróis da "Recherche" povoarão a terra.

"Foi desta vez que, de acordo com a história, segurando alguns manuscritos que nunca largou, embora estivesse constantemente a ser alvejado e fosse muitas vezes forçado a manter a cabeça debaixo de água, conseguiu impedir que se molhassem com uma mão, enquanto nadava com a outra."
"Lives" (Plutarco)
Há sempre um palimpsesto nas boas histórias. Aqui é Júlio César que naufraga antes da sua sorte virar e poder vencer o rei egípcio e o seu general, deixando no trono do Egipto Cleópatra prenhe de Cesarion. Mas todos podemos rever a cena familiar de Camões, em Macau, salvando "Os Lusíadas".
Plutarco, de passagem, menciona, nesta altura o incêndio da grande biblioteca de Alexandria. Num aperto, César teve de destruir a frota inimiga pegando-lhe fogo. Infelizmente, este propagou-se à Biblioteca. Embora nunca o referisse (por ficar mal no retrato), é justo admitir que o lamentasse, ele, que tudo fez para salvar um papiro.
Plutarco não o lamenta tanto quanto seria de esperar.

"Este é um livro de boa fé, leitor. Advirto-te desde a entrada que não me propus nenhum outro fim que doméstico e privado; não tive consideração alguma pelo teu serviço, nem pela minha glória: as minhas forças não são capazes dum tal desígnio. Dediquei-o à comodidade particular dos meus parentes e amigos: àqueles que, tendo-me perdido (o que bem cedo farão), possam aí encontrar alguns traços das minhas condições e humores e que por este meio possam nutrir dum modo mais inteiro e mais vivo o conhecimento que tiveram de mim. "
"Essais" (Montaigne)
Assim começa Michel de Montaigne os seus famosos "Ensaios". Os seu parentes e amigos, afinal, somos nós e os que o leram durante este quase meio milénio.
Mas os pensamentos deste homem, "há muito fatigado da servidão da corte e dos empregos públicos" podem dá-lo, realmente, a conhecer?
O seu retiro, aos 38 anos, para o que ele chamava a sua citadela (a torre do castelo familiar), rodeado dos seus 1500 livros, permite-nos hoje deliciar-nos com um espírito livre, igualmente à vontade entre os clássicos greco-latinos e a política do seu tempo (foi conselheiro no Parlamento de Bordeaux), mas a obra é mais um lugar de refúgio do mundo, um tête à tête com a posteridade, do que um retrato do homem.