terça-feira, 17 de agosto de 2010

ZÓPIRO



Heródoto conta que um chefe persa, Zópiro, para julgarem que traía, cortou o seu próprio nariz e as orelhas e assim conseguiu entrar em Babilónia, capital inimiga.

O que é que suscita neste caso a admiração do historiador grego: a crueldade do pretenso castigo, ou que ele pudesse ter sido infligido por Zópiro a si próprio para ganhar uma guerra?

Hoje, que todos temos presente o modo como os "estudantes de teologia" pretendem dissuadir a traição ou o desvio da norma religiosa, parece-nos que o persa talvez fosse bom chefe militar, mas era certamente um mau crente. Ele desviou a arma religiosa para um outro fim e, com isso, como que a privou do terror.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010


Setúbal (José Ames)

NAS ASAS DO DESEJO


(José Ames)



“A possessão por um deus – o entusiasmo – não é o irracional, mas o fim do pensamento solitário (...) – já Desejo.” Emmanuel Levinas (in “Totalidade e Infinito”)


Quando se vê o que as pessoas pensaram e fizeram num período (como achar um adjectivo sem lhe dar ao mesmo tempo uma conotação?) tal como foi entre nós o 25 de Abril e os meses que se lhe seguiram e se compararmos isso com o que dizem e fazem hoje em dia as mesmas pessoas, torna-se evidente que não podemos levar tudo à conta do envelhecimento ou da perda de significado dos ideais. Novos e velhos, e de todos os credos, naqueles tempos estávamos, de facto, possuídos. Mas o Desejo de que fala Levinas, da transcendência, não pode ser satisfeito por nenhum governo nem nenhum regime.

Se os cravos murcharam foi, pois, por uma inelutável necessidade.

Se perguntarmos agora onde se encontra hoje esse Desejo, eu diria que ele regressou ao coração de cada indivíduo e alimenta, como sempre, os seus sonhos, sem a ilusão da coincidência (com o desejo dos outros).

Podia dizer-se, então, que os homens fazem a história nas asas do Desejo, mesmo quando pensam voar com todos os seus meios aéreos ou cavalgar as forças.

domingo, 15 de agosto de 2010


(José Ames)

"A MÁSCARA" DE INGMAR BERGMAN


Bibi Andersson e Liv Ullmann



A actriz, no meio da sua deixa, em “Electra”, emudece. Electra que é a filha duma má mãe, Clitemnestra, sendo Elisabete a mãe dum rapazinho feio e de lábios grossos.

Uma enfermeira, chamada Alma, procura arrancá-la a esse silêncio. Mas ela própria, com uma história de aborto mal assumido, não resiste a confiar-lhe a sua solidão, tomando a bondade da escuta pelo que não é. Quando, através da leitura duma carta mal fechada, conhece o pensamento de Elisabete, fecha-se por sua vez, opondo uma máscara à outra máscara.

A actriz que se protege dos sentimentos (ela recusa a sua maternidade), impedindo-se o acesso à fala e encerrando-se num mundo sem alteridade, encontra-se agora diante dum espelho (Alma identificou-se consigo a ponto de halucinar a sua culpa (invocação da presença de Björnstrand ), em que a palavra vai estilhaçar a sua defesa e arrancar-lhe a voz, no final.

Persona, o título original do filme de Bergman, é uma palavra de origem etrusca que significa a máscara usada no teatro, ou a personagem. Não se compreende a máscara sem a linguagem que a confronta com as outras personagens. Quando o Outro que é posto pela linguagem é negado, resta a esquizofrenia do Mesmo.

Electra cala-se no palco porque um mundo deserto é um mundo do silêncio. A tragédia desenrola-se atrás da máscara, sem saída.


sábado, 14 de agosto de 2010


Bastide (José Ames)

SIC TRANSIT CENSURA


"O pecado mora ao lado" (Billy Wilder)


“Censura, mãe das metáforas”, diz Borges.

Todos experimentamos, na primeira ideia que vem à cabeça, a facilidade e o lugar-comum. Temos a seguir que filtrar, voltar à ideia que entretanto envelheceu e que já não podemos ver da mesma maneira.

Esse poder está pois, dentro de nós, sem lápis azul, mas mais eficaz ainda, porque nada lhe escapa.

A metáfora é, assim, uma espécie de contrabando que recorre à astúcia de Proteu para atravessar uma fronteira política, moral ou estética. Supõe que uma regra seja infringida em nome dum princípio superior.

Quando as crianças são educadas segundo o espírito não-directivo (em voga nos finais dos anos sessenta) não podem adquirir a noção de lei e com isso conhecem apenas uma caricatura da liberdade, em que vigora um culto supersticioso do espontâneo, que redunda no mais completo conformismo.

Sem o código Hayes veríamos as pernas de Marilyn Monroe, mas não o obscuro objecto do desejo sobre a grade do metro.

Se a lei é essa, quais são as formas da moderna censura que actualmente viverá, sem dúvida, o período da sua boa-consciência, até se juntar no caixote do lixo da história ao código Hayes?

sexta-feira, 13 de agosto de 2010


(José Ames)

PERSEGUIÇÃO IMPIEDOSA


"The chase" (Arthur Penn)



Em “The chase”, que Arthur Penn dirigiu em 1966 com argumento de Lillian Hellman, uma pequena cidade do Texas transforma-se, de carambola em carambola, numa multidão enlouquecida, dando largas aos seus mais primários instintos.

Mas, diferentemente dum filme expressionista como “Fury” (Fritz Lang), não se trata duma massa indistinta de que sobressaia um ou outro rosto mais exaltado. Há um desenho preliminar, de alguns indivíduos, psicologicamente credível, o que fará que todos ajam mais tarde segundo uma lógica do rapto e da possessão colectiva.

No desfecho trágico, aguardado desde o início, pela má estrela do fugitivo, assumirão, como as figuras dum coro grego o papel do destino, ao mesmo tempo cegos e infalivelmente certeiros.

Todos esses homens estão fora de si e no âmago do ser.



quinta-feira, 12 de agosto de 2010


Braga (José Ames)

ABSTENÇÃO


Peter Sloterdijk



"É o sinal dos tempos da técnica e da antropotécnica que, cada vez mais, os homens vão parar por casualidade à parte activa ou subjectiva da selecção, inclusivamente sem terem tido que esforçar-se intencionalmente para alcançar o papel do que escolhe. Cabe além disso afirmar o seguinte: existe um mal-estar no poder de escolher, e depressa chegará a ser admissível como opção para a inocência que os homens se neguem explicitamente a exercer o poder de escolha depois de terem lutado realmente por consegui-lo."


"Normas para el parque humano" (Peter Sloterdijk)


O poder de escolher só existe enquanto não soubermos tudo, enquanto o resultado for incerto. É esse o espaço da liberdade humana e o que permite a vida moral.

Mas o que se passa quando percebemos que na realidade somos comandados pelo acaso e que, cada vez mais frequentemente, somos levados a "escolher" aquilo que não podemos pensar, nem quereríamos acaso soubéssemos?

É então defensável que o homem se recuse o falso poder duma escolha (já é o que se passa com muito da abstenção nos sistemas eleitorais). Mas será sempre uma inocência difícil de provar aos que crêem. Dirão: pela tua omissão fizeste com que acontecesse.

Quer dizer, o sistema moral não deixa ninguém de fora: uns pensando que agem mesmo para os fins que não quiseram; os outros julgando que não contribuem para esses fins quando se abstêm.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010


(José Ames)

CHURRASCOS


Foz (José Ames)


Está tanto calor que as meninges esturricam e só apetece procurar o fundo duma gruta. Nem junto ao mar corre uma brisa benfazeja.

Ora a praia está pejada de corpos que se expõem em toda a sua superfície. Um ou outro sacrifica a Esculápio, besuntando-se com um creme protector. Mas a maioria oferece-se sem defesa aos raios de Apolo, como os nicotinómanos aos malefícios do tabaco, apesar de todas as campanhas contra o cancro.

No que vejo que a força dos mitos depende menos da nossa credulidade do que do que vemos os outros fazerem.

Assim, quando as praias podem ser gozadas sem dano para a saúde, enchem-se os centros comerciais. Mas quando a canícula faz cantar as cigarras, uma espécie de tropismo encaminha-nos para esse espectáculo à beira-mar em que a saúde e a juventude se celebram, como num ginásio em que o único exercício fosse suar.

terça-feira, 10 de agosto de 2010


Edimburgo (José Ames)

HEMISFÉRIOS


Safed (1908)


"As tradições da textualidade, do respeito das santas escrituras, da memorização e do comentário no coração do judaísmo depois da destruição do Segundo Templo estão largamente erodidas. Perduram na ortodoxia e os seus Yechivot (1), assim como nos confins do conservadorismo. Safed (2) é um lugar isolado. O "povo do Livro", nos nossos dias, é sem contestação o Islão. A ausência geral de cultura profana, de ensino superior e de sistemas de valores científicos e técnicos dão aí ao Corão uma centralidade, um poder na vida quotidiana, um monopólio referencial quase obsoleto no judaísmo do fim do século XX."

"Les Logocrates" (George Steiner)

(1) centros de estudo da Tora e do Talmude; (2) uma das 4 cidades santas do judaísmo.


O mundo caminha a várias velocidades e um dia o islamismo encontrar-se-á na situação de julgar o seu livro sagrado como um referência entre outras?


Steiner diz que oitenta anos depois da invenção de Gutenberg, ainda se faziam manuscritos. A era electrónica não tem essa idade. Não sabemos de que modo a sorte dos livros será traçada, mas sabemos que a expressão "povo do livro" já não se aplica a ninguém no Ocidente, porque os intérpretes e a classe sacerdotal de há muito perderam a sua influência, graças ao acesso directo aos textos.

O espírito crítico não é tão universal como pensamos e a diferença de velocidades é mais uma complementaridade desconhecida, qualquer coisa como a dos hemisférios do nosso cérebro?