sexta-feira, 11 de maio de 2007

A PROPORÇÃO


"A Greve" de Serguei Eisenstein


A questão do sentido das proporções põe-se, aqui e agora, a propósito de uma greve geral.

Se essa greve não é, assumidamente, pré-revolucionária, nem visa salvar a democracia, opondo-se, por exemplo, a um golpe de estado, justificar-se-á então como um simples aviso aos poderes?

Ora, o ponto sensível é este. Avisa-se o governo de que não pode continuar com uma política lesiva dos direitos e dos interesses dos trabalhadores.

Mas pode-se pôr de lado a questão de saber se são necessárias reformas, implicando sacrifícios para a maioria da população, e se essa política vai ou não em tal sentido, antes de se decidir como defender aqueles interesses?

Recusar todo o tipo de reformas na base do que se chama, imediatamente, um ataque aos trabalhadores e de todos os sacrifícios só porque são exigidos "sempre aos mesmos", pode não ser uma política sindical com muito futuro, mesmo se é fiel a um passado que se revê numa tradição corporatista.

A greve geral, nestas circunstâncias, decretada fora de um perigo iminente e sem que se veja, dentro do regime político-económico em que vivemos, qualquer alternativa, é o corporatismo alçado a princípio político.

Fica em aberto uma apreciação de outro tipo e que é sobre o papel objectivo de uma greve geral numa sociologia de massas.

Parece-me que a descredibilização geral da política e a improvável permeabilidade de uma sociedade consumista a qualquer discurso de austeridade, são, eventualmente, geradoras de uma energia explosiva que, noutros países europeus, não pode já ser canalizada por "greves de aviso".

Por isso, em Portugal, o efeito de amortecimento e de controle da violência pode bem valer os custos de uma greve geral. Mas é sempre pensar a curto prazo.


(José Ames)

PRAGMATISMO E PARANÓIA



"A desmoralização resulta da preponderância das circunstâncias sobre os princípios. Quem considera a desmoralização como o maior dos males não deve deixar de examinar o contrário, pois quando os princípios são mais fortes que as circunstâncias - como sucede em comunidades ascéticas, em subculturas jacobinas e em sistemas totalitários -, o princípio impõe a sua encarnação à custa de todo o resto da vida."

"A Mobilização Infinita" (Peter Sloterdijk)


O autor insere no cerne da falta de credibilidade política a "regra fundamental do pragmatismo, que diz que a gestão de um problema tem de ser considerada, até nova ordem, como a respectiva solução." (ibidem)

O político estaria, assim, entre dois fogos, a desmoralização e a paranóia.

Contudo, não me parece justo confundir um princípio com uma regra que se tenha de impor em todas as circunstâncias.

A regra monástica, por exemplo, funciona porque reduz as circunstâncias ao eremitério, mas um princípio é como uma estrela guiando-nos no mundo aberto.

No caso dos jacobinos, o fechamento, através da suspeita mútua e de uma interpretação paranóica dos acontecimentos, estava nas suas precárias cabeças.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

DO ALTO DA PIRÂMIDE



Quando voltamos, depois de algumas décadas de ausência, a encontrar os amigos e aqueles que foram durante um tempo companheiros de um exílio do mundo, nalgum quartel africano, todos somos como Marcel, o narrador de "Le Temps Retrouvé", regressado de uma longa convalescença para reconhecer, nos antigos salões, sob as máscaras do tempo, o jovem perfil deste e daquele.

E o sentimento que a todos se impõe, mais do que a alegria do reencontro ou até a inescapável nostalgia, as quais, decerto, vêm na sua euforia ou timidez marcar presença, é o de que todas as diferenças físicas e psicológicas e as de temperamento, a própria polaridade das simpatias espontâneas e das inexplicáveis antipatias, tudo se esbate, tudo perdeu o relevo que tinha antes, face a uma nova igualdade, a uma espécie de solidariedade trágica, que é a consequência de nos vermos uns aos outros do alto da pirâmide do tempo como um punhado de resistentes que cercam as areias do deserto.


Arrábida (José Ames)

A RAZÃO A GALOPE


Paul Valéry (1871/1945)

"A emoção é a fonte; digo a emoção e não a paixão. Não é inútil dizer que as paixões são muito razoáveis, e falam a linguagem do pretório; eis por que eu digo que toda a poesia é selvagem, e, neste poeta, talvez a mais selvagem que já se leu. Creio que o primeiro trabalho do poeta, na sua primeira e principal recusa, é voltar da paixão à emoção pura. E a emoção pura é um estranho delírio; porque tudo sobe então dos calcanhares, como um pavor ou uma cólera:

O formidablement gravie,
Et sur d' effrayants échelons..."

("Charmes" de Paul Valéry, commentés par Alain)

Parece que hoje se abandonou o estudo das paixões, pelo estranho preconceito que as confunde com a emoção ou com a maquinaria do inconsciente.

Mas o filósofo vem, com toda a pertinência, lembrar que é só quando a razão nos abastece de uma aparência de argumento que a paixão surge e ganha todo o seu ímpeto.

E há palavras-cofre, como alguém já disse, que dispensam que o argumento se desenrosque do seu fundo, bastando-lhe mostrar a cabeça de serpente, para nos lançar numa defesa ou num ataque apaixonados, e desferindo a "linguagem do pretório". Justiça é uma dessas palavras.

O trabalho do poeta é o de uma espécie de electrólise, para separar os elementos. Fazer soar a "recôndita harmonia" que nos atravessa como a uma harpa.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

MÃOS LIVRES



"(...) não pode de modo algum roubar o patrão: a escravidão, que economicamente nada significa, tem em direito um notável significado: um simples subordinado, se é escravo, pode ser torturado e punido pelo patrão e era por isso que um patrão não podia denunciar o seu escravo (nem porventura o seu assalariado); fazia justiça por suas mãos."

"A sociedade romana" (Paul Veyne)


Escusado será dizer que nesta situação não havia acumulação de serviço, nem processos atrasados...

Este poder das "mãos livres", detido pelo dominus, era realmente expedito.

E é talvez o fantasma por detrás daquele discurso anti-estado sobre a máxima eficácia, característico da moderna reencarnação do dominus em tantíssimas empresas, onde o assalariado (mercennarius) se quer sem sindicato e, se possível, sem contrato.


(José Ames)

A PERSPECTIVA INVISÍVEL


"Medusa" (Caravaggio)

Por que não imitavam os pintores anteriores ao Quattrocento aquilo que viam?

Os Romanos, por exemplo, tinham belos mosaicos geométricos no interior das suas casas e não podiam ver os losangos dos desenhos no chão do seu atrium senão com as diferenças de escala conforme a distância e o ponto de vista com que nós hoje vemos as suas ruínas.

Não estranhamos, contudo, nos primitivos italianos que a proporção não seja respeitada entre as figuras de um quadro.

Explicamo-lo com uma palavra: esses pintores não conheciam ainda a perspectiva. O ponto de fuga que submetia a cena a um só espaço.

Mas, como tudo o que se tem por adquirido, essa resposta é uma espécie de cabeça de Medusa à entrada do verdadeiro segredo.

Por isso, o que é que copiavam esses pintores que olhavam para a perspectiva, mas não a viam?

Uma hierarquia.

terça-feira, 8 de maio de 2007

A INVENÇÃO DA MELODIA


Laila Peak

"Ninguém ainda o explicou, como também ninguém explicou aquilo que Lévi-Strauss chama de mistério supremo de todo o conhecimento humano: "a invenção da melodia". É uma das frases mais importantes para mim. Deleito-me com a inconsequência dos esforços apaixonados para alguém se aproximar dessa explicação. E aí está a maravilha. Os alpinistas falam da tristeza pós-coital que se experimenta no cume de um pico ainda não conquistado, mas ninguém chega ao cume da ontologia da estética, da questão do sentido do sentido ou da questão da origem da linguagem."

George Steiner ("Entretien avec Ronald A. Sharp")


Está aqui implícita a ideia de que a música é uma espécie de conhecimento, ou da arte total como a entendiam os Gregos, porque, enfim, se ela era, com a poesia, um dos pilares da educação, era porque a informação e a competência técnica, que são os deuses do nosso tempo, nunca estariam à altura da "paidéia", daquilo que o homem tem de sentir e conhecer para ser parte do cosmos.

A harmonia com a natureza, de que o homem não se tinha separado ainda, é expressa da melhor maneira possível pela "melodia".

Mas foram decerto os próprios Gregos, com o seu génio inquisitivo, a preparar o desenvolvimento duma natureza a estudar, como objecto de conquista.


Chiado (José Ames)

AS LINHAS TORTAS DA ESTUPIDEZ


Adam Smith (1723/1790)

"Como, pelo contrário, no âmbito mais estreito, os homens se tornam estúpidos onde justamente começa o seu interesse e, em seguida, dirigem o seu ressentimento contra o que não querem entender, porque receiam entendê-lo demasiado bem, a estupidez planetária, impedida pelo mundo presente de ver o absurdo da sua própria instituição, continua ainda a ser o produto do interesse não sublimado nem superado dos dominadores. A curto prazo, e de forma irresistível, o interesse ir-se-á fossilizando num esquema anónimo do curso da história."

"Minima Moralia" (Theodor Adorno)


Então, a estupidez, e não o bom-senso, seria a coisa mais bem distribuída entre os humanos. E o melhor modo das "forças", quer elas representem a Natureza, quer um sistema, se fazerem obedecer sem violência.

Podíamos aproximar esse tipo de tutela providencial da teoria da Mão Invisível que Adam Smith aplicava ao mercado. Da estupidez organizada (o jogo dos interesses), resultaria uma inteligência objectiva (o quer que isso seja), de tipo homeostático.

E é por isso que não existe um sujeito da história, mas o anonimato que infringe um teatro de impostores .

segunda-feira, 7 de maio de 2007

O CORPO EM PEDAÇOS


Osíris, Ísis e Neftis

"A um e outro lado do Atlântico, nasceu uma indústria da consciência holística, que vive de plagiatos metafísicos. O que também se pode dizer de uma maneira mais amável; são incontáveis os contemporâneos que citam espontaneamente fontes dos começos da metafísica para articular aspectos do seu actual sentimento do mundo. Acham que têm de saltar por cima de milénios, se quiserem encontrar respostas que correspondam às suas perguntas."

"A Mobilização Infinita" (Peter Sloterdijk)


Não há dúvida de que os progressos da ciência e das suas aplicações técnicas, com o redimensionamento do tempo e do espaço, criaram a urgência de uma consciência da totalidade, pelo menos onde a ideia de Deus deixou de ter condições para se impor.

Por isso não é de admirar que se recorra ao arcaísmo metafísico do tempo anterior à "mobilização infinita" do Ocidente, quando tudo se podia pensar a uma escala humana, na perfeita imobilidade.

A explosão que se verificou depois deu lugar ao homem fragmentado, disperso como o corpo de Osíris.

É o reconhecimento desse corpo, a sua piedosa reconstituição que está por detrás deste fantasma da totalidade.

"Desde que aquilo que nos é mais alheio já não nos é mais estranho do que o antigo que nos é próprio, passa a ser manifesto a que ponto o nosso caminhar para o sem precedentes tornou disponíveis todas as reservas naturais e culturais do mundo antigo." (ibidem)


(José Ames)

UMA CONFERÊNCIA


Peter Sloterdijk


Na quinta-feira passada, pude assistir, em Serralves, à conferência de Peter Sloterdijk.

Depois de meia hora de espera, devido a problemas com a tradução simultânea (que continuaram a ditar o ritmo da sessão), o filósofo leu, para um anfiteatro repleto, as suas arriscadas conjecturas sobre o contemporâneo.

Muitas das ideias expostas fazem parte do seu livro "A Mobilização Infinita". Tirando as perguntas do moderador, não se levantaram, propriamente, quaisquer questões.

Mais do que a tirania do tempo (a somar aos atrasos), a originalidade do discurso deu à sessão o cunho de um espectáculo, com a palavra só de um dos lados da sala.

"Como, para a maioria das pessoas, é aborrecido ou avassalador lidar com o que é eminente, em regra não se chega à discussão, antes se fica pelas aversões ou pelas submissões." (Sloterdijk, "A Mobilização Infinita")

Vimos um alemão excêntrico atravessar o palco com as suas folhas e sentar-se no outro extremo, sem poder, nem com um ou outro apontamento humorístico, sacudir a aparente credulidade da sala.

E confesso que me chocou um pouco quando, respondendo à questão de saber se se considerava um pessimista, Peter Sloterdijk respondeu que não se podia dar a esse luxo.

Se compreendo que o verdadeiro pessimismo poderia levar ao fim de toda a tentativa de comunicação e que não haveria sequer lugar para o "pathos" da verdade ou da competência magistral, por outro lado, fica-se com a impressão de alguma inconsequência intelectual.