sábado, 8 de outubro de 2011

DESVIAR O OLHAR

Cornelisz Anthonisz. (Amsterdam, 1505-1553)


"Isso fez lembrar a Ulrich esse corpo de factos e de descobertas, engrossando quase de hora em hora, e do qual o espírito hoje é obrigado  a desviar o seu olhar se quiser examinar com precisão qualquer problema que seja."


"O Homem Sem Qualidades" (Musil)




Por um lado devemos sempre continuar qualquer coisa, um pensamento ou uma tradição. Por outro, ficaremos prisioneiros da lógica do que construímos que, à medida em que se sistematiza, se torna independente do mundo. É esta a armadilha da especialização.

Nesse sentido, a precisão de que fala Musil é mais uma adequação à realidade do que um melhor nível de focagem, devido a qualquer progresso dos nossos instrumentos.

Num mundo artificial, a precisão deve reproduzir a lógica e a coerência do pensamento.

"Desviar o olhar" do espírito é, por isso, começar algo de novo.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Lisboa (José Ames)

O DISCURSO DO AMOR

Marcel Proust



"Charlus pega o queixo do narrador e deixa subir os dedos magnetizados até às suas orelhas, 'como os dedos de um barbeiro'." Barthes analisa o trecho de Proust: "O sentido (o destino) electriza a minha mão; vou romper o corpo opaco do outro, obrigá-lo (seja a responder, a retirar-se ou a que deixe fazer) a entrar no jogo do sentido: vou 'fazê-lo falar'. No campo amoroso não há 'acting-out'; nenhuma pulsão, talvez, inclusivamente, nenhum prazer, nada mais do que signos, uma actividade desprovida de fala; dispor, em cada ocasião furtiva, do sistema ( o paradigma) da pergunta e da resposta."


("Fragments d'un discours amoureux")




O amor como linguagem e compulsão da fala é, sem dúvida, tema eminente da literatura e Barthes emprega aqui explicitamente o termo de discurso. Não fala do corpo, senão negativamente ( as pulsões, o próprio prazer podem estar de todo ausentes ).

É provável que a "paixão amorosa", tenha uma origem exclusivamente literária ou relacionada com as várias formas de arte, com o seu código específico. Aquilo a que chamamos amor (seguido ou não da palavra romântico) é, de facto, romanesco ou, nos nossos tempos, "cinematográfico" (e "mediático").

Por isso, o "paradigma" da pergunta e da resposta, muito para lá das palavras, pode explicar a dialéctica amorosa e as paixões idealizantes.

Parece que ao amor, neste sentido, é indispensável uma imagem que não vem do indivíduo (ou só dele), mas da cultura.

Do gesto do barão de Charlus podíamos expurgar toda a sensualidade e atribuí-lo ao campo do poder e da conquista.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

(José Ames)

CONCLAVE SEM CHAVE

"Habemus Papam" (2011-Nanni Moretti)


O que é que acontece quando a ideia da liberdade individual moderna aparece no reino do sagrado, divergindo da "vontade" divina?

É o que acontece ao cardeal Melville, ao ser eleito papa pelo conclave dos seus colegas. Esse parece ser o desígnio de Deus, mas ele é que não se sente à altura, por muito que o tentem convencer, recorrendo aos argumentos da fé e até à psicanálise (frisando-se, no entanto, que a alma dos cristãos é incompatível com o inconsciente freudiano).

O papa eleito foge da varanda e da apresentação ao povo, para deambular pelas ruas, os teatros e os centros comerciais, à procura duma inspiração.

Quando é reconduzido ao Vaticano, surpreende tudo e todos   anunciando aos crentes reunidos na praça de S. Pedro, que não foi concerteza ele que Deus escolheu e que devem procurar um outro mais digno para papa. Humildade que é, na realidade, o sinal de um orgulho "satânico". Os cardeais estão conscientes da ruína iminente da Igreja, depois da sua "cabeça"  ter sido infiltrada pelas ideias modernas.

Nesta parábola, Moretti brinca com o cerimonial e põe os purpurados a jogar voleibol enquanto esperam que o papa chegue ao fim da sua meditação.

Mas, no essencial, o incidente, é tão verosímil, que podemos ter a certeza da eficácia de um plano B, o qual, Moretti, evidentemente, subestima. Se já houve, ao que se diz, uma papisa...



quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Arouca (José Ames)

DO MAU PARA O MENOS MAU

Emil Cioran



"Devemos sempre alinhar pelo lado dos oprimidos em todas as circunstâncias, mesmo quando não têm razão, sem perder de vista que eles são moldados na mesma lama que os seus opressores."


"Fragments" (Cioran)




Infelizmente, isso vem a dar no mesmo que achar que eles, os oprimidos, merecem a sua sorte, já que se estivessem no mesmo lugar do opressor fariam igual...

É preciso, em vez disso, acreditar neles como se fossem portadores de futuro e de mais civilização. A  "classe operária" do movimento comunista é o melhor exemplo. A "exploração do homem pelo homem" pertencerá a um passado tenebroso no dia em que os "operários" tomarem o poder. As desilusões só podiam equivaler às esperanças infundadas de uma religião que fornecia, na história, a prova do seu fracasso.

Devido à apatia resultante dessa situação, a ideia da "mesma massa" tem prevalecido nas nossas sociedades, tirando o entusiasmo passageiro causado, por exemplo, pela nossa "revolução dos cravos". No caso das revoluções no norte de África, esse entusiasmo é muito mais ambíguo...

Parece, todavia, evidente que os "erros" dos que defendem os oprimidos não foram de todo inúteis, porquanto, pelo menos, obrigaram a opressão a mudar de forma. E a civilização não vai do mau para o bom, mas do mau para o menos mau.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

(José Ames)

DIREITO POR LINHAS TORTAS




"A ideia da impossibilidade faz soar um sinal de alarme na mente de muitos. Para alguns, qualquer sugestão de que possam existir limites à compreensão humana do Universo ou ao progresso científico é uma ideia perigosa que mina a confiança no empreendimento científico. Igualmente acríticos são aqueles que entusiasticamente abraçam qualquer sugestão de que a ciência possa ser limitada, porquanto suspeitam os motivos e temem os perigos duma desenfreada investigação do desconhecido."


"Impossibility-The limits of Science and the Science of Limits" (John D. Barrow)




É certamente  inesgotável o que podemos investigar e "processar" cientificamente. Mas a ideia do Tudo e do Todo é muito mais ambiciosa.

Desde sempre que as nossas tentativas de explicação vão além dos problemas reais. Se fôssemos realmente pragmáticos, não tínhamos que lançar as nossas redes tão alto e tão fora do nosso alcance. Mas claro que não é essa a nossa percepção. Parece-nos que não há nada que não possa ser alcançado (se nos portarmos bem), e a física teórica já não faz do homem a medida de todas as coisas. Resta saber se a ciência especulativa pode ter maior crédito do que a matemática.

Porque a totalidade é uma ideia da nossa razão, não deixaremos de a encontrar em todas as teorias sobre o Universo. Mas é a própria razão que nos alerta para a impossibilidade de pensarmos o Universo real. Ele não pode ser mais objecto do nosso pensamento do que Deus.

A atitude dos que querem parar a investigação por ser a "caixa de Pandora" é, decerto, irracional. O nosso futuro depende não só da investigação "justificada" pelos problemas reais da humanidade, mas daquela outra que é motivada pelos falsos problemas, isto é, a investigação que lida com o problema da impossibilidade.

"Deus escreve por linhas tortas" quer dizer isso mesmo.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Almada (José Ames)

O CAVALO REBELDE




"O nosso intelecto só pode trabalhar eficazmente na medida em que se subtrai às influências afectivas demasiado intensas; no caso contrário, comporta-se simplesmente como um instrumento ao serviço duma vontade, e produz o resultado que esta lhe inculca."

"Considérations actuelles sur la guerre et la mort"

(Segismund Freud)




Tudo estaria na intensidade dos afectos. Segundo Freud, nunca seremos desviados de pensar racional e objectivamente, se tivermos as emoções controladas (o cavalo rebelde de Platão).

Mas por que é que mesmo as pessoas mais "auto-controladas" conservam uma personalidade e uma idiossincrasia? A razão, sendo impessoal, levar-nos-ia a atitudes camaleónicas. Se calhar, "Zelig", a personagem criada por Woody Allen, é o mais racional dos homens, exclusivamente racional no seu mimetismo.

É muito provável que os nossos sentimentos e os nossos afectos nos modifiquem dum modo permanente. Eles criam o "ambiente" interno em que pensamos.

Assim, num cientista, o desejo da descoberta pode ser mais importante do que a lógica do seu pensamento.

domingo, 2 de outubro de 2011

(José Ames)

A IDEIA DE CÉSAR

Júlio César


O poder e a força são coisas distintas, evidentemente. Um ditador pode perder o poder sem perder a força. Mas a partir desse momento, a sua sorte está ditada. Isto significa que não é a forma do governo que permite fazer a distinção.

Mas o que pensar, por exemplo,  do papel dos militares no poder? Não há dúvida que o exército é um exemplo da "acção em conjunto" e que um general, em princípio, não se fortalece a si próprio. No entanto, não há dúvida que a intervenção dos militares na política, no melhor dos casos, força uma recomposição do governo, mas as mais das vezes, é uma manifestação de força incapaz de gerar poder.

Júlio César, com o seu golpe, trouxe a Roma uma nova e duradoura fórmula de poder. E a prova de que a sua empresa não foi apenas uma acção individual é o facto da sua ideia lhe ter sobrevivido.

Em certos políticos, o poder parece confundir-se com a força individual. Mas se fossem a mesma coisa, o regime acabava com o homem.

sábado, 1 de outubro de 2011

Angeiras (José Ames)

BONADEA

"A conversão de S. Paulo" (Caravaggio)


"(...) e também por causa duma deusa do Pudor cujo templo, na Roma antiga, se tinha tornado, por uma estranha reviravolta,no centro de todos os deboches."


"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)



Quando é que os crentes se tornam cínicos? E são tanto mais cínicos quanto mais acreditaram. Não é o caso dos que mudaram "de armas e bagagens" para outra crença. Por exemplo, Saulo de Tarso torna-se cristão num momento em que os combatia ainda. Parece não ter havido um período, normal, de dúvida. Mas por isso é que há uma queda do cavalo e o famoso: "por que me persegues?"

Se calhar, é a fulminância duma "estrada de Damasco" e a reconversão não problemática (apocrítica, diria Michel Meyer) que livram o crente do cinismo.

Os debochados de que fala Musil deixaram, visivelmente, de crer na santidade do Pudor. Mas o próprio local do culto fornece, com o sacrilégio, o suplemento de prazer que os compensa do antigo “erro”.