segunda-feira, 31 de março de 2008

O FIM DA PERSPECTIVA


http://www.senia.com/wp-content

"Com a arte moderna, já não há espectador privilegiado, a obra plástica deixa de ter que ser contemplada de um ponto de vista determinado, o observador dinamizou-se, é um ponto de referência móvel. A percepção estática exige de quem olha um percurso, uma deslocação imaginária ou real através da qual a obra é recomposta em função das referências e associações próprias do observador."

"A Era do Vazio" (Gilles Lipovetsky)


Mas não é à situação anterior à descoberta da perspectiva que se volta na pintura.

O sujeito triunfante impõe a partir do Renascimento a sua posição ao quadro. Até ali um anjo no céu podia ser maior do que uma figura do primeiro plano, os episódios da história sagrada podiam suceder-se num espaço múltiplo e sem hierarquia.

Mas a figura humana fosse ela distorcida por uma convenção, como no gótico ou no bizantino, ou obedecesse a um cânone mais realista era o limite da representação.

Este privilégio óptico foi completamente destronado pela fotografia, e é óbvio que ao ultrapassarmos os objectos e a figuração, não podemos conservar a perspectiva.

Não é coincidência se isto ocorre ao mesmo tempo que a psiquiatrização da consciência.


Lisboa (José Ames)

A VIRTUDE DOS OPRIMIDOS


Bertrand Russell (1872/1970)


"A crença na superioridade "espiritual" da mulher era parte integrante da determinação de conservá-la, tanto económica como politicamente, inferior. Quando os homens levaram a pior nessa batalha, tiveram de respeitar a mulher, e, assim, deixaram de oferecer-lhe a "reverencia" como um consolo pela sua inferioridade."

"Ensaios Impopulares" (Bertrand Russell)


Esta ilusão, de antes da mulher ter adquirido o direito de voto, faz parte da crença, sem qualquer base racional, segundo Russell, de que "certas partes da raça humana são melhores ou piores, moralmente, do que outras."

Desde os "homens puros de antanho" de Lao-Tse (referindo-se ao período anterior a Confúncio), aos pobres do Romantismo e aos Gregos quando estavam sob o domínio turco, ou aos Irlandeses, "possuidores de um encanto especial e de penetração mística, até 1921" e às crianças, que passaram de teologicamente más entre os evangélicos a inocentes, ou ao proletariado do século XIX, que essa ilusão tem variado na forma, mas persistido na sua essência.

A leitura cínica que faz o filósofo inglês, segundo a qual a idealização da vítima existe porque é útil para o opressor, não deixa espaço algum para o sentimento de injustiça e para os instintos sociais.

Mas sem eles não se compreenderia o sacrifício de muitos daqueles que lutaram contra tal opressão.

Que a idealização, mesmo para esses, fosse uma "arma" não se poderá negar.

E a razão da falência das grandes causas libertadoras talvez esteja um pouco no trabalho de sapa de algumas teorias como a psicanálise (Russell esperava ainda um Freud para mito do proletariado) que ao descrever o Inconsciente como um palco de forças instintuais, com especial relevo para a sexualidade, derrotou todas as tentativas de encontrar no homem um fundo bom ou mau.

domingo, 30 de março de 2008

PERITOS


http://www.stgmpr.com.au/


"O nome de perito, que encontramos também em campos como o trabalho, a agricultura, o alojamento e a educação, é perito num quadro institucional particular. As organizações que criámos nesses campos cresceram até uma tal complexidade que é, mais ou menos, preciso todo o tempo duma pessoa para os dominar. O perito institucional não é necessariamente uma pessoa que saiba tudo o que é preciso para o habilitar a julgar o valor da instituição, mas frequentemente ele é o único a compreender a sua organização em profundidade e que, por isso, é indispensável. As razões pelas quais ele se tornou interessado numa instituição particular e a aprova tem muitas vezes pouco a ver com quaisquer das suas qualificações como perito."

"The Constitution of Liberty" (F.A. Hayek)


O expert é, assim, uma figura indispensável para tudo quanto à organização de que ele é especialista diz respeito.

Mas, como diz Hayek, não está mais habilitado de que qualquer outra pessoa ( e normalmente estará menos, se o interesse afectar o seu juízo) para julgar do valor da organização e dos fins que serve.

Ora, os técnicos especialistas nas várias áreas são naturalmente chamados a pronunciarem-se sobre aquilo que sabem melhor do que ninguém.

Mas esse é também o melhor método para perpetuar uma escolha errada, com o inconveniente de se deixar de pensar no assunto, ao confundir-se o valor e o conhecimento.


(José Ames)

O PREÂMBULO DA LEI



"Toda a acção legislativa é educação, e a lei o seu instrumento. É assim que Platão chega à exigência (...) de não se formularem só preceitos, mas se induzirem os homens a uma acção correcta, por meio dos preâmbulos às leis."

"Paideia" (Werner Jaeger)


Que ideia é esta a que o filósofo dá o seu verdadeiro âmbito alargando a educação, pela primeira vez, a toda a população e fazendo dela, a paideia, o principal objectivo do Estado, para além da segurança?

A noção de que era possível atingir a justiça pela formação dos mais eminentes cidadãos que, como pastores, conduziriam o povo recebe aqui o seu mais claro desmentido.

A filosofia e a acção esclarecida continuam a ser exigidas dos governantes, mas estes não serão compreendidos, nem obedecidos se os princípios básicos da educação não forem transmitidos a todos os cidadãos.

Através da explicação contida nos preâmbulos, que ultrapassavam muitas vezes em extensão o corpo da lei, o Platão da velhice já não parece pensar que a linguagem dos mitos deve ser privilegiada, mas que é à razão, presente até no pequeno escravo do Menon, que o apelo deve ser feito.

Em tudo isto se desenha, sem possibilidade de erro, a diferença entre a sociedade natural e a sociedade política, orientada por um princípio superior.

A justiça só pode ser esse princípio se a cultura o conserva como ideal, erguido, como a serpente de Moisés.

quinta-feira, 27 de março de 2008


Porto (José Ames)

NARCISISMO


http://motspourmaux.perso.cegetel.net

"O indivíduo, encerrado no seu ghetto de mensagens, enfrenta doravante a sua condição mortal sem qualquer apoio "transcendente" (político, moral ou religioso). "O que verdadeiramente revolta contra a dor não é a dor em si, mas o sem-sentido da dor", dizia Nietzsche: passa-se com a morte e com a idade o mesmo que com a dor; é o seu sem-sentido contemporâneo que lhes exacerba o horror."

"A Era do Vazio" (Gilles Lipovetsky)


O sentido que hoje falta à dor e à morte é "anti-darwiniano". É uma fraqueza por que teríamos de pagar em termos de evolução, quando nos comparamos com culturas mais ricas de sentido.

Mas talvez que essa destruição de sentido e de perda de importância dos "valores superiores" seja compensada por um controlo social mais eficaz através da psicologização e daquilo a que o autor chama de narcisismo.

O sentido que a consciência e a afectividade reclamam podia ser então substituído pelo alfa e o ômega do indivíduo.

Ao mesmo tempo que se atinge o zero social, tudo o que atinge o narcisista recebe o pleno do sentido.

Neste ocaso do humanismo encontraremos na energia do cosmos as novas metáforas?

RICOCHETES



"NO - No fundo, e para você, o que é que pensar quer dizer?

S. Kakar - É pela paixão que se reconhece o pensamento. Pensar não é somente uma actividade do cérebro, mas também do estômago e do coração. Um pensamento original é uma conversação entre os três."


(Entrevista de Sudhir Kakar ao "Nouvel Observateur")


Pensamentos biliosos, pensamentos de estômago, ideias do coração. Tudo metáforas que exprimem, desde Platão, a unidade viva do que somos.

Será que o mais "puro" dos intelectuais pode pensar só com o cérebro?

É esta raiz corporal do pensamento que o designa como característico de uma pessoa.

Mas nem por sombras isso dá conta da objectividade das ideias e até da opinião.

Podemos ser tão superficiais, envolvendo-nos tão pouco naquilo que dizemos que a opinião, a moda no dizer, apenas fazem ricochete em nós. Não lhes acrescentamos nada, e por isso não se pode chamar a isso pensamento.

Às vezes somos esse ponto de ricochete e outras somos papagaios repetindo sem pensar o que ouvimos ou lemos.

É por isso que pensar verdadeiramente é algo de dinâmico como a conversa que se trava dentro de nós entre as três figuras de que fala Kakar.

Mas há um mundo das ideias, do espírito objectivo que, por exemplo, pode ser representado pela Ciência.

E talvez a Ciência não tivesse chegado onde chegou, se fosse realmente pensada, em vez de simplesmente desenvolvida numa lógica separada e unilateral.


(José Ames)

INTERMITÊNCIAS DO CORAÇÃO


O rio Letes


"Porque às perturbações da memória estão ligadas as intermitências do coração. É sem dúvida a existência do nosso corpo, semelhante para nós a um vaso onde a nossa espiritualidade estivesse encerrada, que nos induz a supor que todos os nossos bens interiores, as nossas alegrias passadas, todas as nossas dores estão perpetuamente em nossa possessão. Talvez seja inexacto crer que elas nos escapam ou nos voltam. Em todo o caso, se elas permanecem em nós, é a maior parte do tempo num domínio desconhecido onde não são de qualquer utilidade para nós, e onde mesmo as mais habituais são recalcadas por recordações de ordem diferente e que excluem toda a simultaneidade com as da consciência."

"Sodome et Gomorrhe" (Marcel Proust)


Estas reflexões são motivadas por esse outro encontro com o passado vivo (como o episódio mais conhecido da madalena ou o da laje desnivelada que o faz pensar em Veneza), quando o narrador, ao baixar-se para desapertar o primeiro botão da bota, o seu peito "se encheu de uma presença desconhecida, divina, os soluços o sacudiram, as lágrimas correram dos seus olhos". A ausência da avó atingia-o agora, realmente, apesar de já ter passado um ano sobre a sua morte.

Aquela imagem do espírito no vaso evoca em nós, imediatamente, o maravilhoso dos contos árabes e traduz, com toda a justeza, o milagre que é, contra os hábitos, o entorpecimento e todos os filtros do Letes, a ressurreição do passado. Não como algo de exterior, como espectáculo do que fomos, conservando-nos nós na galeria, certamente com um sorriso irónico e enternecido nos lábios, mas como se voltássemos à inocência da situação original.

A obra de Proust é a mais conseguida parábola da literatura sobre o Eterno Retorno.

quarta-feira, 26 de março de 2008

FÓSSEIS DO INVIÁVEL


Raymond Queneau (1903/1976)


"Não tenho qualquer respeito, nem consideração especial pelo popular, o devir, a "vida", etc. Mas precisamente como não vejo nada de realmente sagrado no nosso francês contemporâneo, não vejo já qualquer razão para não elevar a linguagem popular à dignidade da linguagem escrita, e fonte duma nova literatura, duma nova poesia. E a reforma da ortografia, ou antes a adopção duma ortografia fonética, impõe-se, porque ela tornará manifesto o essencial: a preeminência do oral sobre o escrito. Trata-se, pois, não de reforma, mas de criação."

"Bâtons, Chiffres et Lettres" (Raymond Queneau)


Vem a calhar, face ao acordo ortográfico que tantos escudos tem levantado por parte dos que melhor conhecem a língua escrita, figuras proeminentes da nossa cultura, enfim, mas que foi soberanamente ignorado pela massa. Talvez por que esta não espere escrever muito, nem ler por aí além.

A língua de todos os dias vai continuar a ser falada e a renovar-se, sem querer saber de brasileirismos impostos, porém, aceitando de bom grado os que as telenovelas da Globo popularizam.

Se existe, ou devia existir, a preeminência do oral sobre o escrito de que fala Queneau, então qualquer tentativa de uniformizar as práticas e o uso da língua parte dum grande equívoco.

E este acordo, longe de submeter uma idiossincrasia a outra, rapidamente fará parte dos fósseis das criaturas inviáveis.


Porto (José Ames)

SABER OU NÃO SABER


Nonika Galinea (Jocasta) & Atendants

"Uma série de incitações me veio do complexo de Édipo, do qual reconheci pouco a pouco a ubiquidade. A escolha, mesmo a criação do tema sinistro, sempre parecia ter sido um enigma, tal como a sua acção dilacerante sobre os espectadores do drama antigo tirado dele, assim como a essência da tragédia do destino em geral: tudo isso se explicava compreendendo que uma lei da vida psíquica tinha sido apreendida na sua plena importância afectiva. A fatalidade e o oráculo não eram mais do que a materialização da necessidade interna; o facto de que o herói pecava sem o saber e contra a sua intenção constituía a justa expressão da natureza inconsciente das suas aspirações criminosas."

"Ma vie et la Psychanalyse" (Sigmund Freud)


Ninguém fez mais por esta segunda vida dos mitos clássicos do que o criador da psicanálise.

Como diz Sudhir Kakar, os heróis do Mahabharata estão muito mais presentes, ainda hoje, na cultura dos indianos do que os heróis de Homero na nossa. Estes estão connosco como uma ou outra coluna do templo pagão se encontra prisioneira na nave cristã.

E claro que Édipo, no caso de Freud, é um sinal de quase desforra do paganismo.

Através do mito, são as caves da alma que o espeleólogo analista explora sem medo de encontrar a mais remota imagem de Deus.

Mas o preconceito religioso, como não podia deixar de ser, foi substituído por uma espécie de força oculta que é essa necessidade interna resultante do conflito entre o desejo e a Lei, reflectida na consciência e na vontade.

E o que Freud nos diz é que Jocasta teria sido desejada ( e esse desejo, evidentemente, censurado), mesmo se Édipo soubesse quem era. Se se impugnar essa premissa, o complexo cai pela base.

terça-feira, 25 de março de 2008

PRETA DE NEVE


Andy Warhol (1928/1987)


"Basta vermos certos filmes "experimentais" para disso nos convencermos: sem dúvida, sai-se do circuito comercial e da narração-representação, mas para cair na descontinuidade pela descontinuidade, no extremismo dos planos-sequência em que tudo fica imóvel, na experimentação não como pesquisa mas como procedimento. J.-M.Straub filma a perder de vista a mesma estrada monótona, A. Warhol filmara já um homem a dormir durante seis horas e meia e o Empire State Building durante oito horas, sendo a duração do filme a do tempo real."

"A Era do Vazio" (Gilles Lipovetsky)


Isto para dizer que a vanguarda morreu, ou mudou de lugar, que a revolução permanente já não se encontra na arte, mas na cultura de massa, em que "há mais experimentação, surpresa, audácia no walkman, nos jogos de vídeo, no surf, nos filmes comerciais para o grande público do que em todos os filmes de vanguarda."

A "Branca de Neve" de César Monteiro foi, entre nós, a confissão desse esgotamento.

A situação é a de um derrube de hierarquias em que tudo pode ser citado e reapropriado, como se a novidade tivesse perdido para sempre a sua inocência.

Einstein definia o génio como o talento de esconder as próprias fontes. A arte pós-moderna, pelo contrário, parece apostada em não esconder nada, numa auto-desmistificação em que o fundo e a superfície alternam como num anúncio de néon.

E é como se o inconsciente não tivesse mais álibis.