quarta-feira, 6 de janeiro de 2010


(José Ames)

LEVIANDADE



"Há uma leviandade quase grosseira na maneira como, por detrás duma grade de parlatório, uma freira, coberto o rosto com um véu negro, recita em várias línguas a lista das relíquias de que é guardiã. A caveira de Santa Inês, a túnica do Poverello pela própria Santa Clara…"

"Embaixada a Calígula" (Agustina Bessa-Luís)


Agustina fala-nos da sua visita à basílica de Santa Clara, em Assis.

O aparato da mortificação (as grades e o véu negro) é aqui desfeito pela poliglossia. As diferentes línguas, declinadas pela freira, condenam a descrição das relíquias à insignificância impedindo-as de repercutirem no simbólico.

Também, e sem mesmo pensarmos na conotação turística, a leviandade já existe no próprio inventário.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010


Amsterdam (José Ames)

ORTODOXIA


The House of Commons


"Mas era visível que nela a necessidade de conservar a amizade deles era cada vez mais dominada pela de que essa amizade não fosse nunca prejudicada por aquela que eles poderiam ter uns pelos outros. A homossexualidade só lhe desagradava na medida em que tocava na ortodoxia. Mas, como a Igreja, ela preferia todos os sacrifícios a uma concessão sobre a ortodoxia."

"La Prisonnière" (Marcel Proust)


O poder "sacerdotal" de Mme Verdurin sobre os seus fiéis das quartas-feiras não podia ser pessoal na forma. Ali, prestava-se o culto a uma certa ideia da inteligência e da sensibilidade artística contra o mundo dos "maçadores" (ennuyeux), isto é, dos outros snobes que fechavam os seus salões a gente como os Verdurin.

Ao nível desta pequena sociedade funcionava o mesmo jogo de demarcação que se verifica entre os partidos políticos. Mas a ortodoxia pode mudar em termos absolutos. O caso Dreyfus ou a wagnermania podem ser objecto duma nova distribuição das adesões e dos anátemas. Quanto ao parlamento, sobretudo naqueles em forma de hemiciclo (Churchill preferia as bancadas dum lado e do outro, como na House of Commons, por ser um passo mais grave e conspícuo atravessar a sala), toda a contradição e toda a mudança é permitida desde que corresponda a um arrastamento do espectro partidário, mantendo-se, nominalmente, as distâncias.

É em termos relativos que não se pode "tocar na ortodoxia".

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010


(José Ames)

PARTICIPAÇÃO



"Se tudo o que precisássemos fosse um perito para tomar decisões por nós, não precisávamos de democracia – podíamos simplesmente ter um cientista, um advogado ou um economista a decidir por nós. Os funcionários tratavam o conhecimento como um objecto que tivessem em armazém e pudessem depositar nos cérebros esponjosos da cidadania – a 'teoria bancária do conhecimento' (Freire 1970). Em contraste, os activistas queriam ajudar a produzir conhecimento, através da discussão."

"Avoiding politics" (Nina Eliasoph)


O lugar (ou o rendimento) faz o homem. Como detentora do poder, a burocracia (do Estado ou empresarial) tem uma concepção restritiva do envolvimento dos cidadãos, mesmo na democracia americana: "os cidadãos podem pedir informação, mas não podem ser fonte de informação". Discutir a competência oficial e o controle dos critérios de validade está fora de questão, porque isso seria a negação do próprio poder.

Uma diferença notória em relação ao nosso panorama político é que o conceito de activista resulta para nós quase incompreensível. Um activista tem de ser militante dum partido, senão um funcionário desse partido, o que dá o mote para a sua desvalorização, por demasiado "político". Nos EUA, onde a sociedade civil tem, apesar de tudo, outra pujança, a política é igualmente desvalorizada, mas em favor dos interesses pessoais, familiares, etc., os quais, evidentemente, não questionam os princípios nem as políticas.

domingo, 3 de janeiro de 2010


Matosinhos (José Ames)

OS DOIS COPISTAS



Numa tarde de verão, dois homens vindos de direcções opostas (um da Bastilha e outro do Jardim das Plantas) sentaram-se no mesmo banco e, tendo tirado ambos o chapéu por causa do calor, deram-se conta de que tinham tido a mesma ideia de escrever o nome no chapéu (- Mon Dieu, oui! On pourrait prendre le mien à mon bureau!) e logo a seguir, que ambos partilhavam a mesma opinião sobre as mulheres (frívolas, azedas e obstinadas, embora algumas fossem melhores do que os homens, e outras piores do que eles, pelo que o mais avisado era viver sem elas), os operários ou aquilo de que se lembrassem. Uma sintonia tão surpreendente deu lugar, como era natural, a uma longa amizade. Acontece que ambos acreditavam no progresso e na ciência e começaram uma aprendizagem enciclopédica que era alimentada pelo prazer de ambos chegarem às mesmas conclusões.

É claro que estou a falar de "Bouvard et Pécuchet" e que esta história de Flaubert pode ser interpretada como uma parábola sobre certo tipo de estupidez, que passará, aos olhos de alguns, por sabedoria.

O que condena estes dois burgueses a essa estupidez, por muito que se esforcem por absorver a mais actualizada informação das revistas científicas e de se entregarem a estapafúrdias experiências para arrancar da natureza o que julgavam os seus segredos, é justamente os dois homens serem quase uma cópia um do outro. O par flaubertiano é como o microcosmos da opinião geral, beata das suas convicções superficiais e da sua força de maioria.

Para provar a esterilidade duma sociedade como essa que segrega a diferença e o confronto das ideias, Flaubert acaba a sua história com os dois amigos copiando a enciclopédia, tais monges da Idade Média no seu scriptorium.

sábado, 2 de janeiro de 2010


(José Ames)

A ARCA DE MARCEL



"Quando eu era criança, nenhuma personagem bíblica me parecia mais lastimável que Noé, devido ao dilúvio que o manteve preso na Arca durante 40 dias. Mais tarde era frequente adoecer e também eu tive de permanecer dentro de uma 'Arca' durante dias sem fim. Foi nessa altura que percebi que Noé nunca teria sido capaz de ver o mundo tão bem como da Arca, apesar de esta estar completamente fechada e de ser noite na terra."

Marcel Proust (in "Como Pode Proust Mudar a Sua Vida" de Alain de Botton)


A "Arca" não é, pois, um ponto elevado de observação. E o mundo de que fala Proust não pode ser o dos companheiros de quarentena. É o mundo dos ausentes, que se tornam pensamento e que podemos, enfim, "compreender", isto é, tornar uma criação do nosso espírito, sem lugar para a imprevisibilidade e para o profundamente outro.

Proust na "Arca" vê-se como o Narrador da sua viagem à volta do Passado, e todo o sentido que ele consegue dar à existência das suas personagens depende de ter fechado o Tempo.

Marguerite Duras dizia que o escritor escreve por nada ter já a perder. Proust levou para a sua Arca toda a experiência duma mundanidade que já não queria.

Quando a pomba branca anunciar o fim do dilúvio, estes seres inteligíveis que são os heróis da "Recherche" povoarão a terra.


sexta-feira, 1 de janeiro de 2010


Angra do Heroísmo (José Ames)

DANOS COLATERAIS


"The Great Library of Alexandria." by O. Von Corven


"Foi desta vez que, de acordo com a história, segurando alguns manuscritos que nunca largou, embora estivesse constantemente a ser alvejado e fosse muitas vezes forçado a manter a cabeça debaixo de água, conseguiu impedir que se molhassem com uma mão, enquanto nadava com a outra."

"Lives" (Plutarco)


Há sempre um palimpsesto nas boas histórias. Aqui é Júlio César que naufraga antes da sua sorte virar e poder vencer o rei egípcio e o seu general, deixando no trono do Egipto Cleópatra prenhe de Cesarion. Mas todos podemos rever a cena familiar de Camões, em Macau, salvando "Os Lusíadas".

Plutarco, de passagem, menciona, nesta altura o incêndio da grande biblioteca de Alexandria. Num aperto, César teve de destruir a frota inimiga pegando-lhe fogo. Infelizmente, este propagou-se à Biblioteca. Embora nunca o referisse (por ficar mal no retrato), é justo admitir que o lamentasse, ele, que tudo fez para salvar um papiro.

Plutarco não o lamenta tanto quanto seria de esperar.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009


(José Ames)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009


Gaia (José Ames)

TÊTE À TÊTE


Michel de Montaigne (1533/1592)


"Este é um livro de boa fé, leitor. Advirto-te desde a entrada que não me propus nenhum outro fim que doméstico e privado; não tive consideração alguma pelo teu serviço, nem pela minha glória: as minhas forças não são capazes dum tal desígnio. Dediquei-o à comodidade particular dos meus parentes e amigos: àqueles que, tendo-me perdido (o que bem cedo farão), possam aí encontrar alguns traços das minhas condições e humores e que por este meio possam nutrir dum modo mais inteiro e mais vivo o conhecimento que tiveram de mim. "

"Essais" (Montaigne)


Assim começa Michel de Montaigne os seus famosos "Ensaios". Os seu parentes e amigos, afinal, somos nós e os que o leram durante este quase meio milénio.

Mas os pensamentos deste homem, "há muito fatigado da servidão da corte e dos empregos públicos" podem dá-lo, realmente, a conhecer?

O seu retiro, aos 38 anos, para o que ele chamava a sua citadela (a torre do castelo familiar), rodeado dos seus 1500 livros, permite-nos hoje deliciar-nos com um espírito livre, igualmente à vontade entre os clássicos greco-latinos e a política do seu tempo (foi conselheiro no Parlamento de Bordeaux), mas a obra é mais um lugar de refúgio do mundo, um tête à tête com a posteridade, do que um retrato do homem.