domingo, 19 de novembro de 2006

AS RUGAS DA LEI


Jean-Jacques Rousseau (1712/1778)

"É por esta razão que as leis, longe de enfraquecerem, adquirem sempre nova força num Estado bem constituído: a antiguidade de dia para dia as torna mais respeitadas; quando vão sendo esquecidas à medida que envelhecem, isto apenas prova que já não existe o poder legislativo e que o Estado morreu."

"O Contrato Social" (Jean-Jacques Rousseau)


Estamos a viver demasiado depressa para as leis não envelhecerem antes de terem tempo de granjear o respeito que é devido à longevidade.

Rousseau, que não tinha ainda visto uma lei menos má ser substituída por outra, às vezes, muito pior, só porque mudou o partido que está no poder, imaginava uma racionalidade no Estado que hoje não existe.

A mudança permanente arrasta o esquecimento, que não chega a ser um juízo sobre o passado.

terça-feira, 14 de novembro de 2006

Tomar (José Ames)


quinta-feira, 9 de novembro de 2006

TEIAS


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Muitos dos que escrevem em blogues tiveram que vencer um preconceito contra a efemeridade e a falta de títulos de glória deste tipo de escrita.

Esses, trocaram o "escrever para a gaveta" ( sonhando, talvez, com o destino do baú de Pessoa) pelo eco imediato da sua palavra.

Como diz, J. Pacheco Pereira, há de tudo no ciberespaço, como no quiosque da esquina.

O que há de novo aqui, talvez só comparável à revolução provocada pelo advento da imprensa, é este informalismo louco, ainda à procura duma "razão", que vai no sentido da utopia democrática e cujas raízes crescem mais depressa do que os machados que as pretendem cortar.


Porto (José Ames)

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

O OZONO DEMÓTICO



- E, claro, o ozono é cada vez menos!

Ouvi, ao passar, esta frase incrível numa conversa entre dois velhos, à beira-mar debatendo o estado do mundo.

A velhice gosta de pintar o futuro com cores negras. É uma maneira, para ela, de amortecer o choque duma partida anunciada.

Mas, a ouvir o secretário-geral da ONU, estes anciãos têm razão:

"A comunidade científica, cujo consenso é já claro e indiscutível, está cada vez mais convencida de que a situação é alarmante." (Jornal "O Público" de hoje)

Kofi Annan refere-se às alterações climáticas, que também fazem correr Al Gore, e acaba exortando os povos a "adoptar um modelo de desenvolvimento mais seguro e sensato."

Mas, ao contrário de outras ameaças, como a da sida, a mudança não está directamente ao alcance dos indivíduos. Depende, sobretudo, das grandes empresas e dos seus poderosos lobbies, e elas preocupam-se tanto com ozono, como as Tabaqueiras se preocuparam durante décadas com a saúde dos fumadores e colaterais.

Além disso, não adiantará muito escrever em cada bomba de gasolina, por exemplo, que estamos a destruir o futuro.

Era preciso que todos víssemos na "radiografia" do ozono o nosso próprio destino.

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

XEQUE À RAZÃO



Mário Pinto fala hoje no "Público" em razão cómoda, a propósito da chamada pós-modernidade. E diz: "(...) Estas fracturas, porque não são racionais, mas comodistas, usam os argumentos da comodidade e da retórica e fogem às discussões verdadeiramente filosóficas e científicas. Repare-se, por exemplo, que os defensores do aborto voluntário livre não usam os argumentos da ciência e da filosofia; mas apenas os da comodidade e da demagogia. Aí reside a sua força e a sua fraqueza."
Em "Familiaris Consortio", de 1981, João Paulo II referia-se a uma "mentalidade contraceptiva" tendo em vista, não o "projecto de Deus", mas "o próprio bem-estar egoístico".

É difícil não reconhecer que estas posições, no seu tradicionalismo e, até, anacronismo, são hoje quase a única barreira à completa relativização dos valores que tão grande repercussão tem na nossa vida quotidiana e que caracteriza a crise geral da nossa sociedade.

E o que se passa é que todos os que não são incondicionais dessa mudança (não se sabe no sentido de quê) se encontram mais ou menos desarmados para lutar contra uma tendência osmótica e avassaladora.

Ora, nem todas as épocas merecem um filósofo como Kant, e talvez a crítica que nos é hoje possível não venha da própria Razão (que é capaz de negar, mas não de reafirmar, como diz o articulista), mas do Passado que, mais do que nunca, é urgente compreender.


"Corrida" (José Ames)

sábado, 4 de novembro de 2006


Douz (José Ames)

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

O TANDEM


Como disse António Dornelas, ontem na televisão, a UGT nasceu dum acordo entre dois partidos políticos.

Apesar desse nascimento não lhe prometer um grande futuro e de não ser o melhor atestado de independência, nunca a propósito dessa Central se falou em "correia de transmissão", ao contrário da Intersindical que nasceu sem a bênção do poder estabelecido, embora sem a espontaneidade nem a assepsia partidária que alguns puristas desejariam.

Hoje, as duas confederações estão muito diferentes do que foram nesses tempos de paixão colectiva e de grande divisão dos trabalhadores.

E pode dizer-se que o seu parto artificial não marcou o destino da UGT, nem a naturalidade do outro criou qualquer tipo de virtuosa fatalidade na grande concorrente.

Mas cada uma das centrais desenvolveu um estilo inconfundível que, aliás, está bem representado na personalidade do respectivo secretário-geral.

A UGT adopta, normalmente, uma pose de responsabilidade que faz com que muito facilmente se encontre do lado das posições oficiais, ou demonstre maior compreensão em relação a elas.

Podíamos chamar a esta política de realismo, que constata a relação de forças e se adapta à gestão do seu campo de manobra.

Mas é bom de ver que a política não é isto ( a existência do "Grande Animal" platónico será sempre um argumento a favor da imaginação e do "ruído", contra a pura racionalidade) e que o sindicalismo pode morrer desta falta de horizonte, sufocado pelo colete dos factos, da existência, do que tem de ser, da força maior.

A outra central é o contrário de tudo isto.

Irrealista, chegando a propor medidas impraticáveis no actual sistema político e até contraproducentes, sem uma mudança no quadro internacional da nossa economia, voluntariamente ignorando as regras do capitalismo e deixando para a concorrente o bom-senso e os custos de toda a negociação, sempre tem praticado um sindicalismo contestatário.

Com isto, a motivação, a esperança e a utopia ao alcance das massas que influencia.

Tão acentuadas diferenças não nos devem, porém, esconder o facto de se ter objectivamente instaurado uma frutuosa divisão do trabalho dentro do sistema bi-confederativo. A ponto de já não se compreenderem uma sem a outra. Cada central é a caução da outra.

Porque o realismo se auto-censura e acaba por favorecer o status quo, precisa de ter em frente uma força que experimente os limites e exerça uma permanente tensão. E essa força crítica poderá ser tanto mais livre e ligeira, quanto o seu prosaico complemento for prisioneiro das formas e carregar o peso dos compromissos.

quinta-feira, 2 de novembro de 2006

AS ESPINHAS DA GRAMÁTICA


"Tenho sido contactado por alguns professores a propósito da TLEBS. A TLEBS é a Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário, adoptada pela Portaria n.º 1488/2004, de 24 de Dezembro, que só deveria entrar em vigor após três anos de duração da experiência pedagógica. Mas, em Março deste ano, o Ministério da Educação enviou às escolas uma circular determinando que a TLEBS constitua uma referência no tocante às práticas lectivas, à concepção de manuais e aos documentos produzidos em matéria de ensino e divulgação da Língua Portuguesa."

Vasco Graça Moura ("Diário de Notícias")


As modas, apesar de voláteis, estão longe de ser inócuas, como o prova o cortejo de jovens anorécticas cultoras do seu esqueleto.

Mas a pior das modas é a que atinge os órgãos do Estado, mesmo com algumas décadas de atraso.

Ideias que entusiasmaram uma geração de intelectuais e que sofreram já a necessária refocagem crítica, como o estruturalismo e a linguística aplicada, continuam a chegar como se fossem a última palavra e a verdade insofismável ao Ministério da Educação.

E temos o horrendo TLEBS, a nova Nomenclatura Gramatical Portuguesa, que promete separar de vez as gerações futuras da sua língua.

À força de dissecação e análise despromoveu-se uma língua a viva a sistema cadaveroso e porque se quer deixar uma marca indelével na pedagogia ( o que me lembra a sanha reestruturadora de alguns gestores de empresas), deixaram-nos um prato de espinhas intragável.

"Nada se cria, nem nada se perde": o que se lê tem de se falar ou escrever de algum modo. E o que nos deu um momento de vaidade por partilharmos as ideias duma vanguarda, tem de se traduzir em pedagogia revolucionária.


(José Ames)

quarta-feira, 1 de novembro de 2006


Lisboa (José Ames)

terça-feira, 31 de outubro de 2006


"Cordas" (José Ames)

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

TRANSPARÊNCIAS


Mikhail Gorbachev

"Transparência é a nova palavra de ordem, e nada tenho contra isso. Mas quem tem o poder, nomeadamente o Estado e as empresas privadas, sabe bem que "o segredo é a alma do negócio", diria eu, a fonte do poder."

"Como tornar-se doente mental" (J.L. Pio Abreu)


É interessante, a esta luz, interpretar a "Glasnost" de Gorbatchev como um hara-kiri do poder.

Seduzido pela montra das democracias ocidentais e, perdendo de vista o que valeria a pena ser salvo no meio da corrupção do regime e do esvaziamento moral da sua nação, Gorby terá sido, talvez, o mais revolucionário dos ingénuos.


Lisboa (José Ames)