quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O JÁ DO APOCALIPSE

"Fall of the Titans", Haarlem, 1588


"(...) a terrível genealogia titânica de Zeus ensinou que, em última análise, o mais alto princípio de ordem e harmonia não é sem afinidade com o caos e a violência primitiva de que nasceu e que conseguiu reprimir e dobrar."

(Jacques Taminiaux)


Um dos melhores  exemplos da terrível passagem da ordem ao caos, através duma continuidade que, a certa altura, perdeu a noção dos limites (da medida, tão cara à civilização grega), é-nos dado pela "loucura" de Kurtz, o coronel que encarna a verdadeira lógica da guerra, que o exército não pode compreender sem perder o moral e que, por isso, é o alvo da missão de Willard para o assassinar.

A "desmesura" da guerra está toda naquele advérbio, now (já). O Apocalipse é o contrário da utopia. Tal como esta, não pode ser antecipado. Uma ideia muito aproximada dos limites está representada num certo tempo que não se pode encurtar ou suprimir.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

(José Ames)

O HOMEM SEM CABEÇA

Saint Denis (Notre Dame de Paris)


No final da sua conferência (aqui), realizada em Lille (2007), sobre "Les nouvelles technologies: révolution culturelle et cognitive", o filósofo Michel Serres relata a lenda de S. Denis, bispo de Lutécia (o anterior nome da cidade de Paris), o qual foi surpreendido com os seus fiéis pelos soldados do imperador Décio que o decapitaram no instante. O milagre é que o bispo apanhou a cabeça do chão e a apresentou aos que assistiam e nesses preparos subiu ao ponto mais alto da cidade sempre prègando.

A violenta metáfora utilizada por Serres é que tal como Denis, também nós "perdemos" a cabeça, e a temos, doravante, diante de nós, sob a forma do computador (ou do 'smartphone' - o seu jívaro ).

Este seria apenas o mais recente estádio daquilo a que o filósofo chama de exo-darwinismo, pelo qual a tecnologia se vem substituíndo às funções corporais. Assim, o martelo externalizou o punho e o antebraço, a roda fez o mesmo em relação às articulações angulares do pé, do joelho e da anca, e a escrita e a imprensa em relação à memória.

Agora, o computador "liberta-nos" de outras funções cognitivas, como o cálculo e a imaginação. Para Michel Serres, porém, isso não significa uma perda real, visto que ficamos livres para outras funções. Foi o que aconteceu com a imprensa que permitiu os rápidos avanços da ciência, ao deixarmos de carregar os conhecimentos do passado na nossa memória. "Estamos condenados a tornarmo-nos inteligentes!", é a sua conclusão.

Por outro lado, enquanto o indivíduo e a sociedade evoluem desta forma vertiginosa, a evolução darwiniana parece ter parado no tempo. Um filme como "O planeta dos macacos" mostra-nos como todos os "ganhos" da espécie não nos protegem dum regresso ao "struggle for life" do darwinismo puro e duro.

Porque toda a "externalização" operada pela tecnologia remete-nos para sempiterna metafísica do ser. Quem somos, se o que somos está cada vez mais fora de nós?

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Foz (José Ames)

PONZI

Charles Ponzi em 1920

"Gorbachev foi, nas palavras de um dos seus últimos conselheiros, Andrey Grachev, 'um erro genético do sistema'"

 (Archie Brown: "The Gorbachev Factor")


A situação tem alguma analogia com os chamados esquemas Ponzi. Difere-se a consciência da crise até ao momento em que, por acaso (mas é verdade que a  probabilidade da "revelação" se torna cada vez maior com o tempo), se encontra um detalhe revelador da enormidade do "esquema".

As novas gerações, por outro lado, têm motivos mais fortes para pôr em causa a "naturalidade" do sistema e para descobrirem as incongruências da ideologia.

Mas em que é que poderia consistir, na URSS, o "esquema"? Houve um período em que, ultrapassado o stalinismo e a guerra mundial, todas as esperanças pareciam possíveis. Nesse aspecto, a  China, desde Deng, vacinou-se contra uma "revelação" catastrófica, desossando a ideologia, com um pragmatismo que faz inveja aos pragmáticos ocidentais. Hoje não há esquema Ponzi nesse país, porque o regime não precisa de camuflar a ditadura. Basta que consiga manter a "performance" económica e o seu firme desenvolvimento social para reduzir a palavreado todas as alternativas.

A URSS era outra coisa. Era a utopia realizada e, frente à "democracia burguesa" e aos "crimes do capitalismo", representava a  verdadeira democracia e uma sociedade mais justa e mais igualitária, isso apesar dos flagrantes desmentidos da realidade.

Tal como os falsários do Ponzi, tinham de compensar com novos crentes o número cada vez maior dos lúcidos e dos desiludidos.

Vê-se, por aqui, como a questão da linguagem e da representação foi decisiva para o fim do "império soviético".

domingo, 5 de fevereiro de 2012

(José Ames)

METEREÓLOGOS

gizmodo.com


"Era mais ou menos como se um velho caçador ou um velho guia de montanha tivessem que assistir  a uma conferência de metereólogos e acabassem, mesmo assim, por dar ouvidos aos seus reumatismos."


"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)



Será George Soros, ou outro como ele,  um "velho guia de montanha"? Poderá ainda ser útil à comunidade, com os seus conselhos, um Bernard Maddoff arrependido, ou os homens do BPN?

Infelizmente ninguém tem "reumatismos económicos", embora a humidade de tantas habitações concorra para as doenças reumáticas. Não, só nos restam mesmo os "metereologistas" de serviço, cada um menos seguro do que o outro e menos habilitado a falar do futuro.

Escutemos ao menos as suas profecias com a dose de cepticismo que convém à saúde de todos. Mas é claro que não somos imunes à imaginação que alguns arautos da desgraça gostam de cavalgar.

Parece-nos, por exemplo, que os líderes europeus correm dum lado para o outro no convés dum navio que ameaça afundar-se. É que eles confiam nos "metereólogos" dumas décadas atrás. E apetecia dizer que merecem, só por isso,  ir ao fundo. Mas como não vão sozinhos, já não seria justo. E depois por que diabo podemos estar tão certos do futuro?

Quem pode dizer que se Chamberlain fosse menos ingénuo se podia poupar uma guerra?

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Porto (José Ames)

O MONSTRO DA TASMÂNIA



A notícia é que a 'boa constrictor' da Tasmânia infestou os pântanos do parque Everglades na Florida, desequilibrando a repartição das espécies e pondo em perigo a existência de alguns animais.

Ora, desde Fedro e de La Fontaine que o reino da fauna serve eficazmente para os melhores propósitos educativos, dado que nesta contenda entre virtudes e vícios humanos, as formas do focinho ou das unhas, por exemplo, valem pela diferença de caracteres, e a eficácia desta transposição talvez tenha a ver com o facto de já termos sido crianças e de termos, então, acreditado nestas coisas.

A fábula que me sugere o "darwinismo" no Everglades passa-se nos celebérrimos "mercados". O sistema financeiro foi também infestado pela  'boa constrictor' que aperta os países europeus no seu abraço mortal. Mas como estudou em Harvard e Yale e noutras  conceituadas universidades americanas, passa por ser uma sumidade em economia vendendo algumas teorias falidas aos líderes europeus que, longe de se quererem furtar ao "abraço" da serpente, pretendem acolher-se nele na esperança de se tornarem eles próprios em serpente.

Entretanto,  há várias "espécies" ameaçadas, entre pequenos e grandes animais. É o segundo rapto da Europa. Ninguém imaginou, porém, que era a vez deste douto  monstro da Tasmânia, grande admirador de Milton Friedman e da Escola de Chicago.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

(José Ames)

BACON

"Auto-retrato" (Francis Bacon)


"Aquilo que eu ponho em questão, é a estética: este valor acrescentado, esta mais-valia cultural atrás da qual o valor próprio desaparece. Não se sabe mais onde está o objecto. Só existem discursos em volta ou olhares acumulados que acabam por criar uma aura artificial."

"De la singularité, il n'y a rien à dire" (Jean Baudrillard)


O exemplo escolhido pelo filósofo é Bacon. E a tese é a de que se é um facto que abundam os comentários sobre esta pintura, se há alguma coisa a dizer a propósito, não estamos perante um objecto original, na sua arte, mas em pleno discurso.

É claro que essa "aura artificial" (mas não o são todas?) não impede que o objecto original exista, só que o faz migrar para um outro sistema de valor. Por que é que os "Girassóis" de Van Gogh hão-de valer mais do que um desenho de Ingres?

Mas se não fosse o mercado da arte, ou se toda a arte estivesse nos museus, não haveria, realmente, tanta necessidade de "fundamentar" e de criar um valor sistemático. A estética, isto é, a cultura, não pode lidar com singularidades: "O ponto cego da singularidade só pode ser aproximado singularmente. Isso é contrário ao sistema da cultura que é um sistema de trânsito, de transição, de transparência." (idem)

 Não se pode repetir a experiência do "Salão dos Rejeitados" com a obra de Francis Bacon, quanto mais não seja porque as ideias ( ou a falta de ideias) do 'politicamente correcto' fizeram o seu caminho.

Quem poderá descobrir a singularidade desta obra dentro da nossa cultura?

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Afurada (José Ames)

A ACÇÃO ATRAVÉS DAS HISTÓRIAS



"(...) toda a gente fora da cidade (polis) - escravos e bárbaros - era 'aneu logou', privada, claro, não da faculdade da fala, mas dum modo de vida em que o discurso e só o discurso fazia sentido, e em que a preocupação central de todos os cidadãos era falar uns com uns outros."
(Hannah Arendt, citado por Jacques Taminiaux)


É porque toda a acção "se inscreve nesta rede (de relações e actos discursivos) que sempre produz histórias." A política não existe fora desta necessidade de contar histórias. No fórum, os cidadãos procuravam a origem da acção e o seu sentido. Essa situação tinha como premissa a liberdade dos espíritos.

Os "aneu logou" não podiam ter esse espírito, segundo os Gregos, por terem de obedecer, em primeiro lugar, à necessidade. A convivência daria, inevitavelmente, o protagonismo  à reivindicação social, porque a igualdade é a lei do espírito. As classes foram, por isso, uma espécie de acelerador histórico e  a primeira versão do "apartheid". No essencial, correspondem, para falar na linguagem dos gestores modernos, a um mecanismo de optimização dos recursos. A sociedade não espera pelo nivelamento para agir (no sentido acima). As elites são assim criadas e levadas a pensar que o são pela graça dos deuses.

O próprio Marx, que reconhecia o papel historicamente progressista do capitalismo, podia subscrever.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Gramido (José Ames)

GIGANTE COM "PÉS" DE BARRO

linternaute.com


A República Popular da China já não é o "perigo amarelo", nem o papão do comunismo. É simplesmente o próximo gigante. Graças ao espírito pragmático de Deng, que sabia mais sobre a real importância da cor dos gatos do que qualquer um de nós, conseguiu tornar-se, hoje, mais convincente, aos olhos do mundo,  como sucessora do império americano, do que o Khrushchov, de sapato na mão, nos anos sessenta, e sem alarido nem vanglória.

Não é pequena proeza arrancar uma nação tão populosa e tão atrasada (segundo os padrões ocidentais) ao seu papel de despojo da guerra comercial levada a cabo pelas grandes potências. Tudo isto progressivamente, e em segurança (refiro-me ao período posterior à morte de Mao, evidentemente).

Não sabemos que espécie de desafio e de perigo representaria a instauração revolucionária da democracia. Podemos, no entanto, imaginar a turbulência política e o provável recuo económico, numa altura em que a grande maioria da população chinesa tem ainda um dos mais baixos níveis de vida do mundo. Essa é, sem dúvida, uma preocupação legítima dos seus líderes, sempre que deixem de pensar como funcionários e garantes do regime.

De qualquer modo, já vimos, não será uma agenda ocidental a determinar as prioridades.

Isso não nos impede de considerar um factor, essencial, tanto em relação ao crescimento económico, como à dignidade da pessoa humana, que, nas actuais circunstâncias, se encontra atrofiado.  Esse factor é o poder criativo. E o sintoma maior da "fraqueza" da China moderna, é a sua visível dependência,  dos EUA e da Europa, quanto a esse factor. Na verdade, os chineses tornaram-se exímios em imitar-nos. Aprenderam depressa, mas continuam a copiar tudo, sem terem, até agora, conseguido  desenvolver uma criatividade própria. Por isso, eles agradecem à democracia ocidental o clima de liberdade e de confronto de ideias que permitem os voos do poder criativo. Mas não estão, ou pensam que não estão em condições de imitar-nos nesse campo. Essa é a fraqueza deste gigante.

A crise que devasta o Ocidente e as restrições à liberdade que os modelos austeritários impõem aos povos não deveriam ser, pois, do interesse da China...